Idioma
Conhecimentos, atitudes e práticas da enfermagem sobre os eventos adversos das vacinas contra covid-19
INTRODUÇÃO
A brusca emergência em saúde pública decorrente do vírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave Coronavírus-2 (SARS-CoV-2), responsável pela pandemia da covid-19, refletiu expansivamente em diversos cenários políticos e sociais, incluindo cotidianos e formas de pensar de bilhões de pessoas no mundo. 1-2 O controle e prevenção da morbimortalidade tornou-se prioridade mundial por meio da descoberta de vacinas que permitiriam controlar o vírus juntamente com outras medidas de saúde pública para contenção da doença na população. 3-4
Em 2021, o Brasil, desenvolveu um Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a covid-19 para ser implementado em todas as regiões de forma rápida com o objetivo de atender inicialmente aos principais grupos de riscos, como profissionais de saúde e idosos. A meta do plano era atingir uma cobertura de 80% da população maior de 12 anos vacinada com duas doses até o final do ano. 5 A proposta foi coordenada pelo Ministério da saúde que mobilizou recursos, aquisição de imunobiológicos e insumos, articulação da informação entre as três esferas de gestão do Sistema Único de Saúde SUS) em consonância com os laboratórios e criação de pontos de vacinação, como a estratégia de Drive-thru. 6
A vacina da covid-19 carrega consigo um grande desafio devido ao: ritmo acelerado de produção e ensaios clínicos; à inclusão de novas tecnologias em seu processo de produção; ao aumento gradativo de novas variantes do vírus, acarretando diminuição da eficácia de algumas vacinas e à necessidade de novas doses e reforços vacinais. Além disso, as diversas notícias falsas divulgadas pelos meios de comunicação, contrárias aos efeitos do imunobiológico, atreladas à fragilidade do governo federal como ordenador de política em instituir uma comunicação ativa e positiva sobre vacinação no país, resultaram em alto receio da população acerca dos possíveis eventos adversos do imunobiológico. 6-9
Os Eventos Adversos Pós-Vacinação (EAPV) são qualquer reação indesejada após a administração do imunobiológico, locais ou sistêmicas, podendo ou não ser causada pela vacinação de qualquer imunobiológico. Podem ser devido à técnica de administração, ao tipo de vacina, atenuada ou não, à cepa, às características do vacinado, como, por exemplo, a idade, se reação às doses prévias, doenças alérgicas, deficiência imunológica, podendo ocorrer até 48 horas pós-vacinação, variando conforme o indivíduo e imunobiológico utilizado. 10 No país, em decorrência da inserção das vacinas contra a covid-19 ainda não inclusas no Programa Nacional de Imunização (PNI), adotou-se um sistema específico para notificação e vigilância dos eventos adversos pós-vacinação, o e-SUS Notifica. Este sistema pode ser acessado por qualquer profissional de saúde visando notificar as reações observadas e sentidas pelo usuário. 11
A atenção primária em saúde constitui a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo os detentores de maior vínculo com a população, e com isso é imprescindível que seus profissionais de saúde sejam ativos, conhecedores, habilitados e qualificados sobre os meios e tipos de vigilância e notificação dos EAPV. 12-14
O nível de conhecimento da equipe de enfermagem que compõe a atenção primária em saúde reflete ativamente nos índices de cobertura vacinal de sua população adscrita. Para tal, saber das particularidades de cada vacina, dosagens para cada faixa etária e eventos adversos são imprescindíveis para boa aceitação e fortalecimento de vínculo com a população. 13,15
Ante os casos de EAPV, a equipe de enfermagem na atenção primária em saúde desenvolve condutas específicas, dentre elas: o acolhimento, ações educativas em saúde, utilização de técnicas corretas para administração e manuseio de imunobiológicos, orientação e esclarecimento acerca da vacinação e de possíveis dúvidas, bem como orientações voltadas aos EVPV. Dentre essas ações, o acolhimento se configura como favorecedor no desenvolvimento da confiança e compromisso dos profissionais de saúde com os indivíduos. 13
Nesse sentido, torna-se essencial, também, a avaliação da adequação desses profissionais às novas vacinas, bem como o desenvolvimento de instrumentos avaliativos em saúde. Sabe-se que a integralização de novas tecnologias em saúde, possibilita a promoção de impactos positivos no que se refere à qualidade assistencial e prevenção de agravos em saúde, principalmente, na perspectiva de reduzir lacunas no acesso a informações. 16-18
Ao reconhecer as especificidades deste contexto em saúde, o presente estudo se justifica pela crescente necessidade de dados atualizados na literatura e, com isso, o fomento de indicadores relevantes para avaliação do desempenho e habilidades intrínsecas dos profissionais que estão envolvidos.
