Idioma
Desafios da assistência de enfermagem ao período gravídico-puerperal de mulheres com surdez: revisão integrativa
INTRODUÇÃO
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que existam 466 milhões de indivíduos com perda auditiva bilateral moderada a profunda em todo o mundo, dos quais dois terços vivem em países em desenvolvimento.1 No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2015 indicam que aproximadamente 28 milhões de pessoas possuem deficiência auditiva, representando 14% da população brasileira.2,3 A maioria dos indivíduos surdos utiliza a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) para se comunicar e se autodefine como uma comunidade linguística e cultural, onde a perda auditiva é considerada uma identidade em vez de uma deficiência.2-4
Considera-se surda a pessoa com perda auditiva bilateral, parcial ou total, de 41 decibéis (dB) ou mais, que interage com o mundo por meio de experiências visuais e do uso de LIBRAS.2-3 O Estatuto da Pessoa com Deficiência assegura a esse grupo o direito de acesso aos serviços de saúde e às informações por meio de recursos tecnológicos e diversas formas de comunicação, incluindo LIBRAS, conforme previsto no artigo terceiro, inciso quinto.2-3
O Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, reconhece oficialmente a LIBRAS e determina a implementação da assistência à saúde dessa população na rede de serviços públicos e privados, realizada por profissionais capacitados no uso ou interpretação de LIBRAS.2-3 Contudo, essa população ainda enfrenta dificuldades no acesso aos serviços de saúde, especialmente devido às barreiras de comunicação e desafios na obtenção de informações em fontes habituais de cuidado, resultando em desigualdades e marginalização nos recursos de promoção da saúde.2,4-6
Estudos revelam que, apesar de ser um direito, o atendimento individualizado e de qualidade ao paciente surdo enfrenta desafios para ser humanizado e integral devido à comunicação restrita. Estratégias como escrita, leitura labial, gesticulações e presença de acompanhantes familiares são adotadas, porém a ausência do uso de LIBRAS por profissionais de saúde, especialmente da equipe de enfermagem, fragiliza a comunicação e interação com o paciente, comprometendo o acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência.5-8
As fragilidades na comunicação com a população surda limitam a assistência em saúde, ocasionando baixa resolutividade de problemas e falta de vínculo entre enfermeiro e paciente. A comunicação é um dos instrumentos mais valiosos na prestação de cuidado pelo enfermeiro, permitindo compreender a inserção do paciente no meio social, suas crenças, anseios e necessidades, com o objetivo de minimizar desconfortos durante o processo de cuidado. O enfermeiro tem a responsabilidade ético-legal de proporcionar cuidados de saúde a usuários surdos de forma equivalente aos demais, por meio de comunicação efetiva, autonomia e sigilo.9-10
Observa-se que a assistência à saúde ao cidadão surdo não corresponde ao que as leis vigentes garantem, sendo que a mulher com deficiência auditiva é frequentemente considerada incapaz pela sociedade, sofrendo preconceitos e desigualdades.9-10 No contexto da assistência a gestantes e puérperas, essa realidade é ainda mais acentuada, pois essas mulheres necessitam de cuidados específicos e individualizados. Atualmente, elas estão escolhendo vivenciar a maternidade de forma consciente, tornando essencial que os cuidados durante a gravidez, parto e pós-parto sejam intensificados para ajudá-las a superar os obstáculos impostos pela limitação auditiva e pela própria gestação.10-11
Na prática, há disparidades nos serviços de saúde quando se compara a assistência prestada a mulheres surdas e não surdas. O enfermeiro, por estar em contato direto e diário com o paciente, desempenha um papel crucial, porém muitos profissionais de enfermagem não estão suficientemente preparados para cuidar dessa população, devido à falta de conhecimentos básicos ou contato prévio com LIBRAS, o que compromete a qualidade do atendimento.11-12
Diante disso, é fundamental aprofundar as discussões sobre essa temática, pois existe uma lacuna significativa referente à assistência a mulheres grávidas, parturientes e puérperas com surdez. O desenvolvimento de estudos nessa área é essencial para construir conhecimentos que possam ser incorporados à prática e servir de base para a elaboração de políticas públicas direcionadas.11-12
OBJETIVO
Este estudo tem por objetivo identificar na literatura, os desafios da assistência de enfermagem ao período gravídico-puerperal de mulheres com surdez, e as repercussões à saúde materna.
