Cenário de simulação do manejo da hemorragia pós-parto para a redução da mortalidade materna

Tatiane da Silva Coelho1, Guilherme Frederico Abdul Nour2, Natália Cabrera Matos3, Ana Izabel Oliveira Nicolau4, Cicera Brena Calixto Sousa Borges5, Ingrid Caroline Uchôa Alexandre6, Maria Salete Barbosa Monteiro7, Ana Kelve de Castro Damasceno8

1-8Universidade Federal do Ceará. Fortaleza (CE), Brasil.

Introdução

A hemorra­­gia pós-parto (HPP) é a principal causa mundial de morte materna, sendo responsável por cerca de 140 mil mortes anuais, de modo que a cada quatro minutos uma mulher morre vítima de HPP.1 É definida pela perda sanguínea cumulativa maior ou igual a 1.000 ml, independente da via de parto, ou pela perda sanguínea acompanhada de sinais ou sintomas de hipovolemia em até 24 horas após o nascimento.2

No Brasil, nos últimos anos, foram evidenciadas aproximadamente 110 mortes maternas a cada 100 mil nascidos vivos, sendo a grande maioria, consideradas evitáveis. Apesar das melhorias ocorridas na assistência à saúde da mulher, ainda há desafios para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que, dentre outros, visam reduzir a taxa anual global de mortalidade materna para menos de 70 a cada 100 mil nascidos vivos até o ano de 2030 e a qualificação das equipes assistentes para atuar frente a essa grave problemática.3,4

A simulação clínica, assim, surge como método eficaz para o aperfeiçoamento e capacitação dos profissionais de saúde. Essa estratégia pedagógica busca garantir o desenvolvimento de habilidades por meio de cenários clínicos que se aproximam da realidade assistencial. Vem sendo utilizada na educação permanente de profissionais de enfermagem com o objetivo de melhorar a qualidade dos cuidados e garantir a segurança dos pacientes por meio do estímulo à comunicação efetiva, tomada de decisão em tempo oportuno e liderança de equipe. Com isso, é possível fortalecer uma aprendizagem fundamentada sem expor o paciente a erros evitáveis devido à carência de conhecimento, experiência ou segurança na realização da conduta necessária.5-7

 Desta forma, a International Nursing Association Clinical Simulation & Learning (INACSL)8, estabelece normas para o desenvolvimento dos padrões de simulação, incluindo as etapas necessárias para que ocorra de forma organizada e seu desfecho seja bem-sucedido. Entre elas, o delineamento ou design da simulação, essencial para garantir os resultados esperados, pois nele são planejados todos os elementos necessários para a realização da atividade, desde a pesquisa com especialistas sobre o conteúdo a ser abordado até a realização de estudo piloto antes de implementar a simulação com o participante final.

Diversas publicações recomendam que o estudo piloto seja realizado antes da aplicação da simulação com o público-alvo, preferencialmente, em um grupo semelhante ao público proposto, visando torná-lo o mais fidedigno possível. É nesta fase que se identificam elementos inadequados, falta de clareza ou necessidade de adicionar informações não citadas e corrigir possíveis erros para que seja garantida a aplicação do cenário de forma a atingir os resultados esperados.9-11

Ao considerar o exposto e a importância das simulações clínicas para o desenvolvimento das competências profissionais, torna-se necessário aprimorar o cenário de simulação clínica para o manejo da HPP, bem como os instrumentos utilizados na condução do cenário, coleta de dados e avaliação. Tais melhorias, realizadas após o estudo piloto, conferem maior segurança para aplicação do cenário no ensaio clínico, de forma a garantir que este atinja os objetivos de aprendizagem. Além disso, reforça-se a importância de haver cenários de simulação validados para serem aplicados no cotidiano das práticas de ensino em serviço com equipes multidisciplinares, de forma a qualificar a assistência prestada às mulheres com quadro de hemorragia pós-parto.

