Eventos adversos da vacina contra COVID-19 em crianças e adolescentes: uma revisão integrativa

Eventos adversos da vacina contra COVID-19 em crianças e adolescentes: uma revisão integrativa

 

Adverse events of the COVID-19 vaccine in children and adolescents: an integrative review

 

RESUMO

Objetivo: identificar os eventos adversos da vacina contra a COVID-19 em crianças e adolescentes (0-18 anos). Método: revisão integrativa, usando o referencial metodológico de Whittemore e Knalf, com Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). Busca realizada nas bases de dados Scopus, CINAHL, Web of Science, Embase, PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde, abrangendo o período de 2021 a 2022. Critérios de inclusão foram baseados na pergunta PICO. Resultados: analisaram-se 33 artigos de pesquisas, com níveis de evidência variando entre 3.c, 4.c e 4.d. As publicações abordaram os eventos adversos após a vacinação, ocorrendo de 24 horas a 27 dias após a administração, com média de nove dias. A maioria das ocorrências adversas foi observada em adolescentes do sexo masculino (42,4%) após a segunda dose. Cerca de 36,4% relataram eventos adversos após ambas as doses. Problemas cardíacos foram a principal preocupação (63,6%). Conclusão: os principais eventos adversos da vacinação contra a COVID-19 na população pediátrica identificados foram febre, dor torácica e mialgia, associados às complicações cardíacas. Apesar disso, as vantagens das vacinas contra a COVID-19 superam os seus riscos. O estudo é relevante para orientar a prática de enfermeiros na linha de frente dos processos vacinais e identificar possíveis eventos adversos.

Palavras-chave: Covid-19. Vacinas contra COVID-19. Criança. Adolescente. Resultados Negativos.

ABSTRACT

Objective: to identify adverse events from the COVID-19 vaccine in children and adolescents (0-18 years). Method: an integrative review, using Whittemore’s and Knalf’s methodological framework, with Descriptors in Health Sciences (DeCS). Search was carried out in the Scopus, CINAHL, Web of Science, Embase, PubMed and Virtual Health Library databases, from 2021 to 2022. Inclusion criteria were based on the PICO question. Results: thirty-three research articles were analyzed, with levels of evidence varying between 3.c, 4.c and 4.d. The studies addressed adverse events following immunization, occurring from 24 hours to 27 days after administration, with an average of nine days. The majority of adverse events were observed in male adolescents (42.4%) after the second dose. About 36.4% reported adverse events after both doses. Heart problems were the main concern (63.6%). Conclusion: the main adverse events of COVID-19 vaccination in the pediatric population identified were fever, chest pain and myalgia, associated with cardiac complications. Despite this, the advantages of COVID-19 vaccines outweigh their risks. The study is relevant to guide the practice of nurses on the front line of vaccination processes and identify possible adverse events.

Descriptors: COVID-19. COVID-19 Vaccines. Child. Adolescent. Negative Results

 

INTRODUÇÃO

A vacinação é uma das principais estratégias para prevenir a propagação da COVID-19, mas a eficácia e a segurança das vacinas em crianças e adolescentes precisam ser analisadas. A maioria dos casos de crianças e adolescentes com COVID-19 é assintomática ou com sintomas respiratórios leves. Entretanto, alguns podem evoluir para a forma grave da doença, causando a Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (SARA) ou Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), necessitando de internamento hospitalar e cuidados intensivos1. Além disso, crianças e adolescentes, apesar de apresentarem sintomas mais leves, podem corroborar a disseminação do vírus da COVID-19, sendo recomendado mantê-los afastados dos grupos vulneráveis, como os idosos. 1

