Idioma
Indicadores de violência contra docentes universitários: consenso transcultural pela Técnica Delphi
Alves AG1, Silva EAS2, Barbosa MA3, Cesar FCR4, Souza SO5, Oliveira LMAC6, et al.
1,2,3,4,5,6,7 - Universidade Federal de Goiás/UFG. Goiânia (GO), Brasil.
8 - Departamento de Enfermagem Fundamental e Clínica, Universidade de Barcelona. Barcelona(Catalunha), Espanha.
INTRODUÇÃO
Há evidências robustas de que o fenômeno da violência no ambiente escolar, contra estudantes ou docentes, tem representado um importante problema social em todo o mundo.1 Os estudos desenvolvidos que abordam a temática de violência no ambiente escolar são majoritariamente voltados à violência contra o aluno. Todavia, é premente considerar a vulnerabilidade do professor, especialmente nas últimas décadas, em que os discursos políticos e populares têm atribuído aos professores a responsabilidade por todo o processo educacional.2
Ademais, estudo que usou meta-análise identificou que 20% a 75% (média de 53%) dos professores sofreram algum tipo de violência nos últimos dois anos.1 No Brasil, professores são vítimas, semanalmente, de algum tipo de violência, evidenciando na literatura que o país ocupa lugar dentre os países com maior violência praticada contra professores.1,3-4 Esse contexto afeta, sobremaneira, a organização do clima e a qualidade do processo de ensino aprendizagem, e, por conseguinte, a saúde dos docentes.
Dada à complexidade cultural que molda as realidades globais, traduzidas ou não em melhores práticas contra a violência, compreender seu conceito ou significado se faz necessário para que sejam elaborados indicadores que contribuam no entendimento da violência no meio acadêmico, que possibilitem nortear as políticas públicas tanto no cenário brasileiro quanto no espanhol.
Nessa direção, estudo que verificou o tratamento legislativo concernente à prevenção e combate ao bullying no Brasil em relação às legislações de países como Finlândia, Espanha, Portugal e Estados Unidos constatou que a Espanha tem colocado em prática estratégias de prevenção contra a violência no ambiente escolar, como o desenvolvimento de planos de convivência que abrangem ações antibullying e punições aos autores para melhorar os relacionamentos interpessoais.3 Logo, medidas direcionadas ao combate da violência contra os docentes também precisam ser implementadas.
Dessarte, ainda que a violência no âmbito educacional seja estudada, são incipientes os estudos voltados à violência que incide em docentes do nível superior na área da saúde, muito possivelmente devido à inexistência de um consenso mundial no seu significado.5 Dessa forma, estudos que utilizam a técnica Delphi se mostraram apropriados à busca de consenso, pela possibilidade de estruturar a comunicação anônima entre especialistas específicos e geograficamente distantes, mas contribuindo igualmente.6
OBJETIVO
Definir indicadores de violência contra professores do Ensino Superior, em uma abordagem transcultural, utilizando-se a técnica do Delphi modificado.
MÉTODO
Trata-se de um estudo de abordagem mista norteado pela técnica Delphi que permite a utilização de diversas estratégias de pesquisa para a coleta e análise dos dados.7 Na abordagem quantitativa, foi utilizado o delineamento transversal descritivo e na qualitativa, descritivo e exploratório. Ademais, a base teórica utilizada para fundamentar a definição e categorização da violência contra professores está sustentada pelo referencial de Pierre Bourdieu.
O processo de realização das etapas do Delphi é sintetizado pela operacionalização por questionário rigorosamente elaborado, a ser respondido assincronicamente, por especialistas previamente selecionados, em dois ou mais ciclos de discussão, denominados rodadas.8 A primeira rodada carrega as questões abertas com espaço para justificativas.
As respostas recebem tratamentos estatísticos simples e associação de argumentos com os dados numéricos, que serão apresentadas aos pesquisadores nas rodadas seguintes, tantas quanto necessárias à saturação do processo por redução das divergências, até obtenção do consenso do grupo, identificado pelos pesquisadores por valores entre 65% a 100%.7
Em conformidade com a técnica Delphi, foram seguidas etapas operacionais, iniciando-se por uma revisão de escopo sobre as definições e características da violência contra o professor,9 onde os tipos de violência foram categorizados de acordo com o referencial teórico bourdieusiano, com a finalidade de identificar consenso e modelo conceitual de violência.
