Perfil clínico-epidemiológico de pacientes com câncer sob quimioterapia ambulatorial

Pessanha RM1, D’Agostini NS2, Giacomin LM3, Busatto LS4, Amaral MC5, Souza ACSV6, Grippa WR7, Lopes-Júnior LC8.

1,2,3,4,5,6,7,8 - Universidade Federal do Espírito Santo Pernambuco/UFPE. Vitória (ES), Brasil.

INTRODUÇÃO

O câncer é um dos principais desafios da saúde pública global, gerando impactos psicossociais e econômicos significativos. Trata-se de uma das principais causas de morte no mundo.1 Nesse contexto, as mudanças epidemiológicas e demográficas em escala global influenciam diretamente a incidência e mortalidade por câncer.2,3 Alterações como o envelhecimento populacional, mudanças ambientais e novos hábitos de vida afetam tanto a ocorrência quanto os desfechos das neoplasias.1,3

De acordo com a mais recente estimativa global do GLOBOCAN 2022, foram projetados aproximadamente 19,9 milhões de novos casos de câncer e 9,7 milhões de mortes pela doença no ano de 2022.4 No Brasil, conforme estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2023-2025, espera-se o surgimento de mais de 704 mil novos casos de câncer. Entre as neoplasias mais frequentes estão as malignas de mama feminina, próstata, cólon e reto, que, juntas, correspondem a mais de 190 mil novos diagnósticos.1,5 No Espírito Santo, estado onde a pesquisa foi conduzida, a estimativa para 2023 foi de cerca de 8 mil novos casos de câncer, excluindo os de pele não melanoma. Entre esses, 3360 casos foram de câncer de mama, tornando-o o segundo tipo mais incidente no estado.5

A quimioterapia é um dos tratamentos mais comumente utilizados para pacientes com câncer. Existem diversos quimioterápicos que, frequentemente, são combinados para potencializar os resultados em diferentes estágios da doença. A quimioterapia pode ser classificada como neoadjuvante, adjuvante ou paliativa.6 De acordo com dados do DATASUS de 2020, mais de 2,5 milhões de sessões de quimioterapia são realizadas anualmente, correspondendo a mais de 48% dos gastos totais com terapias contra o câncer no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).7 Desde sua criação em 1988 e regulamentação em 1990, o SUS oferece serviços de saúde de forma universal e integral à população brasileira, com o objetivo de reduzir desigualdades, especialmente as de natureza socioeconômica, que dificultam o acesso à saúde.8 Nesse contexto, os serviços de saúde e os recursos destinados ao tratamento do câncer têm impacto direto na mortalidade e na sobrevida de pacientes no Brasil. Regiões com população de baixa renda e menor desenvolvimento tendem a apresentar maiores taxas de mortalidade por câncer.6,9

Traçar o perfil clínico-epidemiológico de pacientes em tratamento oncológico no estado do Espírito Santo busca preencher uma lacuna existente na literatura sobre as características clínicas, sociais, econômicas e os fatores de risco de pacientes oncológicos sob quimioterapia ambulatorial. Esse estudo descritivo tem o potencial de esclarecer lacunas e gerar hipóteses a serem testadas em estudos analíticos. Além disso, pode contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas a contextos específicos e em tempo oportuno, fortalecendo estratégias preventivas e terapêuticas.

OBJETIVO

Descrever o perfil clínico-epidemiológico de pacientes com câncer indicados para quimioterapia ambulatorial.

MÉTODO

Trata-se de um estudo observacional descritivo, realizado no Afecc-Hospital Santa Rita de Cássia, único Centro de Alta Complexidade em Oncologia (CACON) do estado do Espírito Santo (ES) e instituição de referência no tratamento oncológico na região.

Foram incluídos no estudo pacientes com idade acima de 18 anos, casos novos com diagnóstico anatomopatológico de neoplasia maligna em estágio I, II ou III, e com indicação para quimioterapia ambulatorial. Foram excluídos pacientes em estágio IV, com mais de um tumor primário ou recebendo exclusivamente cuidados paliativos.