          Para o controle e minimização do quadro clínico de COVID-19, após a fase de testes clínicos, em agosto de 2021, nos Estados Unidos da América (EUA), duas vacinas tiveram seu uso aprovado em crianças e adolescentes, a CoronaVac®, com o vírus SARS-CoV-2 inativado, e a vacina de RNA mensageiro (RNAm), BNT162b2 Pfizer-BioNTech®. Desde então, eventos adversos têm sido descritos, tais como fadiga (28%), cefaleia (18%), mialgia (15%), artralgia (15%), febre (14%), náusea e êmese (7%), diarreia (7%), inapetência (7%), algia torácica (6%), abdominal (5%), rinorreia (3%), entre outras de menor frequência.2 No mesmo ano, a vacina mRNA-1273 da fabricante Moderna®, durante sua fase de testes em adolescentes, apresentou eventos adversos semelhantes.3

Explorar os eventos adversos da vacinação em pediatria pode gerar informações que contribuem com a manutenção da saúde de crianças e adolescentes, por meio da adesão à vacinação, a partir do conhecimento adquirido, principalmente com relação aos pais dessas crianças e combatendo as fake news.

 No Brasil, em 17 de janeiro de 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) autorizou o uso emergencial das vacinas CoronaVac® e AstraZeneca® para pacientes adultos e idosos. Com base nos estudos clínicos de fase I e II, essa autorização mencionava os seguintes eventos adversos comuns à vacinação: dor local; fadiga; febre; mialgia; diarreia; náusea; e cefaleia.4

A vacinação de adolescentes de 12 a 17 anos de idade iniciou em 15 de setembro de 2021, com a publicação da Nota Técnica N° 40/2021 do Ministério da Saúde, que determinou vacinação exclusiva com o imunizante BNT162b2 (RNAm) Pfizer-BioNTech®. A Nota Técnica alertou estados e municípios para a notificação da ocorrência de eventos adversos.5 A autorização do uso da vacina em crianças menores de 12 anos de idade aconteceu de maneira gradativa no Brasil. A Nota Técnica N° 02/2022 do Ministério da Saúde autorizou o uso em crianças de 05 a 11 anos de idade6; a Nota Técnica N° 213/2022 aprovou a vacinação de crianças de 3 a 5 anos de idade7; e a Nota Técnica N° 114/2022 recomendou a vacinação de crianças a partir dos 6 meses de idade. 8

Até março de 2023, 83% da população dos continentes americanos e 79,6% da população brasileira receberam ao menos as duas doses iniciais da vacina contra COVID-19, ou, no caso da vacina Janssen®, a dose única, não sendo contabilizadas as doses de reforço para esse índice.9

Os eventos adversos podem demandar assistência, caso ocorram, mas a vacinação contra COVID-19 em crianças e adolescentes é recomendada e é necessário encorajar a população, sobretudo os pais e responsáveis sobre a importância da vacinação. O estudo justifica-se devido à existência de uma lacuna na literatura sobre qual a conduta mais adequada para cada caso e sobre quais são os principais eventos adversos e como manejá-los apropriadamente.2,10 A vacinação de crianças e adolescentes está em debate no cenário mundial, e a sua segurança em populações pediátricas precisa ser avaliada e monitorada constantemente.

 

OBJETIVO

De modo convergente à recomendação, este estudo tem como objetivo identificar os eventos adversos da vacina contra a COVID-19 em crianças e adolescentes (0-18 anos).  

 

MÉTODO

Trata-se de revisão integrativa com base no referencial metodológico de Whittemore e Knafl 11, contemplando as seguintes etapas: identificação do problema; buscas nas bases de dados; avaliação dos dados; análise dos resultados; e apresentação. Foram aplicadas as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA).12 A primeira etapa foi a estruturação do problema de pesquisa a partir da questão: quais os eventos adversos da vacina contra COVID-19 em crianças e adolescentes? A questão de pesquisa foi desenvolvida segundo o acrônimo PICO: P (população) – crianças e adolescentes na faixa etária de 0 a 18 anos; I (intervenção) – vacina da COVID-19; C (controle) – não se aplica; e O (outcomes/desfecho) – eventos adversos da vacina da COVID-19.