Neste estudo de consenso, adotou-se o Delphi modificado, em que, na primeira rodada, podem ser implementados grupos focais ou entrevistas, além da opção de submeter as respostas à análise de conteúdo, ou aplicação de formulário estruturado norteado por questões quantitativas ancoradas na literatura científica.7
O estudo foi conduzido no período de agosto a novembro de 2020 com especialistas em violência do Brasil e da Espanha, em um painel de três fases (rodadas). A análise das informações ocorreu concomitante à coleta de dados, sendo empregada abordagem quali-quantitativa, com questionário da pesquisa, portanto, semiestruturado em dois idiomas (português e espanhol), com perguntas abertas e fechadas. O produto foi submetido a um pré-teste com dois docentes da área que visou avaliar o constructo do questionário e assegurar objetividade e clareza.
Na estruturação das etapas, dois pesquisadores realizaram revisão da literatura para subsidiar a elaboração do questionário inicial e aplicaram um teste piloto. Posteriormente, foi realizada a seleção dos especialistas, preparação e lançamento do instrumento e identificação dos resultados. Os critérios de elegibilidade dos especialistas foram a qualificação profissional na área de violência, os sólidos saberes no meio acadêmico e a heterogeneidade dos participantes.
A seleção dos especialistas foi realizada pela técnica snowball até o alcance do número considerado suficiente para gerar informações relevantes.10 Assim, foram identificados via plataforma Lattes 38 potenciais participantes, sendo 32 no Brasil e seis na Espanha. Todos foram convidados, por e-mail, a participarem do estudo e responderem ao formulário por um link de acesso ao Google Forms.
Na primeira fase do estudo, os especialistas, ao entrarem na plataforma, eram orientados em relação ao questionário composto por respostas individuais, quantitativas e complementadas por informações qualitativas, atribuindo pontuação em escala de Likert com cinco níveis de respostas (discordo totalmente, discordo, indiferente, concordo e concordo totalmente), onde 1 e 5 são os extremos da discordância e da concordância, respectivamente.
Na segunda fase, a partir do retorno das respostas dos especialistas, ao serem identificadas por análise estatística, as questões com consenso foram mantidas e o instrumento final foi novamente revisado e reformulado pelos pesquisadores do estudo, concluindo as etapas de coleta dos dados.
Toda a coleta de informações realizou-se pelo software Welphi, o qual contém as ferramentas de análise das rodadas. O Welphi é um software de pesquisa online que operacionaliza a técnica Delphi, oportunizando a formulação de questionários para obtenção de opinião de várias pessoas. Além disso, ele possibilita a produção de estatísticas automáticas para análise de resultados que podem ser exportados em planilhas no Excel para a análise de elementos consensuais.11 Verificaram-se os indicadores, critérios e objetivos que alcançaram maiores e menores taxas de aprovação. O processo analítico dos dados quantitativos foi conduzido no software, aplicando-se uma análise estatística descritiva para sintetizar os resultados e identificar o consenso entre os especialistas.
O Welphi gera automaticamente estatísticas descritivas das respostas, como porcentagens de concordância, médias, medianas e desvio padrão, possibilitando uma análise precisa e rápida dos níveis de consenso entre os especialistas. Dessa forma, foi possível identificar os itens que atingiram o consenso mínimo estabelecido para inclusão na rodada seguinte. Ou seja, os itens que atingiram uma taxa de aprovação de 70% ou mais das respostas foram incluídos na próxima rodada até ser atingido o consenso. Foram respeitados os princípios do Delphi clássico - anonimato, interação, feedback controlado e as respostas estatísticas.7
Para comparar a estabilidade das respostas e identificar a convergência das opiniões entre as rodadas, foram feitas análises das mudanças nas médias e na dispersão dos itens entre os ciclos. Esse processo de retroalimentação e análise estatística, aliado ao anonimato dos especialistas, permitiu reduzir possíveis vieses e garantiu a consistência na construção do consenso.
