Idioma
Gestão em saúde por enfermeiros na atenção primária à saúde: estudo bibliométrico
Aloma Sena Soares1,
Giovanna Paraense2,
Paula Gisely Costa Silva3,
Eliene do Socorro da Silva Santos4,
Ivaneide Leal Ataíde Rodrigues5,
Laura Maria Vidal Nogueira6,
Robenilson Caldas Valois7
1,2,3,4,5,6,7Universidade do Estado do Pará. Belém (PA), Brasil.
Introdução
No Brasil, a Atenção Primária à Saúde (APS) é considerada a principal porta de entrada para os serviços de saúde e centro de ordenamento da Rede de Atenção à Saúde (RAS). A APS abrange um conjunto de ações individuais, familiares e coletivas, incluindo promoção, prevenção, proteção, diagnóstico, tratamento, reabilitação, redução de danos, cuidados paliativos, e vigilância em saúde. Para garantir a efetividade dessas ações, recomenda-se que sejam desenvolvidas por meio de práticas de cuidado e gestão democráticas e participativas, com uma abordagem integrada e qualificada, realizada por equipe multiprofissional.1
O termo “gestão” refere-se ao conhecimento aplicado ao manejo, gerenciamento e organização necessários para o funcionamento adequado da prestação de um serviço. No contexto da gestão em saúde, em nível macro, destaca-se a responsabilidade de elaborar políticas públicas alinhadas às demandas específicas, de definir prioridades e atividades, além de exercer funções de coordenação, articulação, negociação, planejamento, acompanhamento, controle, avaliação e auditoria. 2-3
Na APS, a gestão assume um caráter multidimensional, abrangendo aspectos financeiros, administrativos, de pessoal, de materiais, e de processos. Além disso, envolve a responsabilidade de promover uma assistência universal, integral e equânime à população atendida, o que representa um desafio para os gestores desse nível de atenção.2
Nesse contexto, a função de “gerente de atenção básica” foi incorporada por meio da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) estabelecida pela portaria nº 2.436 de 21 de setembro de 2017. Essa proposta tem como objetivo aprimorar a qualidade e aperfeiçoamento das atividades técnicas e gerenciais na APS, além de fortalecer a assistência prestada pelas equipes de saúde à população.1
Diante desse cenário, observa-se que enfermeiros assumem predominantemente a função gerencial na APS, pois possuem formação e habilidades que os capacitam a integrar cuidado e gestão sob uma perspectiva interdisciplinar, intersetorial e multiprofissional. Esse perfil contribui para a resolutividade da APS e para a promoção do acesso à saúde de forma eficaz.4
No entanto, enfermeiros e outros profissionais de saúde ainda enfrentam desafios e frequentemente sentem-se despreparados para atuar na gestão, sobretudo devido à falta de experiência na área. Características gerenciais inadequadas à prática profissional podem comprometer o acesso aos serviços de saúde, tornando-o limitado. Além disso, observa-se que a gestão, muitas vezes, se mantém refém de princípios administrativos ultrapassados, o que dificulta a sistematização de dados e torna o planejamento de ações ineficaz, resultando na insatisfação dos usuários, em conflitos entre os trabalhadores e em ambiente de trabalho improdutivo.4
Aliadas a isso, a escassez de recursos financeiros e as fragilidades na gestão em saúde evidenciadas pela inexperiência profissional na área representam obstáculos à adoção de novas tecnologias que poderiam contribuir para a melhoria dos processos de gestão e organização do trabalho.2
Diante da complexidade da gestão na APS e de sua ampla responsabilidade na garantia da assistência à saúde da população, torna-se essencial compreender e mensurar a produção científica sobre o tema. Isso possibilita a caracterização da literatura existente, além da identificação de prioridades e lacunas que possam orientar investimentos em pesquisa e recursos na área.
Nessa perspectiva, optou-se por abordar o tema por meio da bibliometria, que consiste em um conjunto de técnicas quantitativas para medir índices de produção e difusão do conhecimento científico.4 Assim, este estudo tem como objetivo mapear a produção científica sobre a gestão em saúde por enfermeiros na atenção primária à saúde segundo as leis bibliométricas de Bradford, Lotka e Zipf.