OBJETIVO
Avaliar o conhecimento, práticas e atitudes da equipe de atenção primária em saúde do distrito sanitário IV do município de Recife acerca dos eventos adversos das vacinas contra a COVID-19.
MÉTODO
Trata-se de um estudo metodológico e participativo, conduzido em três etapas para constituição de um instrumento do tipo inquérito, sua validação e aplicação ao público-alvo.
A primeira etapa, compreendeu o processo de construção do instrumento de coleta de dados, baseado na estratégia metodológica Conhecimento, Atitudes e Práticas (CAP). Esta facilita a realização de um diagnóstico educacional da população do estudo, se ajusta em diferentes contextos, possibilitando estratégias e intervenções direcionadas às necessidades específicas de indivíduos ou comunidades, contribuindo para a melhoria do planejamento e de iniciativas em saúde.17
O conhecimento é entendido como a habilidade de registrar ou compreender elementos do processo de aprendizagem e compreensão de conhecimento para resolver problemas. A atitude envolve uma formação de opiniões e sentimentos associados a objetivos ou situações específicas. Por sua vez, a prática representa a tomada de decisão para executar uma ação concreta. 17
Nessa fase, foi realizado o levantamento da literatura científica acerca dos eventos adversos das vacinas contra covid-19, compreendendo a leitura extensiva de manuais, protocolos e bulários dos imunobiológicos disponíveis no cenário brasileiro. Além de temas relacionados à vigilância ativa dos eventos adversos pós-vacinação, e metodologia de validação como instrumento quantitativo. 17
O instrumento final apresentou 21 questões fechadas, estruturadas para serem autoaplicáveis e divididas em três segmentos a serem avaliados no inquérito proposto: “conhecimentos, atitudes e práticas”. O mesmo tomou como base outro estudo do tipo CAP e as diretrizes do manual de eventos adversos pós-vacinação do Ministério da Saúde de 2020. 17,19
A segunda etapa consistiu na validação de conteúdo do inquérito CAP junto a juízes especialistas captados por meio da Plataforma Lattes (CNPq), considerando os critérios de conhecimento e produções científicas recentes relacionadas à temática (vacinação; saúde pública ou coletiva e/ou Tecnologia em saúde e/ ou em gestão). Os critérios para construção do painel de juízes seguiram o proposto por Fehring, os selecionados apresentaram, pelo menos, dois critérios: entre titulação, habilidades clínicas, experiência para temática em discussão e conhecimento especializado. Todos selecionados, receberam uma carta-convite por correio eletrônico contendo a apresentação inicial do pesquisador; elucidações sobre o tema da pesquisa; cópia do parecer do Comitê de Ética em Pesquisa; Termo de Consentimento Livre Esclarecido; link do Googleforms® contendo o inquérito e instruções de como efetuar a validação, que se baseou no modelo do modelo de Validação de Conteúdo Diagnóstico de Enfermagem proposto por Fehring, em que avaliam o instrumento quanto a três critérios: objetivo, clareza e relevância. Sendo composto por assertivas conforme padrão Likert, 0= inadequado, 1= parcialmente adequado e 2= adequado, participaram desse processo 05 juízes.20
A última etapa, foi realizada em seis unidades de saúde da família do distrito sanitário IV, do município do Recife–Pernambuco, no período de agosto de 2021 a setembro de 2022. Foram convidados os profissionais de enfermagem, que, ao aceitarem, recebiam um e-mail de orientações, link de acesso do Termo de Compromisso Livre e Esclarecido (TCLE) e instrumento do inquérito do tipo CAP.