Os dados finais foram organizados em tabelas e exportados para uma planilha do Microsoft Excel 365®, facilitando a verificação da frequência de respostas para cada tipo de violência e a categorização dos resultados conforme o referencial teórico adotado.
Na etapa qualitativa, realizou-se análise de conteúdo para criação das categorias, a posteriori, agrupando os itens de resposta de acordo com a Análise de Conteúdo.12 Nesta perspectiva, a autora elenca a mensagem das comunicações orais, escritas ou simbólicas como ponto de partida do procedimento de categorização, seguido de referencial e do aporte teórico metodológico do pesquisador. Este, por sua vez, terá como finalidade a produção de inferências que resultem em unidades de análise (de registro e de contexto) e suas limitações, inter-relacionando e interpretando os múltiplos e variados sentidos e significados implícitos nas comunicações, até concluir a análise definidora das categorias.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Goiás, CAAE: 08470819.3.0000.5083. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) de forma eletrônica, em conformidade com as recomendações da Resolução 466/2012 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, e foram codificados em números para preservar o anonimato.
RESULTADOS
Para atingir o consenso de violência contra os docentes, foram necessárias duas rodadas do Delphi, realizadas de forma participativa, interativa e assíncrona pelo software Welphi. A primeira rodada teve duração de 35 dias, iniciada com a participação de 38 especialistas em violência. Dos 19 que enviaram as respostas, 16 (84%) completaram o questionário, sendo 13 brasileiros e três espanhóis. Na segunda rodada, que teve duração de 15 dias, participaram 16 especialistas, e apenas 9 realizaram a devolução do questionário, mas completamente preenchido.
Ao fim da primeira rodada, as perguntas que obtiveram 70% ou mais de concordância foram reenviadas aos especialistas, assim como as novas questões que emergiram da pergunta aberta. Esse novo questionário foi respondido mais uma vez pelos participantes e reavaliado pelos pesquisadores. Importante destacar que somente uma pergunta, das oito que emergiram do questionário aberto, foi considerada consenso na segunda rodada.
Os itens da tabela 1 são os resultados de ambas as rodadas, que mostram a frequência de cada tipo de violência contra o docente.
Tabela 1. Itens que obtiveram consenso em ambas rodadas. Goiânia (GO), Brasil, 2021.
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Pergunta |
1ª rodada (n = 16) |
2ª rodada (n = 9) |
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Consenso (%) |
Consenso (%) |
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Intimidar, ameaçar, mencionando conteúdos inapropriados via e-mail e redes sociais é considerado violência? |
88% |
89% |
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O comportamento manipulador que visa isolar socialmente o professor, com intenção de exclusão, ignorar e não prestar atenção, é uma característica de violência contra o professor? |
94% |
89% |
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A fala desrespeitosa dos alunos contra o professor em sala de aula, como insultos pessoais, xingamentos, ridicularização, de forma insidiosa ou crônica, é uma característica de violência contra o professor? |
94% |
89% |
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Ameaça/tentativa/agressão real, com ou sem o uso de arma, como empurrão, arremesso de objetos e ataques com contato físico, independentemente de resultar na necessidade de atendimento médico, é uma característica de violência contra o professor? |
100% |
78% |
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Qualquer tipo de ameaça ou agressão associados à motivação homofóbica, como comentários sexuais explícitos e/ou gestos obscenos, toques indesejados e xingamentos, individualmente ou diante dos demais, é uma característica de violência contra o professor? |
88% |
89% |
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Ser coagido pela família do aluno é uma característica de violência contra o professor? |
NA* |
78% |
* Nenhuma alternativa
Após análise, o ranking das perguntas de pesquisa durante as duas rodadas, os itens obtidos, foram agrupados em seis categorias. A classificação das perguntas mostrou tendências próximas em ambas as rodadas. Somente o reducionismo dos valores sociais foi identificado na primeira rodada com o maior grau de consenso e na segunda rodada classificado como um dos menores, como se observa na tabela 2.
Tabela 2. Ranking dos tipos de violência contra o docente. Goiânia (GO), Brasil, 2021.