Método
Trata-se de um estudo bibliométrico, o qual possibilita ampliar o conhecimento sobre um campo científico, identificar a dispersão da produção, os autores mais produtivos, os periódicos de maior relevância, e as palavras-chave mais utilizadas na indexação e divulgação de pesquisas na área por meio de análises estatísticas e matemáticas.5-6
O estudo foi realizado em sete etapas: 1) definição do objeto; 2) definição do objetivo de pesquisa; 3) elaboração da questão norteadora; 4) delineamento do protocolo de pesquisa pelas pesquisadoras; 5) coleta dos dados; 6) análise e interpretação; 7) apresentação dos resultados.7 Para a formulação da questão norteadora, utilizou-se a estratégia PICo, onde P (População) representa os enfermeiros, I (Interesse) refere-se à gestão em saúde, e Co (Contexto) relaciona-se à APS, resultando no seguinte questionamento: qual o perfil bibliométrico da produção científica sobre gestão em saúde por enfermeiros na atenção primária à saúde?
Com base nesses elementos, foram selecionados os descritores por meio dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), nos idiomas português, inglês e espanhol, sendo eles: Enfermeiros; Enfermeiras e Enfermeiros; Profissionais de Enfermagem; Enfermagem; Gestão em Saúde; Administração de Serviços de Saúde; Atenção Primária à Saúde; bem como seus respectivos termos alternativos em português: Enfermeiro; Enfermeira; Enfermeiras; Gerência em Saúde; Gerência de Serviços de Saúde; Gerência dos Serviços de Saúde; Gestão de Serviços de Saúde; Gestão dos Serviços de Saúde; Atenção Básica à Saúde; Atenção Primária em Saúde. Utilizaram-se os operadores booleanos AND e OR para otimizar a estratégia de busca.
A coleta de dados foi realizada em 14 de junho de 2023 na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Web of Science (WOS), SciVerse Scopus e Pubmed por meio de acesso à Comunidade Acadêmica Federada (CAFe) do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)/Ministério da Educação. Essas bases de dados foram selecionadas devido à sua abrangência e relevância para estudos na área da saúde, possibilitando a identificação de produções científicas e suas características em nível global.
Como critério de inclusão, consideraram-se as publicações de acesso livre nos idiomas português, espanhol e inglês publicadas entre junho de 2018 e junho de 2023, enquanto foram consideradas as publicações duplicadas entre as bases de dados como critério de exclusão. O recorte temporal considerou a atualização da PNAB em 2017, que incorporou as atribuições dos gerentes de unidade.1
Utilizou-se o software web Rayyan®, desenvolvido pelo Qatar Computing Research Institute (QCRI), para exclusão das publicações duplicadas e levantamento preliminar do perfil da amostra.8 A identificação das publicações duplicadas foi realizada por duas pesquisadoras, havendo uma avaliação por uma terceira em casos de discordância.
Em seguida, os dados foram extraídos do Rayyan® em formato CSV e organizados em uma matriz de análise no Microsoft Excel® (versão 2016), incluindo as seguintes variáveis: publicação; formato de publicação; periódico; autores; palavras-chave; idioma; e ano. Realizou-se análise estatística descritiva dessas variáveis, organizando-as em ordem decrescente de acordo com suas frequências e percentuais. Adicionalmente, analisou-se a amostra segundo as Leis Clássicas da Bibliometria de Bradford, Lotka e Zipf.6,9
A Lei de Bradford possibilita identificar a dispersão dos periódicos que mais publicam sobre determinado tema, classificando-os em três grupos com diferentes densidades de produção. O núcleo contém um pequeno grupo de periódicos com alta produtividade e relevância, enquanto as zonas periféricas agregam um maior número de periódicos com menor frequência de publicações.9-10 Neste estudo, os grupos foram divididos igualitariamente, cada um correspondendo a aproximadamente 25% da produção total.
A Lei de Lotka analisa a produtividade dos autores, demonstrando uma relação inversa entre o número de artigos publicados e a quantidade de autores envolvidos. Poucos pesquisadores apresentam alta produtividade, enquanto a maioria publica esporadicamente.11 Para essa análise, utilizou-se a distribuição de Pareto, considerando que 20% da literatura é produzida por autores mais produtivos, enquanto 80% corresponde a autores menos produtivos, aplicando esse percentual sobre a produção total para identificar a produtividade dos autores.
