Frantz Fanon e o caráter manicomial e racista da Contrarreforma Psiquiátrica brasileira

Autores

DOI:

https://doi.org/10.51359/2357-9986.2026.262398

Palavras-chave:

saúde mental, álcool e outras drogas, Reforma Psiquiátrica, Contrarreforma Psiquiátrica, Frantz Fanon

Resumo

No artigo, empreendemos uma análise sobre a Contrarreforma Psiquiátrica em voga no campo da saúde mental, álcool e outras drogas brasileiro, a partir do diálogo com a práxis antimanicomial (e anticolonial) de Frantz Fanon. Desse diálogo - e do diálogo com outros autores que se fundamentam em Fanon -, apreendemos o caráter não só manicomial da Contrarreforma Psiquiátrica, mas também racista, e suas implicações. Para isso, realizamos uma crítica da economia política da Contrarreforma Psiquiátrica brasileira a partir de Fanon, da qual resultou uma análise da centralidade das Comunidades Terapêuticas, o que elas representam e conformam enquanto carro-chefe da Contrarreforma, e como elas têm buscado mistificar sua própria natureza (social) manicomial e racista, ao passo que recrudescem a manicomialização (racista) no campo da saúde mental, álcool e outras drogas, atacando a Reforma Psiquiátrica brasileira e o Sistema Único de Saúde.

Biografia do Autor

Pedro Henrique da Costa, Universidade de Brasília

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia. Professor do Departamento de Psicologia Clínica e Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília

Kíssila Mendes, Universidade Federal de Juiz de Fora

Psicóloga e cientista social. Mestra e doutora em Psicologia. Professora na Universidade do Distrito Federal Professor Jorge Amaury Maia Nunes (UnDF)

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Publicado

2026-06-15

Edição

Seção

Número especial: O pensamento de Frantz Fanon