A exclusão desses grupos justifica-se pelo fato de o estudo fazer parte de um projeto mais amplo que avaliará, como desfecho secundário, os clusters de sintomas oncológicos. Segundo a literatura, pacientes sob cuidados paliativos exclusivos apresentam uma experiência de sintomas oncológicos bastante específica, diferente dos estágios iniciais da doença.10,11

Para o cálculo do tamanho amostral, foi considerada a casuística do serviço onde os pacientes foram recrutados, além de dados de estudos prévios conduzidos no referido hospital.10 A fórmula utilizada para o cálculo amostral foi:

                                                 

Onde:

  • n: tamanho amostral calculado;
  • N: população;
  • Z: valor crítico para o nível de confiança;
  • p: probabilidade real do evento;
  • e: erro amostral.11

Considerou-se a população de pacientes diagnosticados (apenas casos novos) no Afecc-Hospital Santa Rita de Cássia em 2022 (n = 3513), um ano sem os efeitos do viés causado pela pandemia de COVID-19. Adicionalmente, considerou-se o total de casos novos no estado do Espírito Santo no mesmo período (n = 10.880).12

Baseando-se nos critérios de inclusão e exclusão, estimou-se que 20% dos casos novos registrados no Afecc-HSRC atenderiam a todos os critérios, resultando em 703 pacientes (20% de 3513), o que representa 6,45% da incidência de casos novos no Espírito Santo entre 2021 e 2022.

Com um nível de confiança de 95% (α = 5%), erro amostral de 5% e poder de teste de 80% (β = 0,20), o tamanho amostral calculado para esta pesquisa foi de 84 pacientes.

A coleta de dados, realizada entre janeiro e dezembro de 2023, utilizou um questionário sociodemográfico e clínico elaborado pelo pesquisador principal. Este questionário foi desenvolvido com base em uma extensa revisão da literatura e nas variáveis clínico-epidemiológicas presentes na Ficha de Registro Tumor do Registro Hospitalar de Câncer (RHC) do hospital.

Além disso, foram consultados os prontuários médicos para obter informações detalhadas sobre aspectos clínicos, terapêuticos e os dados do hemograma.

As informações coletadas no questionário incluíram 1) dados sociodemográficos (incluindo idade, faixa etária, cor autorreferida, sexo, região de saúde do estado do Espírito Santo, fonte de renda, renda mensal, escolaridade, estado civil, plano de saúde e filhos); 2) histórico clínico: história pregressa e comorbidades; 3) dados clínico-epidemiológicos: CID-10, tratamento, tipo histológico, classificação TNM, estadiamento clínico, tratamento e protocolo quimioterápico atual e tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento.

Inicialmente, foram analisadas as agendas dos médicos oncologistas clínicos do hospital para identificar potenciais pacientes com indicação de tratamento quimioterápico pela primeira vez. Após a consulta com o oncologista clínico, o paciente era encaminhado ao setor de quimioterapia para o agendamento do primeiro ciclo do tratamento.

No primeiro dia de quimioterapia, enquanto o paciente aguardava a infusão, foi realizada a abordagem inicial para convidá-lo a participar da pesquisa, seguindo os critérios de elegibilidade. Nesse momento, os objetivos da pesquisa foram apresentados e foi coletada a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Em seguida, antes do início da infusão quimioterápica, foi aplicado o questionário sociodemográfico e clínico, e os prontuários médicos foram consultados para complementar as informações.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde (CEP/CCS/UFES), sob o parecer nº 4122342.

As análises estatísticas foram realizadas utilizando o software R (versão 4.2.2) e o RStudio (versão 2023.03.1), com o nível de significância (α) fixado em 5%. As variáveis categóricas foram apresentadas em frequências absolutas e relativas, enquanto as variáveis numéricas foram descritas por meio de medidas de tendência central e dispersão.

 RESULTADOS

Foram analisados dados de 84 pacientes oncológicos. A média de idade foi de 57,68 anos (DP = ±11,81), com 42,86% (n = 36) pertencendo à faixa etária de 50 a 64 anos. O sexo predominante foi o feminino, representando 72,62% (n = 61) da amostra. A cor autorreferida mais comum foi parda, com 40,48% (n = 34), e a maioria dos pacientes residia na região metropolitana do estado, totalizando 88,10% (n = 74). Quanto à renda, 38,10% (n = 32) relataram estar aposentados, e 45% (n = 38) declararam receber 1 salário mínimo. Em relação à escolaridade, 48,81% (n = 41) informaram ter concluído o ensino fundamental. Entre os estados civis, o grupo de casados foi predominante, com 51,19% (n = 43). Além disso, 25% (n = 21) dos pacientes tinham 4 ou mais filhos, e 82,14% (n = 69) não possuíam plano de saúde (Tabela 1).

