As Crianças e o Barro: A Cosmopráxis Mbyá Guarani enquanto Narrativa de sua Memória Biocultural.

Auteurs-es

DOI :

https://doi.org/10.51359/2526-3781.2019.242928

Mots-clés :

Povos Indígenas, Memória Biocultural, Guarani Mbyá, Corporalidade

Résumé

A presente narrativa remete a ações de pesquisa[1] e extensão[2] junto aos povos Mbyá-guarani[3] no RS, acompanhando a prática da cerâmica, ou, de uma forma mais abrangente, refletindo sobre a relação destes grupos com o barro. Neste sentido, a cerâmica não é uma prática que se verifica hodiernamente no cotidiano dos grupos que acompanhamos, porém é presença marcante nos atravessamentos entre-mundos da cosmoecologia Mbyá Guarani ao longo da vida destes indivíduos, onde o barro, enquanto elemento que dá materialidade ao cachimbo, é o invólucro da comunicação direta com os guias espirituais de suas caminhadas pelo mundo. Nosso recorte emana da convivência com mulheres que (ainda) mantém o contato e trabalham o barro[4], reforçado pelo conhecimento através da literatura arqueológica das interações destes grupos com a cerâmica. Neste lastro entre um certo imaginário acadêmico e as práticas cotidianamente experienciadas no convívio em aldeias e espaços de presença Mbyá-guarani no RS[5] advém um conjunto de reflexões que nos remetem a ideia de memória biocultural (Victor Toledo), como a evocação de um modo de ser e de se relacionar com a natureza manifesto no ato de moldar o (e com o) barro dos grupos com os quais estamos convivendo, os quais nos remetem a própria possibilidade de ver no fazer cerâmico a evocação de um certo gesto ancestral (Andre Leroi-Gourhan) que remete a uma certa estética do cotidiano e das relações (Joana Overing). Tal estética conforma e é conformada, em nosso entender, pelas atividades práticas cotidianas que envolvem a todos, homens, mulheres, crianças. Neste contexto, ao experienciarmos situações de oficina com crianças, centrada no trabalho com o barro, sobreveio reflexões sobre a criança e o processo pedagógico de se constituir Mbyá-guarani. É nesse contexto que lançamos, a partir das narrativas visuais e seu poder evocatório, a possibilidade de ver o processo de constituição de uma corporalidade em ação e as vias pelas quais se perpetuam saberes e fazeres destes mbyá-guarani. Assim, a noção da memória biocultural permite-nos direcionar as reflexões no sentido de que há conexões nestes saberes e fazeres que transcendem a ideia de continuidade do saber cerâmico somente através da passagem direta de uma técnica específica de confecção. Neste sentido, cabe ressaltar a potencialidade dos outros sentidos que não o da fala para constituir o Ser-guarani desde o início da vida. É preciso, então, olhar para as redes de ações nas quais os corpos e os artefatos são inseridos, na vida diária e ritual, para entender a maneira como eles expressam transformações, agenciando mediações entre o visível e o invisível, humanos, espíritos e outros seres que constituem sua cosmologia. O presente ensaio centra-se neste brincar Mbyá Guarani que carrega elementos importantes na transmissão de saberes e estão presentes  desde os primeiros anos de vida de um Mbyá: a experimentação sensorial, a percepção através dos sentidos da criança e a observação. O tato e estas experiências seguem acontecendo ao longo de suas vidas expressadas na sua corporalidade (COSTA, 2018). O que pode resultar na aprendizagem da constituição do ser guarani expresso em sua corporalidade e internalizado de tal maneira que se mescla tranquilamente com outros saberes como por exemplo, a prática da capoeira e as teorias do campo de conhecimento da arqueologia, sem perder sua essência constituinte. As imagens que compõem a narrativa foram fotografadas na aldeia Para Roke, em Rio Grande/RS e na aldeia Nhu Porã, em Torres/RS, entre os anos de 2014 e 2019.

 

[1] Dissertação de mestrado “Nhae’u e o teko porã: uma reflexão acerca da relação cosmoecológica de mulheres mbyá guarani com o barro no sul do Brasil e o bem viver comunitário”, desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – PGDR/UFRGS).

[2] Projetos: “Agrobiodiversidade e cultura Mbyá guarani: condições de produção, modos de transmissão e fortalecimento da segurança alimentar e nutricional em comunidades no litoral norte do RS” (CNPq, 2010-2013), “Segurança Alimentar e Nutricional: Consolidação do Observatório Socioambiental do Rio Grande do Sul em Rede com Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais” (PROEXT/MEC, 2014-2015), “Arte, território e inclusão social: práticas afirmativas em comunidades tradicionais do RS” (PROEXT/MEC, 2015-2017), executados no âmbito dos: Núcleos DESMA (Núcleo de Estudos em Desenvolvimento Rural Sustentável e Mata Atlântica – PGDR/UFRGS), Grupo Campo e Arte (IA/UFRGS), NESAN (Núcleo de Estudos em Segurança Alimentar e Nutricional – PGDR/UFRGS) e LAE (Laboratório de Arqueologia e Etnologia - IFCH/UFRGS).

[3] Os Mbyá Guarani compõe uma das parcialidades étnicas do Tronco Linguístico Tupi e Família Tupi-Guarani, falantes da Língua Guarani, presentes nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, no Brasil, assim como no Paraguai, Argentina e Bolivia. Apesar das dificuldades devido a pouca terra e pouco acesso à mata, até hoje dão continuidade à transmissão do seu modo de vida, através de suas extensas redes de parentesco. No Rio Grande do Sul, o povo guarani soma mais de duas mil pessoas distribuídas em cerca de cinquenta aldeias e concentradas em três regiões: nas missões e região central do estado; na região metropolitana de Porto Alegre; e na faixa litorânea que se estende de Rio Grande à Torres. É entre e nas aldeias situadas nesses locais que os mbyá  se fazem visíveis ao fazer o seu artesanato (que é vendido nas cidades, em feiras ou à margem de rodovias), colher seus remédios, plantar suas sementes tradicionais mesmo em áreas urbanizadas como a Grande Porto Alegre e construir suas casas de reza com madeira, cipó e barro, enquanto seguem na direção que os deuses guiarem pela fumaça, pelo raio, pelo vento.

[4] Talcira Yva Gomes, liderança espiritual Mbyá Guarani, suas filhas Ivanilde Kerexu e Araci Yva, suas noras Mônica Kerexu, Camila  e Patrícia Paráe Antonia Kerexu, exímia ceramista Mbyá Guarani e conversas pontuais com Mulheres da Aldeia Cantagalo/Jatai Ty em Viamão/RS.

[5] Especialmente as aldeias Para Roke, em Rio Grande/RS, na aldeia Nhu'ú Porã, em Torres/RS, Nhu'ú Poty (Barra do Ribeiro/RS).

Bibliographies de l'auteur-e

Carolina Silveira Costa, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Bacharel em Ciências Sociais e Mestre em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.  Atua nas áreas de Antropologia e Etnoecologia

Rumi Regina Kubo, Universidade de Federal do Rio Grande Sul

Doutora em Antropologia Social (UFRGS), discente do Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural (UFRGS).

Publié-e

2020-01-24

Numéro

Rubrique

Ensaios Fotográfico