Idioma
Cuidado espiritual prestado pela equipe de enfermagem ao paciente em terapia intensiva
Carleane Macedo Ferreira1, Tânia Maria de Oliva Menezes2, Raul Fernando Guerrero Castañeda3, Adriana Valéria da Silva Freitas 4, Raniele Araújo de Freitas5, Emanuela Santos Oliveira6
1,2,4,5,6Universidade Federal da Bahia. Bahia (BA), Brasil.
3Universidade de Guanajuato. Guanajuato (GTO), México.
Introdução
A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é uma unidade complexa que exige a integração de diversos profissionais da área da saúde para fornecer cuidados tanto aos pacientes quanto aos familiares, uma vez que estes não podem permanecer no setor em tempo integral, devido à gravidade da condição do paciente.1 Considerado um âmbito hospitalar mais hostil devido ao perfil técnico e à grande quantidade de equipamentos tecnológicos, a UTI exige da equipe multiprofissional habilidades e conhecimentos específicos para lidar com o fim de vida e as múltiplas demandas assistenciais.2
A equipe de enfermagem, nesse contexto, deve ir além da simples resposta clínica aos pacientes, abordando também como eles lidam com o estresse causado pelas intervenções rotineiras, como administração de medicamentos, mudança de decúbito, troca de fralda e aferição de sinais vitais. O objetivo é minimizar os fatores estressores, promovendo a saúde e a adaptação do paciente, além de manter sua estabilidade física e emocional.3
Na rotina de cuidados intensivos, é essencial incorporar a escuta ativa, o toque empático e a sensibilidade para compreender a verdadeira dimensão existencial de cada paciente. Essas ações ajudam a desmistificar a noção de impessoalidade, insensibilidade e a automatização do cuidado, garantindo que o processo de cuidar não seja mecanizado nem desumanizado.4
Estudo evidencia que, na perspectiva de pacientes e familiares, a UTI é um ambiente de alto estresse, caracterizado por procedimentos invasivos e dolorosos, alterações no ciclo de vida, ausência de privacidade e medo da morte, o que provoca reações emocionais expressas por angústia, apatia e insegurança.5
Para abordar essas questões de maneira integral, é importante compreender a dimensão espiritual do cuidado. A diferença entre religiosidade e espiritualidade, nesse contexto, é fundamental. A religiosidade refere-se a crenças, práticas e rituais relacionados a um poder superior, enquanto a espiritualidade se conecta ao transcendente, abrangendo uma busca pessoal por significado e propósito, independentemente de vínculos religiosos formais.6
Compreender essa dimensão permite integrar o cuidado espiritual de forma significativa no atendimento a pacientes críticos. Essa abordagem exige uma conexão sincera entre o profissional e o paciente, promovendo não apenas a recuperação da saúde, mas também um aprendizado mútuo diante da vulnerabilidade. Reconhecer o paciente como um ser humano completo, com sentidos, valores, ideias e histórias únicas, transforma a assistência em uma prática profundamente humanizada e acolhedora.7
Dessa forma, o cuidado espiritual torna-se uma parte fundamental do processo de assistência na UTI, com ações concretas que incluem: oferecer apoio para o paciente expressar suas opiniões e valores; facilitar momentos de reflexão e oração; permitir o acesso a líderes ou representantes religiosos quando solicitado; proporcionar um ambiente de respeito e acolhimento para questões espirituais e existenciais; e utilizar a escuta ativa para lidar com angústias e medos relacionados à vida e à morte. Essas práticas não apenas promovem o bem-estar do paciente, mas também reforçam o vínculo entre ele e a equipe de enfermagem, ampliando a eficácia do cuidado prestado.8,9
Esse tipo de cuidado espiritual vai além do apoio clínico e permite a integralidade do paciente como ser humano. Ao priorizar o bem-estar emocional, físico, social e psicológico, os profissionais de enfermagem desempenham um papel essencial na qualidade da assistência, proporcionando um cuidado que respeita as vivências, a ênfase e os valores dos pacientes, especialmente em momentos de maior vulnerabilidade.10
Do exposto, objetiva-se compreender as percepções da equipe de enfermagem sobre o cuidado espiritual prestado aos pacientes na UTI. Ao identificar desafios, estratégias e oportunidades para aprimorar o cuidado espiritual nesse setor, a pesquisa fornecerá conhecimentos essenciais para o desenvolvimento de intervenções que visam melhorar a qualidade do cuidado espiritual na terapia intensiva, promovendo uma assistência mais compassiva e integral.