O enfermeiro tem papel importante na avaliação e detecção precoce dessa emergência obstétrica, possibilitando a realização das intervenções em tempo hábil e de forma organizada pela equipe multidisciplinar responsável pelos cuidados maternos no período pós-parto. Além disso, a experiência dos profissionais nas emergências obstétricas tem impacto positivo no cuidado, pois direciona de forma mais precisa as intervenções que devem ser realizadas. Todavia, a inexperiência pode acarretar prejuízo na realização desses cuidados.12-13

Do exposto, objetivou-se identificar as lacunas e adaptações necessárias na aplicação de um cenário de simulação clínica para o manejo da hemorragia pós-parto como instrumento de um ensaio clínico.

Método

Trata-se de um estudo piloto de ensaio clínico randomizado desenvolvido de acordo com o Consolidated Standards of Reporting Trials (CONSORT).14 A coleta dos dados, realizada entre outubro e novembro de 2022, ocorreu na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC), localizada na cidade de Fortaleza - CE, instituição de nível terciário, vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS), sendo desenvolvidas atividades de média e alta complexidade, na atenção hospitalar e ambulatorial à mulher e ao recém-nascido.

Compuseram a amostra os 12 enfermeiros residentes de enfermagem obstétrica atuantes no serviço. Trata-se de uma amostragem não probabilística por conveniência, após estabelecimento dos seguintes critérios de inclusão: ser residente de enfermagem obstétrica, atuar no serviço e ter disponibilidade para participar de todas as etapas do estudo. Estabeleceu-se como critério de exclusão os participantes ausentes ou afastados por licença saúde.

Os dados foram coletados por meio de instrumentos semiestruturados na plataforma virtual do Google Forms para posterior análise descritiva. O pré-teste e o pós-teste abordavam questões acerca do conhecimento dos participantes sobre a temática da hemorragia pós-parto; questões sobre a participação prévia em treinamento por meio de simulação clínica; e trabalho em equipe no que respeita às competências necessárias para o manejo da HPP. A análise descritiva foi realizada para obtenção da linha de base acerca do perfil dos participantes e para a condução do processo de ensino-aprendizagem.

 O estudo obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da MEAC, sob o parecer nº 5.669.224.

O briefing ou prebriefing é a atividade realizada previamente à simulação para fornecer informações preparatórias sobre a temática abordada; o cenário em que a simulação será realizada é o ambiente projetado para possibilitar ao participante vivenciar a experiência o mais próximo da realidade; o facilitador é o indivíduo responsável por coordenar a simulação; e o debriefing é o processo reflexivo realizado ao final da simulação para fornecer feedback dos pontos positivos e negativos percebidos.7,13 O desenho da coleta de dados ocorreu em 3 etapas, conforme informações do quadro 1.

Quadro 1 - Etapas do estudo piloto. Fortaleza (CE), Brasil, 2023.

 

Atividades realizadas

Primeira etapa

Assinatura do TCLE;

Apresentação dos objetivos de aprendizagem;

Apresentação dos instrumentos do cenário de simulação;

Explicação acerca do papel dos encenadores no cenário;

Avaliação do perfil dos participantes;

Realização do pré-teste.

Segunda etapa

Randomização dos participantes para o cenário de simulação;

Realização do prebriefing;

Aplicação do cenário;

Realização do debriefing;

Realização do pós-teste e instrumentos de avaliação do cenário.

Terceira etapa

Realização dos ajustes quanto ao perfil, a experiência e o conhecimento prévio dos participantes acerca do manejo da hemorragia pós-parto;

Realização de melhorias no cenário de simulação clínica para manejo da hemorragia pós-parto;

Realização de ajustes nos instrumentos de avaliação do cenário de simulação clínica para o manejo da hemorragia pós-parto.

