Modos de cuidar das benzedeiras da Serra dos Paus Dóias / PE.

Auteurs

DOI :

https://doi.org/10.51359/2526-3781.2024.264750

Mots-clés :

cuidado, curanderas, etnografia, fotografia, antropologia visual

Résumé

Este ensaio se propõe a tecer reflexões sobre o cuidado para além das dicotomias trabalho x afeto, mergulhando nas complexidades do cotidiano através de seu caráter disruptivo (Bellacasa, 2023). Aqui, apresentamos os distintos modos de cuidar das benzedeiras do Território da Serra dos Paus Dóias, fruto de um trabalho de campo de cunho etnográfico realizado entre os meses de julho e dezembro de 2023, no Município de Exu, Pernambuco.

A partir do conceito de cuidado (Bellacasa, 2023), as imagens capturadas durante o campo revelam um território entrelaçado por práticas de cuidado humano e outros que humanos (De la Cadena, 2018). O benzimento é apenas um dentre os diversos modos de cuidar das benzedeiras. Além do esforço físico para realizar um “trabalho de cuidado” cotidiano que está por trás das práticas de cura como levar sol quente na cabeça enquanto trabalha a terra e cultiva seus “remédios do mato” no quintal.

No interior do Estado de Pernambuco, região do semiárido nordestino, fica o Território da Serra dos Paus Dóias, zona rural do município de Exu. Lá vivem cerca de 100 famílias. O bioma predominante na região é a Caatinga com algumas características do Cerrado e da Mata Atlântica, o que faz com que tenha uma enorme diversidade de espécies de plantas.

O mundo das benzedeiras é prenhe de materialidades, energias e manifestações sobrenaturais, que exigem cuidado. Seus modos de cuidar vão além do ato de benzimento; incluem chás, lambedores, remédios do mato, trocas de energia e afeto. Entretanto, como destaca Bellacasa (2023), o cuidado não é algo apenas harmônico, ele pode ser atingido por interferências negativas, seria o caráter disruptivo do cuidado (Bellacasa, 2023).  O cuidado pode envolver situações nem sempre agradáveis como ter que lidar com “reclamações” de entidades supranaturais, por exemplo, e absorver as dores físicas e emocionais do outro. 

É no quintal onde acontecem as experimentações de cura, as práticas de cuidado cotidianas, é onde as benzedeiras praticam o seu saber fazer, onde as crianças aprendem a fazer tudo (Santos, 2023). Para Bispo (2023) o quintal é a parte mais importante de uma casa. É onde elas buscam lenha para cozinhar a comida da família, plantam o feijão, a macaxeira, o milho, trocam mudas e experiências. O cuidado das benzedeiras se estende para o período após o benzo, é presente e futuro, é quintal e cozinha.

Cuidado coletivo e o autocuidado são dimensões importantes dos modos de cuidar das benzedeiras. Coletivo aqui quer dizer que o cuidado do outro é também o cuidado de si, e que a teia de relacionalidade possibilita um cuidado coletivo onde todos cuidam de todos.

Os modos de cuidar das benzedeiras também envolvem preparar a terra, adubar o solo para plantar algumas ervas no quintal como arruda e alecrim. Envolvem carregar um carinho de mão cheio de esterco de um lado para o outro embaixo de sol quente; trabalhar na roça, especialmente no semiárido é lidar com espécies espinhosas. No meio desse processo ainda param para benzer quem precisa e brincar com as crianças.

A resistência desses ritos e modos de cuidar falam de uma contracolonialidade (Santos, 2015) que não se deixa “domesticar” e que não se afasta do mundo sensível. E falam de modos de se relacionar que envolvem não apenas um “trabalho de cuidado”, mas também afetos e tensões.

Références

DE LA CADENA, Marisol. Natureza incomum: histórias do antropo-cego. Revista Do Instituto De Estudos Brasileiros, (69), 95-117, 2018.

PUIG DE LA BELLACASA, Maria; BÖSCHEMEIER, Ana Gretel Echazú; ENGEL,Cíntia; GRECO, Lucrecia; FIETZ, Helena, «O pensamento disruptivo do cuidado», Anuário Antropológico [Online], v.48 n.1 | 2023, posto online no dia 28 abril 2023, consultado o 15 outubro 2023. URL: http://journals.openedition.org/aa/ 10539; DOI: https://doi.org/10.4000/aa.10539.

SANTOS, Antônio Bispo dos. Colonização, quilombos modos e significados. Brasília, 2015.

SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. Ubu editora, São Paulo, 2023.

Publiée

2024-12-30

Numéro

Rubrique

Ensaios Fotográfico