Método
Pesquisa qualitativa, descritiva e exploratória, realizada em um complexo hospitalar universitário no Nordeste do Brasil. Participaram do estudo a equipe de enfermagem que atuava nas duas UTIs do referido local. Foram incluídos enfermeiros(as) e técnicos(as) de enfermagem que possuíam, no mínimo, seis meses de experiência, tempo adequado para que o profissional vivencie situações envolvendo a temática. Excluíram-se enfermeiros(as) e técnicos(as) de enfermagem em gozo de férias ou afastados no período da coleta de dados.
No que se refere ao quantitativo da equipe de enfermagem, na UTI-1 atuam 16 enfermeiros(as) e 31 técnicos(as) de enfermagem, enquanto na UTI-2, atuam 15 enfermeiros(as) e 29 técnicos(as) de enfermagem, totalizando 31 enfermeiros(as) e 60 técnicos(as) de enfermagem, com o total geral de 91 profissionais. Desse quantitativo, 7 enfermeiros(as) estavam de férias, dois em afastamento médico e um de licença para capacitação durante o período da coleta de dados, totalizando dez enfermeiros(as) ausentes. Em relação aos(as) técnicos(as) de enfermagem, 10 estavam de férias e 3 de afastamento médico, totalizando 13 técnicos(as) de enfermagem ausentes. Assim, participaram do estudo 8 enfermeiros(as) e dezenove técnicos(as) de enfermagem, totalizando 27 profissionais. É importante ressaltar que a seleção dos participantes ocorreu de forma aleatória e não levou em consideração idade, raça, sexo ou religião.
A coleta de dados ocorreu no período de julho a novembro de 2023, por meio da técnica de oficinas. Para a coleta de depoimentos, foram formados 5 grupos focais, cada um com 5 a 6 participantes, de acordo com a escala de trabalho de cada dia.
Foram realizadas três oficinas com duração média de oitenta minutos cada, com objetivos distintos e dinâmicas variadas, distribuídas em momentos diferentes para alcançar o maior número possível de participantes, totalizando 15 encontros. A primeira oficina contou com 7 encontros para grupos diferentes, a segunda com 5 encontros, e a terceira com 3 encontros. Embora nem todos os participantes pudessem comparecer a todas as oficinas devido à incompatibilidade de horários na escala de trabalho, apenas dois participantes faltaram a alguma das oficinas. Mesmo com a variação dos grupos, todos os participantes participaram dos encontros em algum momento. Os dados coletados foram registrados por meio de gravações de áudio e, posteriormente, transcritos para análise.
Os encontros foram conduzidos pela pesquisadora principal, que facilitou a reflexão do grupo sobre o cuidado espiritual de pacientes críticos. Na primeira oficina, após apresentação inicial, os participantes preencheram um questionário para caracterizar seu perfil pessoal e profissional com nove questões objetivas, seguido de uma dinâmica para estimular a interação. Em seguida, foram incentivados a expressar suas percepções sobre religiosidade e espiritualidade por meio de desenhos e textos, o que gerou debate.
A segunda oficina envolveu uma exposição dialogada sobre espiritualidade e religiosidade, incluindo a exibição de um curta-metragem sobre o cuidado espiritual, seguida de discussão e apresentação de dados estatísticos. Posteriormente, houve um espaço para debate, levantando os seguintes questionamentos: Como você prestaria o cuidado espiritual aos pacientes críticos? Quais são as facilidades e dificuldades para prestar o cuidado espiritual?
Na terceira oficina, foi discutida a implementação do cuidado espiritual na UTI, com foco em estratégias práticas, de acordo com as seguintes questões: Como a equipe de enfermagem pode atuar no cuidado espiritual com pacientes críticos e quais estratégias poderiam ser utilizadas para melhorar o cuidado espiritual na UTI?
As oficinas foram organizadas previamente com a coordenação das unidades selecionadas para o estudo. A equipe de enfermagem, escalada no dia da pesquisa, foi convidada com antecedência por meio de uma carta-convite aos grupos de WhatsApp, por intermédio das coordenações.