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Uso das TICs* e a violência |
A Supressão docente |
Autocracia discente |
Reducionismo dos valores sociais |
Motricidade homofóbica |
Coação pela família |
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1ª rodada |
88% |
94% |
94% |
100% |
88% |
NA** |
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2ª rodada |
89% |
89% |
89% |
78% |
89% |
78% |
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* TICs: Tecnologias da Informação e Comunicação
** Nenhuma alternativa
DISCUSSÃO
A discussão dos resultados encontrados é apresentada nas categorias que emergiram das respostas abertas dos especialistas assim denominadas: Uso das Tecnologias da Informação e Comunicação e da violência; A supressão docente; Autocracia discente por violência explícita; Reducionismo dos valores sociais; Motricidade homofóbica; e Coação familiar.
Uso das Tecnologias da Informação e Comunicação e da violência: nesta categoria identificou-se que as tecnologias da informação e comunicação no ensino, utilizadas por meio de computadores pessoais, celulares, entre outros dispositivos com acesso à internet, se tornaram ferramentas que auxiliam no processo de ensino-aprendizagem do aluno e favorecem a autonomia da aprendizagem.13 Entretanto, essas ferramentas podem ser um canal em que a violência pode ser produzida e exercida, sendo o cyberbullying ou a cyber violência uma nova expressão de intimidação e assédio psicológico e sexual que exerce violência real em pessoas que a recebem.14
Sobre o fenômeno das TICs em sala de aula, é importante refletir sobre que tipo de autonomia esses recursos estão produzindo, uma autonomia intelectual, ou deixar os aprendizes livres para fazerem o que quiserem? Assim, é imprescindível que o uso dessas ferramentas esteja alinhado aos objetivos das aulas e da disciplina como um todo, para que a sua manipulação não seja associada a atos de violência contra os docentes e demais atores sociais importantes no processo de ensino e aprendizagem, como os colegas de classe e profissionais que trabalham em serviços administrativos e de suporte educacional.
A internet é utilizada por pessoas cada vez mais jovens, em consequência, a violência cibernética ou a prática do cyberbullying também tem ocorrido mais cedo, geralmente, iniciando por volta dos 10 a 13 anos. Essa escalada da violência tem ocorrido, principalmente, devido ao aumento do tempo de uso dos dispositivos eletrônicos.15
A afirmativa de que violências através das tecnologias da informação e comunicação englobam ações de dominação, discriminação e abuso de poder, podem ser exercidas por todos e acarretar problemas psicológicos, confirma os conceitos que dão luz a esta categoria de violência contra o docente: intimidar, ameaçar, mencionar conteúdo impróprios via e-mail e redes sociais.15
Nesse tipo de violência, as pessoas também convivem com certa permissividade por parte dos espectadores do evento. Ao não fazer nada ou colocar-se em posição de outsider na realização do cyberbullying, pode ser um reforço do próprio bullying e de torná-los cúmplices da violência.14
Dessa forma, a violência contra docentes por meio das TICS precisa ser levada em consideração por todas as pessoas que estão envolvidas no processo de ensino e aprendizagem. Apesar dos benefícios dessas ferramentas para a construção do conhecimento por meio de jogos eletrônicos, quiz de respostas sobre o conteúdo ministrado, entre outras funções, o estudo evidenciou que, quando usados de forma negativa, esses recursos são utilizados de forma hostil pelos alunos para agredirem os educadores. Logo, é necessário um olhar mais sensível para esse fenômeno no cotidiano universitário, dentro e fora das salas de aula.
Na categoria supressão docente, observou-se que o convívio entre aluno-professor tende a aumentar a confiança e fortalecer as relações entre eles. Por isso, a afetividade, já considerada fator protetor em qualquer relação, é igualmente imprescindível nas relações pedagógicas. Os sentimentos de segurança e proteção que a envolvem são positivos e auxiliam no alcance do objetivo educacional pretendido.16
Quando verificada neste estudo, esta relação como um fator negativo manifestada por exclusão do professor, ignorar o mesmo em sala de aula, entre outros, foi caracterizada como violência. Assim, é necessário que, além de conhecimento específico sobre a disciplina que ministra, é premente que os docentes de ensino superior desenvolvam a competência (conhecimentos, habilidades e atitudes) interpessoal para lidar de forma eficaz com essas situações aversivas, pois relações saudáveis potencializam a construção de novos saberes e também inspiram os alunos a terem maior afinidade pela matéria ensinada.
