Espelho Nativo: imagens compartilhadas dos Tremembé de Almofala

Auteurs

  • Philipi Emmanuel Lustosa Bandeira UFPE

DOI :

https://doi.org/10.51359/2526-3781.2017.24096

Résumé

Entre 2005 e 2008, realizei um ensaio fotográfico com os índios Tremembé, um povo nativo da costa norte brasileira. Certas imagens em negativo preto & branco revelado manualmente, com exposição lenta e sem flash, de registro do ritual do “torém”, em 2005, aproximaram-se mais da arte contemporânea do que do documentário tradicional. Em vez de publicação ou exposição, as películas foram digitalizadas e o trabalho rendeu uma instalação de vídeo em um museu de arte, uma monografia em antropologia e um filme documentário. Deste ensaio fotográfico realizado há pouco mais de dez anos na aldeia indígena Tremembé de Almofala, litoral oeste do estado do Ceará, apresenta-se aqui uma série composta por oito fotografias que ficou guardada justamente por sua estética que deriva do documentário e aponta para a arte contemporânea.

Nos Tremembé trabalhei entre 2004 e 2010, onde cresci fotógrafo, etnógrafo e documentarista, e tentei aprender com eles algo sobre o mar, os ventos e os “encantados”. E culinária. Foram mestres meus. Ao revolver um acervo de mais de 2 mil imagens e vídeos, escolhendo para apresentar nesta ocasião a primeira série fotografias do “torém”, registradas em 2005, a reflexão segue o fluxo da intuição e da memória, como artes de engajamento na vida. Se por um lado partiu-se da estética, chegar-se-á, por outro, na política; ou vice-versa, conforme instigam-nos e fazem-nos crer Benjamin e Rancière.

O ensaio fotográfico com os Tremembé rendeu cerca de 2.000 fotografias com suporte de película preto&branco e colorido cromo, em três anos de visitas, vivências e acompanhamentos na comunidade. A abordagem das temáticas e o modo de realizá-las foram pautas de conversas com lideranças, jovens e destacados membros das comunidades Tremembé, constituindo-se um processo de “antropologia compartilhada” (Rouch 1973). Desta experiência etnográfica, pôde surgir um campo partilhado de conhecimentos e, a partir deste, representações fotográficas (e audiovisuais, em outro momento) possíveis do universo Tremembé. Nesta interação dialógica entre comunidades e pesquisador elegeram-se alguns pontos-chaves para a abordagem imagética. Entre eles: relação territorial e fronteiras étnicas, ritual do torém, mar e cultura de pesca, crianças, construções, mulheres, lideranças etc.

Por fim, o projeto Espelho Nativo como um todo foi um denso processo de antropologia visual compartilhada com os Tremembé de Almofala, que partiu de uma interação pesquisador-comunidade para lançar olhares para os índios sob a perspectiva da construção de suas próprias imagens, em reflexão sobre questões como imagem, imaginário e estereótipo sobre o indígena no Brasil. A experiência compartilhada de registro fotográfico deu ensejo a um processo mais longo e complexo, com a co-elaboração de um roteiro fílmico, realizado a partir do prêmio DocTV IV Brasil (Espelho Nativo, doc, 2009, 52') e também da realização de uma monografia em Ciências Sociais, defendida na Universidade Federal do Ceará. A série de fotografias aqui selecionadas representam a primeira grande imersão de pesquisa e vivência, sobretudo no ritual do torém, de modo que se apresenta, portanto, a semente que gerou os frutos, galhos e troncos posteriores.

 

Ficha técnica:

Autor: Philipi Bandeira

Fotografias: Philipi Bandeira

Direção, Edição de Imagem e Texto: Philipi Bandeira

 

Espelho Nativo: imagens compartilhadas dos Tremembé de Almofala

Publiée

2024-02-08

Numéro

Rubrique

Ensaios Fotográfico