A pesquisa, aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa do hospital de estudo, conforme parecer n.º 6.124.190, seguiu a orientação da Resolução n.º 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) sobre pesquisas envolvendo seres humanos.11
Para preservar o anonimato, os profissionais foram identificados com nomes de estrelas e constelações, por serem considerados um sinal da verdade, espírito e esperança, fazendo associação com a temática da pesquisa.
O processo de análise de dados ocorreu em três etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados, com a inferência e a interpretação,10 e discutidos à luz da teoria do cuidado transpessoal de Jean Watson.12 Esta teoria enfatiza a importância de não se restringir apenas às necessidades físicas do indivíduo, mas também às espirituais e existenciais, no qual há uma estrutura que abrange a ciência do cuidado, a promoção da fé e esperança, consideradas elementos essenciais nos processos de cuidados, sejam eles paliativos, sejam curativos. Sendo assim, o cuidado transpessoal pode acontecer quando o enfermeiro tem a sensibilidade de seguir os dez fatores de cuidado propostos por Watson.13
Resultados
Do total de 27 participantes, oito são enfermeiros(as) e 19 técnicos(as) de enfermagem. Destes, 22 do sexo feminino. No que diz respeito ao tempo de atuação na unidade, variou de 1 a 20 anos de experiência.
A idade dos participantes variou de 23 a 54 anos. Com relação à religião, 8 declararam não fazer parte de nenhuma religião, os demais relataram ser candomblecistas, católicos, espíritas, adventistas e testemunhas de Jeová. Quanto ao tempo de formação, variou de 6 meses a 24 anos.
Ao questionar as participantes sobre suas formações e participações em exposições ou congressos sobre o cuidado espiritual, todas responderam que não. Em relação à existência de algum protocolo ou instrumento para ser utilizado nos pacientes críticos sobre o cuidado espiritual, todos responderam que não.
Após a leitura dos depoimentos, emergiram três categorias: 1. Compreensão da equipe de enfermagem sobre religiosidade e espiritualidade; 2. Cuidado espiritual prestado pela equipe de enfermagem intensivista a pacientes críticos; 3. Facilidades e dificuldades da equipe de enfermagem intensivista na prática do cuidado espiritual.
Compreensão da equipe de enfermagem sobre religiosidade e espiritualidade
As participantes receberam papel ofício e caneta para escreverem ou desenharem o que compreendem sobre religião, religiosidade e espiritualidade. Em seguida, explicaram suas ideias. A compreensão de espiritualidade pela equipe de enfermagem se destaca:
“A espiritualidade para mim é acreditar em algo além da carne, ela transcende o espaço físico” (Atria).
“Espiritualidade é tudo que envolve o universo. São sensações, sentimentos, emoções que transcendem terra, sol, mar, vento, calor. Para mim, tudo isso é espiritualidade, tudo aquilo que eu não vejo, mas eu sinto e que me traz um sentimento. Está muito correlacionado com a religiosidade, mas são situações diferentes, onde a espiritualidade envolve tudo aquilo que o universo me traz” (Aquila).
“Espiritualidade eu coloquei como uma energia! É tudo aquilo que move o que você acredita, independente de religião, até porque pessoas que não acreditam em nenhuma religião, elas também têm a sua espiritualidade, pois acreditam em alguma coisa” (Lyra).
As falas destacam diferentes perspectivas de espiritualidade. Para Atria, espiritualidade vai além do aspecto físico e do mundo material, uma dimensão transcendental, acreditando em algo superior à matéria. Aquila e Lyra ampliam essa ideia, ao associar a espiritualidade a sensações, sentimentos, motivações e emoções que ultrapassam os limites físicos e daquilo que não se vê, ressaltando a distinção da religiosidade.
Observa-se que cada visão oferece uma ampla perspectiva sobre a espiritualidade, indo além da religiosidade e apontando a sua conexão com sentimentos, pensamentos e valores que influenciam a percepção do indivíduo na relação com o seu interior:
“A espiritualidade, ela é individual de cada um e trata-a de uma forma. Cada pessoa se expressa de acordo com sua concepção de mundo, naquele contexto onde a pessoa está inserida” (Carina).