MÉTODO
Trata-se de uma revisão integrativa de literatura, um método que permite apresentar diversas perspectivas sobre um determinado fenômeno, seguindo rigor metodológico.13
Para o desenvolvimento da pesquisa, foram estudadas principalmente as variáveis referentes ao tipo de assistência prestada e à percepção das pacientes sobre os cuidados recebidos durante o período gravídico-puerperal, por meio de uma análise qualitativa.
Esta revisão foi elaborada em seis etapas metodológicas: 1) identificação da pergunta de revisão; 2) busca na literatura; 3) estabelecimento de critérios para inclusão e exclusão; 4) categorização dos estudos; 5) avaliação dos estudos incluídos na revisão integrativa; e 6) interpretação dos resultados e apresentação da revisão/síntese do conhecimento.13-14
Na primeira etapa do estudo, utilizou-se o acrônimo PCC (População: “mulheres”; Conceito: “gravidez”; Contexto: “surdez”) para formular a pergunta de pesquisa. A pergunta elaborada foi: “Quais os desafios da assistência de enfermagem no período gravídico-puerperal de mulheres com surdez e suas repercussões na saúde materna?”
Foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) para as bases de dados nacionais e os Medical Subject Headings (MeSH) para as internacionais. Os descritores controlados usados foram: “surdez/ deafness/ sordera”, “mulheres/ women/ mujeres”, “gravidez/ pregnancy/embarazo”, “parto/ delivery” e “período pós-parto/ postpartum period/ período posparto”.
A busca pelos artigos foi realizada nos meses de novembro e dezembro de 2022. As bases de dados consultadas incluíram PubMed, CINAHL, LILACS, Embase e Cochrane Library. Para o cruzamento entre os descritores, foram utilizados os operadores booleanos OR e AND.
Na terceira etapa, os critérios de inclusão definidos foram: artigos publicados na íntegra, disponíveis eletronicamente e de forma gratuita, nos idiomas português, inglês e/ou espanhol. Foram excluídos editoriais, cartas ao editor, dissertações, teses, relatos de experiência e estudos reflexivos. Não foi estabelecido limite temporal de publicação, para abranger o maior número possível de publicações.
Para a categorização dos estudos que atenderam aos critérios desta pesquisa, seguiu-se as recomendações propostas pelo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). As informações dos estudos foram extraídas em um processo de quatro etapas: identificação, triagem, elegibilidade e inclusão (Figura 1).
Figura 1. Fluxograma das etapas de seleção dos artigos. Bandeirantes (PR), Brasil, 2022.

A partir do cruzamento dos descritores, 383 artigos foram inicialmente selecionados para leitura. Destes, 35 eram duplicados, identificados com o auxílio do software State of the Art through Systematic Review. Assim, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos de 348 artigos, dos quais 32 foram selecionados para a leitura na íntegra. Ao final, 7 artigos foram incluídos.
Para a quinta etapa desta pesquisa, os estudos selecionados para compor a revisão integrativa foram submetidos à leitura em pares. Em casos de discordância entre os autores, os artigos eram encaminhados para avaliação de um terceiro revisor. Posteriormente, foi realizada a leitura na íntegra dos estudos que atenderam aos critérios de inclusão e ao objetivo da pesquisa.
Na sexta etapa, os dados foram analisados e apresentados em forma de tabelas, contendo a síntese dos artigos selecionados, organizados da seguinte maneira: 1) caracterização dos estudos incluídos (ID, título, periódico, ano, país, desenho e amostra); 2) características associadas à assistência de enfermagem (período gravídico-puerperal, assistência de enfermagem, percepção da paciente); e 3) principais resultados (objetivo do estudo, principais achados e conclusões).
Para a interpretação dos resultados e a apresentação da revisão, optou-se por discutir os achados com base nos temas convergentes identificados nos artigos. O conteúdo extraído dos artigos que compuseram a amostra foi integrado aos resultados e à discussão deste estudo. Ressalta-se que os princípios éticos foram rigorosamente seguidos, com a devida citação dos autores e a verificação de que os estudos envolvendo seres humanos possuíam a aprovação de um comitê de ética em pesquisa.