Primeira etapa

Correspondeu à reunião realizada com os residentes para apresentar os objetivos de aprendizagem da pesquisa, bem como detalhes acerca da implementação da simulação clínica. A equipe de pesquisa foi composta pela pesquisadora principal e uma auxiliar. Foram explanados o caso clínico e os instrumentos de condução do cenário, neles compreendidos o esboço do script que seria utilizado pelos encenadores e os objetivos de aprendizagem. Desta forma, buscou-se aproximar os residentes da temática proposta e sanar dúvidas acerca do cenário de simulação, criar os instrumentos de avaliação, pré-teste e pós-teste. Além disso, o TCLE foi assinado após o aceite em participar da pesquisa. Em último momento, os instrumentos de avaliação sociodemográfico e de formação do público-alvo e o pré-teste foram preenchidos pelos participantes.

Segunda etapa

Implementação dos componentes do cenário de simulação: prebriefing, cenário e debriefing. Foi realizada a randomização dos participantes em dois grupos paralelos por meio do site www.randomizer.org, com seis participantes em cada grupo. O primeiro composto por encenadores que atuaram diretamente no cenário, distribuídos os papéis para cada participante, e outro grupo com participantes que observaram as atividades realizadas durante o manejo da HPP no cenário de simulação clínica, por meio do checklist de ações esperadas.

A duração de cada um desses componentes da simulação foi diagramada da seguinte forma: o prebriefing em três minutos e o cenário e o debriefing dez minutos cada.

Durante o prebriefing foram apresentados aos participantes o cenário de simulação, a familiarização com o caso clínico, os materiais e equipamentos do cenário, além de serem discutidos os objetivos de aprendizagem e as etapas subsequentes. Durante a condução do cenário, o facilitador forneceu as dicas necessárias para seguimento do caso quando os participantes se desviavam do objetivo pretendido ou quando o cenário não progredia, além das informações solicitadas pelos participantes, como dados extras sobre o caso.

Para finalizar a segunda etapa, realizou-se o debriefing, processo de reflexão dos participantes acerca das ações realizadas, por meio de perguntas gatilho, orientadas pelo facilitador, objetivando a análise da conduta dos participantes, além da aplicação do instrumento de avaliação do cenário.

Terceira etapa

Correspondeu aos ajustes realizados após o estudo piloto referentes ao perfil, experiência e conhecimento prévio dos participantes acerca do manejo da hemorragia pós-parto; às melhorias no cenário de simulação clínica para manejo da HPP; e aos ajustes nos instrumentos de avaliação do cenário de simulação clínica para o manejo da HPP.

Resultados

Participaram da pesquisa doze residentes de enfermagem, com idade entre 24 e 30 anos, a maioria do sexo feminino (91,7%), solteiros (75,0%), com tempo de formação entre 2 e 5 anos, sendo prevalente dois anos de formação (41,7%). A participação em treinamentos acerca da temática hemorragia pós-parto foi expressiva (91,7%), inclusive 33,3% deles participaram três vezes ou mais, com última capacitação há cerca de um ano. No ensaio clínico foram incluídos alguns questionamentos acerca do perfil dos participantes, considerados relevantes para caracterização dos sujeitos.

Outro instrumento relevante para o estudo foi o pré-teste realizado na primeira etapa acerca dos conhecimentos prévios sobre a temática abordada. No ensaio clínico, as duas perguntas iniciais presentes nesse instrumento foram retiradas do pré-teste e inseridas no instrumento referente ao perfil dos participantes. Além disso, outros itens foram inseridos neste instrumento para aperfeiçoá-lo (Tabela 1).

Tabela 1 - Itens utilizados nos instrumentos de pré-teste do estudo piloto e do ensaio clínico. Fortaleza (CE), Brasil, 2023.