“O meu desenho sobre espiritualidade é um estado de espírito de você com você mesmo. Eu acho que está muito ligado com a sua intimidade, com o que você acredita, se está ligada a sentimentos, e reflexões mais internas sua com você mesma e com o meio” (Ara).
Definir espiritualidade pode ser complexo, já que é uma experiência profundamente pessoal e individual, tendo significados distintos para cada indivíduo. Os depoimentos acima evidenciam que a espiritualidade está relacionada à busca de significado, propósito e conexão com algo maior e transcende o aspecto material e físico da existência, envolvendo questões de valores, crenças, propósito de vida e conexão com o mundo ao nosso redor.
Para as participantes, a espiritualidade é uma busca única, que vai muito além das fronteiras da religião. Ela se revela como uma fonte de inspiração para a nossa jornada humana, oferecendo respostas e conexões profundas que transcendem as limitações do mundo físico.
“A religiosidade, eu coloquei mais a questão, a forma como você expressa. Bíblia, texto, a cruz, água benta, o sal grosso, a forma como você demonstra a sua fé” (Keid).
“Religiosidade não é espiritualidade e espiritualidade não é religiosidade. Religiosidade são atitudes, ações que seguem uma doutrina de acordo com suas regras, ritual, entre outros” (Hércules).
Os depoimentos evidenciam que, independentemente do que se entende sobre espiritualidade, a equipe considera um aspecto essencial e proporciona conforto, orientação e significado em meio aos desafios e às experiências da existência humana.
Keid enfatiza que a religiosidade se manifesta por meio de expressões mais concretas e simbólicas. Hércules aborda a distinção entre religiosidade e espiritualidade, destacando que são conceitos distintos. Ainda sobre a definição de religiosidade, Mirzan e Zaniah destacam:
“No caso da religiosidade é o que o homem dá o nome para aquilo que você crê, criam-se templos, religiões e a partir daquilo, a pessoa segue uma determinada religião e para mim, a religiosidade, a religião é lugar de resistência, é lugar de aquilombar. Então, seria além do espiritual, além de cultuar aquilo que eu acredito é o lugar onde eu sou resistência, onde eu estou bem quilombos, onde eu mostro toda a minha força negra” (Mirzan).
“Religiosidade, eu acho que é uma forma que a gente escolhe para buscar uma conexão com Deus, uma religião com o intuito de receber suas bênçãos, sua proteção e salvação” (Zaniah).
Para Mirzan e Zaniah, a palavra religiosidade está geralmente associada à adesão e prática de uma religião organizada, na qual a pessoa religiosa segue uma doutrina específica, adere a seus ensinamentos, práticas, rituais e participa ativamente da comunidade religiosa que escolheu, buscando conexão com o sagrado, de acordo com os preceitos e crenças daquela tradição religiosa. Fica evidente que Mirzan relaciona o conceito de religiosidade com a religião que segue.
Evidencia-se que a equipe de enfermagem sabe diferenciar os conceitos de Religiosidade/Espiritualidade, compreendendo que essa distinção é crucial para oferecer cuidados sensíveis às necessidades dos pacientes críticos. Algumas pessoas podem se identificar como religiosas, seguindo uma doutrina específica, enquanto outras podem se considerar espiritualizadas, buscando significado e propósito de maneira individual e não necessariamente vinculada a uma religião formal.
Cuidado Espiritual prestado pela equipe de enfermagem intensivista a pacientes críticos
Foi solicitado aos participantes que descrevessem como poderiam oferecer esse cuidado aos pacientes críticos:
“Ouvir o paciente primeiro, porque às vezes, dependendo da religião, cada um age de uma forma diferente. Eu não tenho religião, então, muitas coisas em que o paciente acredita eu não acredito, mas eu respeito aquele posicionamento dele” (Sirius).
“A gente precisa respeitar a individualidade dele, sua religião, história, desejos, crença e valores. Partindo desse pressuposto, você toma cuidado com o que você vai dizer, para não levar o que é seu para o outro” (Izar).
Os depoimentos destacam a importância de compreender e respeitar as crenças dos pacientes no contexto da assistência. Sirius menciona a necessidade de respeitar os pensamentos e desejos dos pacientes, mesmo que estes possam diferir dos seus. Izar ressalta a necessidade de considerar a individualidade de cada paciente, suas crenças, valores e história pessoal, evitando impor suas próprias visões e cuidando para não desrespeitar a vulnerabilidade do paciente.