Para a coleta de dados, aplicaram-se estratégias de busca compostas por Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) intercalados com os operadores booleanos “AND” e “OR”, de acordo com as bases de dados escolhidas, a saber: SciVerse Scopus; Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL); Web of Science; Embase; e uma biblioteca virtual: Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) e o acervo PubMed, mais especificamente a base de dados US National Library of Medicine. O período de coleta foi de 2 a 20 de maio de 2022.

Os critérios de inclusão incluíram estudos realizados apenas com seres humanos, com enfoque na pediatria (0-18 anos), publicados entre os anos de 2019 e 2022, que avaliam os eventos adversos da vacinação contra COVID-19 nessa população e que respondiam à pergunta de pesquisa. Não teve recorte de idioma e, quando necessário, utilizou-se software para tradução.

A seleção dos artigos foi desenvolvida por dois revisores independentes com o apoio da plataforma Rayann 13 e a utilização da ferramenta de duplo cego. A primeira leitura foi de título e resumo. Como houve discordâncias entre os dois revisores, foi necessária a inclusão de um terceiro. A Figura 1 apresenta o processo da seleção dos estudos incluídos nesta revisão.

Na terceira etapa, foi analisado o nível de evidência dos estudos selecionados, de acordo com instrumento recomendado pelo JBI®.14 Após a classificação do artigo segundo o seu nível de evidência, aplicaram-se quatro checklists da JBI® sobre cada um dos métodos dos estudos incluídos na revisão: relato de caso, com 8 questões e pontuação final entre de 0-8; estudo transversal (8 questões), entre 0-8 pontos; série de casos (10 questões), com pontuação final entre 0-10; e estudos de coorte (11 questões), entre 0-11 pontos. As questões de cada instrumento devem ser respondidas com “Sim”, “Não”, “Incerto” e “Não se aplica”.  A utilização desses checklists propicia avaliação do rigor metodológico dos artigos que foram inclusos.15

 

Figura 1. Fluxograma de seleção dos artigos incluídos na revisão integrativa segundo as recomendações do PRISMA 12. Paraná, Brasil, 2023

Fonte: os autores (2023).

         

Na quarta etapa, os dados dos estudos foram tabulados no programa computacional Microsoft Excel® 2019 segundo as variáveis: nome do periódico; ano de publicação; faixa etária da amostra; título; nível de evidência14 e score JBI® 15; e, principais resultados. O Quadro 1 apresenta os artigos incluídos na amostra final, identificando-os por uma letra, seguido de sua referência. Com as variáveis organizadas, desenvolveram-se a síntese dos resultados para a análise (4ª etapa) e a apresentação exploratória da revisão (5ª etapa).

 

RESULTADOS

Quadro 1. Caracterização dos estudos incluídos na amostra desta revisão integrativa. Paraná, Brasil, 2023

Id.

Ano

Faixa etária da amostra (anos)

Eventos adversos

NE

 

Score JBI®

Complicação associada

Vacina administrada

A 16

2021

16

Febre, dor torácica e mialgia

4. D

7 pontos (alto)

Miopericardite

Pfizer-BioNTech®

B 17

2021

17

Febre, dor torácica e mialgia

4. D
7 pontos (alto)

Miocardite

Pfizer-BioNTech®

C 18

2021

12 a 17

Febre, dor torácica, mialgia, cefaleia, dispneia e náuseas/êmese

4. C

7 pontos (alto)

Miopericardite

Pfizer-BioNTech®

D 19

2021

15 a 17

Febre, dor torácica, mialgia, cefaleia, astenia, diarreia e tosse

4. C

7 pontos (médio)

Miocardite e perimiocardite

Pfizer-BioNTech®

E 20

2021

12 a 18

Febre, dor torácica, mialgia e cefaleia

4. C

10 pontos (alto)

Miocardite

Pfizer-BioNTech®

F 21

2021

14 a 18

Febre, dor torácica, mialgia, cefaleia, astenia, dispneia e tosse

4. C

7 pontos (médio)

