Atividades lúdicas sobre educação antirracista para a promoção de saúde da criança

Ágata Guerra Fraga Souza1, Gabriela Rodrigues Bragagnollo2, Vitória Cabral3, Mikaela Teodoro4, Guilherme Dumas5, Isabela Oliveira de Almeida6, Débora de Souza Santos7

1,2,3,4,5,6,7Universidade Estadual de Campinas. Campinas (SP), Brasil.

Introdução

Este trabalho consiste em um relato de experiência vivenciado por discentes e docentes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em um projeto de extensão universitária intitulado “EducaSaúde: educação lúdica promovendo qualidade de vida na escola”, da Faculdade de Enfermagem, durante o ano de 2019. A extensão universitária é uma prática essencial no contexto acadêmico, pois promove a interação entre a universidade e a comunidade, permitindo que o conhecimento gerado no ambiente acadêmico seja aplicado e adaptado às demandas sociais. Ao atuar nas comunidades, a extensão universitária busca não apenas disseminar saberes, mas também compreender as necessidades locais, promovendo o desenvolvimento social, cultural e econômico, e contribuindo para a formação de cidadãos críticos e engajados.

Ao utilizar uma metodologia problematizadora e lúdica na abordagem dos temas de educação em saúde, a experiência do projeto ao longo dos anos foi sinalizando a necessidade de abordar questões de ordem racial, social e de gênero, com foco para a diversidade cultural e combate ao racismo e outras formas de opressão. Sabe-se que africanos e seus descendentes foram escravizados em terras brasileiras por quase quatro séculos e que esse cenário deu origem a grandes processos de desigualdades sociais e opressões, alicerçadas pelo racismo estrutural.1,2

O racismo no Brasil, foi produzido pelo regime escravista em que o Estado e a sociedade estruturam tanto a exclusão de pessoas negras dos mais diversos setores da sociedade, como também uma forma velada de discriminar a população negra, fazendo com que ela vivencie no cotidiano variadas vertentes do racismo.2

Entre as múltiplas faces do racismo, se destacam o Racismo Pessoal/Internalizado, em que ações e sentimentos são desenvolvidos individualmente por pessoas racializadas em sua subjetividade de inferioridade, desvalorização, incapacidade ou superioridade, a depender da construção cultural e de poder racial estabelecida; o Racismo Interpessoal, em que ações são direcionadas por terceiros à pessoa negra em aspectos gerais a discriminação por raça-cor, como desrespeito, desvalorização e desumanização; e Racismo Institucional, movimentos relacionados à estrutura social, como dificuldade no acesso à informação, trabalho/renda de qualidade e serviços institucionais.3,4

Como reflexo destas dimensões, a dinâmica do racismo brasileiro pode ser elucidada de forma impactante. De acordo com o Atlas da Violência (2020), em 2018 a taxa de homicídio de pessoas negras, por 100 mil habitantes, era de 37,8 e de pessoas não negras era de 13,9; a taxa de feminicídio entre mulheres negras era de 5,2 e 2,8 entre mulheres não negras. Esses dados são importantes, considerando que a taxa de feminicídio entre mulheres não negras foi declinado, ao contrário da taxa de mulheres negras.5

Destaca-se também, no cenário mundial atual de pandemia recente de Covid-19, que um estudo evidenciou que ser pardo é o segundo maior fator de risco, depois da faixa etária, para morrer de COVID-19 no Brasil.7 No âmbito da saúde, existem diversos estudos, que exploram os indicadores da população negra e as respectivas estratégias de enfrentamento, como a Política Nacional de Saúde da População Negra (PNSPN), criada em 2009, que foi responsável por estruturar o reconhecimento do racismo como determinante social das condições de saúde no Brasil, e se destaca como política de enfrentamento das iniquidades raciais e do racismo.6

No contexto específico do cenário de inserção da creche em que o projeto se desenvolve, sabe-se que Campinas foi um dos principais locais de comércio escravista no país, o que também resultou em um movimento de luta e resistência nessa região, contra as condições desumanas em que viviam, resultando na composição de quilombos, comunidades formadas por grupos resistentes.7

Desse cenário de resistência formado pela população negra, originou-se mais adiante o Jardim São Marcos, localizado em uma das regiões de Campinas onde atualmente concentram-se os maiores índices de desigualdade, violência e narcotráfico, além de menor disponibilidade de recursos na área de saúde, educação, saneamento e habitação.8 Os dados mostram o reflexo do descaso que ocorre há séculos com a população negra campineira em decorrência do processo de colonização e escravização e como isso afeta até hoje a qualidade de vida da população negra.