Quilha enfatiza a importância de abordar essa questão de maneira sensível e adequada, garantindo que cada paciente tenha uma visão única sobre o tema:
“Eu uso muito a questão de perguntar para o paciente se ele tem fé em alguma coisa. Fica mais fácil abordar pelo lado dele, e tem aqueles que são ateístas e, às vezes, você falar em religião é até uma ofensa, então, sempre vou buscando esse contexto que fique confortável e positivo de fazê-los sorrir. Às vezes, você tenta pela religião, mas aqueles que não têm, vou fazendo de uma forma que fique mais leve, que deixe o ambiente mais tranquilo, que facilite desapegar um pouco da questão da doença em si” (Quilha).
A atitude de atenção e acolhimento enfatizada por Quilha mostra o respeito nas crenças que os pacientes seguem, mesmo quando essas não se alinham com as próprias, reconhecendo a sua importância para o bem-estar e conforto emocional do paciente, independentemente do que eles acreditam.
Almach afirmou que realiza o cuidado em equipe e com abordagem humanizada ao lidar com os pacientes, apesar da alta rotatividade na UTI, preocupando-se em oferecer um ambiente mais tranquilo e confortável:
“Aqui a gente consegue fazer um trabalho bem legal com os pacientes. Mesmo com a alta rotatividade, a gente consegue deixar eles mais tranquilos, mais confortáveis. Mesmo chegando com várias dificuldades, a gente consegue amenizar bastante a vida” (Almach).
No entanto, eles não prestam o cuidado espiritual de maneira planejada ou específica, e sim, de forma espontânea durante outros cuidados de rotina, de acordo com o depoimento a seguir:
“Se você estiver lá parada. “Ah! Eu vou ali conversar com o meu paciente, falar de Deus para ele!” Dificilmente existe isso! Isso acontece na hora do banho, quando a gente chega, quando a gente vê o sofrimento do paciente, ver ele se queixar, quando ele não tem mais esperança de nada, que ele fala assim: “Há que nada! Eu não vou mais sair daqui!” Aí a gente fala: “Tenha fé, você não crê em Deus?” Quantas vezes a gente faz isso? Isso é automático!” (Enif).
O cuidado espiritual é prestado por meio da interação natural e automática entre a equipe de enfermagem e os pacientes. Quando surge a oportunidade de mencionar questões de fé ou espiritualidade, as conversas muitas vezes surgem como uma resposta imediata à expressão de desesperança por parte do paciente, sendo um gesto de apoio e encorajamento. Os diálogos são percebidos como gestos genuínos de apoio e estímulo, oferecendo um suporte emocional e encorajador.
Facilidades e dificuldades da equipe de enfermagem intensivista na prática do cuidado espiritual
Ao questionar as participantes sobre as dificuldades encontradas ao oferecer esse tipo de cuidado, destacou-se:
“Tanto a dificuldade como a facilidade vai depender da pessoa! Tem dias que a pessoa em si não está bem e ela não vai conseguir prestar um atendimento bom para o outro. Então, consequentemente, a gente não vai dar uma atenção tão agradável como deveria” (Almach).
“Se você está estressada ou a equipe, por exemplo, por mais que a gente esteja com um sorriso no rosto, é ser humano, ele sente a nossa energia. Então, por mais que eu esteja ali dando risada e tal, ele está sentindo, a gente está tocando, quem toca é a gente, então é bem difícil isso” (Mira).
As falas evidenciam a complexidade das interações humanas na área do cuidado, mostrando a importância e a sensibilidade da conexão emocional entre a equipe e o paciente.
Os participantes relataram, também, que uma das dificuldades para prestar o cuidado espiritual está relacionada à passagem de plantão e à percepção do profissional diante do paciente:
“Depende de mim, eu vou passar o plantão para o colega, já desempenhei meu papel como profissional, humano, já prestei a minha assistência, e o colega que vai me tirar, vai continuar com aquele paciente, ele vai se sentir acolhido, por que ele tem o mesmo pensamento que eu, a gente sabe, a gente percebe. Então a dificuldade vai ser manter a constância desse cuidado. Tem pessoas que não consegue dar essa continuidade” (Rana).
