Barreiras na prática da higiene bucal em unidade de terapia intensiva: revisão integrativa

 INTRODUÇÃO

A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) consta de um serviço que desempenha um  papel importante na assistência ao paciente grave, na maioria das vezes incapaz de empenhar-se nas ações de autocuidado.1 A Enfermagem, membro integrante da equipe das UTI, atua compensando totalmente ou parcialmente a incapacidade do  indivíduo para desempenhar essas atividades do autocuidado, como a higiene corporal e oral, alimentação, mudança de decúbito, higiene íntima, administração de  medicamentos, dentre outros.2

A higienização da cavidade bucal do paciente em UTI, especialmente os submetidos à Ventilação Mecânica Invasiva (VMI), é fundamental. Nesses casos, há diminuição da produção salivar e as improbabilidades da mastigação, logo, contribui com o aparecimento de biofilme dental, que pode ser um importante reservatório para patógenos e, que, em situações de broncoaspiração, podem causar a Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAVM).3

Os materiais necessários para realização da Higiene Bucal (HB) são: Equipamentos  de Proteção Individual (EPIs); água destilada ou estéril; espátula (madeira/material  plástico) abaixador de língua; gaze estéril; sistema de aspiração à vácuo montado:  sugador odontológico ou sondas de aspiração (nº 10, 12 ou 14); copo/recipiente  descartável; 10 ml da solução aquosa de digluconato de clorexidina 0,12%; cuffômetro; lubrificante intrabucal: saliva artificial ou água destilada; lubrificante  extrabucal: Ácidos Graxos Essenciais (AGE), dexpantenol creme 5% ou lubrificante à base de água.4

A frequência da HB está relacionada à via de alimentação utilizada e a necessidade de cada paciente, sendo determinada após a avaliação do cirurgião-dentista. Em pacientes em VMI, preconiza-se realizar a HB a cada 12 horas, iniciando pela área peribucal, para posteriormente realizar a limpeza intrabucal. Recomenda-se higiene da região peribucal com gaze estéril umedecida em água destilada ou estéril; antissepsia com gaze estéril umedecida em solução aquosa de digluconato de clorexidina a 0,12%; e lubrificação dessa região com lubrificante extrabucal.4

Em seguida, realizar a limpeza de área intrabucal com gaze estéril disposta em espátula abaixadora de língua, com água destilada estéril ou filtrada nos seguintes locais: mucosa jugal; parte interna dos lábios; gengiva; palato; dorso da língua; dentes; próteses fixas e Tubo Orotraqueal (TOT). Para diminuir a carga microbiana bucal recomenda-se, também, a aplicação de gaze estéril umedecida em solução aquosa de digluconato de clorexidina a 0,12% em todas essas regiões.4

De acordo com a Associação Brasileira de Medicina Intensiva (AMIB), o protocolo da HB é direcionado aos profissionais da Odontologia e equipe de Enfermagem (enfermeiros e técnicos). Portanto, fica sob responsabilidade desses profissionais a realização da HB em pacientes da UTI e a documentação no prontuário do paciente.4

Com isso, torna-se imprescindível a presença e a participação ativa da Odontologia na equipe multiprofissional em UTI.4 Entretanto, a realidade brasileira exprime a deficiência desses profissionais nos setores de cuidados intensivos. Desse modo, os cuidados com a HB ficam na responsabilidade da equipe de Enfermagem.5-6

As Teorias de Wanda Horta, de Orem, de Roper, Logan e Tierney, dentre outras, referenciam que os profissionais da Enfermagem devem avaliar e intervir em pacientes com necessidades humanas básicas, autocuidado ou atividades de vida comprometidas, incluindo a déficits de HB.7-9

Quando a HB é ineficaz ou negligenciada, o risco de complicações durante a internação aumenta principalmente de PAVM em pacientes sob VMI, resultando na elevação do tempo de internação e dos índices de morbimortalidade das instituições.10-12

A maioria dos cuidados dos bundles de PAVM inclui estratégias como: higiene das mãos, EPIs, limpeza do ambiente, limpeza de equipamentos, posição no leito, drenagem de secreção subglótica e cuidados bucais. Com isso, há a evidência que essas práticas se aplicadas individualmente promovem o cuidado, mas quando aplicadas em conjunto, podem resultar em melhoria substancial e potencialmente mais benéfica para os pacientes que estão sendo assistidos.13

