Círio de Nazaré: uma parada na vida
DOI:
https://doi.org/10.51359/2526-3781.2017.24097Palabras clave:
Círio de Nazaré, Belém do Pará, Religiosidade.Resumen
O Círio de Nazaré é uma das maiores celebrações católicas do Brasil e do mundo, reunindo cerca de 2 milhões de devotos de todo o país para homenagear a Virgem de Nazaré. A procissão acontece em Belém, capital do estado do Pará, a cada segundo domingo de outubro, há já dois séculos. Em 2004, as festividades foram listadas como Patrimônio Imaterial pelo IPHAN - Instituto Brasileiro do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em 2013, recebeu o certificado da UNESCO de Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade.
A celebração católica gira em torno de uma pequena estátua de Nossa Senhora de Nazaré, que se acredita ter sido esculpida em Nazaré (Galileia), e responsável por vários milagres no Portugal medieval, antes de reaparecer no Brasil. Sabe-se que a devoção a Nossa Senhora de Nazaré foi introduzida no país pelos padres jesuítas no século XVII, numa vila chamada Vigia, no nordeste do Estado do Pará. No entanto, a versão mais popularmente aceite diz que no século XVII, um humilde pecuário chamado Plácido José de Souza (de descendência portuguesa e indígena) redescobriu a pequena estátua num riacho em Belém. Plácido levou a Virgem para sua cabana onde fez um altar para a estátua, descobrindo mais tarde que esta, misteriosamente, tinha voltado para onde foi encontrada pela primeira vez. Plácido interpretou este acontecimento como um sinal divino e decidiu construir uma ermida no local para mostrar a sua devoção à Santa, onde hoje é o Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, na cidade de Belém.
Desde 1793, o Círio de Nazaré acontece na Amazônia brasileira, com festividades a partir de agosto e correndo até 15 dias após a procissão principal. Cerca de 2 milhões de peregrinos de todo o Brasil honram a Nossa Senhora de Nazaré, seguindo a imagem por cerca de seis horas ao longo do caminho de 3,6 quilômetros da Catedral de Belém ao Santuário de Nossa Senhora de Nazaré. Durante a procissão, muitos peregrinos carregam ícones como partes do corpo, tijolos e livros no topo de suas cabeças, representando assim a cura divina e o que conquistaram com as intercessões da Virgem.
O momento mais esperado da celebração é quando a estátua de Nossa Senhora de Nazaré sai da catedral e é colocada na berlinda, uma carruagem de flores, e é imediatamente cercada por milhões de devotos descalços e muitas câmeras de celular tentando imortalizar este momento de fé. Outro é, quando um grande número de pessoas quer segurar a corda que é anexada à berlinda pouco depois do inicio da procissão. A corda é um dos maiores símbolos da fé durante o Círio, representa a ligação entre a Santa e seus seguidores. Outro grande símbolo são os promesseiros, os devotos que acompanham a procissão de joelhos, ultrapassando todos os seus limites em nome da gratidão e devoção à Virgem. A festa do Círio de Nazaré não pode ser definida apenas como uma celebração religiosa, pois incorpora muitos elementos culturais que formam a complexa sociedade multicultural brasileira e amazônica, como o almoço familiar de Maniçoba e Pato no Tucupi que são preparados em quase todas as casas de Belém no segundo domingo de outubro, representando a comunhão da família. Os brinquedos artesanais chamados Brinquedos de Mirití, feitos de madeira de palmeira local, que são vendidos em todo lugar durante a procissão do Círio. A mistura do sagrado e do profano também desempenha um papel importante nas festividades, sendo fortemente representada pelo Auto do Círio e pela festa das Filhas da Chiquita. O Auto do Círio é uma procissão artística, repleta de música, dança e atuação, organizada pela Escola de Teatro da Universidade Federal do Pará, abre o fim-de-semana do Círio com uma enorme festa carnavalesca nas pequenas ruas da Cidade Velha. A festa das Filhas da Chiquita é um encontro LGBT que acontece no centro da cidade na noite anterior à procissão principal do Círio, onde as drag queens preformam e a comunidade LGBT tem espaço para mostrar a sua devoção e fé na Nossa Senhora de Nazaré. A ligação simbólica entre o sagrado e o profano durante o Círio de Nazaré é uma das mais importantes virtudes e contradições da celebração, transformando-o numa teia de significados e representações que refletem de forma profunda a complexidade antropológica da maior manifestação religiosa do mundo ocidental.
Ficha técnica:
Autores: Ana Rita Matias ( BI ICS-ULisboa)
Fotografias: Ana Rita Matias; Aderson de Vasconcelos; Lorena Costa; Luiza Brilhante e Geysele Santa Brígida das Mercês. (Projeto Acervo Círio 2016, VISAGEM – UFPA)
Direção, Edição de Imagem e Texto: Ana Rita Matias (BI ICS-ULisboa) e Aline de Souza Navegantes (IFCH-UFPA)
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