Miocardite e Miopericardite

Pfizer-BioNTech®

G 22

2021

16 a 17

Febre, dor torácica, mialgia, cefaleia, astenia, dispneia e náuseas/êmese

4. C

7 pontos (médio)

Miocardite

Pfizer-BioNTech®

H 23

2021

16

 

Febre, dor torácica e mialgia

4. D

6 pontos (alto)

Miopericardite

Pfizer-BioNTech®

I 24

2021

17

 

 

Dor torácica e dispneia

4. D

7 pontos (alto)

Infarto do miocárdio com elevação do segmento ST (STEMI)

Pfizer-BioNTech®

J 25

2021

16 a 17

Febre, dor torácica, cefaleia, dispneia, náuseas/êmese, diarreia e tosse

4. C

8 pontos (alto)

Perimiocardite

Pfizer-BioNTech®

K 26

2021

17

Febre, dor torácica, mialgia, cefaleia, dispneia, náuseas/êmese, alterações de pele e diarreia

4. D

7 pontos (alto)

SIM-P e miocardite

Pfizer-BioNTech®

L 27

2021

16

Febre, mialgia, astenia e alterações de pele

4. D

7 pontos (alto)

Úlcera aftosa vulvar

Pfizer-BioNTech®

M 28

2021

14

Mialgia, astenia e alterações de pele

4. D

5 pontos (médio)

Úlcera aftosa vulvar

Pfizer-BioNTech®

N 29

2021

12 a 17

Febre, dor torácica, mialgia, cefaleia, dispneia, náuseas/êmese e astenia

4. C

10 pontos (alto)

Miopericardite

Pfizer-BioNTech®

O 30

2021

12 a 18

Febre, dor torácica, mialgia, cefaleia, náuseas/êmese, astenia e alterações de pele

4. D

6 pontos (alto)

Não informado

Pfizer-BioNTech®

P 31

2021

12 a 17

Febre, dor torácica e dispneia

4. C

10 pontos (alto)

Miocardite e pericardite

RNAm (não informado)

Q 32

2021

12 a 17

 

Dor torácica

3. C

11 pontos (alto)

Miocardite e pericardite

Pfizer-BioNTech®

R 33

2021

17

 

Dor torácica

4. D

6 pontos (alto)

Perimiocardite

Pfizer-BioNTech®

S 34

2021

14

 

Febre, cefaleia, astenia e dispneia

4. D

7 pontos (alto)

Miocardite

RNAm (fabricante não informado)

T 35

2021

12

 

Febre, cefaleia, e náuseas/êmese

4. D

8 pontos (alto)

SIM-P e encefalopatia

Pfizer-BioNTech®

U 36

2022

13 a 17

 

Febre e dor torácica

3. C

9 pontos (alto)

Miocardite, pericardite, perimiocardite e SIM-P

Pfizer-BioNTech®

V 37

2022

12 a 13

 

Alterações de pele

4. C

9 pontos (alto)

SIM-P

RNAm (fabricante não informado)

W 38

2022

18

 

Febre, cefaleia, e náuseas/êmese

4. D

7 pontos (alto)

Meningite asséptica

Pfizer-BioNTech®

X 39

2022

13 a 15

 

 

Dor torácica

4. C

5 pontos (médio)

Taquicardia

RNAm (fabricante não informado)

Y 40

2022

14

 

Febre, mialgia, cefaleia, astenia e alterações de pele

4. D

5 pontos (médio)

Não informado

Pfizer-BioNTech®

Z 41

2022

15

 

Febre, cefaleia, e náuseas/êmese

4. D

8 pontos (alto)

Meningite asséptica e síndrome de Neuro-Behçet

Pfizer-BioNTech®

AA 42

2022

13

 

Alterações de pele

4. D

5 pontos (alto)

Vitiligo

Pfizer-BioNTech®

AB 43

2022

12

 