Para análise dos resultados, considerou-se Conhecimento adequado quando: o profissional de saúde referiu conhecer o manual de eventos adversos pós-vacinação, o conceito de um evento adverso pós-vacinação, suas classificações, pelo menos, um dos principais eventos adversos pós-imunização proveniente das vacinas contra covid-19 e conhecia o sistema eletrônico de notificação de eventos adversos pós-vacinação; ou inadequado, quando referiu não conhecer o manual, não sabia como classificar um evento adverso pós- vacinação, como também, não sabia reconhecer, pelo menos, um evento advindo das vacinas contra a covid-19 e como notificar.
A atitude adequada considerou quando o profissional reconhecia a responsabilidade das unidades básicas de saúde e, com isso, a própria equipe em monitorar e notificar esses eventos, sendo estes graves ou não; ou inadequada quando achava que a notificação e monitorização desses eventos não era necessária, nem como uma das responsabilidades da atenção.
A prática adequada foi estimada quando o profissional notificava possíveis eventos adversos pós-vacinação, previamente a vacinação avalia a presença de síndrome gripais, orienta aos usuários os possíveis eventos locais, datas de doses subsequentes e alerta caso ocorra algo diferente o retorno ao serviço; ou inadequada quando não notifica esses eventos, nem avalia queixas gripais ou de quadros de febre antes da vacinação, como também a realização das orientações quanto a esses possíveis eventos.
Para a organização e análise dos dados, foi construído um banco no programa Epi Info™, versão 3.5.2, onde foi realizada a validação (dupla digitação para posterior comparação e correção das divergências). Os resultados foram categorizados em formatos de tabela com frequências.
A pesquisa foi financiada por meio do edital da Propesqi n.º 03/2021 do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UFPE/CNPq) e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Pernambuco sob CAAE n.º 45579721.2.0000.5208.
RESULTADOS
A construção do instrumento norteador, o inquérito, conhecimentos, atitudes e práticas (CAP) acerca dos eventos adversos das vacinas contra a covid-19, considerou: os manuais recentes sobre eventos adversos em imunização, principalmente, o Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação do ano de 2020 e o bulário das vacinas disponíveis no programa de vacinação contra covid-19 do município de estudo. Sendo composto por 21 questões, autoaplicável, compreendendo três aspectos: caracterização individual: os aspectos sociodemográficos, a exemplo, idade, maior nível de titulação, leitura de material técnico; conhecimentos: concentra-se em variáveis sobre conteúdos acerca da temática, a fim de nivelar o conhecimento, entendimento do profissional sobre o que são e quais são os eventos adversos das vacinas covid-19; e atitudes e práticas: constam variáveis sobre como o profissional age perante uma situação de vigilância de eventos adversos pós-vacinal Covid-19 e/ou como realiza essa ação de segurança.20
Quanto ao perfil dos juízes participantes da validação do conteúdo do instrumento, a maioria era residente no estado de Pernambuco, 2 (40%), predominantemente com idade de mais de 50 anos, 3 (60%), enfermeiros 2 (40%), médicos 2 (40%) e um odontólogo, 3 (60%) eram mulheres e todos tinham como maior titulação doutorado.
Os juízes validaram o conteúdo do instrumento com base em quatro aspectos: apresentação, objetivos, estrutura e relevância do instrumento. Na primeira etapa, obteve-se um índice de concordância de conteúdo adequado à literatura científica maior ou igual a 0,80, entretanto, dois aspectos obtiveram inadequação, resultando em correção, sendo a clareza e concisão do objetivo do instrumento e a linguagem de fácil compreensão pelos profissionais de saúde, conforme pode ser observado na tabela 1.