Essas formas de violência são recorrentes em todos os níveis de ensino, e há evidência de os professores que já experienciaram algum tipo de violência terem maiores chances de vivenciar novamente.4
Os alunos de pós-graduação tendem a interagir mais com seus professores. Como as turmas são menores, a natureza dos cursos de Stricto e Lato Sensu permite melhor interação entre professor-aluno, podendo essa relação se estender para a vida pessoal.16 Acredita-se que a maturidade do perfil dos alunos também esteja associada a situações menos agressivas contra o professor, porém muitas vezes a relação estabelecida entre professor-aluno, pelo menos na enfermagem, é entendida e percebida mais como uma relação entre colegas de profissão.
O comportamento menos manipulador do aluno tende a acontecer com professores do mesmo gênero, pois esses se sentem mais à vontade em interagir com autoridades do mesmo gênero que o seu, melhorando a qualidade das interações e diminuindo as consequências de ações negativas. Já as interações positivas entre professor-aluno levam ao aumento da confiança e intimidade, podendo promover a colaboração entre eles.16
Além da evidência da violência física, a violência social é outra categoria frequente na lida diária de professores, o que levou à denominação da categoria Autocracia discente por violência explícita, qualificada também pela utilização de termos específicos na visão dos alunos, como apelidos e codinomes pejorativos que atingem a imagem docente.4
Isto se confirma nos conceitos que originaram essa categoria, representados por “fala desrespeitosa dos alunos contra o professor em sala de aula, como insultos pessoais, xingamento, ridicularização, de forma insidiosa ou crônica”.
O espaço da escola é um campo dotado de autonomia relativa e vinculado à construção de uma sociedade mais justa e igualitária. É espaço de pertença do indivíduo, onde relações são estabelecidas e os sujeitos incentivam e estimulam a transformação pessoal e ambiental. Por vezes, esse campo de aprendizagem formal torna-se palco hostil de expressões e atos violentos contra o professor, como reflexos da classe social a que pertencem os alunos, das comunidades em que estão inseridos ou da família da qual fazem parte.17
Na visão de alguns professores, o desrespeito dos alunos para com o docente é decorrência do não cumprimento das regras e da desvalorização social da escola e do professor.4,18 Logo, há necessidade de além do ensino de conteúdos teóricos e práticos que auxiliarão os aprendizes para a sua vida profissional, assuntos relacionados às relações interpessoais e sociais também precisam ser trabalhados para que, em qualquer ambiente em que estejam inseridos, comportamentos como respeito às diferenças, tolerância e cordialidade possam ser exercidos.
Há constatação de que violência é o contrário de poder, pois é o que o limita e o que o testa, com destaque para a importância da autoridade na formação dos mais jovens, ao sustentarem a orientação às novas gerações pelos mais experientes, como pais e professores, em prol da continuidade da civilização por meio da manutenção das estruturas reguladoras da vida em coletividade e da preservação de bens culturais historicamente conquistados.19
No entanto, a autoridade em relação aos alunos difere no decorrer do tempo, pois, sendo outros os discentes, são outras as necessidades e/ou prioridades, as relações mudam, se organizam de outras formas, e as figuras de autoridade adquirem outros sentidos. Atribuem a mudança às transformações ocorridas na sociedade, na família e na escola, sobretudo pela democratização do acesso à informação, do aumento dos direitos sociais e da globalização, que constituem novo modo de viver e de se relacionar.4,20
Nessa perspectiva, quando o aluno, de classe social abastada ou não, se permite agredir explicitamente o professor por palavras desrespeitosas, xingamentos ou outras formas, a violência verbal e social é desvelada, desnuda-se a autocracia discente por violência explícita, o que enfraquece a autoridade docente.20
Por conseguinte, refletindo em teorias bourdieusianas, notamos que quando a violência é praticada pelo aluno utilizando a mesma linguagem do seu cotidiano em sala de aula, pode mascarar a violência, fazendo-a residir no campo simbólico.17