A Lei de Zipf avalia a frequência e distribuição das palavras-chave, evidenciando aquelas de maior relevância semântica e impacto na indexação. Essa lei demonstra que um pequeno número de palavras aparece com alta frequência, permitindo identificar clusters temáticos e tendências de pesquisa.5,6,12 Neste estudo, a análise das palavras-chave e descritores partiu do enésimo valor da palavra mais frequente, seguindo o enésimo do valor gerado, distribuindo-as em três grupos: Zona Trivial (palavras mais frequentes e menos numerosas), Zona Interessante, e Zona de Ruído (palavras menos frequentes, mas mais numerosas).6,12
Para a aplicação dessas leis, utilizaram-se os dados extraídos e organizados no Microsoft Excel® (versão 2016), sendo que cada lei foi analisada em uma aba distinta, utilizando estatística descritiva. Para ilustrar os resultados das Leis de Lotka e Zipf, os dados foram posteriormente processados no Software Vosviewer®, permitindo a construção e visualização da rede bibliométrica de coautoria e a coocorrência de palavras-chave e suas respectivas conexões.
Tendo em vista que este estudo utilizou dados disponíveis em bases de acesso público, e considerando as normas vigentes para produção e divulgação do conhecimento científico, a pesquisa foi dispensada da apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa.
Resultados
Perfil da produção científica
Foram identificadas 10.160 produções científicas antes da aplicação de filtros. Após a aplicação dos critérios de seleção, restaram 1.780 publicações, das quais 126 foram excluídas por duplicidade, resultando em uma amostra final de 1.654 produções. A Figura 1 apresenta o fluxograma das etapas de seleção das produções científicas incluídas nesta bibliometria.

Figura 1 - Fluxograma PRISMA adaptado para seleção das produções científicas incluídas na bibliometria. Belém (PA), Brasil, 2025.
Entre as publicações analisadas, predominou o formato de artigo científico (n=1.626), sendo a maioria disponível no idioma inglês (n=1.281) e publicada no ano de 2018 (n=504). O período de 2018 a 2021 apresentou o maior volume de publicações, com um declínio nos anos subsequentes. A distribuição anual foi a seguinte: 2018 (n=504), 2019 (n=466), 2020 (n=384), 2021 (n=202), 2022 (n=76) e 2023 (n=22), evidenciando uma redução progressiva das publicações relacionadas ao tema.
Foram identificados 8.407 autores, dois dos quais apresentaram nove publicações sobre o tema, três autores publicaram oito artigos, e cinco autores contribuíram com sete publicações. Além disso, 6.726 autores registraram apenas uma publicação. A análise de coautoria foi realizada com o auxílio do Software Vosviewer®, permitindo a identificação das conexões entre os autores. Para esta análise, foi aplicado um filtro considerando autores com pelo menos três publicações, resultando em 6 clusters, 25 itens, 61 conexões, e uma força total de conexão de 103 entre os autores, conforme ilustrado na Figura 2.

Figura 2 - Rede de coautoria das produções científicas incluídas na bibliometria. Belém (PA), Brasil, 2023.
Para melhorar a organização dos achados, os resultados referentes aos periódicos, autores e palavras-chave serão apresentados a seguir, de acordo com cada lei bibliométrica.
Lei de Bradford: Publicações por periódicos
A Lei de Bradford foi aplicada para analisar a dispersão do conhecimento nos periódicos científicos. Foram identificados 519 periódicos distintos, os quais foram distribuídos em quatro quadrantes de acordo com sua produtividade na área temática (Quadro 1).
O 1º quadrante é composto por 10 (1,9%) periódicos que publicaram 416 (25%) documentos; o 2º quadrante inclui 42 (8%) periódicos, responsáveis por 415 (25%) documentos; o 3º quadrante conta com 115 (22,1%) periódicos que publicaram 414 (25%) documentos; e por fim, o 4º quadrante reúne a maior parte, 352 (67,8%) periódicos, com 409 (25%) documentos publicados.
Os 10 periódicos com maior número de produções foram, em ordem decrescente: BMC Health Services Research (n=83), BMJ Open (n=69), Cadernos de Saúde Pública (n=52), Ciência & Saúde Coletiva (n=51), BMC Family Practice (n=38), Journal of the American Board of Family Medicine (n=30), PLOS One (n=27), British Journal of General Practice (n=23), Revista Panamericana Salud Publica (n=23) e Health Services Research (n=20).
Quadro 1 - Aplicação da Lei de Bradford das produções científicas incluídas na bibliometria. Belém (PA), Brasil, 2023.