O projeto também se compromete a lançar luz à temática por meio de uma óptica crítico-reflexiva tomando como referências teórico-metodológicas autores renomados no campo de estudo da educação antirracista.2,9,10 É necessário, assim, somar às abordagens metodológicas utilizadas, de problematização e ludicidade, a abordagem da educação antirracista, que consiste em pensar ações em uma lógica que não apenas seja inclusiva e sensível às questões étnico-raciais, mas que encoraje o desmonte do racismo como estrutura na sociedade.11

Sabe-se que a educação em saúde é uma importante atribuição da enfermagem e equipe multidisciplinar de saúde, com vistas à proteção e promoção da saúde da comunidade; dessa forma esse projeto de extensão estimula estudantes da graduação de enfermagem e outras áreas a desenvolverem habilidades e competências para a prática educativa de forma coletiva e interdisciplinar, orientada para diferentes públicos e utilizando instrumentos pedagógicos pautados na aprendizagem significativa e lúdica. Neste processo, os universitários extensionistas têm como desafio despertar nas crianças a tomada de consciência acerca do seu processo de saúde-doença-cuidado, por meio de uma postura ativa e reflexiva, envolvendo dialeticamente sua realidade sociocultural, na perspectiva da teoria da educação cidadã, em que a educação é tida como instrumento de libertação individual e coletiva.12

Do reconhecimento do racismo como condição social e da necessidade de promover espaços saudáveis para a manifestação da diversidade étnico-racial e de cuidar da saúde mental do povo negro, especialmente das crianças da creche, surge a necessidade de promover uma educação antirracista por meio do projeto, como estratégia de promoção da saúde na escola. Para tal, os objetivos da educação antirracista são permitir que as crianças e os adultos de seu ciclo de convívio conheçam sua história ancestral, valorizem a cultura e a beleza negra e a diversidade, reconheçam e combatam o racismo, e construam hábitos saudáveis.

Para alcançar estes objetivos, o lúdico é tomado como instrumento pedagógico por permitir que a criança expresse sua subjetividade de maneira livre e contextualizada à própria cultura, pois, por meio de atividades lúdicas, o sujeito é capaz de relacionar ideias e situações, e, ao relacioná-las, elas constroem o conhecimento.13

Ainda considerando essa discussão, é importante destacar os pilares de um projeto de extensão e sua relevância dentro do contexto universitário. Um projeto de extensão consiste em ações que partem do ambiente universitário e seus integrantes como professores, alunos, funcionários e colaboradores com o objetivo de promover uma aproximação e troca com a comunidade, expandindo o alcance do conhecimento produzido na universidade para toda a sociedade e permitindo também o compartilhamento de experiências e aprendizados com os integrantes da comunidade.14

Foram, dessa forma, elaboradas atividades com o objetivo de ensinar às crianças sobre o processo de formação populacional do país, apresentar a árvore genealógica como processo formador do nascimento do indivíduo, assim como reflexões sobre as diferentes profissões e a possibilidade de alcançá-las. Como estratégia para trabalhar os temas citados de forma lúdica, levando em consideração a faixa etária das crianças da creche (3 a 6 anos), foram promovidas brincadeiras, contação de história, dinâmicas, músicas e danças. Também houve a promoção de oficinas, rodas de conversas e capacitação com materiais lúdicos e pedagógicos com profissionais dos equipamentos, para que a equipe do projeto fosse capaz de selecionar e confeccionar instrumentos educativos e elaborar estratégias lúdicas de aprendizagem em saúde.

A abordagem antirracista surge a partir da observação da realidade e pelo reconhecimento, dos próprios extensionistas, de sua necessidade. As primeiras atividades desenvolvidas no projeto permitiram a percepção de quanto as questões relacionadas à negritude se inseriram nas atitudes e comentários das crianças, em grande parte negras, por meio, por exemplo, de comentários sobre as características físicas delas próprias e dos extensionistas. Demandas que inicialmente parecem desarticuladas do racismo, como alimentação saudável e higiene, também surgiram. E considerando a sua transversalidade, é preciso explicitar que a temática antirracista passou a ser considerada e introduzida em todas as atividades, objetiva ou subjetivamente.