Entretanto, periodicamente, a HB não é priorizada na rotina  multiprofissional nas UTI.14 Os motivos variam desde a sobrecarga de trabalho  e falta de treinamento para a realização, até o descomprometimento profissional, por encararem este cuidado pertencente exclusivamente ao cirurgião-dentista.15 Outro  fator que contribui significativamente para este cenário é a carência de protocolos,  com as recomendações sistematizadas para nortear e responsabilizar os profissionais quanto à saúde bucal do paciente crítico.16

Por entender que a prática da HB perpassa por barreiras multifatoriais e que as intervenções eficazes devem ser planejadas e implementadas com foco na priorização da HB enquanto cuidado de Enfermagem, objetiva-se sumarizar o conhecimento científico sobre as barreiras na prática da HB em UTI.

OBJETIVO

Sumarizar o conhecimento sobre as barreiras para a prática da HB em UTI.

MÉTODO

Trata-se de uma Revisão Integrativa (RI) da literatura que apresenta uma compreensão abrangente dos problemas relevantes para os cuidados e as políticas de saúde. Incluem diversas fontes de dados que aprimoram uma compreensão holística do tópico de interesse.17

Este tipo de estudo segue uma ordem cronológica de critérios para a execução do seu perfil metodológico: identificação do problema, questão de pesquisa, procura na literatura, critérios de inclusão e exclusão, identificação e seleção dos estudos relevantes, avaliação da qualidade metodológica dos estudos incluídos, síntese dos dados, interpretação e apresentação dos resultados.17

A pergunta de pesquisa, delineada com base na estratégia PICO, destinou o “P” (População) para profissionais; o “I” (Intervenção) para a prática de HB); o “C” (Unidade de comparação) para a UTI e o “O” (Desfecho) para as barreiras na prática da HB em UTI. Dessa forma, têm-se a seguinte pergunta: Quais as barreiras para a prática da HB em UTI?

A busca foi realizada por dois revisores de forma individualizada entre os meses de abril e maio de 2023, utilizou-se o programa Rayyan®, que permite realizar o processo de seleção dos estudos, organizar a leitura e a seleção dos artigos pelos autores envolvidos.

Foram utilizadas as seguintes bases de dados:  Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS); Scopus; Web of Science; Science Direct e National Library of Medicine (MEDLINE via Pubmed), a biblioteca virtual Scientific Electronic Library Online (ScieLo);  que foram acessadas por meio do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por intermédio da Comunidade Acadêmica Federada (CAFe) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

A fim de proceder com as buscas, foram utilizados descritores controlados selecionados do Dicionário Eletrônico Descritores em Ciências da Saúde e o Medical Subject Headings (DeCS/MeSH), sendo eles no idioma português/inglês: “Enfermagem/Nursing”; “Unidades de Terapia Intensiva/Intensive Care Units” e “Higiene Bucal/Oral Hygiene”. O operador booleano "AND" foi empregado na formulação das estratégias de busca, combinando os descritores em cada base de dados.

As estratégias de busca nas bases de dados estão descritas no quadro 1.

Quadro 1. Estratégia de busca das barreiras da prática da HB nas bases de dados selecionadas. Natal (RN), Brasil, 2023.

Bases de dados e Biblioteca virtual

Termos utilizados

Resultados

LILACS

Nursing AND Intensive Care Units AND Oral Hygiene

Busca: Título, Resumo e Assunto

32 artigos

Scielo

Nursing AND Intensive Care Units AND Oral Hygiene

Busca: Todos os campos

13 artigos

Scopus

Nursing AND Intensive Care Units AND Oral Hygiene

Busca: Título, Resumo, Palavras-chaves

54 artigos

MEDLINE via Pubmed

Nursing AND Intensive Care Units AND Oral Hygiene 

Busca: Todos os campos

32 artigos

Science Direct

Nursing AND Intensive Care Units AND Oral Hygiene 

Busca: Todos os campos

444 artigos

Web of Science

Nursing AND Intensive Care Units AND Oral Hygiene

Busca: Tema

14 artigos

Utilizaram-se como critérios de inclusão: artigos originais, que abordassem o tema do estudo, que estivessem disponíveis para a leitura na íntegra, em qualquer idioma. Artigos de RI, narrativa, literatura cinzenta, editoriais, boletins e informativos relacionados à temática foram excluídos. Os artigos duplicados foram considerados uma única vez. Não foi definido um período temporal específico, visando uma abordagem abrangente das práticas de HB no contexto de terapia intensiva.

