A comunidade senegalesa de Florianópolis
DOI:
https://doi.org/10.51359/2526-3781.2017.234847Palavras-chave:
Migração, Diáspora, Comunidade senegalesa, PerformanceResumo
A comunidade senegalesa de Florianópolis, inserida no contexto migratório desta última década, vem construindo múltiplas performances e narrativas, na busca por visibilidade e reconhecimento dos seus direitos. Assim em 19 de novembro de 2016 foi realizada a festa Magal de Touba que acontece simultaneamente em todo lugar do mundo em que a comunidade diaspórica do Senegal esteja. Nesta celebração, realizada há mais de cem anos, comemora-se o retorno do líder pacifista muçulmano Ahmadou Bamba, após sua prisão e exílio pelas autoridades coloniais francesas que temiam sua influência. Para a festa os senegaleses convidaram imigrantes e refugiados de outras origens étnicas, como egípcios, haitianos, portugueses e brasileiros, que puderam presenciar um casamento interétnico, entre um senegalês e uma brasileira. Enquanto muitos preparavam a refeição, alguns rezavam o alcorão, sempre com música sagrada ao fundo. A festa, que celebra o perdão, inclusive aos colonialistas e a toda exploração praticada, concidentemente aconteceu um dia antes do Dia Nacional da Consciência Negra, que homenageia Zumbi dos Palmares e a resistência negra, do passado e do presente. Além da festa em si e de toda a fartura de dádivas, é impactante perceber os múltiplos registros e compartilhamentos de imagens com a diáspora senegalesa ao redor do mundo, contribuindo com a construção de um singular campo social, compreendido como espaço simbólico de trocas e pertencimentos que extrapola fronteiras e distâncias. Vestida com roupas típicas, a comunidade local, composta majoritariamente por homens, aproveita a ocasião para dar visibilidade a seus modos de fazer e pensar, possibilitando aos participantes um espaço de troca. Depois de migrarem para o Brasil e trabalharem por anos em empregos formais, principalmente na indústria de alimentos que utiliza o abate halal, os senegaleses percebem no comércio informal uma forma mais atrativa para trabalhar e enviar suas remessas aos familiares. Cotidianamente, estão presentes nas ruas de Florianópolis, vendendo roupas, calçados ou eletrônicos, formando redes de informações, brincadeiras e afetos. Entre uma venda e outra conversam entre si em Wolof, com passantes ou compradores em português, compram sanduíches de vendedores portugueses ou brasileiros com cestas cheias de quitutes ou trocam notas altas com outros senegaleses ou com vendedores equatorianos e peruanos. A repressão policial é intensa e ostensiva e a cada sirene ou policial que passa, todos rapidamente trocam informações – “olha a chuva!” - sobre a necessidade de recolher tudo do chão. Como um passe de mágica enrolam as lonas com os produtos e guardam-nas em mochilas, reúnem-se em uma esquina próxima e esperam. Quando os guardas desaparecem, rapidamente retornam ao local. A cada meia hora os guardas voltam, e algumas vezes permanecem. Os senegaleses então, recolhem novamente suas mercadorias e caminham até alguma outra rua para novamente estender suas lonas para voltar a vender. Sua performance, constantemente reencenada, demonstra que não se incomodam de ter que trocar de lugar, de se deslocar, sempre evitando confrontos com a polícia ou com alguns passantes que pisam propositalmente em suas mercadorias. Colocam-se em fluxo constante, contornando barreiras e fronteiras. Através da observação etnográfica, pode-se perceber que a migração é isso afinal, como eles mesmos dizem: se em um local não está bom, é perigoso, vai-se para outro lugar. Os passantes, pedestres locais, em sua maioria, desviam seus passos para não pisar as roupas estendidas no chão, mas não há como não ver que estão ali: sua presença transforma a paisagem e o caminho. Os senegaleses com suas lonas de mercadorias transformam-se assim em uma metáfora da migração, colocando-se no caminho dos que passam, sem medo de atravessar fronteiras e confrontar a ordem hegemônica, performando novas narrativas, compartilhando-as e criando novas paisagens sociais.
Ficha técnica:
Autora:Janaina Santos de Macedo
Fotografias: Janaina Santos
Direção, Edição de Imagem e Texto: Janaina Santos
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