Tabela 1. Concordância dos juízes sobre a adequação do questionário. (n=5)
|
Aspecto abordado |
n |
% |
I-CVI¹ |
p-valor |
|
OBJETIVOS |
||||
|
1.1 Os conteúdos estão coerentes com o objetivo do inquérito CAP? |
5 |
100 |
1 |
0,328³ |
|
1.2 Objetivos do inquérito sobre a avaliação dos conhecimentos, práticas e atitudes dos profissionais de saúde acerca dos efeitos adversos das vacinas contra covid-19 estão claros e concisos? |
3 |
60 |
0,6 |
0,58² |
|
1.3 As informações apresentadas estão cientificamente corretas? |
5 |
100 |
1 |
0,328³ |
|
1.4 Há uma sequência lógica de conteúdo proposto? |
4 |
80 |
0,8 |
0,672³ |
|
1.5 As informações/conteúdos são importantes para a qualidade da assistência prestada e a consolidação das boas práticas em imunização? |
5 |
100 |
1 |
0,328³ |
|
1.6 Incentiva a mudanças de comportamento? |
5 |
100 |
1 |
0,328³ |
|
ESTRUTURA E APRESENTAÇÃO |
||||
|
2.1 O questionário está apropriado para os profissionais de saúde? |
5 |
100 |
1 |
0,328³ |
|
2.2 A linguagem utilizada é de fácil compreensão pelos profissionais de saúde? |
3 |
60 |
0,6 |
0,58² |
|
2.3 Os dados estão apresentados de maneira estruturada e objetiva? |
4 |
80 |
0,8 |
0,627³ |
|
2.4 Contém informações necessárias? |
5 |
100 |
1 |
0,328³ |
|
RELEVÂNCIA |
||||
|
3.1 Contribui para o conhecimento na área? |
5 |
100 |
1 |
0,328³ |
|
3.2 O tema retrata aspectos-chave que devem ser reforçados na assistência aos eventos adversos pós- vacinação, com ênfase nas vacinas para covid-19? |
5 |
100 |
1 |
0,328³ |
|
3.3 Propõe à construção de conhecimento? |
5 |
100 |
1 |
0,328³ |
¹Índice de validade de conteúdo.
²p-valor do teste Binomial (H0:p=0,80 x H1:p<0,80).
³p-valor do teste Binomial (H0:p=0,80 x H1:p>0,80).
Fonte: autores (2022).
Todas as sugestões dos especialistas foram aceitas, sendo a última validação com a participação de três juízes do grupo anterior. Na tabela 2, observa-se que todos os itens avaliados obtiveram um índice de concordância de conteúdo maior que 0,80 e apresentaram significância estatística no teste binominal quanto ao objetivo, estrutura e apresentação e relevância do questionário.
Tabela 2. Concordância dos juízes sobre a adequação do questionário. (n=3)
|
Aspecto abordado |
n |
% |
I-CVI¹ |
p-valor |
|
OBJETIVOS |
||||
|
1.1 Os conteúdos estão coerentes com o objetivo do inquérito CAP? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
|
1.2 Objetivos do inquérito sobre a avaliação dos conhecimentos, práticas e atitudes dos profissionais de saúde acerca dos efeitos adversos das vacinas contra covid-19 estão claros e concisos? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
|
1.3 As informações apresentadas estão cientificamente corretas? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
|
1.4 Há uma sequência lógica de conteúdo proposto? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
|
1.5 As informações/conteúdos são importantes para a qualidade da assistência prestada e a consolidação das boas práticas em imunização? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
|
1.6 Incentiva mudanças de comportamento? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
|
ESTRUTURA E APRESENTAÇÃO |
||||
|
2.1 O questionário está apropriado para os profissionais de saúde? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
|
2.2 A linguagem utilizada é de fácil compreensão pelos profissionais de saúde? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
|
2.3 Os dados estão apresentados de maneira estruturada e objetiva? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
|
2.4 Contém informações necessárias? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
|
RELEVÂNCIA |
||||
|
3.1 Contribui para o conhecimento na área? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
|
3.2 O tema retrata aspectos-chave que devem ser reforçados na assistência aos eventos adversos pós- vacinação, com ênfase nas vacinas para covid-19? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
|
3.3 Propõe a construção de conhecimento? |
3 |
100 |
1 |
0,512³ |
¹Índice de validade de conteúdo.
²p-valor do teste Binomial (H0:p=0,80 x H1:p<0,80).
³p-valor do teste Binomial (H0:p=0,80 x H1:p>0,80).
Fonte: autores (2022).
Na etapa avaliativa do estudo, participaram 11 enfermeiros e cinco técnicos de enfermagem, sendo, em sua maioria, do sexo feminino, 13 (81%). Quanto à formação complementar entre os profissionais de formação superior, 5 (31%) deles possuíam título de especialistas na área de atuação, seis (6%) mestrado.