Os resultados da pesquisa nas bases de dados e biblioteca virtual supracitadas foram transportados para a plataforma Rayyan (n=589). Em seguida, foram identificados e excluídos os artigos duplicados (n=98). Utilizou-se a estratégia inicial de leitura dos títulos e resumos dos manuscritos (n=491) por dois pesquisadores, de forma independente. Ressalta-se que um terceiro avaliador foi consultado em caso de discordância na seleção de determinado estudo na amostra.

Posteriormente, os textos foram lidos na íntegra e foram removidos os artigos que não estavam em conformidade com o tema do estudo, e com a questão de pesquisa desta revisão, resultando numa amostra final de 21 artigos (Figura 1). O estudo foi redigido de acordo com às recomendações do PRISMA SCR.

Figura 1. Fluxograma da seleção dos artigos adaptados às recomendações no Prisma SCR. Natal (RN), Brasil, 2023.

Os estudos incluídos nesta revisão tiveram suas informações coletadas e sistematizadas utilizando um roteiro que contemplava os elementos-chave dos artigos selecionados, como: autor, ano de publicação, população do estudo, título, objetivo, principais resultados, desenho do estudo, idioma, país de publicação e as principais descobertas relacionadas à questão de revisão.

Os dados coletados na fase anterior foram aglutinados e apresentados de forma descritiva, em quadros ou em forma diagramática, a partir da utilização do Diagrama Ishikawa. Os estudos também foram analisados quanto ao tipo do estudo e o nível de evidência.

Por não incluir participantes humanos, este estudo não passou pelo processo de aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa. No entanto, os princípios da Lei nº 9.610/98 foram seguidos rigorosamente para garantir a preservação e o respeito às ideias, conceitos e definições dos autores dos estudos primários selecionados.

RESULTADOS

Os estudos incluídos (n=21) foram realizados no período de 2007 a 2022 e, em sua maioria, publicados em inglês, seguido da língua portuguesa. Quanto ao país de origem dos estudos, a maioria foi conduzido no Brasil (n=11; 52,38%), seguido por dois estudos na Índia (9,52%) e no Irã (9,52%), além de um estudo em cada um dos seguintes países: Canadá (4,76%), Arábia Saudita (4,76%), China (4,76%), Jordânia (4,76%), Malásia (4,76%) e Suíça (4,76%).

Quanto à população dos estudos, 13 (61,90%) envolveram enfermeiros, cinco (23,80%) incluíram equipes de Enfermagem (enfermeiros e técnicos de Enfermagem), e três (14,28%) abrangeram equipes multidisciplinares atuantes em UTI (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e técnicos de Enfermagem).

O quadro 2 oferece uma visão geral dos estudos incluídos.

Quadro 2.  Síntese dos estudos incluídos quanto ao título, objetivo, resultados, tipo de estudo e país do estudo. Natal (RN), Brasil, 2023. 

Título

Objetivo

Resultado

Tipo do estudo/

Nível de evidência

País do estudo

Análise de percepções e ações de cuidados bucais realizados por equipes de Enfermagem em UTI

Avaliar as percepções e ações da equipe de Enfermagem, quanto aos cuidados de saúde bucal prestados aos pacientes internados em UTI.

Escassez de materiais.

Falta de formação adequada / educação continuada.

Estudo Transversal/4

Brasil

Awareness and practice of patient’s oral care among critical care nurses in a rural tertiary care hospital

Avaliar a conscientização e a prática de cuidados bucais dos pacientes entre enfermeiras de UTI.

Ausência de protocolos sobre HB. 