RESULTADOS
Os resultados desta pesquisa são apresentados a seguir em tabelas que abordam a caracterização dos estudos mencionados no artigo, as características da assistência de enfermagem no ciclo gravídico-puerperal e os principais resultados obtidos por meio desta revisão.
Quanto à caracterização dos estudos, o American Journal of Preventive Medicine foi o periódico com o maior número de publicações. As amostras variaram entre 1 e 6.745.201 participantes, e a maioria das publicações (85,7%) teve origem internacional, com apenas uma publicação nacional (Quadro 1).
Quadro 1. Caracterização dos estudos. Bandeirantes (PR), Brasil, 2022.
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ID |
Título |
Periódico |
Ano |
País |
Desenho |
Amostra |
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65 |
Pregnancy Outcomes Among Deaf Women in Washington State, 1987–201213 |
The American College of Obstetricians and Gynecologists |
2017 |
Estados Unidos da América |
Coorte retrospectivo |
645 |
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1815 |
Acolher e escutar o silêncio: o cuidado de enfermagem sob a ótica da mulher surda durante a gestação, parto e puerpério14 |
Revista de pesquisa Cuidado é Fundamental Online |
2018 |
Brasil |
Descritivo exploratório |
9 |
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1925 |
Differences in Prenatal Care by Presence and Type of Maternal Disability15 |
American Journal of Preventive Medicine |
2019 |
Estados Unidos da América |
Coorte retrospectivo |
6.745.201 |
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1945 |
Promoting Best Practice for Perinatal Care of Deaf Women16 |
Nursing for Women's Health |
2018 |
Estados Unidos da América |
Descritivo |
5 |
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1961 |
"They must understand we are people": Pregnancy and maternity service use among signing Deaf women in Cape Town17 |
Disability and Health Journal |
2017 |
África do Sul |
Transversal |
42 |
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ID |
Título |
Periódico |
Ano |
País |
Desenho |
Amostra |
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1973 |
Birth Outcomes Among U.S. Women With Hearing Loss18 |
American Journal of Preventive Medicine |
2016 |
Estados Unidos da América |
Transversal |
10.462 |
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2087 |
Family-centered maternity care for deaf refugees: the patient-centered medical home in action19 |
Families, Systems, & Health |
2009 |
Estados Unidos da América |
Estudo de caso |
1 |
A análise dos artigos revelou que dois deles (28,6%) abordaram gestação e puerpério, dois trataram apenas da gestação (28,6%), e três focaram na gestação e parto (42,8%). Cinco estudos (71,4%) identificaram a ausência de serviços de intérpretes e barreiras na comunicação como principais empecilhos no cuidado às mulheres com surdez. Em contraste, outros dois estudos (28,6%) relataram desfechos favoráveis devido à presença de intérpretes durante as consultas (Quadro 2).
Quanto à percepção das pacientes sobre os cuidados recebidos, quatro estudos (57,1%) não mencionaram essa questão. Nos três estudos (42,9%) que o fizeram, foram destacadas a ausência de intérpretes, a falta de conhecimento em LIBRAS por parte dos profissionais, além de dificuldades como a rapidez da fala, que dificulta a leitura labial, a impaciência e grosseria da equipe de saúde, e o uso de máscaras, que limitam a comunicação (Quadro 2).
Quadro 2. Características associadas à assistência de enfermagem no ciclo gravídico-puerperal. Bandeirantes (PR), Brasil, 2022.