Febre e diarreia

4. D

7 pontos (alto)

SIM-P

Pfizer-BioNTech®

AC 44

2022

17

 

Alterações de pele

4. D

7 pontos (alto)

Não informado

Pfizer-BioNTech®

AD 45

2022

15 a 17

 

Febre, dor torácica, diarreia e tosse

4. C

9 pontos (alto)

Miocardite

Pfizer-BioNTech®

AE 46

2022

12 a 18

 

Distúrbios do sono e anafilaxia

3. C

11 pontos (alto)

Miocardite

Pfizer-BioNTech®

AF 47

2022

13

 

Febre e dor torácica

4. D

7 pontos (alto)

Miocardite

Pfizer-BioNTech®

AG 48

2022

12 a 15

 

Febre, myalgia e náuseas/êmese

4. C

7 pontos (médio)

Nefrite tubolointersticial

Pfizer-BioNTech®

Notas: Id. = identificação; NE = nível de evidência14; Local = país onde a pesquisa ocorreu; Score JBI® = resultado da aplicação do checklist de avaliação de qualidade metodológica da JBI® 15.

Fonte: referências de (vide relação final).

 

A amostra foi composta por 33 estudos, dos quais 20 (60,6%)16-35 foram publicados em 2021, e 13 (39,4%)36-48, em 2022, conforme apresentado no Quadro 1. Em relação aos continentes e países em que esses estudos foram realizados, dez (30,3%) foram da América do Norte, todos dos EUA 17-22,24,29,35,48; sete (21,2%) foram da Ásia, sendo três na China32,40,46 e um de cada um dos seguintes países: Arábia Saudita30, Coreia do Sul38, Israel25 e Japão47; cinco (15,2%) foram da Europa, sendo dois da Dinamarca26,36 e um de casa um dos seguintes países: Alemanha 41, França37 e Polônia45. Um estudo foi realizado na África, em Marrocos34. Um dos estudos foi identificado como multicêntrico31, por apresentar dados de diversos países. Nove (27,3%) publicações16,23,27,28,33,39,42-44 não informaram a qual país ou local pertenciam os pacientes de sua amostra.

Quanto aos métodos de pesquisa, 17 (51,5%) estudos foram relatos de casos16,17,23,24,26-28,33-35,38,40-44,47, apresentando nível de evidência 4.d14; 12 (36,4%) estudos de série de casos18-22,25,29,31,37,39,45,48 tinham nível de evidência 4.c14; três (9,1%) estudos eram coorte32,36,46, com nível de evidência 3.c14; e um era transversal30 com nível de evidência 4.d14. Todos os estudos foram analisados mediante checklists aplicáveis a seus métodos, tendo como resultados que: 26 (78,8%)16-18,20,23-27,29-38,41-47 apresentaram rigor metodológico alto15; sete (21,2%)19,21,22,28,39,40,48 apresentaram nível de evidência médio; e nenhum apresentou baixo nível de evidência. 15

É pertinente ressaltar que 29 (87,9%) publicações16-30,32,33,35,36,38,40-48 abordavam a vacina produzida pelo laboratório Pfizer®; e quatro (12,1%) publicações não relataram o nome ou fabricante da vacina, mas informaram tratar-se de vacina de RNAm31,34,37,39. Houve relato dos eventos adversos após a segunda dose da vacina em 14 (42,4%) publicações16,17,21,24,26-28,33,35,38,41,44,47,48. Além disso, 12 (36,4%) publicações descreveram eventos adversos após ambas as doses18-20,29-32,36,37,40,45,46, sendo que quatro (12,1%) relataram os eventos adversos apenas após a primeira dose.22,23,42,43