Obstrução mecânica pelo tubo endotraqueal.

Estudo transversal/4

Índia

Conhecimento da equipe de Enfermagem sobre higiene oral em pacientes criticamente enfermos

Conhecer a prática da higiene oral entre os profissionais de Enfermagem buscando melhorar a qualidade do cuidado e o conhecimento do profissional.

Falta de formação adequada / educação continuada.

Não priorização do cuidado (cuidado secundário).

Estudo transversal/4

Brasil

Conhecimento e atitudes de profissionais de Enfermagem sobre HB em pacientes críticos

Comparar os conhecimentos e as atitudes dos profissionais de Enfermagem atuantes em hospital público e privado sobre HB em pacientes críticos.

Escassez de materiais.

Não priorização do cuidado (cuidado secundário).

Muitas atribuições profissionais (alta demanda, falta de tempo).

Estudo transversal/4

Brasil

Conhecimento e prática do controle de HB  em pacientes internados em  UTI

Avaliar o conhecimento e as práticas do controle de HB em pacientes internados em UTI.

Falta de formação adequada/ educação continuada/

ausência de protocolos sobre HB.

Estudo transversal/4

Brasil

Factors influencing oral care in intubated intensive care patients

Estudar os fatores influentes na forma como os enfermeiros praticam os cuidados bucais.

Falta de formação adequada/ educação continuada.

Muitas atribuições profissionais (alta demanda, falta de tempo).

Estudo transversal/4

Canadá

Higiene oral em pacientes no estado de síndrome do déficit no autocuidado

Registrar como é a operação do cuidado com a HB e identificar as situações cotidianas na UTI que interferem na promoção da HB. .

Muitas atribuições profissionais (alta demanda, falta de tempo). 

Não priorização do cuidado (cuidado secundário).

Falta de prescrição e registros em prontuários.

Estudo qualitativo, descritivo e exploratório/5

Brasil

Intensive care nurses’ 

opinions and practice for oral care mechanically ventilated patients

Avaliar as opiniões e as práticas de enfermeiras iranianas sobre os cuidados bucais em pacientes de UTI sob ventilação controle mecânico.

Muitas atribuições profissionais (alta demanda, falta de tempo)

Não priorização do cuidado (cuidado secundário). 

Escassez de recursos humanos.

Estudo transversal/4

Irã

Intervenção educativa em uma equipe de Enfermagem sobre HB de pacientes críticos na UTI

Avaliar os conhecimentos de uma equipe de Enfermagem de UTI sobre a HB em pacientes críticos.

Falta de formação adequada / educação continuada.

Ausência de protocolos sobre HB.

Estudo transversal/4

Brasil

Knowledge and attitudes of Saudi intensive care unit nurses

regarding oral care delivery to mechanically ventilated patients with the effect of healthcare quality 

accreditation

Avaliar as atitudes e os conhecimentos dos enfermeiros da UTI sobre a assistência ao paciente crítico e sua percepção sobre a disponibilidade de suprimentos de HB.

A HB é uma tarefa difícil e desagradável.

Não priorização do cuidado (cuidado secundário).

Estudo transversal/4

Árabia Saudita

Knowledge, attitude and practice of the nursing team regarding oral health care in Intensive Care Units in a reference hospital of Recife, Brazil

Avaliar o conhecimento, a atitude e a prática de enfermeiros sobre os cuidados com a saúde bucal em UTI.

Falta de formação adequada / educação continuada.

Não priorização do cuidado (cuidado secundário).

Falta de prescrição e registros em prontuários.

Estudo transversal/4

Brasil

Awareness among intensive care nurses regarding oral care in critically ill patients

Avaliar o conhecimento, a atitude e as práticas de enfermeiras de UTI sobre cuidados bucais em pacientes gravemente enfermos.

Ausência de protocolos sobre HB.

Obstrução mecânica pelo tubo endotraqueal.

Estudo transversal/4

Índia

Nurses’ practice and 

educational needs in oral care for postoperative 

patients with oral cancer in ICUs: a multicenter cross sectional

study

Avaliar a situação prática de enfermeiros em UTI para pacientes em pós-operatório de câncer bucal e sua necessidade de treinamento.