 

Itens utilizados nos instrumentos de pré-teste

 

Estudo piloto

 

Ensaio clínico

Participação prévia no manejo de HPP

ü      

--

Sentir-se preparado para atender uma puérpera com HPP

ü      

--

Avaliação inicial da HPP

ü      

ü      

Índice de choque

ü      

ü      

Diagnóstico visual de perda sanguínea

ü      

ü      

Prescrição padrão no manejo da HPP

ü      

ü      

Material do kit de HPP

ü      

ü      

Causas da HPP

--

ü      

Estratificação de risco para HPP

--

ü      

Hora de ouro na HPP

--

ü      

Tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento da HPP

--

ü      

Trabalho em equipe no manejo da HPP

--

ü      

Manejo não cirúrgico da HPP

--

ü      

Prevenção da HPP

--

ü      

Método clínico para diagnóstico da HPP

--

ü      

Competências do enfermeiro no manejo da HPP

--

ü      

Legendas: (      ) Presente; ( -- ) Ausente.

Um fluxograma para tomada de decisão foi criado a partir da necessidade de dar fluência às ações esperadas durante o cenário de simulação. Nele estão descritos os passos esperados do participante voluntário durante o cenário proposto e as ações que o paciente padronizado deve realizar caso alguma atividade não seja feita. É uma ferramenta de qualidade que, por representação gráfica, permite a fácil visualização dos passos de um processo (Figura 1).

 

Figura 01 - Fluxograma do cenário de simulação. Fortaleza (CE), Brasil, 2023.

Fonte: Adaptado de Manual de Simulação Clínica para Profissionais de Enfermagem. COREN São Paulo, 2020. Fortaleza, Ceará, Brasil, 2023.

A figura 2 representa uma das questões abordadas no instrumento realizado no pós-teste, que considerou os critérios utilizados para diagnosticar a HPP. Os indicadores com maior prevalência para identificar a HPP foram a estimativa visual de perda sanguínea, o índice de choque e a instabilidade hemodinâmica da paciente.

Figura 2 - Representação gráfica acerca critérios utilizados para diagnóstico da HPP. Fortaleza (CE), Brasil, 2023.

A partir dos dados fornecidos neste instrumento, foram realizadas melhorias na moulage (técnica de simulação que usa arte para criar condições realistas em atores ou em manequins) utilizada no cenário de simulação como a melhoria da coloração, densidade e viscosidade do sangue artificial, e o adicionamento da quantidade real (medida em ml) de sangue sobre o absorvente e os lençóis da paciente simulada para facilitar a estimativa visual de perda sanguínea; a adequação do útero artesanal para simular a atonia uterina, facilitando assim a definição da causa da HPP e o aperfeiçoamento das placas indicativas do monitor multiparamétrico para averiguação dos sinais vitais da puérpera com hemorragia. Posteriormente, foi adicionado um aplicativo que simula a tela do monitor multiparamétrico, oportunizando mais realismo para a cena.

Acerca das melhorias realizadas no cenário de simulação, foram ajustados os tempos de duração de cada etapa da simulação. Desta forma, o estudo identificou que o tempo delimitado para cada atividade foi insuficiente para que os objetivos de aprendizagem fossem alcançados, necessitando de adaptações. O prebriefing, com duração inicial de três minutos, teve duração ajustada para cinco minutos no ensaio clínico. Da mesma forma, o debriefing, com duração inicial de dez minutos, passou a ter duração de trinta minutos no ensaio clínico. O cenário não necessitou de adaptações no que diz respeito ao tempo de duração, permanecendo com duração de dez minutos.

Também foram realizadas melhorias no checklist de ações esperadas, foram acrescentados itens referentes à comunicação, exame físico e manejo medicamentoso, sendo o instrumento posteriormente submetido à validação com experts.

Ao considerar que a avaliação dos dados coletados na pesquisa auxilia na validação da eficácia do método de ensino utilizado para o público ao qual está sendo aplicado, foram necessários outros instrumentos validados para compor a coleta de dados, entre eles: o Lasater Clinical Judgment Rubric (LCJR), que avalia o julgamento clínico baseado no conhecimento prévio dos enfermeiros, sendo relevante para a avaliação inicial e para o diagnóstico precoce de HPP; e o Clinical Competence Questionnaire (CCQ), que permite uma autoavaliação quanto à competência clínica do enfermeiro.