A necessidade de trabalhar um tema tão complexo demandou um planejamento muito cuidadoso para que isso pudesse ser feito de forma apropriada para a idade das crianças. A ludicidade e a valorização da cultura e estética negra foram caminhos encontrados para dar espaço à voz e aos sentimentos das crianças, à expressão e ao reconhecimento de sua negritude, bem como para empoderá-las e conscientizá-las, promovendo um espaço de combate ao racismo.

O presente trabalho objetiva, assim, relatar as atividades lúdicas sobre antirracismo, desenvolvidas por discentes e docentes de um projeto de extensão universitária, como estratégia de promoção da saúde da criança.

Método

Este estudo consiste em um relato de experiência, utilizando uma metodologia que se baseia na descrição detalhada de vivências de um profissional ou de uma equipe. O objetivo é contribuir de alguma forma para o campo de atuação do autor. Essa experiência, originada da prática profissional, pode ter alcançado sucesso ou não em seus objetivos. No entanto, independentemente do resultado, ela gera conhecimento que pode ser aplicado em outros contextos ou provoca discussões sobre temas relevantes.15

A experiência relatada neste artigo refere-se ao projeto “EducaSaúde: educação lúdica promovendo qualidade de vida na escola”, uma atividade de extensão da Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas, que é desenvolvida baseada nos métodos de Pesquisa-Ação, Problematização e Círculos de Cultura, seguindo os preceitos de ensino do educador brasileiro de importância mundial, Paulo Freire.16 O projeto vem sendo desenvolvido desde 2018 em creche municipal pública de Campinas, Brasil, e tem como objetivo promover atividades de educação em saúde biopsicossocial, para promoção da saúde e desenvolvimento da criança por meio de ações educativas lúdicas e problematizadoras, em uma perspectiva freiriana de educação.

Esta necessidade está relacionada à conformação etnico-racial e perfil sociodemográfico do Jardim São Marcos, bairro da cidade de Campinas (SP) em que a creche está localizada, com população majoritariamente negra, de baixo poder aquisitivo e marcada pela violência. O contexto social e racial que as crianças do projeto EducaSaúde vivenciam é reflexo da formação da sociedade brasileira e tem raízes históricas.

O projeto “EducaSaúde: educação lúdica promovendo qualidade de vida na escola”, criado em 2018 e promove suas ações baseadas na metodologia de Pesquisa-Ação, que tem como fundamento o saber empírico do conjunto social para guiar o desenvolvimento das atividades e da produção de conhecimento.16 As atividades realizadas pelos alunos extensionistas são baseadas nas demandas que a própria comunidade escolar apresenta ou percebidas pelos integrantes da equipe do projeto e, a partir disso, é realizada a construção contínua e dinâmica das ações necessárias para resolver aquela situação, promovendo a educação e o desenvolvimento das crianças, suas famílias e das educadoras da creche. Todo o trabalho é feito em associação entre comunidade e equipe do projeto, seguindo os preceitos de Freire, que diz que o educador e o educando devem compartilhar uma relação horizontal, com posições de igualdade.12,17

Este projeto atende uma instituição de ensino infantil localizada no estado de São Paulo, Brasil, que visa desenvolver estratégias educativas lúdicas e diversificadas para promover a saúde de crianças e integrantes dos seus ciclos sociais (educadores, familiares e comunidade). A instituição, denominada Serviço de Promoção Social Paróquia de São Paulo Apóstolo (creche SPES), está localizada no Jardim São Marcos, um bairro periférico da cidade de Campinas, São Paulo, Brasil.

O projeto promove a saúde, a valorização da postura ativa e participativa e a inserção de graduandos e pós-graduandos de enfermagem e outros cursos na realidade sociocultural da comunidade, capacitando-os para reconhecer e intervir sobre situações desfavoráveis ao desenvolvimento infantil saudável. Utilizando referências teóricas de educação crítica participativa e ludicidade, dialogando com outros campos do saber, tais como as artes, ciência sociais e pedagogia, o projeto atende a públicos de diferentes faixas etárias, constituído por crianças em educação infantil, e, ainda, adultos que possuem vínculos com as crianças participantes do projeto.

