Redes e mares: o território marítimo dos pescadores artesanais de Aquiraz – Ceará

Auteurs

DOI :

https://doi.org/10.51359/2526-3781.2023.259540

Mots-clés :

território, pescadores, jangadas, reciprocidade

Résumé

O presente ensaio corresponde a minha experiência com o trabalho de campo, uma atividade realizada nas comunidades pesqueiras de Iguape e Prainha, regiões localizadas no litoral de Aquiraz, município próximo da capital cearense. Foram cerca de 25 dias de imersão ao todo, onde pude estabelecer diálogos com pescadores, donos de mercearia e além disso, sentir os ritos cotidianos desses trabalhadores do mar.

A imersão nessas comunidades foi possível, devido ao financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que me oportunizou a condição de bolsista. O objetivo geral da pesquisa que desenvolvo, se assentava na compreensão dos projetos de vida dos pescadores de jangada dessas comunidades, especificamente identificando as disposições que contribuem para o ingresso desses trabalhadores embarcadiços na atividade pesqueira.

O território pesqueiro configura um espaço de redes plurais de afeto e trabalho, a vida cotidiana nesse lugar se orienta pelos laços ancestrais e artesanais, onde os pescadores de jangada na condição de pais, avôs, tios, primos, vizinhos, compadres entre outros membros da localidade, são herdeiros desse saber-fazer pesqueiro, assim como, do pertencimento estabelecido entre mar, pescador e embarcação (CASCUDO, 1957, 2002; RAMALHO, 2006). O calendário de atividades nas comunidades de Iguape e Prainha, orientam-se por princípios naturais em sua (re)produção, sendo as forças das marés e dos ventos elementos que fortalecem a apropriação marítima trabalhadores quando estão embarcados (NASCIMENTO, 2019).

As práticas de troca e a reciprocidade são elementos de manutenção comuns na comunidade pesqueira, embora tenham fins distintos, são bem articuladas pelos pescadores durante o período de verão e inverno no território (NASCIMENTO, 2019). Nesse sentido, os pescadores possuem um imaginário comum no que se refere a noção de pertencimento ao mar, são as atividades construídas coletivamente com os amigos, familiares, filhos entre outros membros que permitem a construção cotidiana desse elo (RAMALHO, 2006).

O rito cotidiano posto no ato de levar a embarcação para o mar, e posteriormente, retornar com ela pós-pescaria para a caiçara, por exemplo, embora pareça uma tarefa simples são práticas que exigem confiança e para acontecer (NASCIMENTO, 2019). Os jangadeiros não realizam esse processo com desconhecidos, apenas com vizinhos, amigos, familiares ou companheiros de pesca, pois segundo os mesmos, com quem se tem relações estreitas, fica mais fácil conversar sobre qualquer questão que envolva a jangada ou a experiência marítima (CASCUDO, 1957, 2002).

Nesse sentido, podemos compreender o território como uma rede de pluralidades, nesse lugar há não só os barracões, mercearias, embarcações entre outros elementos materiais que compõe esse saber-fazer artesanal (CASCUDO, 1957, 2002) Além disso, há um imaginário coletivo partilhado entre todos da localidade, no que tange a tripulação de jangadeiros existe o sentimento de pertencimento articulado ao mar, uma espécie de reciprocidade ternária, e entre esses trabalhadores e outros profissionais, há uma relação de confiança que também contribuem para a manutenção das relações subjetivas na comunidade pesqueira (RAMALHO, 2006; NASCIMENTO, 2019).

This essay corresponds to my experience with fieldwork, an activity carried out in the fishing communities of Iguape and Prainha, regions located on the coast of Aquiraz, a municipality near the capital of Ceará. There were about 25 days of immersion in total, where I was able to establish dialogues with fishermen, grocery store owners and, in addition, feel the daily rites of these sea workers.

Immersion in these communities was possible due to funding from the Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel (CAPES), which provided me with a scholarship. The general objective of the research I developed was based on understanding the life projects of raft fishermen in these communities, specifically identifying how this artisanal way of being was articulated with the territory and with fellow boatmen.

The fishing territory is a space of plural networks of affection and work. Daily life in this place is guided by ancestral and artisanal ties, where the raft fishermen, as fathers, grandfathers, uncles, cousins, neighbors, compadres and other members of the locality, are heirs to this fishing know-how, as well as the belonging established between the sea, the fisherman and the boat (CASCUDO, 1957, 2002; RAMALHO, 2006). The calendar of activities in the communities of Iguape and Prainha is guided by natural principles in its (re)production, with the forces of the tides and winds being elements that strengthen the maritime appropriation of workers when they are on board (NASCIMENTO, 2019).

Exchange practices and reciprocity are common maintenance elements in the fishing community, although they have different purposes, they are well articulated by fishermen during the summer and winter periods in the territory (NASCIMENTO, 2019). In this sense, fishermen have a common imaginary regarding the notion of belonging to the sea, and it is the activities built collectively with friends, family, children and other members that allow this link to be built on a daily basis (RAMALHO, 2006).

The daily rite of taking the boat out to sea and then returning it to the caiçara after fishing, for example, although it seems like a simple task, are practices that require trust in order to happen (NASCIMENTO, 2019). The jangadeiros don't carry out this process with strangers, only with neighbors, friends, family or fishing buddies, because according to them, with those who have close relationships, it is easier to talk about any issue involving the raft or the maritime experience (CASCUDO, 1957, 2002).

In this sense, we can understand the territory as a network of pluralities, in this place there are not only the sheds, grocery stores, boats and other material elements that make up this artisanal know-how (CASCUDO, 1957, 2002) In addition, there is a collective imaginary shared by everyone in the locality, with regard to the crew of rafters, there is a feeling of belonging linked to the sea, a kind of ternary reciprocity, and between these workers and other professionals, there is a relationship of trust that also contributes to the maintenance of subjective relationships in the fishing community (RAMALHO, 2006; NASCIMENTO, 2019).

Biographie de l'auteur

Ketheleen Vieira, Universidade Federal de Pernambuco

Graduanda em Ciências Sociais (Licenciatura) pela Universidade Federal de Pernambuco, Pesquisadora no Núcleo de Humanidades Mares e Rios (Nuhumar), com interesse nos campos da Socioantropologia marítima e pesqueira, sociologia da pesca e sociologia do trabalho. 

Références

CASCUDO, L. C. Jangadeiros. 1. ed. Distrito Federal: Ministério da Agricultura, 1957. 60 p.

CASCUDO, L. C. Jangada. 2. ed. São Paulo: Global Editora, 2002. 172 p.

NASCIMENTO, E. C. O lanço, o terço e os quinhões: Reciprocidade e troca na pesca coletiva da tainha na Ilha do Mel. Curitiba-PR: Editora UFPR, 2019. 120 p.

RAMALHO, C. W. N. Ah, esse povo do mar! Um estudo sobre trabalho e pertencimento na pesca artesanal pernambucana. São Paulo: Polis: Campinas, SP: CERES (Centro de Estudos Rurais do IFCH – UNICAMP), 2006. 175P.

Publiée

2023-12-19

Numéro

Rubrique

Ensaios Fotográfico