Tabela 1. Caracterização sociodemográfica de pacientes oncológicos submetidos a quimioterapia ambulatorial (n=84). Vitória (ES), Brasil, 2023.

Variável

N

%

Idade (em anos)

 

 

 

Média (desvio padrão)

57,68 (11,81)

-

 

Mediana (intervalo interquartílico)

58,00 (49,75 - 67,00)

-

Faixa etária

 

 

 

< 50 anos

21

25,00

 

50–64 anos

36

42,86

 

≥ 65 anos

27

32,14

Sexo

 

 

 

Masculino

23

27,38

 

Feminino

61

72,62

Cor autorreferida

 

 

 

Branca

32

38,10

 

Negro

10

11,90

 

Pardo 

34

40,48

 

Amarelo

3

3,57

 

*Sem Informação

5

5,95

Regiões de saúde do ES

 

 

 

Região metropolitana

74

88,10

 

Região central-norte

5

5,95

 

Região sul

5

5,95

Fonte de renda

 

 

 

Aposentado

32

38,10

 

Pensionista

6

7,14

 

Empregado

19

22,62

 

Sem renda

20

23,81

 

Beneficiária do governo

3

3,57

 

Autônomo

4

4,76

Renda mensal

 

 

 

<1 salário mínimo

1

1,19

 

1 salário mínimo

38

45,24

 

Até 2 salários mínimos

13

15,48

 

Até 3 salários mínimos

10

11,90

 

*Sem informação

22

26,19

Escolaridade

 

 

 

Analfabeto

5

5,95

 

Fundamental

41

48,81

 

Médio

29

34,52

 

Superior

1

1,19

Estado Civil

 

 

 

Solteiro

15

17,86

 

Casado

43

51,19

 

Viúvo

11

13,10

 

Divorciado

11

13,10

 

União estável

4

4,76

Plano de saúde

 

 

 

Não

69

82,14

 

Sim

14

16,67

 

*Sem informação

1

1,19

Filhos

 

 

 

Nenhum

18

21,43

 

1

11

13,10

 

2

19

22,62

 

3

15

17,86

 

≥ 4

21

25,00

*Sem informação: dado não coletado.

No que diz respeito às comorbidades, 47,62% (n = 40) dos pacientes apresentavam hipertensão arterial sistêmica, 19,05% (n = 16) eram diabéticos e 10,71% (n = 9) tinham dislipidemia. Em relação à história familiar de câncer, 66,67% (n = 56) relataram casos da doença em parentes de 1º e 2º graus. Além disso, 91,67% (n = 77) não faziam uso de tabaco, e 84,52% (n = 71) não consumiam bebidas alcoólicas (Tabela 2).

Tabela 2. História pregressa e comorbidades de pacientes oncológicos submetidos a quimioterapia ambulatorial (n=84). Vitória (ES), Brasil, 2023.

Variáveis

 

N

%

HAS*

 

 

 

 

Não

44

52,38

 

Sim

40

47,62

IAM

 

 

 

Não

80

95,24

 

Sim

4

4,76

Dislipidemia

 

 

 

Não

75

89,29

 

Sim

9

10,71

DM

 

 

 

Não

68

80,95

 

Sim

16

19,05

História Familiar de Câncer

 

 

Não

27

32,14

 

Sim

56

66,67

 

**Sem informação

1

1,19

Faz uso de tabaco

 

 

 

Não

77

91,67

 

Sim

5

5,95

 

**Sem informação

2

2,38

Faz uso de bebida alcoólica

 

 

Não

71

84,52

 

Sim

11

13,10

 

**Sem Informação

2

2,38

*HAS: hipertensão arterial sistêmica; IAM: infarto agudo do miocárdio; DM: diabetes mellitus; **Sem informação: dado não coletado.