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ID |
Período gravídico-puerperal |
Assistência de enfermagem |
Percepção da paciente |
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65 |
Gestação e puerpério13 |
Serviços de intérprete não estão disponíveis de forma consistente em alguns hospitais, o que pode estar relacionado ao aumento dos dias de internação pós-parto vaginal. |
Não menciona. |
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1815 |
Gestação e puerpério14 |
Foi unânime o relato das participantes sobre o pouco contato com a equipe de enfermagem durante a gestação. Esse problema também ocorreu durante o parto, puerpério e nas orientações sobre amamentação, relacionado diretamente às barreiras de comunicação entre essas pacientes e os profissionais. |
As entrevistadas apontaram a falta de intérprete, a dependência de um acompanhante, a falta de conhecimento dos profissionais sobre LIBRAS, a rapidez na fala dos profissionais e o uso de máscaras, que dificultaram a leitura labial. |
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1925 |
Gestação 15 |
Mulheres com audição limitada tiveram um atraso no início do pré-natal e um baixo número de consultas realizadas, diretamente ligados aos desafios na obtenção de intérpretes, evidenciando uma assistência precária. |
Não menciona. |
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1945 |
Gestação e parto16 |
As participantes relataram experiências positivas, como a presença de intérpretes durante a assistência, e negativas, como o uso de máscaras pelos profissionais de saúde e a falta de paciência. |
Houve relatos de impaciência por parte dos profissionais. As participantes também expressaram insatisfação quanto à realização dos exames de audição em recém-nascidos e à comunicação com os pais. A demora para conseguir intérpretes também foi um problema apontado. |
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ID |
Período gravídico puerperal |
Assistência de enfermagem |
Percepção da paciente |
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1961 |
Gestação e parto17 |
Cerca de 38% das participantes mencionaram barreiras linguísticas, e 15% mencionaram maus-tratos.
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Evidenciaram-se problemas na comunicação devido aos serviços de interpretação limitados e ao uso de terminologias difíceis. Além disso, 15% das participantes relataram grosseria, gritos e negligência. |
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1973 |
Gestação e parto18 |
Mulheres com surdez apresentaram maior probabilidade de parto prematuro e recém-nascidos com baixo peso ao nascer, evidenciando a necessidade de mais estudos e programas direcionados ao cuidado integral dessa população. |
Não menciona. |
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2087 |
Gestação 19 |
O estudo apontou uma maior qualidade da assistência devido à presença de intérpretes e à atenção individualizada dos profissionais envolvidos no atendimento. |
Não menciona. |
Os resultados também indicaram um aumento nos índices de partos prematuros entre mulheres surdas (28,6%). Um dos estudos demonstrou que gestantes surdas apresentam maior risco de não receberem a quantidade mínima de consultas pré-natais. Os estudos destacaram a importância da compreensão da cultura surda, da implementação de serviços de interpretação e da capacitação profissional como fatores essenciais para superar as barreiras de comunicação (42,8%) (Quadro 3).
Quadro 3. Principais resultados dos artigos analisados. Bandeirantes (PR), Brasil, 2022.
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ID |
Objetivo |
Principais resultados |
Conclusão |
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65 |
Avaliar os desfechos gestacionais e neonatais de mulheres surdas, utilizando dados de registros vitais de base populacional, no Estado de Washington, de 1987 a 2012.13 |
Foi identificado um risco modestamente aumentado de parto cesáreo para mulheres surdas, além de um aumento no risco de parto prematuro e baixo peso ao nascer. |
Mulheres surdas apresentam risco aumentado para parto prematuro e baixo peso ao nascer. |
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1815 |
Identificar a percepção da mulher surda sobre os cuidados de enfermagem durante a gravidez, parto e puerpério.14 |
Equipe de enfermagem despreparada, falta de intérpretes no serviço, profissionais que falam muito rápido e o uso de máscaras dificultaram a comunicação. |
A barreira de comunicação é um problema evidente na interação entre mulheres surdas e profissionais de saúde. |
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1925 |
Examinar e descrever o momento e a frequência do cuidado pré-natal entre mulheres com deficiência física, sensorial ou intelectual, em comparação com mulheres sem deficiência.15 |
Mulheres com deficiência auditiva, visual ou intelectual tiveram menor acompanhamento pré-natal do que o recomendado. |
Intervenções específicas para mulheres surdas são necessárias para melhorar a aceitação do cuidado pré-natal.