As publicações apresentaram relatos de eventos adversos em crianças a partir de 12 anos, com tempo mínimo de um dia para apresentação dos eventos após a administração da vacina17,24,40 e máximo de 27 dias43, gerando um tempo médio de 8,8 dias. Algumas publicações descreveram alterações em exames dos vacinados, como exames laboratoriais (69,7%)16-26,29,32-35,37,38,41,43-45,47,48, exames que avaliam a função hemodinâmica (eletrocardiograma e ecocardiograma) (57,6%)16-25,29,32-35,37,45,47,48, exames de imagem (45,5%)16-21,23,24,29,33,35,38,41,43,47 e exame físico (27,3%).27,29,34,38,40-44

A maior parte dos estudos associou os eventos adversos às complicações cardíacas (63,6%), como miocardite (39,4%), miopericardite (27,3%) e pericardite (9,1%)16-26,25,29,31-34,36,45-47, infarto do miocárdio24 e taquicardia39, além de outras patologias, como a SIM-P (15,2%)26,35-37,43, meningites (6,1%)41,38, nefrite48, e alterações cutâneas, como úlcera aftosa vulvar (6,1%)27,28, encefalopatia35, síndrome de Neuro-Behçet41 e vitiligo42. Alguns estudos não fizeram associação a patologias (9,1%)30,40,44, apenas relataram os sintomas apresentados como eventos adversos.

A SIM-P, segundo evento mais evidenciado, foi associada a um caso de miocardite36. O menor tempo para diagnóstico de SIM-P foi de dois dias após a administração da segunda dose da vacina35, o tempo máximo foi de 27 dias após a administração da primeira dose. 43

 

DISCUSSÃO

Este estudo foi composto por uma amostra de 33 artigos. Entre os eventos adversos, apresentados tem-se febre16-23,25-27,29-31,34-36,38,40,41,43,45,47,48, dor torácica16-26,29-33,36,39,45,47, mialgia16-23,26-30,40,48, cefaleia18-22,25,26,29,30,34,35,38,41, dispneia18,21,22,24-26,29-31,34, náusea/êmese18,22,25,26,29,30,35,38,41,48, astenia19,21,22,27-30,34,40, alterações de pele 26-28,30,37,40-42,44, diarreia19,25,26,43,45, tosse19,21,25,45, entre outros sintomas com menor ocorrência. O evento adverso mais prevalente foi a febre.

A febre de intensidade leve a moderada foi um dos eventos adversos sistêmicos mais comuns em estudo realizado por Liu et al. (2023). A amostra incluiu crianças e adolescentes de 3 a 17 anos. O primeiro grupo foi composto por 21 crianças com idade de 3 a 5 anos e, dessas, apenas uma (5%) apresentou febre. O segundo grupo foi composto por 21 crianças de 6 a 11 anos e, dessas, nenhuma apresentou esse evento adverso. O último grupo foi composto por 21 adolescentes de 12 a 17 anos e, desses, apenas três (14%) apresentaram febre como evento adverso pós-vacinal.49

A dor torácica foi o segundo evento adverso mais relatado entre os estudos analisados, principalmente em pacientes com outras comorbidades cardíacas anteriores, como a miocardite. Em estudo realizado por Rolfs et al. (2024), com 56 crianças cardiopatas, em centros médicos na Alemanha, Suíça e Áustria, 50 (89%) dessas apresentaram a dor torácica como evento adverso pós-vacinal. Três meses após a vacinação, uma avaliação de acompanhamento demonstrou que 29% da amostra teve sintomas leves e residuais da vacinação, com a dor torácica como principal evento adverso apresentado.50

O diagnóstico de miocardite foi identificado em 39,4% das publicações17,19-22,26,31,32,34,36,45-47, feito por ressonância magnética cardíaca, contudo pode ser baseado em: sintomas de dispneia e dor torácica; alterações inespecíficas no eletrocardiograma; alterações laboratoriais em marcadores de inflamação e enzimas cardíacas 34. Ressalta-se que a miocardite após a vacinação é uma complicação cardíaca rara, e já foi associada a outras vacinas, como a vacina contra a varíola.34