“Às vezes, quando o colega vai passar o plantão para você, fica falando o que aconteceu. O seu plantão é um, o meu plantão vai ser outro. Você pode ter discutido com o paciente, o paciente pode ter sido agressivo com você. Aí você passa o plantão para mim, eu já levo isso nas costas e eu já chego armada para o paciente!” (Mirzan).
Os depoimentos evidenciam as diferentes percepções e dificuldades durante a passagem de plantão na rotina da equipe de enfermagem. Rana destaca a responsabilidade de como serão transmitidas as informações para o próximo colega e ressalta a relevância de manter a continuidade do cuidado, reconhecendo que diferentes abordagens podem impactar a assistência do paciente. Por outro lado, Mirzan expressou a influência das informações recebidas, enfatizando como as expectativas podem afetar a relação com o paciente.
É crucial realizar o cuidado sem julgamentos sobre o paciente, principalmente quando este se encontra desorientado ou agitado, pois tais comportamentos podem ser desencadeados por situações que não são imediatamente claras. Dessa forma, evita-se o risco de mal-entendidos, preconceitos baseados na percepção alheia e falhas na continuidade do cuidado.
Outra dificuldade apreendida na prestação do cuidado espiritual diz respeito a pacientes em uso de ventilação mecânica:
“Como você vai interagir com o paciente intubado?” (Izar).
“Só com a família! A família chega chorando, desesperada e a gente tem que acalmar, pedir para família segurar a mão do paciente, falar que ele está ouvindo, que é para conversar com ele, falar palavras positivas” (Tiaki).
Os depoimentos apontam para a dificuldade de realizar o cuidado espiritual em pacientes intubados, sendo transferido para a família. Seguindo essa vertente, Electra destaca:
“Por se tratar de uma UTI, o paciente chega à unidade com aquela ideia de que vai morrer, então até você conseguir desmistificar aquilo dele! Às vezes, o paciente vem só para uma monitorização por 24 horas. Às vezes é a demanda também, não é? Não tenho como estar ali o tempo inteiro” (Electra).
Essa fala ressalta a percepção frequente de pacientes ao serem internados em uma UTI, onde muitos chegam com a concepção de que sua situação é grave e está associada à possibilidade de óbito. Electra destaca a necessidade de desconstruir essa ideia, muitas vezes infundada, para tranquilizar o paciente.
Diante do contexto, os participantes expressaram encontrar mais dificuldades do que facilidades. Poucas foram as facilidades mencionadas, conforme relatos:
“Aqui é tranquila, a gente pode colocar uma música, ouvir o paciente, leva-lo na capela, o pastor pode vim, liberar a quantidade de visita a mais do que é permitido” (Sirius).
“Orientar o familiar. Olha, ele não está respondendo, mas converse com ele, fale as coisas, procure falar de coisas boas, feliz” (Quilha).
“A facilidade contém várias variáveis na realidade, porque nunca vai ser uma coisa sozinha” (Almach).
Essas falas ilustram a sensibilidade presente no cuidado oferecido aos pacientes críticos. Sirius destaca a flexibilidade, liberdade e abertura da instituição para práticas religiosas e expressões de fé, mostrando uma abordagem inclusiva para atender às necessidades específicas dos pacientes. Quilha ressalta a importância de orientar os familiares sobre como interagir com o paciente, mesmo que ele não esteja respondendo ativamente, por meio de um suporte emocional através de conversas positivas.
Já Almach destaca a complexidade das facilidades, enfatizando que elas são influenciadas por múltiplos fatores, limitando a ideia de facilidade a um único aspecto. Essas perspectivas ressaltam a diversidade de abordagens e a importância de considerar diferentes variáveis no cuidado aos pacientes.
No que se refere ao nível de orientação do paciente para a realização do cuidado espiritual de maneira eficaz, observa-se:
“A facilidade é a própria condição do paciente, alguns ouvem, outros não. A depender da condição da pessoa, ela já vem naquela fragilidade, aí você aproveita e observa onde é que você vai entrar numa conversa para poder tentar animar. Você vai tentar respeitar, se ele te der uma brecha. Aí você vai, se não, paciência!” (Hydra).