No entanto, quando percebida pelo professor evidenciado em seu mundo real, não só o professor é prejudicado, como também a escola e todos os seus alunos, pois o nível de estresse é aumentado, podendo reverter em atitudes agressivas e adoecimento físico e/ou mental que ocasiona sérias consequências no ensino-aprendizagem do alunato.21
Isto porque, apesar da violência explícita pelo aluno dirigida ao professor, falta um sistema rápido de notificação e informação da violência, que dificulta o monitoramento da ocorrência deste tipo de evento, que pressiona a categoria docente a permanecer em sala de aula exposta a ambientes conflituosos e de alta exigência laboral.4
Uma das formas de caracterizar a violência do aluno contra o professor é quando esse provoca ações agressivas repetidas vezes durante um curto período. Pela categoria Reducionismo dos valores sociais, foi possível verificar que esses comportamentos violentos podem acontecer de forma verbal, física, patrimonial, por meio de coerção social e comportamentos manipuladores com o intuito de isolar o professor.4,22
Evidências de que 80% dos professores já sofreram algum tipo de violência no trabalho confirmam que as agressões contra o professor provocam impactos em outros âmbitos da vida, como emocional, psicológico e profissional. Assim, além das experiências negativas com as agressões, o professor também vivencia o medo, tanto de sofrer uma violência quanto de revivenciá-la.22
Uma das estratégias para prevenção de violência é o professor fornecer apoio ao aluno, o que pode levar à redução da agressão verbal e atua como prevenção de agressões,4 pois ao cometer violência contra o docente, muitas vezes o aluno está reproduzindo a agressão que também sofreu, portanto, é importante que ocorra o acolhimento de ambas as partes.
Dados da categoria Motricidade homofóbica confirmam que a diversidade cultural tende a ser abordada nos programas educacionais em todos os países. Entretanto, a abordagem não é capaz, por si só, de provocar mudanças nas crenças e concepções dos alunos.23 Por mais que se possa trabalhar em um ambiente considerado “amigável”, isso não significa que ele será acolhedor e inclusivo.4
Ambientes, como os de ensino, podem se apresentar tranquilos, mas os comportamentos negativos de alguns colegas de trabalho podem torná-lo hostil.4 Debater a homofobia nesses locais pode reprimir conflitos, mas não os elimina, podendo levar a casos de violência.23
Há a necessidade de implementar programas anti-LGBTQIA+fobia em todos os países,23 pois existem relatos de pessoas que perderam o emprego por medo de ir trabalhar devido ao ambiente ter se tornado um estressor e interferir negativamente na saúde dos trabalhadores.24 Já se identificou que maus tratos no ambiente de trabalho, como bullying e discriminações, deixam o ambiente de trabalho menos colaborativo, o profissional mais esgotado e com mais atitudes negativas. Além disso, no ambiente de aprendizagem, as vítimas de violência tendem a trabalhar mais horas por semana para evitar novos maus tratos no futuro, pois aqueles que trabalham menos horas, por vezes, são considerados menos habilidosos e eficientes, tornando-se mais susceptíveis a repreensões.24
A relação profissional-família está diretamente ligada à satisfação profissional dos professores, e a conciliação entre esse binômio favorece o trabalho,25 entretanto, essa relação com a família dos alunos pode configurar, muitas vezes, violência contra o professor. Esse é o tema abordado pela categoria Coação familiar.
A família, como unidade social básica, tem papel importante para prover condições sociais, afetivas e econômicas para a manutenção do estudante no seu processo de formação. No entanto, a depender da forma como se apresenta e se recebe, esse aprovisionar pode simbolizar relação de poder entre os membros familiares e caracterizar carga positiva e/ou negativa na jornada estudantil.25
Indivíduos e famílias são grupos complexos que precisam de cuidados integrados, tornando-se fundamental que o professor compreenda a família como parte do contexto em que os estudantes se encontram, uma vez que muitos estudantes que moram em alojamentos próximos às instituições de Ensino Superior, e não com os pais, têm maior vínculo com o professor.16 Esse dado permite inferir que professor e família podem ocupar papéis próximos na vida do estudante, ao se tornarem referência para suporte de necessidades acadêmicas e pessoais. Contudo, essa proximidade de papéis pode facilitar conflitos entre pais e professores.