A maioria dos estudos apresentou como evento adverso alterações em exames laboratoriais de enzimas cardíacas (54,6%)16-25,29,32-35,37,45,47, exames cardiológicos, como eletrocardiograma e ecocardiograma (57,6%)16-25,29,32-35,37,45,47,48 e outros exames de imagem cardíacos (45,5%).16-21,23,24,29,33,47

Algumas das pesquisas concluíram que a administração da vacina pode estar relacionada a complicações cardíacas17,19,20,22-24,46,47, as quais devem ser notificadas às autoridades sanitárias e aos fabricantes17,19,22.  A Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) afirma que, de fato, existe relação entre a vacinação e o acometimento cardíaco, porém esse acometimento é pequeno, pois menos de 0,5% da população apresenta esse tipo de evento adverso, sendo uma incidência menor, quando comparada à miocardite causada pela COVID-19, por isso a vacinação é recomendada por essa Sociedade.51

Comumente, os sintomas dos eventos adversos são leves e transitórios18,20,22,25,29,45, porém podem necessitar de hospitalização. Isso justifica o alerta para que os profissionais de saúde se mantenham atentos para os sinais e sintomas dessas complicações17,19,22,32,34, principalmente em pacientes do sexo masculino36, após a aplicação da segunda dose31,32,47. Esse resultado está de acordo com o que é informado pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, agência do Departamento de Saúde dos EUA), que afirma que os sintomas podem variar de pessoa para pessoa, os quais desaparecem em alguns dias e que os eventos adversos podem ocorrer em até seis semanas após a vacinação.52

Cerca de 30,3% eventos adversos das vacinas administradas nos EUA. Porém, não é possível afirmar que as crianças vacinadas nos EUA têm maior chance de apresentar eventos adversos em comparação com crianças de outros países, já que não foi localizado estudo com associação estatística conduzido sobre isso. Esse resultado pode ser explicado pelo fato de os EUA apresentarem maior número de publicação de artigos científicos analisados nesta revisão, quando comparado aos demais países.

Os estudos não apresentaram relatos de eventos adversos em crianças menores de 12 anos de idade. Contudo, não se pode afirmar que apenas pessoas com mais de 12 anos estão susceptíveis aos eventos adversos vacinais, pois essa associação estatística não foi realizada. Esse resultado pode ser esclarecido pelo fato de as vacinas terem sido inicialmente autorizadas para os adolescentes e, após alguns meses, terem seu uso aprovado para crianças com idade inferior a 12 anos.

 Apesar dessas complicações, as vantagens das vacinas contra a COVID-19 superam os seus riscos22,33. Estudo indiano descreve redução da gravidade da doença, da necessidade de hospitalização e mortalidade (85,3%), redução dos casos e incidência de complicações em longo prazo em crianças (81,4%) como vantagens diretas da vacinação contra a COVID-19. Reabertura das escolas (83,4%), redução da transmissão comunitária (84,7%) e recuperação das doses perdidas de outras vacinas próprias do calendário vacinal das crianças (77,4%) se destacaram como vantagens indiretas.53

Em estudo conduzido na Malásia, foram administradas 3.312.886 doses da vacina contra COVID-19 em crianças de 5 a 11 anos. Nessas, apenas 523 eventos adversos pós-vacinação (EAPV) foram registrados, o que representa 158 EAPV por 1.000.000 de doses administradas e 369 EAPV por 1.000.000 doses administradas mundialmente. A maioria desses eventos não foi grave (94%).54

Esses dados demonstram o perfil de segurança favorável e a necessidade da vacinação para a COVID-19 nessa faixa etária. Uma das estratégias fundamentais para aumento de conhecimentos e fortalecimento da vacinação em crianças é a educação em saúde, que pode esclarecer sobre os possíveis eventos adversos e encorajar o processo vacinal, principalmente com relação aos pais das crianças54. O conhecimento dos pais com relação à vacinação pode levar à sua aceitação ou hesitação, motivada por preocupações como receio sobre a eficácia da vacina, ter lido informações perigosas ou falsas, pensar que a vacina pode interagir com outras doenças e os possíveis eventos adversos da vacina.55