Falta de formação adequada / educação continuada.

Estudo transversal/4

China

Percepções de enfermeiros sobre HB em unidades de terapia intensiva adulto

Apreender as percepções de enfermeiros sobre HB em adultos internados em terapia intensiva.

Ausência de protocolos sobre HB.

Falta de prescrição e registros em prontuários.

Estudo qualitativo/5

Brasil

Nurses’ perception and attitudes towards oral care practices for mechanically ventilated patients

Explorar a percepção e as atitudes dos enfermeiros da UTI em relação à prática de cuidados bucais para os pacientes sob Ventilação Mecânica (VM).

A HB é uma tarefa difícil e desagradável.

Falta de formação adequada / educação continuada.

Estudo transversal/4

Jordânia

Oral Care in Trauma Patients Admitted to the ICU: viewpoints of ICU Nurses

Avaliar os pontos de vista e o desempenho dos enfermeiros da UTI nos hospitais Birjand em relação aos cuidados bucais de pacientes sob VM.

Muitas atribuições profissionais (alta demanda, falta de tempo).

Escassez de recursos humanos.

Escassez de recursos materiais.

Obstrução mecânica pelo tubo endotraqueal.

Falta de formação adequada/ educação continuada.

Estudo transversal/4

Irã

Oral care practice for the ventilated patients in intensive care units: a pilot survey

Analisar a atitude dos enfermeiros em relação ao cuidado bucal.

Ausência de protocolos sobre HB. Escassez de materiais

A HB é uma tarefa difícil e desagradável.

Estudo transversal/4

Malásia

Oral care practices for patients in Intensive Care Units: a pilot survey

Avaliar o nível de conhecimento e as dificuldades de pacientes hospitalizados sobre as medidas preventivas de saúde bucal entre os profissionais que trabalham em UTI.

A HB é uma tarefa difícil e desagradável.

Estudo transversal/4

Brasil

Oral Health in Intensive Care Units: level of information, practices and demands of health professionals

Verificar o nível de informação dos profissionais de saúde, as práticas e as demandas de saúde bucal em UTI de um hospital de referência do Sul do Brasil.

Falta de formação adequada / educação continuada /

ausência de protocolos sobre HB.

Estudo transversal/4

Brasil

Valoração e registros sobre higiene oral de pacientes intubados nas unidades de terapia intensiva

Mensurar entre os enfermeiros a valoração da HB de pacientes intubados e avaliar os registros e as ações de Enfermagem relacionados à higienização bucal.

Falta de prescrição e registros em prontuários.

Estudo transversal/4

Brasil

Survey on oral hygiene measures for intubated patients in Swiss intensive care units

Determinar os meios pelos quais a saúde bucal de pacientes intubados em UTIs suíças é assegurada.

Ausência de protocolos sobre HB.

Coorte Prospectiva/2B

Suíça

Identificaram-se nove problemas relacionados às barreiras existentes na prática da HB na UTI (Quadro 3).

Quadro 3.  Síntese dos problemas relacionados com as barreiras na prática da HB. Natal (RN), 2023.

Barreiras para a prática da HB

n (%)

Estudos

Falta de formação adequada / educação continuada

10 (47,61%)

18-27

Não priorização do cuidado (cuidado secundário)

7 (33,33%)

14, 20, 28, 29, 24, 26, 30

Ausência de protocolos sobre HB

6 (28,57%)

18, 21, 27, 31-34

Muitas atribuições profissionais (alta demanda, falta de tempo)

6 (28,57%)

14, 22, 23, 29, 26, 28

A HB é uma tarefa difícil e desagradável

5 (23,80%)

26, 30, 33, 35, 36

Falta de prescrição e registros em prontuários

5 (23,80%)

24, 28, 31, 34, 37

Escassez de materiais

4 (19,04%)

14, 19, 26, 33

Escassez de recursos humanos

3 (14,28%)

21, 26, 29

Obstrução mecânica pelo tubo endotraqueal

3 (14,28%)

22, 26, 32

O diagrama de Ishikawa (Figura 2) identifica as barreiras envolvidas na prática da HB por parte dos profissionais.