Em relação às características clínicas, houve predomínio de neoplasia maligna de mama, representando 57,14% (n = 48) dos casos, seguida pela neoplasia maligna do cólon, com 22,62% (n = 19). O tratamento mais prevalente foi exclusivamente quimioterapia, realizado por 57,14% (n = 48) dos pacientes, seguido por cirurgia combinada com quimioterapia, com 30,95% (n = 26). Entre os tipos histológicos, os mais frequentes foram o carcinoma ductal in situ (29,76%, n = 25) e o adenocarcinoma (25%, n = 21). Quanto ao estágio TNM, as categorias mais comuns foram T2N0M0 (27,38%, n = 23) e T2N1M0 (11,90%, n = 10). Em relação ao estadiamento clínico, 57,14% (n = 48) dos pacientes estavam no estágio II da doença, e 28,57% (n = 24) no estágio III. O protocolo quimioterápico mais utilizado foi adriamicina/ciclofosfamida (16,67%, n = 14), seguido por docetaxel (13,10%, n = 11) (Tabela 3).

Tabela 3. Características clínicas de pacientes com câncer em quimioterapia ambulatorial (n=84). Vitória (ES), Brasil, 2023.

Variável

N

%

CID-10

 

 

 

C18 – Neoplasia de maligna do cólon

19

22,62

 

C50 - Neoplasia maligna da mama

48

57,14

 

C54.1 – Neoplasia maligna de endométrio

1

1,19

 

C67 - Neoplasia de maligna de bexiga

2

2,38

 

C60 - Neoplasia de maligna em pênis

1

1,19

 

C34  - Neoplasia de maligna dos brônquios e pulmões

5

5,95

 

C31.9 Neoplasia de maligna em seios da face

1

1,19

 

C160 - Neoplasia da cárdia

1

1,19

 

C44 - Neoplasia maligna indiferenciada (carcinoma de merkel)

1

1,19

 

C22.1 - Colangiocarcinoma

1

1,19

 

C56 – Neoplasia Maligna do Ovário

1

1,19

 

C16 - Neoplasia maligna do estômago

1

1,19

 

C48 - Neoplasia maligna dos tecidos moles do retroperitônio e do peritônio

1

1,19

 

C15 - Neoplasia maligna do esôfago

1

1,19

Tratamento

 

 

 

Quimioterapia

48

57,14

 

Cirurgia + quimioterapia

26

30,95

 

QT* + Hormonioterapia e radioterapia

1

1,19

 

Quimioterapia + radioterapia

3

3,57

 

Quimioterapia + cirurgia

6

7,14

Tipo Histológico

 

 

 

Adenocarcinoma

21

25,00

 

Carcinoma Ductal in Situ

25

29,76

 

Carcinoma Ductal Invasivo

15

17,86

 

Carcinoma Lobular Invasivo

8

9,52

 

Outros*

15

17,86

TNM

 

 

 

T1N0M0

7

8,33

 

T1N1M0

6

7,14

 

T1N2M0

1

1,19

 

T2N0M0

23

27,38

 

T2N1M0

10

11,90

 

T2N2M0

3

3,57

 

T2N3M0

1

1,19

 

T3N0M0

6

7,14

 

T3N1M0

3

3,57

 

T3N2M0

5

5,95

 

T3N3M0

2

2,38

 

T4N0M0

7

8,33

 

T4N1M0

5

5,95

 

T4N2M0

3

3,57

 

Sem informação

2

2,38

Estadiamento

 

 

 

I

9

10,71

 

II

48

57,14

 

III

24

28,57

 

Sem Informação

3

3,57

Tratamento quimioterápico atual

 

 

 

Carboplatina / paclitaxel 

6

7,14

 

Docetaxel / ciclofosfamida

8

9,52

 

Docetaxel

11

13,10

 

Doxorrubicina /  ciclofosfamida

3

3,57

 

Adriamicina / ciclofosfamida

14

16,67

 

Folfirinox / leucovorin

4

4,76

 

Docetaxel / carboplatina

3

3,57

 

Folfirinox

8

9,52

 

Fluorouracil / leucovorin 

3

3,57

 

Outros

24

28,57

*QT: Quimioterapia; Outros: Colangiocarcinoma; Neoplasia pouco diferenciada de endométrio; Carcinoma espinocelular da cavidade nasal direita; Carcinoma epidermóide invasivo em glande peniana; Carcinoma de merkel localmente avançado; Adenocarcinoma urotelial não invasivo; Carcinoma urotelial papilífero de alto grau da bexiga; Lipossarcoma desdiferenciado e mixofibrossarcoma; Adenocarcinoma de pulmão; Carcinoma mucinoso (colóide), grau II; Adenocarcinoma esôfago distal; Adenocarcinoma gástrico bem diferenciado intramucoso; Carcinoma seroso de baixo grau; Carcinoma pouco diferenciado de pulmão, AP sugere adenocarcinoma; Carcinoma de células escamosas invasor.