Hydra considera a fragilidade emocional do paciente como um fator determinante para o cuidado, sendo facilitador para a receptividade ao diálogo ou interação, destacando a importância de respeitar o espaço e os limites deste, aproveitando as oportunidades para interações que possam trazer um pouco de conforto ou apoio emocional, mas compreendendo que nem todos estarão abertos a isso devido à sua fragilidade. Essa abordagem consiste na necessidade de a equipe ter paciência e compreender as diversas situações emocionais e psicológicas enfrentadas pelos pacientes.
Observa-se, assim, a importância da comunicação, da empatia e da compreensão das condições clínicas dos pacientes críticos ao prestar o cuidado espiritual, além do aspecto técnico, considerando as particularidades emocionais e psicológicas dos pacientes.
Discussão
A espiritualidade é um termo amplo, muitas vezes associada à religiosidade. Sua origem, no latim spiritus, que significa "sopro" ou "respiração", sugere uma conexão essencial com a subjetividade humana e a busca de significado e propósito na vida. Esse conceito transcende a prática religiosa, podendo ser vivenciado por meio de meditação, contato com a natureza ou práticas pessoais desvinculadas de uma religião formal. Entendimento essencial para considerar o impacto da espiritualidade em pacientes internados em UTI, onde essa dimensão pode atuar como fator de suporte emocional e psicológico, principalmente em situações de crise.13-15
No contexto da UTI, onde a prioridade frequentemente recai sobre intervenções técnicas e imediatas, a espiritualidade surge como uma ferramenta para fornecer cuidado integral. Reconhecer a espiritualidade no cuidado crítico sugere um suporte que vai além do físico, oferecendo conforto emocional e ampliando a visão humanística do cuidado. Watson defende que práticas baseadas no cuidado transdisciplinar são essenciais para a promoção da saúde integral e emocional, mas essas práticas são, frequentemente, limitadas pelo ambiente mecanizado e pela alta demanda de trabalho nas UTIs. Essa realidade levanta questionamentos sobre como superar essas barreiras e incorporar a espiritualidade como elemento ativo no cuidado.12,16-20
Uma das categorias identificadas está relacionada ao Fator 1 de Watson, que propõe que os profissionais reflitam sobre como seus próprios valores e condutas influenciam o cuidado prestado. Abordar a espiritualidade muitas vezes exige que os enfermeiros(as) questionem suas opiniões e ultrapassem barreiras emocionais ou culturais. Por outro lado, a ausência de formação acadêmica específica sobre espiritualidade limita a capacidade dos profissionais de lidar com essa dimensão de forma eficaz. Tal lacuna educacional indica a necessidade de incluir a espiritualidade como disciplina obrigatória em cursos da área da saúde, o que pode ampliar a sensibilidade e a empatia no cuidado.13,16,20,21
Ademais, o papel da espiritualidade como suporte emocional é evidenciado nas vivências de pacientes e familiares. Durante períodos de internação crítica, a espiritualidade atua como um meio de enfrentamento para lidar com a angústia e a incerteza. Estudos sugerem que práticas espirituais ajudam no fortalecimento da autoestima e facilitam o processo de adoecimento, contribuindo para a recuperação emocional e física do paciente. Nesse contexto, questiona-se até que ponto os profissionais de saúde estão aptos a identificar e trabalhar com essas demandas. Uma possível solução seria a melhoria de treinamentos direcionados para a escuta ativa e para a identificação de necessidades subjetivas, permitindo maior conexão entre os profissionais e os pacientes.18,19,22,23
Outro aspecto importante é o respeito à comunicação durante a passagem do plantão, momento crucial para a continuidade do cuidado. Falhas nesse processo podem envolver não apenas o cuidado técnico, mas também a identificação de necessidades específicas. Profissionais que adotam a escuta ativa e valorizam o compartilhamento de informações subjetivas no plantão tendem a oferecer um cuidado mais humanizado, o que reforça a importância de incluir treinamentos específicos sobre comunicação interpessoal.24-26