Considerando os pilares do projeto, a investigação de demandas feita pelos integrantes do projeto de extensão é ininterrupta, atentando-se a novas demandas que possam surgir nessa comunidade e também aos resultados das atividades que estão sendo colocadas em prática, uma vez que o objetivo é sempre trazer benefícios e desenvolvimento positivo para as crianças, famílias e educadores.18 Dessa maneira, a habilidade de adaptação e atenção contínua são essenciais na atuação de todos os extensionistas.

Outro conceito fundamental no trabalho do projeto EducaSaúde é a Problematização ou Pedagogia Problematizadora de Paulo Freire.12 A metodologia da Problematização consiste em uma forma de compreender, questionar e mudar o ambiente social em que o educando está inserido, promovendo uma visão crítica e indagadora e fazendo com que o indivíduo compreenda conscientemente seus direitos e deveres como cidadão. Objetiva que os educandos se reconheçam como agentes ativos de mudança da realidade e da sociedade em que vivem, buscando soluções para os problemas e demandas reais daquela comunidade - se relacionando aqui diretamente com os fundamentos da Pesquisa-Ação. Pode-se resumir a Problematização como uma estratégia de abandono do olhar mágico e ingênuo do mundo, sendo este substituído por uma visão consciente, crítica e de responsabilidade ativa no mundo em que se vive.12,19

Ainda na discussão dos métodos descritos por Freire que fundamentam o projeto “EducaSaúde”, tem-se o conceito dos Círculos de Cultura, que consistem em estratégias de trocas de experiências e conhecimentos em uma organização circular, ou seja, em que todos os participantes da conversa estão em posição de igualdade, física e simbolicamente. Nesses Círculos de Cultura o foco essencial se dá no diálogo, livre e aberto, em que os integrantes se sintam à vontade para compartilhar e participar de forma ativa. Dessa forma, não há um professor responsável por simplesmente transmitir o conhecimento, esse conhecimento se dá por uma construção contínua e dinâmica de todas as partes.20

Em relação ao desenvolvimento das atividades, o mesmo se dava no período de permanência das crianças na instituição de ensino, não sendo necessária a permanência no contraturno. As educadoras cediam o espaço das salas de aula para a realização de atividade e sempre eram convidadas para participar das ações e contribuir da maneira que achassem que seria mais interessante para o enriquecimento da atividade. As atividades tiveram uma duração média de uma hora, considerando que esse foi o período indicado como adequado pelas educadoras para o trabalho com as crianças.

Para a realização das atividades com as educadoras (Círculos de Cultura), eram utilizadas as áreas de convivência da instituição, no contraturno das aulas, a fim de que não houvesse prejuízo das atividades já pré-estabelecidas no programa das turmas. A duração dessas ações era mais extensa, considerando as especificidades do trabalho com o público adulto, estendendo-se de duas a três horas de oficina.

Para planejamento, organização e desenvolvimento das ações, foram utilizadas as seguintes etapas, aplicadas em todas as atividades desenvolvidas, seguindo os preceitos da Pesquisa-Ação 18:

Passo 1: Interação com a comunidade: baseada em conversas, observações e relação das experiências com o que se aprende no meio acadêmico;

Passo 2: Identificação dos problemas: por meio do contato com a comunidade, é realizado um mapeamento das necessidades das famílias, crianças e educadoras, detectando-se as questões que necessitam de intervenção;

Passo 3: Definição das prioridades: delimitação daquilo que é prioritário resolver, em articulação com o projeto de extensão. No caso desta experiência, a prioridade traçada foi o trabalho de questões étnico-raciais com crianças pré-escolares;

Passo 4: Planejamento da ação: momento em que são organizadas as atividades que serão realizadas, com o propósito de atingir o objetivo traçado segundo as necessidades;

Passo 5: Desenvolvimento da ação: nesta etapa as atividades são de fato realizadas pela equipe de pesquisa e de extensão com o público por meio de vídeos, músicas, contação de histórias e brincadeiras que abordem os temas definidos como prioridade;

Passo 6: Avaliação da ação: análise dos resultados e impactos da ação implantada, avaliando fortalezas e limitações na prática da intervenção. Foi concretizada de maneira contínua, por meio de conversas e formulários online com as educadoras, ao final de cada atividade proposta.

No que diz respeito aos aspectos éticos, os responsáveis pelas crianças autorizaram a participação das mesmas nas atividades do projeto de extensão mediante assinatura de um documento elaborado pela própria creche no início do desenvolvimento das ações de extensão em 2018.