A Tabela 4 apresenta os resultados da análise dos hemogramas dos pacientes com câncer indicados para quimioterapia ambulatorial.

Tabela 4. Dados do Hemograma de pacientes com câncer em quimioterapia ambulatorial (n=84). Vitória, (ES), Brasil, 2023.

Variável

Média (desvio padrão)

Mediana (int. interquartílico)

Hemácias (milhões/mm3)

4,30 (0,56)

4,27 (3,94 - 4,60)

Hemoglobina (g/dL)

12,53 (1,69)

12,60 (11,60 - 13,50)

Hematócrito (%)

37,47 (4,67)

37,40 (35,30 - 40,50)

V.C.M.* (fL)

87,44 (6,80)

88,18 (84,58 - 91,94)

H.C.M. (pg)

29,26 (2,82)

29,62 (27,80 - 31,19)

C.H.C.M. (g/dL)

33,43 (1,21)

33,42 (32,78 - 34,30)

R.D.W.§ (%)

13,51 (1,68)

13,10 (12,50 - 14,10)

R.D.W.|| (fL)

42,74 (6,34)

42,20 (40,10 - 44,70)

Leucócitos (milhares/mm3)

7,38 (2,57)

6,95 (5,78 - 8,25)

Neutrófilos Bastonetes (%)

2,03 (0,77)

2,00 (1,00 - 3,00)

Neutrófilos Segmentados (%)

66,36 (68,54)

58,70 (52,50 - 64,40)

Eosinófilos (%)

2,05 (1,48)

1,90 (0,90 - 3,10)

Basófilos (%)

0,49 (0,43)

0,40 (0,20 - 0,60)

Linfócitos típicos (%)

28,46 (9,55)

29,70 (23,70 - 33,40)

Monócitos (%)

8,00 (2,79)

7,40 (6,00 - 9,40)

Plaquetas (milhares/mm3)

312,00 (108,47)

294,00 (237,00 - 365,00)

M.P.V. (fL)

10,45 (0,89)

10,30 (9,80 - 11,10)

*VCM: Volume Corpuscular Médio; HCM: Hemoglobina Corpuscular Média; CHCM: Concentração Da Hemoglobina Corpuscular Média; §RDW (CV): Red cell Distribuition Widh medido com coeficiente de variação; ||RDW(SD): Red cell Distribuition Widh medido com desvio padrão; MPV: Volume Plaquetário Médio.

DISCUSSÃO

Houve predominância de mulheres na amostra, representando 72,62% dos casos, em consonância com as estimativas do INCA para o triênio 2023-2025.5 O perfil socioeconômico dos pacientes reportados neste estudo revela condições de vida desfavoráveis, evidenciadas principalmente pela baixa escolaridade e renda familiar. De forma semelhante, um estudo realizado com mulheres diagnosticadas com câncer de mama identificou um status socioeconômico precário, também associado a baixa renda e baixo nível educacional.6 Estudos conduzidos na Holanda e na Suécia corroboram esses achados, indicando menor sobrevida ao câncer de mama em mulheres com baixo nível educacional.13 Além disso, o estudo sueco encontrou maior frequência de diagnósticos precoces em pacientes com maior nível de escolaridade.13 Essas disparidades em relação à educação e à renda estão diretamente relacionadas ao acesso ao rastreamento do câncer e à detecção precoce, fatores que possibilitam a implementação de tratamentos personalizados e mais eficazes.14

Um estudo encontrou uma prevalência de 80,4% de participantes casados,15 enquanto na presente amostra esse percentual foi de 51,19%, com 21,43% dos participantes não tendo filhos. Embora não seja possível estabelecer uma relação direta entre o tipo de neoplasia e o número de filhos, esses dados, aliados ao fato de mais da metade dos participantes serem do sexo feminino, estão em consonância com um estudo de coorte populacional realizado na Lituânia. Nesse estudo, constatou-se que mulheres com pelo menos um filho apresentaram 16% menos risco de desenvolver câncer de mama, e a multiparidade foi associada a uma redução ainda maior desse risco.16 Embora a relação entre gravidez, número de filhos e risco de câncer de mama seja complexa,17 sabe-se que o processo de carcinogênese dessa neoplasia está associado a fatores genéticos e ambientais, além de ser influenciado por fatores endócrinos relacionados à vida reprodutiva, como os níveis de prolactina, estradiol e progesterona.18