No que diz respeito ao cenário, acrescentou-se a utilização de um instrumento que compara os dois ambientes de ensino-aprendizagem: o de ensino tradicional e o baseado em simulação clínica – Clinical Learning Environment Comparison Survey (CLECS). A partir da utilização desses instrumentos é possível avaliar se o ambiente simulado é considerado como ferramenta eficaz na abordagem de algumas temáticas, facilitando o processo de aprendizado do participante. Ademais, seguindo recomendações acerca do uso de escalas de avaliação da simulação, acrescentou-se o instrumento intitulado Simulation Effectiveness Tool-Modified (SET-M), que avalia a percepção dos participantes sobre a eficácia do cenário para o processo de ensino-aprendizagem.

Discussão

No que tange ao perfil dos participantes, as informações adicionadas ao instrumento do ensaio clínico foram consideradas relevantes, pois as experiências teóricas e/ou práticas prévias, assim como os conhecimentos acerca da temática, são fatores influenciadores para a caracterização da amostra.7

Em simulações clínicas, a análise do conhecimento prévio do participante possibilita definir as competências a serem alcançadas, os objetivos do cenário simulado e a complexidade da atividade.15 Além disso, resultados provenientes de estudo que analisou a atuação de enfermeiros em emergências relacionadas ao período puerperal,5 evidenciaram que o tempo de experiência e as capacitações profissionais auxiliam na detecção de riscos e na conduta frente a essas situações.

Em relação aos conhecimentos prévios dos participantes informados no pré-teste deste estudo, as duas primeiras perguntas (“Você já participou do manejo de uma HPP?” e “Você se sente preparado para atender uma puérpera com HPP?”) foram retiradas do pré-teste do ensaio clínico e inseridas no instrumento de avaliação sociodemográfico por serem consideradas perguntas que envolvem o perfil do participante.

Para os participantes que responderem que não se sentem preparados para atender uma puérpera com HPP, acrescentou-se pergunta para saber o motivo, informação relevante para o pesquisador identificar as causas dessa insegurança por parte dos profissionais. Nesse contexto, estudo de revisão integrativa que avaliou os cuidados de enfermeiros frente às hemorragias puerperais16, identificou que muitos dos profissionais que atuam no período gravídico-puerperal sentem dificuldade em diagnosticar e realizar o manejo adequado da HPP. Entre os motivos citados destacam-se a aferição inadequada dos sinais vitais, subjugamento dos registros, dificuldade na estimativa visual de perda sanguínea e desconhecimento acerca de cuidados básicos realizados nessas situações, como a massagem uterina.

Ao considerar que a avaliação dos participantes é uma das etapas que auxilia no processo de melhoria da qualidade da simulação e que sua aplicação visa mensurar os resultados esperados da pesquisa por meio do uso de ferramentas válidas e confiáveis17, observou-se a necessidade de aprimoramento do pré-teste aplicado. Assim, no ensaio clínico, este instrumento abordou em mais detalhes os conhecimentos prévios acerca da HPP, bem como seu manejo e as competências esperadas pelo enfermeiro nestas situações.

Além disso, no ensaio clínico foi inserido um fluxograma contendo a ordenação das ações realizadas no cenário. Esta ferramenta permite a fácil visualização do passo a passo da simulação e possibilita que o leitor tenha uma visão completa do processo por meio de símbolos padronizados representando cada etapa.7 Este fluxograma foi utilizado no cenário de simulação para sequenciar as ações esperadas pelo enfermeiro participante e fornecer dicas do paciente simulado para auxiliar na continuidade da simulação.

No que diz respeito ao pós-teste realizado ao término da simulação, os dados evidenciaram que a estimativa visual de perda sanguínea, o índice de choque e a instabilidade hemodinâmica da paciente foram os indicadores que mais contribuíram para o diagnóstico da HPP. Entretanto, outros indicadores importantes para a identificação correta do diagnóstico supracitado, como a atonia uterina e as queixas referidas pela paciente simulada, não foram considerados pela maioria dos participantes.