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Quadrante |
Revistas |
Produções |
Porcentagem (%) |
|
1º |
10 |
416 |
25% |
|
2º |
42 |
415 |
25% |
|
3º |
115 |
414 |
25% |
|
4º |
352 |
409 |
24% |
|
Total |
519 |
1654 |
99% |
Lei de Lotka: Produtividade dos autores
Identificaram-se 8.407 autores com produtividade de 9.768 artigos. A partir da Lei de Lotka, ficou estabelecido que 20% (n=1681) dos autores produziram 31,15% (n=3042) dos artigos, e 80% (n=6.726) dos autores produziram cerca de 68,85% (n=6726) dos artigos (Quadro 2).
Os 11 autores com maior número de publicações foram, em ordem decrescente: Erno Harzheim (n=9), Clare Liddy (n=9), Erin Keely (n=8), Thiago Augusto Hernandes Rocha (n=8), Patricia Rodrigues Sanine (n=8), Patty Fidelis de Almeida (n=7), ERL Castanheira (n=7), Luiz Augusto Facchini (n=7), Alaneir de Fátima Dos Santos (n=7) e Elaine Tomasi (n=7).
Quadro 2 - Aplicação da Lei de Lotka das produções científicas incluídas na bibliometria. Belém (PA), Brasil, 2023.
|
Autores |
N |
Produtividade |
Porcentagem (%) |
|
20% dos Autores |
1681 |
3042 |
31,15% |
|
80% do Autores |
6726 |
6726 |
68,85% |
Lei de Zipf: Frequência e distribuição de palavras-chave
Foram identificadas 3.691 palavras-chave, utilizadas 10.135 vezes para indexação das publicações. A Lei de Zipf foi aplicada para ordenar as palavras de forma decrescente de acordo com sua frequência de ocorrência, sendo distribuídas em três grupos: Zona Trivial, Zona Interessante, e Zona de Ruído (Figura 3).

Figura 3 - Lei de Zipf e a distribuição das Zonas. Belém (PA), Brasil, 2023.
A distribuição de palavras-chave foi realizada por meio do Software Vosviewer®, representada na Figura 4 por meio de um mapa de calor. Para essa análise, foi adotado um ponto de corte mínimo de cinco ocorrências por palavra-chave, resultando em 8 clusters, 335 itens, 5.460 conexões, e 12.398 forças de conexão no total de palavras citadas.

Figura 4 - Lei de Zipf e as palavras-chave de maior destaque nas produções científicas incluídas na bibliometria. Belém (PA), Brasil, 2023.
A Zona Trivial compreende as palavras-chave mais frequentemente utilizadas e de maior relevância para a indexação das produções sobre o tema. No quadro 3, observa-se o percentual das palavras-chave que compõem essa zona em relação ao total de termos analisados.
Quadro 3 - Lei de Zipf e Zona Trivial das produções científicas incluídas na bibliometria. Belém (PA), Brasil, 2023.
|
|
Palavras-chave |
Frequência |
% de todas as Zonas |
% da Zona Trivial |
|
1 |
Primary Health Care |
607 |
5,99 |
45,81 |
|
2 |
Atenção Primária à Saúde |
218 |
2,15 |
16,45 |
|
3 |
Primary care |
209 |
2,06 |
15,77 |
|
4 |
Atención Primária de Salud |
146 |
1,44 |
11,02 |
|
5 |
Humans |
83 |
0,82 |
6,26 |
|
6 |
Referral and Consultation |
62 |
0,61 |
4,68 |
|
|
Total |
1325 |
13,07 |
99,99 |
Discussão
Diante do volume de resultados dessa bibliometria, observa-se a relevância de estudos sobre a gestão em saúde por enfermeiros na APS para o meio científico e social. Esse destaque se deve ao amplo escopo de atuação do enfermeiro na gestão em saúde e na APS tanto no Brasil quanto em outros países. A gestão da APS é um processo complexo que exige profissionais com conhecimentos diversificados sobre gestão e o setor saúde. No entanto, verifica-se que, frequentemente, os gestores de alguns serviços de saúde não possuem formação apropriada para essa função, o que impacta diretamente na qualidade do cuidado prestado à população.13
Apesar desse cenário, é importante ressaltar a potencialidade da formação e do escopo de prática dos enfermeiros na administração e no cuidado em saúde, tornando essa categoria profissional essencial para a gestão dos serviços de saúde.13 O reconhecimento da enfermagem como ciência exige investimentos na qualificação de recursos humanos, além do incentivo à pesquisa e à produção científica, contribuindo para a transformação da sociedade por meio da difusão do conhecimento.7
Nesse contexto, estudos enfatizam a importância do processo de formação permanente dos enfermeiros gestores na APS, pois isso favorece o desenvolvimento de habilidades para a tomada de decisão e liderança que auxiliarão em suas práticas de gerenciais. A crescente busca por qualificação dos gestores pode ser refletida no aumento das publicações científicas sobre o tema entre 2018 e 2021, visto que a formação e gestão em saúde tornaram-se áreas de interesse.13