A segunda categoria está relacionada com a necessidade de respeito e valorização dos sistemas de confiança dos pacientes (Fator 2 de Watson). Muitas vezes, os pacientes não buscam conexão espiritual por meio de práticas religiosas convencionais, desafiando a equipe a ampliar sua compreensão e desconstruir preconceitos. Nesse ponto, surge a hipótese de que uma percepção limitada da equipe sobre espiritualidade pode comprometer a abordagem holística do cuidado. A inclusão de momentos para reflexão pessoal e profissional sobre espiritualidade no cotidiano de trabalho poderia ser uma estratégia relevante para a superação desse desafio.13,16,27-29
Por fim, a espiritualidade deve ser reconhecida como um elemento central do cuidado integral, especialmente em cenários de alta complexidade, como a UTI. Sua inserção no cuidado crítico não apenas melhora o suporte emocional e psicológico, mas também contribui para fortalecer a relação enfermeiro-paciente. Profissionais sensíveis às dimensões subjetivas do cuidado têm maior potencial de promoção de estágios clínicos positivos e experiências mais humanizadas. Assim, reafirma-se a necessidade de promover a espiritualidade como uma dimensão ativa do cuidado em saúde, integrando-a tanto na formação acadêmica quanto nas práticas cotidianas.24,30
Para que a enfermagem possa atender às necessidades do paciente, é relevante que sejam valorizados os princípios éticos e a dedicação pelo bem-estar dos outros. A prática, pesquisa e teoria que fundamentam esse cuidado dependem desses conjuntos de crenças.14
Entre as limitações deste estudo destaca-se não ser possível a generalização dos resultados para todas as equipes de enfermagem, visto que se refere a um grupo de profissionais atuantes em duas UTIs de um Complexo Hospitalar do Brasil. No entanto, os resultados possibilitam compreensões importantes que podem ser úteis para outros contextos de atuação profissional.
Considerações finais
O estudo compreendeu como a equipe de enfermagem presta o cuidado espiritual aos pacientes críticos, reconhecendo sua relevância no contexto da UTI. Os participantes destacaram a distinção entre espiritualidade e religiosidade, identificando tanto as dificuldades quanto as facilidades na oferta desse cuidado. Ressaltaram, ainda, a importância de uma abordagem sensível e adaptável por parte da equipe de enfermagem, que considera as particularidades de cada paciente e contexto.
No que se refere à prestação de cuidado espiritual, os resultados evidenciaram práticas que envolvem a escuta ativa, o acolhimento das necessidades espirituais e emocionais do paciente, o estímulo à reflexão e o respeito aos indivíduos envolvidos. As estratégias sugeridas incluem a criação de um ambiente acolhedor, o incentivo ao diálogo sobre questões existenciais, a facilitação do acesso a líderes religiosos quando solicitado e a sensibilização da equipe para identificar sinais de demandas espirituais.
Além disso, o estudo reforça a necessidade de planejamento e implementação do cuidado espiritual na UTI, com foco na capacitação da equipe e promoção nas práticas educativas contínuas. Tais iniciativas podem incluir treinamentos específicos sobre espiritualidade no contexto crítico, discussão de casos reais em reuniões de equipe e desenvolvimento de protocolos que integrem aspectos espirituais à rotina assistencial, medidas fundamentais para aprimorar a assistência integral, garantindo que os cuidados sejam realizados de forma compassiva e humanizada, incentivando uma prática que reconheça a totalidade do ser humano em situações de alta vulnerabilidade.
Contribuições dos autores
Concepção do estudo: Carleane Macedo Ferreira. Coleta de dados: Carleane Macedo Ferreira. Análise e interpretação dos dados: Carleane Macedo Ferreira. Redação do manuscrito: Carleane Macedo Ferreira, Tania Maria de Oliva Menezes. Revisão crítica do manuscrito: Tania Maria de Oliva Menezes, Raul Fernando Guerrero Castañeda, Adriana Valéria da Silva Freitas, Raniele Araújo de Freitas, Emanuela Santos Oliveira. Aprovação da versão final do texto: Tania Maria de Oliva Menezes, Raul Fernando Guerrero Castañeda, Adriana Valéria da Silva Freitas, Raniele Araújo de Freitas, Emanuela Santos Oliveira.
Conflito de interesse
Os autores declararam que não há conflito de interesse.
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Correspondência:
Carleane Macedo Ferreira
E-mail: carleane_mf@hotmail.com
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