Figura 2. Diagrama de Ishikawa. Natal (RN), Brasil, 2023.

DISCUSSÃO

Identificaram-se nove barreiras enfrentadas pelos profissionais em relação à prática da HB na UTI. Trata-se de problemas de causas multifatoriais que perpassam nos âmbitos educacional, de recursos humanos, materiais, gestão e processo de trabalho.

Dentre esses aspectos, a falta de formação adequada ou educação continuada aparece em maior frequência nos estudos, como uma das barreiras para a prática da HB na UTI.18-37 Essa falta de capacitação implica no conhecimento dos profissionais sobre a HB e pode interferir na técnica ineficaz, no uso de materiais e insumos inadequados, na falta de rotina e na frequência na execução da higiene de forma insuficiente, bem como no desconhecimento sobre o impacto da negligência da HB no aumento do tempo de internação e dos índices de morbimortalidade hospitalar.27

A exemplo de outros estudos38-40, acredita-se que a educação continuada se configura como uma estratégia importante para mitigar essas vulnerabilidades, aumentar o engajamento da equipe e a adesão dessa prática de segurança do paciente.

Com isso, ela pode contribuir para amenizar também outras barreiras para a prática da HB, como o medo e a insegurança ao realizar o procedimento e ocasionar a extubação do paciente, especialmente nos casos de obstrução mecânica pelo tubo endotraqueal,22,26,32 bem como, suavizar a percepção de que HB é uma tarefa difícil e desagradável, em detrimento ao conhecimento das implicações de não concluir esta tarefa e o impacto que isso pode ter na qualidade da assistência. Às vezes, entender as consequências pode fornecer uma motivação adicional para lidar com a tarefa desagradável.26,30,33,35,36

Precisa estar claro para os profissionais as evidências científicas sobre o impacto da HB na ocorrência da PAV. Uma má HB em pacientes sob VMI predispõe ao acúmulo de biofilme intraoral e início de PAVM.41 Portanto, a equipe de Enfermagem precisa ser capacitada quanto à técnica, mas também sobre a importância da HB para a prevenção de PAVM, de infecções orais e sistêmicas,27 tendo em vista serem os profissionais que na maioria das vezes são os responsáveis por este cuidado em uma UTI.

Quanto a esse aspecto, alguns estudos referiram que a maioria dos profissionais de saúde possuem conhecimento para a realização da técnica de HB.14,20 Entretanto, alguns reconheceram a falta de capacitação para a realização de tal atividade14,21 e a necessidade de melhoria da educação continuada nas corporações.20 Por vezes, o conhecimento para a realização da HB foi derivado da procura do próprio profissional por habilitação.14

Torna-se, assim, um fato que chama a atenção, pois mesmo que possuam conhecimento adequado, muitas vezes esse cuidado é colocado em segundo plano durante o processo de trabalho da equipe de Enfermagem,14,20,24,26,28-30 o que pode sugerir fragilidades na cultura de segurança do paciente nas instituições, na falta de materiais e de insumos ou na sobrecarga de trabalho.

A escassez de materiais para a realização da HB em hospitais é um outro problema grave que pode prejudicar o atendimento e a qualidade dos serviços de saúde. Há evidências que a higiene oral com clorexidina, bem como a escovação dentária, possivelmente, previne a PAVM na UTI. Entretanto, as evidências sinalizam que essas ações têm pouco ou nenhum efeito no risco de mortalidade desses pacientes, assim como no tempo de ventilação ou permanência nas UTI.42

Além disso, sabe-se que os serviços de saúde também sofrem bastante com a escassez de recursos humanos, o que conflui para que isso seja outra causa que influencia nas barreiras para a prática da HB.21,26,29

Dentre a escassez de profissionais, reconhece-se a falta de cirurgiões-dentistas nas UTI.43 Alguns estudos mostram a relevância do envolvimento de odontólogos na HB em serviços de cuidados intensivos,43-44 especialmente quando comparado aos cuidados habituais realizados pela equipe de Enfermagem com a higiene intraoral, para um risco reduzido de PAVM.44 A presença do cirurgião-dentista na equipe multidisciplinar da UTI é importante para o apoio a esse cuidado, assim como, melhoria da avaliação da cavidade bucal e da orientação de condutas  adequadas de HB.21,26,29