O inquérito tem uma pontuação máxima de 21 pontos, sendo cada questão equivalente a um ponto, como percentual de acertos obtidos, foram quantificados que 2 (12%) dos profissionais acertaram entre 5 a 10 pontos, 7 (44%) de 11 a 15 pontos e 7 (44%) de 16 a 20 pontos, como pode ser observado nas tabelas 3.
Tabela 3. Conhecimento, atitude e prática dos profissionais de enfermagem acerca dos eventos adversos da vacina Covid-19, Recife- PE, 2022. (N=16)
|
Domínio Conhecimentos resultados n=16 (%) |
|||
|
Tema da Pergunta |
Acertos/Sim |
Erros/não |
|
|
Conhecer o Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação |
56,2 |
43,8 |
|
|
Conhecer o Protocolo de Vigilância Epidemiológica e Sanitária de Eventos Adversos Pós-Vacinação para a estratégia de vacinação contra o vírus SARS-CoV2 (Covid-19) |
31,2 |
68,8 |
|
|
Eventos adversos pós-vacinação. |
56,2 |
43,8 |
|
|
Eventos adversos pós-vacinação grave. |
100 |
0 |
|
|
Fatores associados aos eventos adversos. |
75 |
25 |
|
|
Sintomas muito comuns das vacinas contra Covid-19. |
93,7 |
6,3 |
|
|
Frequência de dor nas articulações ou dor muscular pós- vacina contra COVID-19. |
43,8 |
56,2 |
|
|
Aumento dos gânglios linfáticos pós-administração da vacina recombinante contra a Covid-19. |
81,2 |
18,8 |
|
|
Evento adverso do tipo diarreico pós-vacinação contra Covid-19 pela vacina Pfizer. |
12,5 |
87,5 |
|
|
Conhecer o formulário de notificação e investigação de eventos adversos pós-vacinação disponibilizado pelo Ministério da Saúde. |
81,2 |
18,8 |
|
|
O sistema eletrônico de notificação de eventos adversos pós-vacinação e-SUS Notifica. |
62,5 |
37,5 |
|
|
Domínio Atitude resultados n (%) |
|||
|
Tema da Pergunta |
Acertos/ Sim |
Erros/não |
|
|
Monitoramento dos eventos adversos pós-vacinação na atenção básica. |
81,2 |
18,8 |
|
|
Classificação segundo a gravidade do evento adverso pós- vacinação. |
81,2 |
18,8 |
|
|
Evento adverso pós-vacinação considerado não grave. |
62,5 |
37,5 |
|
|
Eventos adversos pós-vacinação não graves locais e sistêmicos. |
62,5 |
37,5 |
|
|
Investigação de um evento adverso pós-vacinação grave posterior à primeira dose. |
100 |
0 |
|
|
Domínio Prática resultados n (%) |
|||
|
Tema da Pergunta |
Acertos/ Sim |
Erros/não |
|
|
Tempo de notificação de evento Adverso grave. |
81,2 |
18,8 |
|
|
Notificação de sintomas gripais pós-vacinação contra a covid-19 |
18,8 |
81,2 |
|
|
Orientações ao usuário sobre os possíveis eventos adversos locais, datas de doses subsequentes e alertas. |
100 |
0 |
|
|
Avaliação pré-vacinação acerca da presença de síndromes gripais e episódios de febre. |
100 |
0 |
|
|
Controle de temperaturas ideias nas vacinas covid-19 |
87,5 |
12,5 |
|
Fonte: autores (2022).
Tabela 4. Avaliação da adequação do conhecimento, atitude e prática dos profissionais de enfermagem acerca dos eventos adversos da vacina contra covid-19, Recife-PE, 2022. (n=16)
|
Avaliação dos domínios |
Domínio Avaliado |
||
|
Conhecimento |
Atitude |
Prática |
|
|
Adequado |
6(37,5%) |
9(56,25%) |
4(25%) |
|
Inadequado |
10(62,5%) |
7(43,75%) |
12(75%) |
Fonte: autores (2022).