Com relação às vacinas estudadas, mesmo após a autorização para uso da vacina mRNA-1273 Moderna® em outros países27,30, a vacina BNT162b2 Pfizer-BioNTech® continuou sendo a mais utilizada globalmente31, o que justifica a sua maior incidência entre as publicações analisadas. Não se pode afirmar que a BNT162b2 Pfizer-BioNTech® precipita mais eventos adversos, quando comparada às demais, por não terem sido realizadas associações estatísticas nos estudos resgatados. 

As vacinas de mRNA do SARS-CoV-2 desenvolvem perfis robustos de imunoglobulina em crianças de 5 anos ou mais e em adultos, o que significa uma proteção substancial contra hospitalizações e a forma grave da doença. Apesar de em dose menor, a vacinação infantil promove uma resposta de anticorpos tão competente como a vacinação de adultos. Além disso, está atrelada a um perfil humoral mais alto, se comparado à infecção natural por SARS-CoV-256,57. Recentemente, a vacina bivalente teve seu uso aprovado em crianças, e estudos demonstraram sua segurança e confiabilidade em todas as faixas pediátricas e que essa vacina fornece proteção imunológica mais ampla, duradoura, prolongando a resposta imunológica à variante Omicron.58

As publicações analisadas apresentam níveis de evidência 3 e 4, segundo instrumento da JBI®14, devido ao método aplicado no estudo. Na análise do rigor metodológico das publicações com instrumento da JBI®15, os resultados foram satisfatórios, considerando que grande parte das publicações (26; 78,8%) apresenta alto rigor metodológico.

Este estudo apresentou como limitações o fato de que todas as publicações apresentaram resultados internacionais, não havendo dados relacionados aos EAPV na população pediátrica brasileira. Além disso, os estudos internacionais veiculam abordagem aos eventos adversos exclusivamente para idade igual ou maior a 12 anos, não havendo evidências para os menores de 12 anos. Outra limitação está na ausência de análises estatísticas robustas, sobretudo com significância na comparação etária.

Como sugestões para pesquisas futuras, os artigos analisados apontam o acompanhamento populacional de longo prazo para caracterizar o prognóstico e possíveis sequelas16,19,30,32,45,46 e realizar maior número de pesquisas para estabelecimento de relações causais.27,29,34,37,42,43,45

 

CONCLUSÃO

          Os principais eventos adversos da vacinação contra a COVID-19 na população pediátrica identificados foram febre, dor torácica e mialgia, associados às complicações cardíacas, e presença de alterações no exame laboratorial troponina e no eletrocardiograma. Houve prevalência do aparecimento dos eventos em adolescentes do sexo masculino e após a vacinação da segunda dose. Apesar disso, as vantagens das vacinas contra a COVID-19 superam os seus riscos, como a redução da gravidade da doença, a necessidade de hospitalização e mortalidade, a redução dos casos e a incidência de complicações em longo prazo em crianças, a reabertura das escolas, a redução da transmissão comunitária e a recuperação das doses perdidas de outras vacinas.

O presente estudo contribui para a prática dos gestores e formuladores de políticas públicas em saúde e, em especial, dos profissionais de saúde. Nesse sentido, destaca-se o papel dos profissionais de enfermagem que compõem a linha de frente dos processos vacinais e são responsáveis por processos educativos e de orientação aos pais e familiares quanto aos possíveis EAPV. Por isso, este estudo recomenda que esses profissionais conheçam e estejam atentos para identificar os EAPV em todos os níveis da atenção à saúde.

 

CONTRIBUIÇÕES

Todos os autores contribuíram para participação da discussão dos resultados, revisão crítica do conteúdo, aprovação da versão final do manuscrito.

CONFLITO DE INTERESSES

Nada a declarar.
  

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Correspondência

Douglas Klemann

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