Cabe ressaltar aspectos metodológicos que limitaram o estudo, como a taxa de resposta da segunda rodada inferior à primeira. Essa característica já é esperada da técnica Delphi, e teria sido útil coletar dados sociodemográficos dos participantes a fim de descrevê-los. Ademais, outro desafio na implementação do estudo foi a participação de docentes universitários, tendo em vista a sobrecarga de trabalho destes profissionais. Para mitigar essas limitações, o estudo incluiu lembretes aos participantes entre as rodadas e testou o questionário previamente com especialistas, visando garantir clareza e objetividade nas respostas.
Embora o estudo tenha envolvido especialistas do Brasil e da Espanha para alcançar uma perspectiva transcultural sobre a violência contra docentes, a amostra limitada e o foco no consenso geral restringem a possibilidade de comparações diretas entre os países. As análises centraram-se nas categorias comuns de violência identificadas entre os especialistas, independentemente de seu contexto geográfico.
CONCLUSÃO
Este estudo, a partir da participação de especialistas espanhóis, ampliou o conceito transcultural de violência. Identificaram-se como indicadores de violência contra o docente qualquer ato de ameaça/tentativa/agressão real, bem como ignorar ou desrespeitar por meio da fala o professor, praticar ações de assédio sexual, homofobia, receber coação da família do aluno, ou até mesmo utilizar meios de informação e comunicação para praticar tais atos.
Os resultados do estudo fornecem indicadores claros de violência contra docentes, que podem embasar políticas públicas e práticas institucionais voltadas à criação de ambientes educacionais mais seguros e de apoio aos professores. Esses indicadores servem como referência para intervenções específicas, promovendo ações de prevenção e proteção no contexto acadêmico.
Os indicadores identificados viabilizam ações práticas tanto no nível individual, com programas de apoio e capacitação para que docentes lidem com situações de violência, quanto no nível organizacional, por meio de políticas institucionais de prevenção e intervenção. Essas ações podem ser traduzidas em protocolos e treinamentos que promovam um ambiente acadêmico mais seguro e acolhedor. Além disso, os indicadores permitem que docentes, gestores, atores sociais da comunidade acadêmica e lideranças políticas ampliem o entendimento sobre os fatores que intensificam a violência contra professores, fornecendo uma base sólida para a construção de intervenções e políticas públicas voltadas ao acolhimento desses profissionais essenciais.
Ao identificar e categorizar os indicadores de violência, o estudo fornece uma base sólida para futuras pesquisas sobre o tema, permitindo uma compreensão mais aprofundada dos tipos de violência enfrentados pelos docentes universitários e suas implicações. Isso contribui para o avanço do conhecimento científico ao expandir o entendimento sobre a violência no ambiente acadêmico e fornecer insights para o desenvolvimento de políticas e intervenções eficazes para prevenir e lidar com esse problema.
Para entender melhor as possíveis particularidades culturais, futuros estudos poderiam envolver uma amostra maior e mais equilibrada entre os países, possibilitando comparações mais detalhadas dos indicadores de violência conforme as diferentes realidades educacionais e culturais.
CONTRIBUIÇÕES
Angela Gilda Alves e Sara Oliveira Souza contribuíram para todas as etapas de produção do artigo: concepção, análise e interpretação dos dados, redação, revisão crítica do conteúdo e aprovação final da versão a ser publicada. Flaviane Cristina Rocha Cesar e Johnatan Martins Sousa contribuíram para a redação, revisão crítica e aprovação final da versão a ser publicada. Lizete Malagoni de Almeida Cavalcante Oliveira e Maria Alves Barbosa contribuíram para a revisão crítica do conteúdo e aprovação final da versão a ser publicada. Edinamar Aparecida Santos da Silva e Dolors Rodríguez-Martín contribuíram para a análise e interpretação dos dados, redação, revisão crítica do conteúdo e aprovação final da versão a ser publicada.
CONFLITO DE INTERESSES
Nada a declarar.
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Correspondência
Angela Gilda Alves
E-mail: angelagildaalves@gmail.com
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