Na avaliação da adequação do conhecimento, atitude e prática dos profissionais quanto aos eventos adversos das vacinas contra covid-19, evidencia-se que apenas 6 (37,5%) apresentaram conhecimento adequado, 9 (56,25%) apresentavam atitudes positivas ante a responsabilização e notificação desses eventos, 4 (25%) praticavam, adequadamente a notificação e o manejo efetivo ante os EAPV. Houve diferença estatística significante entre a adequação do conhecimento, atitude e prática, indicando que a prática e o conhecimento possuem maior prevalência de não adequação, enquanto a atitude apresenta prevalência significativamente maior de adequação.
DISCUSSÃO
O emprego de tecnologias avaliativas em saúde vem sendo aprimorado, como o uso de inquéritos do tipo conhecimentos, práticas e atitudes (CAP), em específico na área de enfermagem, na perspectiva de aprimorar e apoiar práticas e conhecimentos assistenciais em diferentes cenários de aplicação. Na busca não só de propagar informações como também no favorecimento da avaliação detalhista baseada no olhar científico e validativo e, com isso, proporcionar a eficácia dos cuidados e sistemas implementados.21-22
Os resultados encontrados no estudo mostram fragilidade quanto ao conhecimento científico em pontos estratégicos, atitudes e práticas que demonstram necessidade de compreensão do papel primordial de notificador e de vigilante em saúde. Este foi embasado na fundamentação científica em reconhecer e saber atuar em face da ocasionalidade de um evento adverso, sendo este grave ou não.
Possuir conhecimentos sobre os manuais e protocolos dos eventos adversos reflete positivamente nas condutas e boas práticas ao realizar o manejo de casos de pessoas com eventos adversos, resultando em melhor identificação e condutas adequadas normatizadas. Dos achados do estudo, menos da metade dos profissionais conhecia o Protocolo de Vigilância dos eventos adversos voltado para a vacinação contra a covid-19.23,24
No cenário atual de dúvidas e receios quanto às vacinas contra a covid-19, conhecer as bulas e os principais eventos adversos que elas podem estar ocasionando são fatores extremamente importantes para que a equipe de saúde tenha habilidades e domínio técnico-científico. Os dados obtidos no estudo apresentam questões que suscitam preocupação. Apenas metade dos participantes possui conhecimento do que seria um evento adverso pós- vacinação (EAPV); e menos que isso sabe que são comuns eventos do tipo diarreico pós-administração da vacina contra a covid-19 da marca Pfizer e a frequência de dor nas articulações ou dor muscular pós-vacina contra a covid-19. 25-26
Um resultado semelhante foi encontrado em um estudo realizado no Ceará, em que foi possível observar um conhecimento superficial, tanto das medidas a serem tomadas em casos de eventos adversos quanto da existência de manuais e protocolos de EAPV. 27
É importante ressaltar, que o município estudado iniciou o processo de vacinação coletiva contra a covid-19 utilizando espaços das universidades e centros públicos, em formatos de Drive-thru ou instalações adaptadas para vacinação, através da implementação de um sistema on-line de marcação de vacinação. Como também, houve pouca divulgação pública sobre os possíveis eventos adversos pós vacinação e como proceder na ocorrência deles.
