As Crianças e o Barro: A Cosmopráxis Mbyá Guarani enquanto Narrativa de sua Memória Biocultural.

Carolina Silveira Costa, Rumi Regina Kubo

Resumo


Sinopse:

A presente narrativa remete a ações de pesquisa[1] e extensão[2] junto aos povos Mbyá-guarani[3] no RS, acompanhando a prática da cerâmica, ou, de uma forma mais abrangente, refletindo sobre a relação destes grupos com o barro. Neste sentido, a cerâmica não é uma prática que se verifica hodiernamente no cotidiano dos grupos que acompanhamos, porém é presença marcante nos atravessamentos entre-mundos da cosmoecologia Mbyá Guarani ao longo da vida destes indivíduos, onde o barro, enquanto elemento que dá materialidade ao cachimbo, é o invólucro da comunicação direta com os guias espirituais de suas caminhadas pelo mundo. Nosso recorte emana da convivência com mulheres que (ainda) mantém o contato e trabalham o barro[4], reforçado pelo conhecimento através da literatura arqueológica das interações destes grupos com a cerâmica. Neste lastro entre um certo imaginário acadêmico e as práticas cotidianamente experienciadas no convívio em aldeias e espaços de presença Mbyá-guarani no RS[5] advém um conjunto de reflexões que nos remetem a ideia de memória biocultural (Victor Toledo), como a evocação de um modo de ser e de se relacionar com a natureza manifesto no ato de moldar o (e com o) barro dos grupos com os quais estamos convivendo, os quais nos remetem a própria possibilidade de ver no fazer cerâmico a evocação de um certo gesto ancestral (Andre Leroi-Gourhan) que remete a uma certa estética do cotidiano e das relações (Joana Overing). Tal estética conforma e é conformada, em nosso entender, pelas atividades práticas cotidianas que envolvem a todos, homens, mulheres, crianças. Neste contexto, ao experienciarmos situações de oficina com crianças, centrada no trabalho com o barro, sobreveio reflexões sobre a criança e o processo pedagógico de se constituir Mbyá-guarani. É nesse contexto que lançamos, a partir das narrativas visuais e seu poder evocatório, a possibilidade de ver o processo de constituição de uma corporalidade em ação e as vias pelas quais se perpetuam saberes e fazeres destes mbyá-guarani. Assim, a noção da memória biocultural permite-nos direcionar as reflexões no sentido de que há conexões nestes saberes e fazeres que transcendem a ideia de continuidade do saber cerâmico somente através da passagem direta de uma técnica específica de confecção. Neste sentido, cabe ressaltar a potencialidade dos outros sentidos que não o da fala para constituir o Ser-guarani desde o início da vida. É preciso, então, olhar para as redes de ações nas quais os corpos e os artefatos são inseridos, na vida diária e ritual, para entender a maneira como eles expressam transformações, agenciando mediações entre o visível e o invisível, humanos, espíritos e outros seres que constituem sua cosmologia. O presente ensaio centra-se neste brincar Mbyá Guarani que carrega elementos importantes na transmissão de saberes e estão presentes  desde os primeiros anos de vida de um Mbyá: a experimentação sensorial, a percepção através dos sentidos da criança e a observação. O tato e estas experiências seguem acontecendo ao longo de suas vidas expressadas na sua corporalidade (COSTA, 2018). O que pode resultar na aprendizagem da constituição do ser guarani expresso em sua corporalidade e internalizado de tal maneira que se mescla tranquilamente com outros saberes como por exemplo, a prática da capoeira e as teorias do campo de conhecimento da arqueologia, sem perder sua essência constituinte. As imagens que compõem a narrativa foram fotografadas na aldeia Para Roke, em Rio Grande/RS e na aldeia Nhu Porã, em Torres/RS, entre os anos de 2014 e 2019.

Palavras-Chave: Povos Indígenas, Memória Biocultural, Guarani Mbyá, Corporalidade

 

