Caribé: bebida que dá sustança ao corpo e alma cabocla

Autor/innen

  • Miguel de Nazaré Brito Picanço

DOI:

https://doi.org/10.51359/2526-3781.2020.245810

Schlagworte:

cozinha regional, cultura alimentar, Caribé

Abstract

Considero que a cozinha não se reduz apenas a um lugar de produção de alimentos, mas em espaço de discussão e elaboração de sociabilidades, emoções e identidades. É nesse contexto que situo a cozinha regional cabocla como expressão da mestiçagem que é própria da sociedade brasileira, em particular no contexto amazônico e paraense. Assim, penso na cozinha regional cabocla como a paisagem que descreve e fala sobre as idiossincrasias materiais e simbólicas que compõem os territórios brasileiros amazônico e paraense, e que resulta de um conjunto de saberes, fazeres e sabores que derivam ora da pesca artesanal, ora da agricultura familiar e ora das frutas e raízes silvestres da Amazônia. Diz respeito então, a um jeito singular de coletar, produzir, preparar, comer e viver, que é próprio dos homens e das mulheres que habitam no meio rural e nas cidades do estado do Pará.

Portanto, é no contexto dessa cozinha regional cabocla que situo o caribé, que é um alimento líquido, cujo ingrediente primeiro é a farinha de mandioca.Assim, o caribé constitui-se em um recurso alimentar historicamente inventado pelos caboclos da Amazônia paraense que atribuem ao alimento carga curativa, sendo capaz então, de fortificar, sustentar e restabelecer aqueles sujeitos que por ventura tenham sido acometidos por alguma enfermidade.  Convém aqui registrar, que apesar da importância desse alimento para o povo caboclo, não há registros escritos sobre os modos de fazê-lo, sua receita habita apenas nas memórias das caboclas e dos caboclos. Assim, o saber fazer o caribé é oralmente ensinado e aprendido de geração a geração.

Então, de acordo com os relatos de dona Maria Olinda (que é nativa da comunidade de Araí, situada no meio rural de Augusto Corrêa, e vive há 30 anos em Ananindeua, na região Metropolitana de Belém) a feitura do caribé se processa da seguinte maneira: coloca-se aproximadamente 300ml de água em uma panela ao fogo e, enquanto a água ferve, sobre uma peneira ou um crivo se côa aproximadamente 100g de farinha. O cuí da farinha, ou seja, a farinha de mandioca, fina e peneirada, deve ser colocada de molho por 10 minutos, depois disso a água precisa ser retirada e, mais ou menos, 10 minutos depois o cuí deve ser diluído na água em fervura, de modo que a bebida, ou melhor, o mingau fique o mais aguado possível. Depois disso, em cinco minutos de fervura o caribé estará pronto e deve ser consumido imediatamente, ainda quente.

Dito isso, importa saber que na atualidade, particularmente, no contexto das cidades paraenses, o caribé tem se reinventado, quando a ele têm sido agregados outros ingredientes, tais como: alho, sal, margarina ou manteiga, a gosto de quem o faz.    

Por fim, conforme se pode observar, as imagens deste ensaio etnofotográfico “falam” e “contam” sobre os modos de saber fazer o caribé. A feitura aqui mostrada contou com as habilidades de Daniely Pereira, mediante orientações de dona Maria Olinda, conforme mostrado nas imagens que seguem.

Autor/innen-Biografie

Miguel de Nazaré Brito Picanço

 Doutor em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos/UNISINOS, na linha de pesquisa: identidade e sociabilidade, na modalidade Doutorado Sanduíche (Bolsa/CAPES), com estágio doutoral pela Universidad de Barcelona (UB), no Observatorio de la Alimentación (ODELA). Pós-doutor em Antropologia da Alimentação, na linha de pesquisa Patrimônio Alimentar e Turismo, pelo Observatorio de la Alimentación, na Universidad de Barcelona. É pesquisador colaborador do Observatorio de la Alimentación (Odela/Universidad de Barcelona), pesquisador membro do Laboratório de Políticas Culturais e Ambientais do Brasil (LApCAB/UNISINOS) e pesquisador membro do Alere, Grupo de Pesquisa em História da Alimentação e Abastecimento na Amazônia/CNPq. Desenvolve pesquisas nos campos da Antropologia Visual e da Antropologia da Alimentação, em particular da comida como patrimônio alimentar do nordeste paraense.

Veröffentlicht

2020-08-27

Ausgabe

Rubrik

Ensaios Fotográfico