Desta forma, foram identificadas melhorias necessárias para o ensaio clínico no que diz respeito aos equipamentos presentes no cenário de simulação, bem como na moulage utilizada. Tal achado é corroborado por outros estudos que evidenciam que estes artifícios, quando utilizados de forma adequada, tornam o cenário mais realístico, aumentam as percepções sensoriais dos participantes e melhoram o engajamento na simulação.17-18 A moulage é utilizada como pista visual e tátil para aprimorar o realismo do cenário.

Estudo que avaliou o uso da moulage na simulação clínica evidenciou que para ter efeito positivo na simulação é necessária a elaboração de um cenário com alta fidelidade, com o intuito de auxiliar na avaliação do caso, na tomada de decisão e no engajamento sensorial pelo participante.19 Seguindo este preceito foram realizadas adequações no sangue artificial produzido, buscando torná-lo mais realístico e evidente; melhorias no útero artesanal também foram realizadas para facilitar a identificação da causa da HPP por atonia uterina; e as placas contendo os sinais vitais da paciente simulada foram aprimoradas para exposição mais evidente no monitor multiparamétrico, auxiliando na identificação da sua instabilidade hemodinâmica.

Outro aspecto importante acerca da simulação é a duração de cada umas de suas etapas. Estudo afirma que é fundamental no processo de planejamento de uma simulação delimitar o tempo de duração da atividade, garantindo que ele seja suficiente para atingir os objetivos esperados. Entretando, é possível que ao final do tempo estipulado o cenário não seja concluído ou o ritmo muito lento reduza a imersão do participante na atividade, porém estes fatores podem ser discutidos no debriefing ao final na simulação.20

Desta forma, observou-se que o tempo estipulado para realização do prebriefing e do debriefing foram insuficientes para abordar o conteúdo planejado pelo facilitador da simulação. Assim, na aplicação do cenário no ensaio clínico foi necessária mudança no planejamento destas etapas: o prebriefing, com duração inicial de 3 minutos, teve duração de 5 minutos no ensaio clínico; e o debriefing, com duração inicial de 10 minutos, teve duração de 30 minutos no ensaio clínico. Esse aumento considerável na duração do debriefing justifica-se por esta ser uma das etapas mais importantes da simulação, pois é o momento em que o participante reflete sobre sua atuação no cenário e recebe o feedback dos outros participantes que atuaram como observadores.21 O tempo de duração do cenário não necessitou de ajustes e permaneceu com 10 minutos.

Outro fator importante na atividade simulada é a utilização de checklist de ações esperadas. Sua aplicação é fundamental para a avaliação da experiência simulada, pois facilita a conferência das ações a serem executadas durante o cenário. É considerado também como recurso instrucional para acompanhamento da simulação, simplificando o processo de debriefing pelo facilitador.15 Neste intento, o checklist utilizado no cenário simulado de HPP, possibilitou a verificação dos itens realizados pelo enfermeiro atuante em relação ao manejo do quadro clínico da hemorragia. A INACSL reforça a importância da utilização do checklist ou de outros instrumentos para validar e garantir a consistência e a confiabilidade do cenário.10

De acordo com os resultados obtidos e a busca por melhorias da simulação implementada, mostrou-se necessária a utilização de instrumentos validados na etapa de avaliação do ensaio clínico, entre eles: o Lasater Clinical Judgment Rubric (LCJR), o Clinical Competence Questionnaire (CCQ), o Clinical Learning Environment Comparison Survey (CLECS) e o Simulation Effectiveness Tool-Modified (SET-M).