Portanto, fica-se evidente a necessidade da inserção do cirurgião-dentista na equipe multidisciplinar na UTI, o que já está posto no Projeto de Lei nº 883/19 que torna obrigatória a presença de profissionais de Odontologia na equipe multiprofissional de cuidados intensivos.38 A presença desse profissional pode ser uma estratégia para melhorar o desenvolvimento da HB nos pacientes críticos e, junto à equipe de Enfermagem, garantir a qualidade da segurança do paciente, diminuindo os índices das infecções relacionadas à assistência.

Ainda sob o âmbito do processo de trabalho, a alta demanda de tarefas e o dimensionamento do pessoal de Enfermagem sempre no limite, repercute no tempo para a execução e priorização da HB nos pacientes. Tal problema gera uma preocupação, pois desencadeia sobrecargas, estresses, má qualidade do cuidado e decisões equivocadas sobre o que deve ser priorizado ou não, levando-se em consideração que aquele cuidado negligenciado pode piorar o processo saúde-doença do paciente e ocasionar falhas que poderiam ser evitadas.14,22-23,26,28-29

Acredita-se que o processo de trabalho perpassa por várias etapas e elas precisam estar bem definidas e respaldadas pela sua profissão. A falta de prescrição e registros em prontuários demonstra a falta de planejamento, organização e execução do cuidado prestado, transmitindo, assim, a necessidade de reformulações no processo de trabalho para que sejam implementadas novas condutas para a prática de HB.24,28,31,34,37

Recomenda-se, portanto, o planejamento de protocolos de HB, implementação destes nas rotinas diárias das UTI, especialmente por profissionais qualificados, de modo a reduzir a incidência de PAVM.41 A falta de padronização e a inexistência de protocolos para nortear a prática profissional faz com que o cuidado seja prestado de forma errado ou até mesmo negligenciado. Por isso, os protocolos baseados nas melhores evidências científicas devem ser desenvolvidos e atualizados para garantir a padronização dos cuidados, elevando o nível da assistência e garantindo a segurança do paciente.21,28,31-34

Embora não seja o objetivo da RI fazer a análise dos estudos quanto ao nível de evidência, pois se preocupa em realizar a síntese do conhecimento,  foi possível observar que os estudos selecionados e analisados trouxeram contribuições significativas, pois em sua maioria tratavam-se de estudos observacionais bem delineados, com resultados consistentes, configurando um moderado nível de evidência, de acordo com o sistema GRADE.45 Nessa perspectiva, recomenda-se que futuras análises revisem tais  aspectos.

CONCLUSÃO

A prática efetiva da HB exige trabalho conjunto, já que as causas das barreiras para esta prática perpassam por vários âmbitos. São necessárias ações de gestão do cuidado para garantir uma abordagem multidisciplinar ao paciente, a exemplo da inserção do cirurgião-dentista na equipe.

Conclui-se que o cuidado com a HB em UTI, atividade desenvolvida, principalmente, pela equipe de Enfermagem, relaciona-se diretamente com o conhecimento e a atitude profissional; com os recursos e o tempo disponíveis; e com treinamento e políticas institucionais.

Por fim, urge garantir condições à equipe de Enfermagem para o desenvolvimento adequado dos cuidados relacionados à HB em UTI. É oportuno, pois, instituir rotinas, qualificações e melhorias da gestão para diminuir essas barreiras existentes e, assim, fortalecer a cultura de segurança do paciente nesta área do cuidado.

CONTRIBUIÇÕES

Busca nas bases de dados e análise dos estudos para inclusão ou não: ASMMR, TTNJ.

Revisão dos conflitos entre os dois autores: DNAD.

Interpretação e análise dos dados obtidos e redação do artigo: ASMMR, TTNJ, DNAD, KRBR, LMS, DCAD.

CONFLITO DE INTERESSES

Nada a declarar.

REFERÊNCIAS

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Correspondência

Arthur Senna Monteiro de Medeiros Rodrigues

E-mail: arthuursenna5@gmail.com

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