Nesta pesquisa, a maioria dos pacientes (66,67%) apresentava histórico familiar de câncer. As evidências indicam que o histórico familiar17 é um fator significativamente associado a um maior risco de desenvolver câncer na vida adulta, especialmente quando há a presença de mutações em linhagens germinativas.18

Embora a minoria dos participantes tenha relatado o uso de álcool e tabaco, esses produtos estão diretamente associados ao desenvolvimento de câncer. O tabaco contém diversas substâncias cancerígenas, enquanto o consumo de álcool eleva o risco de neoplasias, como as de mama, fígado e esôfago. Esse risco varia de acordo com a quantidade consumida, o tipo de bebida alcoólica e outros fatores.19

Em consonância com os resultados apresentados, um estudo20 demonstrou que, entre mais de 1900 pessoas que desenvolveram câncer ao longo de três anos, 655 casos foram de câncer de mama, seguidos por 330 casos de neoplasias gastrointestinais. Adicionalmente, um estudo transversal com 4140 residentes em casas de repouso na Europa21 revelou que 442 indivíduos (10,7%) apresentavam diagnóstico de câncer. Dentre esses, 56 pacientes apresentaram tumor primário, com maior prevalência de câncer de mama, seguido por câncer de pele não melanoma e câncer de cólon.

Um estudo de coorte retrospectiva realizado na Coreia do Sul mostrou que 53,1% das neoplasias diagnosticadas estavam nos estágios patológicos 1 e 2.15 De forma semelhante, um estudo com 83 pacientes diagnosticados com carcinoma de mama de pequenas células revelou que a maioria dos casos foi diagnosticada no estágio II, correspondendo a 33,7% da amostra.22

Quanto ao regime terapêutico, os achados deste estudo estão alinhados com uma pesquisa15 que mostrou que 30% dos pacientes utilizavam um único agente antineoplásico, como 5-fluorouracil (5-FU) ou capecitabina. Por outro lado, 70% faziam uso de terapias baseadas em platina, como FOLFOX (5-FU + oxaliplatina), XELOX (capecitabina + oxaliplatina) e paclitaxel + cisplatina. Além disso, 3,8% dos pacientes analisados realizaram cirurgias extensas, incluindo gastrostomia total, colectomia total e pneumonectomia. Uma investigação22 mostrou que 67,5% dos pacientes faziam quimioterapia, 48,2% realizaram radioterapia e mais da metade (55,4%) passaram por cirurgia conservadora da mama.

O câncer pode causar complicações inflamatórias detectáveis em nível sérico,20,23 mas os principais efeitos adversos estão associados à toxicidade da quimioterapia. Entre as alterações hematológicas mais comuns estão anemia, neutropenia febril, trombocitopenia e leucopenia.24 No entanto, é importante destacar que os dados de hemograma coletados nesta pesquisa foram obtidos antes do início do primeiro ciclo de quimioterapia. Dessa forma, não foi possível observar a influência do tratamento, o que explica as médias encontradas dentro dos parâmetros normais.25

De acordo com a Organização Mundial da Saúde,26 a anemia é caracterizada por uma concentração de hemoglobina (Hb) no sangue abaixo dos valores de referência: Hb <12 g/dL para mulheres e Hb <13 g/dL para homens. Neste estudo, a média de hemoglobina encontrada foi de 12,53 g/dL. Ao analisar o intervalo interquartil, observou-se que pelo menos 25% da amostra apresentava valores de Hb ≤11,60 g/dL. Assim, independentemente do sexo e dos respectivos valores de referência, pelo menos 21 pacientes já apresentavam anemia antes da infusão do primeiro ciclo de quimioterapia.