Em outra pesquisa sobre a percepção de usuários ao acesso à vacinação, a falta de conhecimento dos possíveis EAPV surge como um fator comprometedor à continuidade e vontade de ser adepto à vacinação. Embora, na atualidade tenha sido impulsionada a vacinação como forma de prevenção, o fortalecimento da educação em saúde na sala de vacina pelos profissionais da atenção primária em saúde é de intrínseca necessidade para o alcance de metas.28
Acerca das orientações ao usuário sobre os possíveis eventos adversos locais, datas de doses subsequentes e alerta, o universo dos profissionais participantes do inquérito sabia prestar orientações aos usuários. Quando bem orientados, os usuários tendem a desenvolver mais atenção aos sinais e sintomas e seguir as orientações dos profissionais de retornar, bem como informar ao serviço em casos de acometimento de possíveis eventos adversos pós-vacinação. 12,29
Esse laço de confiabilidade e orientação são de intrínseca importância, cabendo à enfermagem exercer o papel educativo nos momentos de vacinação, sendo uma figura de grande influência na adesão deste usuário, no cenário das notificações e investigações, contribuem para redução de subnotificações de EAPV. Como também, fortalece a confiança do usuário na atenção básica em saúde e sobre a vacinação, contribuindo para estes se tornarem mais adeptos da vacinação.12,28
Dentre as medidas específicas que contribuem para a prevenção de EAPV e, concomitantemente, para a adesão dos usuários à vacinação, situa-se uma adequada avaliação na chegada à unidade. Verificam-se possíveis contraindicações e se há a necessidade de adiar ou não uma vacina, como também conduzir todo cuidado em relação ao controle de temperatura, o manuseio e administração correta dos imunobiológicos. De acordo com esta pesquisa, todos os profissionais realizam uma avaliação inicial acerca da presença de síndromes gripais e episódios de febre e boa parte sabem o controle de temperaturas ideias nas vacinas covid-19.13,25,28
A atenção primária em saúde tem um papel primordial em notificar e investigar os eventos adversos pós-vacinação. A atitude de reconhecer esta responsabilidade e conhecer o formulário de notificação facilita a inserção das variáveis na plataforma institucional de notificação para estas vacinas, assim, são considerados fatores de grande importância para a continuidade dessa prática e redução da subnotificação.24,22,15
Percebeu-se que grande parte dos profissionais conhece o formulário de notificação de EAPV do Ministério da Saúde e concorda que as unidades básicas de saúde têm a responsabilidade de monitorar, bem como prestar assistência aos vacinados supostamente acometidos por eventos adversos associado(s) à(s) vacina(s); mas há uma fragilidade em saber os meios de notificação.22,23
Um estudo semelhante realizado em Gana aponta que existe uma relação direta entre o aumento das taxas de notificação de EAPV pelos profissionais que detêm um nível maior de capacitação anual acerca da temática e a debilidade na transmissão de conhecimentos sobre a farmacovigilância e sua importância. Ainda na formação profissional em universidades e faculdades, pode gerar possíveis contratempos para o diagnóstico, manejo, prevenção e notificação de EAPV.29
Diante disso, a insuficiência de fomentos, no que tange aos conhecimentos, atitudes e práticas, como visto em nossos resultados, tendem a ocorrer a um conjunto fatorial, dentre eles: falta de capacitações profissionais relacionada à sala de vacinação, sobrecarga de serviços nas unidades de saúde, bem como à recente transferência da vacinação contra covid-19 para estas unidades.
Entre as limitações metodológicas desse estudo, destaca-se o fato de a coleta de dados ocorrer de forma on-line, obedecendo às normas do CEP vigente, à Resolução 466/12 que envolve pesquisa com seres humanos, do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde, considerando os aspectos da autonomia, não maleficência, beneficência e justiça. Assim, houve uma baixa adesão aos convites encaminhados aos profissionais. No tocante à validação, o tempo de obtenção das repostas também foi prolongado devido à dificuldade de aceite dos especialistas. Também não foi realizada a verificação da validade fatorial exploratória, para análise da consistência interna do instrumento e número satisfatório de questões, para medir o que o constructo se propõe a investigar. Sugere-se ainda a realização de estudos para análise psicométrica do instrumento utilizado, para melhor adequação da pontuação sugerida na avaliação dos domínios.30
CONCLUSÃO
Os resultados apresentados evidenciam carências e limitações aos conhecimentos, atitudes e práticas pela equipe de enfermagem acerca dos eventos adversos pós-vacinação. Com isso, percebe-se a necessidade de estratégias que viabilizem: o desempenho profissional, a agregação de conhecimentos sobre os novos protocolos voltados a vacinas contra a covid-19, atualização das práticas de imunização, por meio capacitações profissionais, como educação permanente, bem como a ampliação da temática abordada em outros distritos do município.
Ademais, os resultados obtidos são benéficos à comunidade científica e à sociedade, por englobarem dados atualizados que podem oferecer subsídios para novas ações de melhoria e qualidade que auxiliem o manejo do cuidado em todos os níveis de integralidade em saúde.
CONTRIBUIÇÕES
Os autores do presente estudo contribuíram igualmente para o desenvolvimento da pesquisa, coleta, análise, discussão dos dados e escrita de texto, bem como revisão do conteúdo.
CONFLITO DE INTERESSE
Nada a declarar.
FINANCIAMENTO
Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (Propesqi) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
REFERÊNCIAS
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