Ao analisar a dispersão do conhecimento por meio da Lei de Bradford, evidenciou-se que um pequeno número de periódicos concentra a maior parte das publicações, enquanto o número de periódicos nos outros quadrantes aumenta na mesma medida que a sua produtividade sobre o tema diminui, corroborando a premissa de que “poucos produzem muito, e muitos produzem pouco”.14
Esse fenômeno indica a concentração de produções científicas em periódicos de maior impacto, o que reforça achados de outras pesquisas que destacam a importância desses periódicos na disseminação de estudos relevantes sobre a gestão na APS. Dessa forma, mais do que o volume de publicações, é essencial atentar-se à qualidade dos estudos para além da quantidade, garantindo robustez e aplicabilidade dos conhecimentos gerados.2
Com relação à produtividade dos autores, a análise baseada na Lei de Lotka revelou que a produção científica sobre a prática gerencial do enfermeiro ficou abaixo do esperado. Enquanto 80% dos autores produziram aproximadamente 68% dos artigos, os demais 20% foram responsáveis por cerca de 32% da produção total, evidenciando que muitos autores publicam apenas uma vez sobre determinado tema, o que pode estar relacionado ao fato de grande parte das publicações serem derivadas de trabalhos acadêmicos como dissertações e teses, corroborando outros estudos que tiveram o mesmo resultado.15 Além disso, a fragmentação da gestão da saúde na APS também pode representar um obstáculo para o desenvolvimento de modelos robustos na área, como apontado por pesquisas que enfatizam a necessidade de abordagens mais integradas e colaborativas.16
Ao analisar a frequência das palavras-chave, observou-se a predominância de “Atenção Primária à Saúde”, indicando um alto volume de produções nesse contexto. No entanto, constatou-se a ausência do termo “gestão em saúde” na Zona Trivial, aparecendo somente na Zona Interessante, o que demonstra sua baixa utilização nos estudos mesmo diante do seu amplo conceito no DeCS/MeSH, que possibilita diversas aplicações: “Compreende atividades de formação, implementação e avaliação de políticas, instituições, programas, projetos e serviços de saúde, bem como a condução, gestão e planejamento de sistemas e serviços de saúde”. Considerando a intrínseca relação desses termos, convém refletir sobre a abordagem das produções científicas acerca do tema, tendo em vista que a gestão faz parte da APS como uma atividade essencial para a assistência integral nesse âmbito, podendo ser realizada por ação direta do profissional de saúde ao usuário e por articulação entre profissionais da equipe de saúde atuante na APS, que envolve desde a gestão de recursos até a gestão do cuidado.16-17
Ainda no tocante à frequência das palavras-chave, verificou-se o predomínio do descritor “Referral and Consultation”, que representa, segundo o DeCS/MeSH, “Prática de enviar um paciente para outro programa ou médico para provisão de serviços ou aconselhamento, os quais a fonte da referência não está preparada para fornecer”, revelando que o encaminhamento do paciente da APS para a atenção especializada é frequente tanto na realidade prática quanto científica. Destaca-se o protagonismo da APS na regulação assistencial, atribuindo conceitualmente a noção de microrregulação, possibilitando a articulação entre Telessaúde e serviços da atenção secundária, e ampliando o acesso ao cuidado integral.18
O reconhecimento desse protagonismo, no entanto, não significa a sua efetivação nas realidades locais, tendo em vista que o acesso à atenção especializada é um dos maiores problemas do Sistema Único de Saúde (SUS) devido à insuficiência e/ou fragilidade na oferta diagnóstica e terapêutica, na organização e funcionamento da atenção especializada, bem como na qualidade de encaminhamentos e solicitações. Tal fato demanda atenção e reflexão acerca do cuidado que tem sido ofertado, buscando-se fortemente a racionalização dos recursos sob a lógica financeira e do cuidado para continuidade desse cuidado, vislumbrando o fortalecimento e a ampliação da capacidade clínica e resolutiva da APS.18
Ao examinar a produção científica sobre a gestão em saúde por enfermeiros na APS, obtêm-se subsídios para reflexões acerca do que está sendo produzido, como está sendo indexado, e o que de fato os pesquisadores estimam evidenciar. Além de adotar uma abordagem focada na análise bibliométrica distinta de outros estudos que discutem a gestão na APS, as análises de coautoria e dispersão do conhecimento oferecem uma nova perspectiva sobre como a literatura sobre o tema está sendo construída, contribuindo para mapear a produtividade científica e a colaboração entre autores, aspectos que os estudos analisados não abordam de forma detalhada.