Synopsis: This narrative refers to research and extension actions with the Mbyá-Guarani peoples in RS, following the practice of ceramics, or, more broadly, reflecting on the relationship of these groups with clay. Ceramics is not a practice that occurs today in the daily life of the groups we accompany, but it is a remarkable presence in the intersections of Mbyá Guarani cosmoecology throughout the life of these individuals, where clay, as an element that gives materiality to pipe, is the envelope of direct communication with the spirit guides of their walks in the World. Our research delimitation emanates from the conviviality with women who (still) maintain contact and work the clay, reinforced by knowledge through the archaeological literature of the interactions of these groups with ceramics. In this basement between a certain academic imagination and the daily practices experienced in living in communities and other spaces of Mbyá-guarani presence in RS comes a set of reflections that bring us the idea of biocultural memory (Victor Toledo), as the evocation of a way to be and to relate to the nature manifest in the act of shaping (and with) the clay of the groups we are living with, which remind us of the very possibility of seeing in the ceramic making the evocation of a certain ancestral gesture (Andre Leroi-Gourhan) which refers to a certain aesthetic of everyday life and relationships (Joana Overing). This aesthetic conforms and is shaped, in our view, by the daily practical activities that involve everyone, men, women, children. In this context, when we experienced workshop situations with children, focused on working with clay, came reflections on the child and the pedagogical process of constituting Mbyá-guarani. It is in this context that we launch, from the visual narratives and its evocative power, the possibility of seeing the process of constitution of a corporeality in action and the ways in which knowledge and actions of these mbyá-guarani are perpetuated. Thus, the notion of biocultural memory allows us to direct the reflections in the sense that there are connections in this knowledge and doings that transcend the idea of continuity of ceramic knowledge only through the direct passage of a specific technique of making. In this regard, it is worth emphasizing the potentiality of the senses other than speech to constitute the Guarani Being from the beginning of life. It is then necessary to look at the networks of actions in which bodies and artifacts are inserted, in daily and ritual life, to understand the way in which they express transformations, brokering mediations between the visible and the invisible, humans, spirits and others. beings that constitute its cosmology. This essay focuses on this Mbyá Guarani play,  that carries important elements in the transmission of knowledge and has been present since the early years of a Mbyá: sensory experimentation, perception through the child's senses and observation. The touch and these experiences continue to happen throughout their lives expressed in their corporeality (COSTA, 2018). What can result in learning the constitution of the Guarani being expressed in its corporeality and internalized in such a way that it blends smoothly with other knowledge such as the practice of capoeira and the theories of the field of knowledge of archeology, without losing its constituent essence. The images that compose the narrative were photographed in Para Roke village, in Rio Grande / RS and in Nhu Porã village, in Torres / RS, between 2014 and 2019.

Keyword: Indigenous Peoples, Biocultural Memory, Guarani Mbyá, Corporeality

 


[1] Dissertação de mestrado “Nhae’u e o teko porã: uma reflexão acerca da relação cosmoecológica de mulheres mbyá guarani com o barro no sul do Brasil e o bem viver comunitário”, desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – PGDR/UFRGS).

[2] Projetos: “Agrobiodiversidade e cultura Mbyá guarani: condições de produção, modos de transmissão e fortalecimento da segurança alimentar e nutricional em comunidades no litoral norte do RS” (CNPq, 2010-2013), “Segurança Alimentar e Nutricional: Consolidação do Observatório Socioambiental do Rio Grande do Sul em Rede com Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais” (PROEXT/MEC, 2014-2015), “Arte, território e inclusão social: práticas afirmativas em comunidades tradicionais do RS” (PROEXT/MEC, 2015-2017), executados no âmbito dos: Núcleos DESMA (Núcleo de Estudos em Desenvolvimento Rural Sustentável e Mata Atlântica – PGDR/UFRGS), Grupo Campo e Arte (IA/UFRGS), NESAN (Núcleo de Estudos em Segurança Alimentar e Nutricional – PGDR/UFRGS) e LAE (Laboratório de Arqueologia e Etnologia - IFCH/UFRGS).

[3] Os Mbyá Guarani compõe uma das parcialidades étnicas do Tronco Linguístico Tupi e Família Tupi-Guarani, falantes da Língua Guarani, presentes nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, no Brasil, assim como no Paraguai, Argentina e Bolivia. Apesar das dificuldades devido a pouca terra e pouco acesso à mata, até hoje dão continuidade à transmissão do seu modo de vida, através de suas extensas redes de parentesco. No Rio Grande do Sul, o povo guarani soma mais de duas mil pessoas distribuídas em cerca de cinquenta aldeias e concentradas em três regiões: nas missões e região central do estado; na região metropolitana de Porto Alegre; e na faixa litorânea que se estende de Rio Grande à Torres. É entre e nas aldeias situadas nesses locais que os mbyá  se fazem visíveis ao fazer o seu artesanato (que é vendido nas cidades, em feiras ou à margem de rodovias), colher seus remédios, plantar suas sementes tradicionais mesmo em áreas urbanizadas como a Grande Porto Alegre e construir suas casas de reza com madeira, cipó e barro, enquanto seguem na direção que os deuses guiarem pela fumaça, pelo raio, pelo vento.

[4] Talcira Yva Gomes, liderança espiritual Mbyá Guarani, suas filhas Ivanilde Kerexu e Araci Yva, suas noras Mônica Kerexu, Camila  e Patrícia Paráe Antonia Kerexu, exímia ceramista Mbyá Guarani e conversas pontuais com Mulheres da Aldeia Cantagalo/Jatai Ty em Viamão/RS.

[5] Especialmente as aldeias Para Roke, em Rio Grande/RS, na aldeia Nhu'ú Porã, em Torres/RS, Nhu'ú Poty (Barra do Ribeiro/RS).


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ENSAIO

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