Mouraria 3.0
DOI:
https://doi.org/10.51359/2526-3781.2017.234851Palavras-chave:
Reabilitação urbana, Políticas públicas, Mouraria, Filme etnográfico, Turismo.Resumo
O bairro da Mouraria, em Lisboa, é um lugar historicamente marcado por uma divisão espacial, social e cultural, associado a uma população com dificuldades económicas e aos movimentos migratórios. Até ao início do séc. XX era um dos bairros mais pobres da cidade, conhecido pela sua “má fama” e miséria. No entanto, suportado por uma série de elementos sociais e culturais como o Fado, as procissões religiosas, a vida de rua e as redes de sociabilidade e vizinhança, constitui-se também como um bairro tradicional e típico. A idealização da Mouraria como um bairro popular foi importante na construção de um imaginário que o passou a distinguir não apenas pelas anteriores conotações negativas, mas também por elementos positivos.
Após as propagandas salazaristas da “portugalidade” e a institucionalização da cultura popular, ainda durante o regime político do Estado Novo (1933-1974), desenvolveram-se várias intervenções sócio urbanísticas na cidade que procuravam dar uma nova imagem aos velhos bairros lisboetas. No seguimento dessas políticas de higienização e emblematização da cidade, a Mouraria sofreu uma série de demolições que alteraram a sua estrutura e as suas dinâmicas socioculturais. Os habitantes desalojados foram levados para bairros sociais na periferia e os espaços antes ocupados pelos bares e prostitutas deram lugar aos sem-abrigo, ao tráfico e ao consumo de droga (Menezes, 2004). Posteriormente, constroem-se dois centros comerciais transformando a zona num importante ponto de comércio da cidade e promovendo a fixação de minorias étnicas ali trazidas pela imigração e que por sua vez viriam a dar origem ao atual rótulo de bairro multicultural e multiétnico. Na sequência de tais alterações a sua imagem tornou-se dissonante, fragmentada entre o imaginário típico e o apelo cosmopolita. Contudo, dada a sua posição no território da cidade e exatamente devido às suas caraterísticas cultura is diversas, em 2011 inicia-se um processo de requalificação urbana que coloca atualme nte o bairro numa posição psicológica acessível ao resto da cidade e nos guias turísticos como lugar a visitar.
Numa tentativa de contrariar a tendência do bairro para se manter à margem, o programa de intervenção urbana QREN Mouraria: as cidades dentro da cidade projetou um plano de requalificação do espaço público e um plano de desenvolvime nto comunitário (PDCM), procurando através da cultura e do espaço, dar à Mouraria uma nova centralidade em Lisboa. Este programa de intervenção urbana e social objetivou inverter a situação de degradação física, precariedade social e insegurança urbana, através da valorização do património histórico e cultural e do enfoque no desenvolvime nto sociocultural e turístico, propôs reverter a relação cidade/bairro por meio de uma “abertura” no sentido de acrescentar valor ao bairro, tornando-o visível e visitável.
Mouraria 3.0 é um filme que retrata o bairro da Mouraria, em Lisboa (Portugal) no contexto do processo de intervenção sócio urbanística QREN Mouraria – as cidades dentro da cidade. Centrando-se nos discursos popular e institucional, procurou construir um diálogo entre os dois, confrontando duas visões, por norma, separadas. Seguindo ritmos diários e tensões entre estes e as novas dinâmicas empostas ao bairro, o filme destaca o vazio comunicativo que acompanhou o processo de intervenção e convida a pensar sobre as representações construídas em torno do bairro.
Este filme foi produzido no âmbito da minha tese de mestrado em Antropologia –Culturas Visuais (2015).
Ficha técnica:
Pesquisador: Ana Rita Matias
Orientador: Catarina Alves Costa
Realização: Ana Rita Matias
Montagem: Ana Rita Matias
Local: Lisboa, Portugal
Ano: 2014
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