Essas reflexões poderão estimular novas investigações com o intuito de transformar o panorama evidenciado e fortalecer a prática de enfermagem na gestão em saúde da APS, contribuindo para a visibilidade e expansão dessa área do conhecimento, bem como para avanços na valorização da enfermagem na gestão em saúde e da APS.
Limitações do estudo
Este artigo apresenta limitações a respeito da utilização de dados secundários, uma vez que são passíveis de erros e/ou omissão de dados para indexação e divulgação dos estudos, assim como em relação à falta de aprofundamento em questões qualitativas das produções. Contudo, a proposta do trabalho foi atendida, suscitando reflexões sobre o tema e sobre a importância da enfermagem na gestão da APS, contribuindo para o avanço e fortalecimento da produção científica em torno da APS.
Conclusão
A partir da análise do perfil bibliométrico sobre a gestão em saúde por enfermeiros na Atenção Primária à Saúde, observou-se que a produção científica sobre o tema é ampla e diversificada, porém apresenta declínio ao longo do período analisado. As publicações são predominantemente artigos em inglês, com relevante colaboração entre os autores, porém com baixo quantitativo de pesquisadores dedicados ao tema. Além disso, a dispersão entre os periódicos e palavras-chave indica uma ampla variedade de enfoques e uma certa fragmentação no campo de estudo.
A aplicação da Lei de Bradford revelou os periódicos mais influentes e produtivos na área, o que pode orientar a escolha de revistas para futuras publicações. Por meio da Lei de Lotka, foi possível identificar os autores mais produtivos, fornecendo importantes referências para futuras pesquisas sobre o tema. A análise das palavras-chave utilizando a Lei de Zipf mostrou as expressões mais frequentes e representativas do campo, o que contribui para um entendimento das áreas mais relevantes e emergentes dentro do estudo da gestão em saúde por enfermeiros na Atenção Primária à Saúde.
Dessa forma, destaca-se a importância de estudos bibliométricos para investigações futuras na área da saúde, especialmente na enfermagem. Essas metodologias auxiliam na identificação de tendências e lacunas no conhecimento, sendo fundamentais para direcionar e fortalecer a produção científica. O uso dessas abordagens pode ajudar a consolidar a pesquisa em enfermagem, melhorar a visibilidade de temas emergentes, e ampliar a colaboração entre os pesquisadores, otimizando o impacto da produção científica na prática profissional.
Contribuições dos autores
Concepção do estudo: Aloma Sena Soares, Giovanna Paraense, Paula Gisely Costa Silva, Rubenilson Caldas Valois. Coleta de dados: Aloma Sena Soares, Giovanna Paraense, Paula Gisely Costa Silva. Análise e interpretação dos dados: Aloma Sena Soares, Giovanna Paraense, Paula Gisely Costa Silva, Rubenilson Caldas Valois. Redação do manuscrito: Aloma Sena Soares, Giovanna Paraense, Paula Gisely Costa Silva, Eliene do Socorro da Silva Santos, Ivaneide Leal Ataíde Rodrigues, Laura Maria Vidal Nogueira, Rubenilson Caldas Valois. Revisão crítica do manuscrito: Aloma Sena Soares, Giovanna Paraense, Paula Gisely Costa Silva, Eliene do Socorro da Silva Santos, Ivaneide Leal Ataíde Rodrigues, Laura Maria Vidal Nogueira, Rubenilson Caldas Valois. Aprovação da versão final do texto: Aloma Sena Soares, Giovanna Paraense, Paula Gisely Costa Silva, Eliene do Socorro da Silva Santos, Ivaneide Leal Ataíde Rodrigues, Laura Maria Vidal Nogueira, Rubenilson Caldas Valois.
Conflito de interesse
Os autores declararam que não há conflito de interesse.
Referências
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Correspondência:
Aloma Sena Soares
E-mail: alomassoares@gmail.com
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