O LCJR foi acrescentado ao ensaio clínico como instrumento de avaliação do julgamento clínico do enfermeiro, primordial para a tomada de decisão durante o manejo da HPP. Este método promove o aprendizado de forma individual, identifica lacunas, permite a autoavaliação, bem como a aquisição de conhecimentos. Estudo realizou validação e mostrou confiabilidade a este instrumento na aplicação em estudantes de enfermagem, concluindo que o modelo estrutural proposto pelo LCJR tem boa qualidade para avaliar o julgamento clínico e pode ser recomendado como instrumento de acompanhamento nos diferentes contextos de cuidado.22

Outro instrumento utilizado foi o CCQ. Este instrumento avalia a competência clínica dos participantes antes e depois da simulação para comparar o que melhorou com a prática simulada. Estudo traduziu e adaptou transculturalmente esse instrumento para a língua portuguesa e concluiu que ele é uma ferramenta útil para avaliação tanto de comportamentos, quanto de habilidades dos participantes.23

O CLECS, também aplicado no ensaio clínico, é um instrumento utilizado para comparar o ambiente de aprendizagem tradicional com o ambiente de aprendizagem simulada. Essa informação se mostrou útil para a pesquisa devido à necessidade de compreender se o ambiente simulado é eficaz na capacitação de profissionais da área da saúde. Outrossim, avaliações prévias acerca deste instrumento mostram que os estudantes de enfermagem consideram satisfatório o aprendizado com o uso de simulações, porém ele não pode ser considerado como um substituto das experiências clínicas durante a graduação.24

Por fim, o SET-M foi um instrumento utilizado para verificar a eficácia da simulação, na qual o participante avalia a sua experiência em cada uma de suas etapas (prebriefing, cenário e debriefing). A adaptação deste instrumento para a versão brasileira mostrou que esta ferramenta é eficaz, porém foi observado que mesmo que a experiência seja efetiva para os todos os participantes, aqueles que atuam diretamente no cenário atingem escores estatisticamente maiores que os observadores.25

Como limitações do estudo piloto, têm-se a realização em uma única instituição e o fato de não ter sido testado em outros ambientes diferentes do centro obstétrico.

Conclusão

O estudo piloto atendeu ao objetivo proposto, sendo possível reformular e inserir novas questões para o pré e pós-teste; melhorias para a moulage e equipamentos do cenário, proporcionando maior realismo; ajustes na duração do prebriefing e debriefing; criação de um fluxograma; e inserção de instrumentos validados.

O piloto de ensaio clínico proporcionou aos pesquisadores indagações e novas perspectivas para a reflexão quanto ao referencial teórico adotado, por meio das leituras críticas, da reformulação das questões abordadas, bem como das melhorias a serem realizadas para o alcance dos objetivos de aprendizagem.

Reforça-se a necessidade de novas pesquisas na área da enfermagem obstétrica e da implementação de simulações clínicas para que haja maior embasamento teórico e prático na aplicação de cenários de simulação com o objetivo de capacitar e aprimorar os conhecimentos dos profissionais que atuam no ensino-aprendizagem do ciclo gravídico-puerperal.

Contribuições dos autores

Concepção do estudo: Tatiane da Silva Coelho, Natália Cabrera Matos. Coleta de dados: Tatiane da Silva Coelho, Natália Cabrera Matos, Guilherme Frederico Abdul Nour, Maria Salete Barbosa Monteiro. Análise e interpretação dos dados: Ana Kelve de Castro Damasceno, Ana Izabel Oliveira Nicolau, Tatiane da Silva Coelho, Cícera Brena Calixto Sousa Borges. Redação do manuscrito: Guilherme Frederico Abdul Nour, Ingrid Caroline Uchôa Alexandre, Maria Salete Barbosa Monteiro. Revisão crítica do manuscrito: Ana Kelve de Castro Damasceno, Ana Izabel Oliveira Nicolau, Tatiane da Silva Coelho, Guilherme Frederico Abdul Nour. Aprovação da versão final do texto: Tatiane da Silva Coelho, Guilherme Frederico Abdul Nour, Ana Kelve de Castro Damasceno, Ana Izabel Oliveira Nicolau.

Conflito de interesse

Os autores declararam que não há conflito de interesse.

Agradecimentos

As residentes de Enfermagem que participaram da pesquisa e contribuíram com o desenvolvimento e aprimoramento do cenário.

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Autor Correspondente

Nome: Guilherme Frederico Abdul Nour

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