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ID |
Objetivo |
Principais resultados |
Conclusão |
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1945 |
Avaliar o cuidado de enfermagem perinatal para mulheres surdas, usando a estrutura de Educação de Qualidade e Segurança para Enfermeiros (QSEN) para analisar as respostas das mulheres e explorar as implicações para a prática.16 |
A estrutura QSEN foi considerada a mais adequada para analisar as respostas e traduzir para a prática de enfermagem. |
Uma maior compreensão da cultura surda e o uso de tecnologias acessíveis são essenciais para as melhores práticas no cuidado. |
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1961 |
Descrever e comparar os resultados da gravidez e o uso do serviço de maternidade entre mulheres surdas, sinalizadoras em idade fértil, na Cidade do Cabo, com a população do Cabo Ocidental na África do Sul.17 |
Serviços de interpretação limitados e relatos de maus-tratos no hospital. |
A melhoria dos cuidados requer a implementação de serviços de interpretação. |
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1973 |
Estimar a ocorrência nacional de partos em mulheres com perda auditiva e comparar os resultados do parto com mulheres sem perda auditiva.18 |
Mulheres com perda auditiva tiveram maior probabilidade de parto prematuro. |
O estudo revela disparidades significativas nos resultados de nascimento entre mulheres com e sem perda auditiva. |
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2087 |
Apresentar a experiência na aplicação dos princípios da Casa Médica Centrada no Paciente (PCMH) no cuidado de um casal de refugiados vietnamitas recém-imigrados sem habilidades formais de idioma.19 |
A presença de intérpretes durante todo o trabalho de parto, parto e reparo pós-parto foi fundamental. |
A presença de intérpretes, o cuidado centrado no paciente e uma equipe multidisciplinar são essenciais para superar as barreiras de comunicação. |
DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo indicam que a principal dificuldade na assistência à saúde de mulheres surdas durante o período gravídico-puerperal está relacionada à comunicação ineficaz entre as pacientes e os profissionais de enfermagem, principalmente devido à ausência de intérpretes durante os atendimentos.15 Essa lacuna comunicativa gera a necessidade de que a mulher com deficiência auditiva esteja sempre acompanhada, o que pode prejudicar o vínculo entre profissional e paciente, resultando em omissões, impaciência e uma assistência menos resolutiva e eficaz.15-16
Um dos estudos incluídos na revisão (ID: 1815) trouxe relatos de mulheres surdas que evidenciam essa realidade: “As enfermeiras não sabem LIBRAS e não têm paciência” e “É difícil ter que levar minha mãe em todo lugar que eu vou. Os profissionais deviam saber LIBRAS”.15-19
Outro estudo (ID: 65) destacou um efeito significativo dessa falta de comunicação: o aumento dos dias de internação pós-parto vaginal e o prolongamento do período de internação para mulheres com surdez: “Mulheres surdas tiveram um risco moderadamente aumentado de hospitalização por 4 ou mais dias após o parto vaginal”. Outras repercussões negativas incluem dificuldades na amamentação devido a orientações ineficientes, atraso e baixa adesão ao pré-natal, e aumento dos riscos de prematuridade .17-18
A baixa adesão ao pré-natal é outro fator negativo que impacta a assistência a gestantes e parturientes surdas. Um estudo (ID: 1925) indicou que mulheres com deficiência auditiva tendem a iniciar o pré-natal mais tardiamente e a receber menos cuidados durante a gestação, ficando atrás apenas das mulheres com deficiências intelectuais e de desenvolvimento em termos de qualidade assistencial.17, 18-20
Embora haja a ausência de intérpretes e profissionais capacitados para comunicar-se com pacientes surdas, estratégias alternativas como leitura labial, presença de acompanhante e escrita manual são utilizadas. No entanto, pesquisas (ID: 1815, 1961, 1945) mostraram que essas técnicas são ineficazes, pois a presença de um acompanhante frequentemente limita a privacidade, e a leitura labial é dificultada pelo uso de máscaras e por terminologias específicas.19
A experiência da gravidez é vivida de forma única, despertando diversas emoções que podem interferir no período gravídico-puerperal. Portanto, uma boa comunicação é essencial para entender essas emoções e contribuir positivamente para a saúde da mulher com surdez.15-19