Evidências científicas indicam que as células imunológicas e suas ações inflamatórias no microambiente tumoral influenciam diretamente o desenvolvimento e a progressão do câncer.23,27 Compreender o papel da inflamação e do microambiente tumoral por meio da análise de biomarcadores de resposta inflamatória é essencial para definir o prognóstico do paciente e ajustar o tratamento de forma adequada.28 Nesse contexto, pesquisadores identificaram cinco biomarcadores inflamatórios associados ao prognóstico clínico de pacientes oncológicos. Esses biomarcadores são derivados da combinação de parâmetros sanguíneos, como neutrófilos, linfócitos, monócitos e plaquetas.29 A monitorização regular das alterações hematológicas por meio do hemograma é crucial para avaliar a eficácia dos protocolos terapêuticos e ajustá-los conforme necessário.24 Esse exame, por ser menos invasivo e amplamente acessível, facilita tanto a vigilância do câncer quanto o acompanhamento do tratamento, sendo realizado frequentemente antes e durante a terapia.30

Como limitação deste estudo, destaca-se a impossibilidade de estabelecer relações de causa e efeito, característica inerente ao delineamento transversal. Além disso, a coleta e análise de dados se concentraram no momento anterior ao primeiro ciclo de quimioterapia, não contemplando a progressão das condições clínicas dos pacientes. Outro ponto é que, por este estudo integrar um projeto maior que exclui pacientes em estágio IV, não foi possível abranger a totalidade dos perfis clínico-epidemiológicos. Apesar dessas limitações, esta pesquisa contribui significativamente para a compreensão do perfil clínico de pacientes com câncer não metastático, oferecendo informações valiosas que podem subsidiar estratégias voltadas à melhoria do acompanhamento desses pacientes em quimioterapia ambulatorial.

Outra limitação importante do estudo foi a ausência de informações devido à falta de respostas de alguns pacientes. Esses dados, categorizados como “sem informação”, podem ter impactado a completude das análises, limitando, assim, a generalização dos resultados obtidos.

CONCLUSÃO

O perfil sociodemográfico e clínico traçado nesta pesquisa evidenciou a complexidade multifatorial, histológica e hematológica associada ao câncer. Para melhorar o prognóstico dessa patologia, é essencial, além da avaliação de variáveis sociodemográficas e clínicas, realizar a vigilância de biomarcadores inflamatórios por meio do hemograma durante os ciclos de quimioterapia, promovendo um acompanhamento mais efetivo desses pacientes.

O conhecimento do perfil clínico-epidemiológico de pacientes em tratamento oncológico no Espírito Santo permite identificar características e fatores de risco específicos da população sob quimioterapia ambulatorial. Esses dados podem subsidiar ações voltadas à qualificação dos registros analíticos e não analíticos no Registro Hospitalar de Câncer e orientar a atuação de profissionais de saúde, especialmente enfermeiros que trabalham em ambulatórios de quimioterapia, promovendo um cuidado mais centrado nas necessidades e preferências dos pacientes. Além disso, este estudo oferece uma base para futuras pesquisas analíticas em outras regiões do Brasil, considerando questões de acesso e aspectos socioculturais, e contribui para o planejamento de ações de vigilância do câncer.

Por fim, a identificação de biomarcadores inflamatórios pode aprimorar o acompanhamento dos pacientes ao longo dos ciclos de quimioterapia, colaborando para o desenvolvimento de novas estratégias assistenciais e de pesquisa em outras regiões do país.

CONTRIBUIÇÕES

Concepção ou desenho do estudo: Pessanha RM, Lopes-Júnior LC.

Coleta de dados: Pessanha RM, Lopes-Júnior LC, D’Agostini NS, Giacomin LM, de Souza ANCV, Amaral MC, Busatto LS.

Análise e interpretação dos dados: Grippa WR, Pessanha RM, Lopes-Júnior LC.

Redação do artigo ou revisão crítica: Grippa WR, Pessanha RM, Lopes-Júnior LC, D’Agostini NS, Giacomin LM, de Souza ANCV, Amaral MC, Busatto LS.

Aprovação final da versão a ser publicada: Lopes-Júnior LC.

CONFLITO DE INTERESSES

Os autores declaram não haver conflito de interesse.

FINANCIAMENTO

Esta pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES) por meio do Edital FAPES Nº 03/2021 – UNIVERSAL. Número do processo: 2021-5BDLS.

AGRADECIMENTOS

Ao Afecc-Hospital Santa Rita de Cássia por apoiar esta pesquisa.

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Correspondência

Prof. Dr. Luís Carlos Lopes-Júnior

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