Um dos estudos (ID: 1961) relatou ocorrências de maus-tratos por parte dos profissionais de saúde durante atendimentos obstétricos, incluindo agressões verbais, indelicadezas, rispidez, desprezo e tempo de espera prolongado.20-22 Outros autores também destacaram a ineficácia da prática assistencial na Atenção Básica, evidenciando a falta de compreensão das equipes de saúde quanto à comunicação efetiva com mulheres surdas.23-25
Em contrapartida, um estudo de revisão publicado na revista Disability and Rehabilitation: Assistive Technology mostrou que o uso de tecnologias assistivas pode facilitar o aprendizado de alunos com deficiência auditiva em ambientes educacionais. Essa abordagem poderia ser explorada no sistema de saúde.26-27
Os artigos (ID: 1945, 2087) desta revisão destacaram experiências positivas no acompanhamento perinatal de mulheres surdas, graças ao uso de meios alternativos, como a estrutura de Educação de Qualidade e Segurança para Enfermeiros (QSEN). Esses estudos confirmam que a compreensão da cultura surda e o uso de tecnologias acessíveis são essenciais para a prática do cuidado.26-28
O enfermeiro, por sua formação, atua em diversos âmbitos, incluindo a educação, gestão, coordenação, implementação e assistência, trabalhando com a tríade paciente-família-comunidade em diferentes níveis de atendimento. É necessário que esses profissionais preservem os princípios éticos e busquem novas formas de incluir pacientes com surdez no processo de cuidado, garantindo sua participação ativa. Assim, torna-se essencial inserir o ensino de LIBRAS na formação dos futuros profissionais de saúde.28-29
Um estudo realizado no Irã, que analisou o atendimento de alunos de enfermagem a pacientes simulando deficiência auditiva, revelou que 61,5% dos estudantes apresentaram baixos níveis de conhecimento e 87,3% tiveram desempenho fraco na comunicação com esses pacientes.29 Esses dados destacam a precariedade e o atraso na formação dos futuros enfermeiros em relação à assistência à população surda.29-30
No Brasil, a Lei 10.436, sancionada em 24 de abril de 2002, estabelece que o sistema educacional deve garantir a inclusão do ensino de LIBRAS nos cursos de formação em Educação Especial, Fonoaudiologia e Magistério, como parte integrante dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs).31 O Decreto 5.626, de 2005, regulamentou essa lei, tornando obrigatória a inclusão de LIBRAS nos currículos de Fonoaudiologia e cursos de licenciatura em diversas áreas.32
Apesar dessas leis, muitas instituições de ensino, públicas e privadas, ainda não cumprem a obrigação de incluir LIBRAS em seus cursos voltados à área da saúde, visto que eles não possuem a LIBRAS como disciplina obrigatória, ou sequer a disponibilizam em suas grades curriculares. Uma pesquisa comparou as leis sobre línguas de sinais no Brasil e na Suécia, mostrando que, na Suécia, o direito ao uso da língua de sinais sueca como língua materna é garantido por lei, favorecendo o desenvolvimento dos surdos, que são vistos, primeiramente, como suecos.33-34
Diante disso, o cuidado de enfermagem às mulheres com surdez durante o período gravídico-puerperal deve ser reformulado para ser mais inclusivo e humanizado. Isso inclui a inserção da LIBRAS nas escolas e universidades, o uso de novas tecnologias e, principalmente, a capacitação de profissionais de saúde para atender essa população de forma adequada.
CONCLUSÃO
A presente pesquisa identificou as evidências disponíveis na literatura sobre os cuidados de enfermagem prestados a mulheres surdas durante a gravidez, parto e pós-parto. Constatou-se que a falta de inserção da LIBRAS e a sensibilização inadequada dos profissionais de enfermagem para o cuidado a pessoas surdas revelam uma carência significativa, que necessita ser discutida e transformada.
A hipótese inicial, que sugeria uma grande barreira de comunicação entre pacientes com surdez e profissionais de enfermagem, foi confirmada por meio da análise dos estudos científicos. Diante disso, os resultados reforçam a necessidade de mais pesquisas sobre o tema. Considera-se que este estudo contribuiu para o meio científico, ao abordar uma população-alvo ainda pouco estudada.
CONTRIBUIÇÕES
Todos os autores contribuíram igualmente em todas as fases do estudo, incluindo a concepção do projeto de pesquisa, a busca, análise, interpretação e discussão dos dados, assim como na redação e revisão crítica do conteúdo com contribuição intelectual e na aprovação da versão final do artigo científico.
CONFLITO DE INTERESSES
Nada a declarar.
FINANCIAMENTO
Fundação Araucária (Edital 001/2020).
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Correspondência
Geovanna dos Santos Lalier
E-mail: geovannalalier.enfa@gmail.com
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