Resultados

No Quadro 1, são apresentadas as atividades realizadas pelo projeto EducaSaúde ao longo de 2019, juntamente com seus respectivos objetivos, focando naquelas de relevância para o tema abordado neste estudo. Vale ressaltar que foram incluídas apenas as atividades diretamente relacionadas à temática antirracista e à valorização da diversidade étnico-racial, embora o projeto também tenha contemplado outras temáticas. Contudo, é importante salientar que, em todas as atividades, incluindo as que abordaram temas como higiene e alimentação, o reforço da valorização da negritude esteve presente.

Quadro 1 - Atividades realizadas no ano de 2019 com os públicos-alvo do projeto de extensão. Campinas (SP), Brasil, 2019.

Público

Temática

Tipo de atividade

Objetivos

Mudanças observadas no comportamento dos participantes

Crianças de 4 a 5 anos

Levantamento de demandas e análise da saúde das crianças da creche

Apresentação da equipe;

Confecção da capa do portfólio de cada criança (pintura);

Pesagem e medição de todas as crianças.

Conhecer as crianças que participaram do projeto;

Fazer um levantamento do IMC e saúde;

Diagnosticar demandas das crianças que demandem intervenções de educação em saúde.

Envolvimento das crianças com a equipe (estabelecimento do vínculo primário);

Envolvimento das crianças com o projeto (criatividade e individualidade em construir seu próprio portfólio).

Crianças de 4 a 5 anos

De onde vim? Para onde vou?

Manipulação de um globo terrestre (localização dos países);

Dobradura de barcos de papel (metáfora para a viagem dos povos ao redor do mundo);

Construção de uma árvore genealógica com cartolina e desenho;

Desenho da criança com o tema “O que eu quero ser quando crescer”.

Aprender sobre o processo de formação populacional do país;

Apresentar a árvore genealógica como processo formador do nascimento do indivíduo;

Refletir sobre diversas profissões e a possibilidade de alcançá-las.

Interesse e curiosidade em manipular o globo e descobrir sobre seus ancestrais;

Exercício da criatividade nos desenhos das profissões;

Representatividade de pessoas diversas exercendo as profissões.

Professores e auxiliares de ensino

CÍRCULO DE CULTURA I: Diversidade na escola: por uma educação de

respeito e paz

Diálogo livre sobre a temática, com participação de todos os integrantes de forma horizontal (seguindo a metodologia dos Círculos de Cultura).

Conhecer e refletir sobre a diversidade étnica e cultural de formação do povo brasileiro;

Identificar e refletir sobre o racismo presente na nossa cultura;

Refletir sobre a escola como reprodutora de racismo e instrumento de combate/enfrentamento.

Participação significativa de equipe de educadores, com compartilhamento de experiências e construção de conhecimento conjunto.

Crianças de 4 a 5 anos

Identidade e Diversidade

Pintura da árvore da diversidade (marcação dos polegares de todas as crianças com tinta na árvore em cartolina);

Exibição de vídeo lúdico sobre diversidade;

Pintura de um grupo de amigos que representam diversidade racial e social.

Reforçar sobre as diferentes etnias e a valorização destas;

Levar as crianças a terem identificação e conhecerem o corpo delas;

Demonstrar diferentes estilos de vida e a diferença dentro da diferença.

Aceitação das diferenças presentes entre os colegas de turma;

Autorreconhecimento nas imagens e desenhos mostrados;

Normalização das diversidades de características físicas de cada criança.

Professores e auxiliares de ensino

CÍRCULO DE CULTURA II: Ser mulher negra no Brasil

 

Diálogo livre sobre a temática, com participação de todos os integrantes de forma horizontal (seguindo a metodologia dos Círculos de Cultura).

Refletir sobre a identidade da mulher negra no Brasi;

Discutir como mulheres negras enfrentam o racismo estrutural no Brasil;

Levantar possibilidades de mudanças na escola/creche para empoderamento de mulheres e meninas, em especial as negras.

Participação significativa de equipe de educadores;

Relatos de experiências pessoais, gerando reconhecimento coletivo;

Elaboração de estratégias para empoderamento.

Crianças de 4 a 5 anos

Recapitulação e encerramento

Conversa e desenho sintetizando o que foi visto durante o ano;

Dobradura de aviões de papel (metáfora para o começo de uma nova jornada);

Entrega de certificado simbólico para todas as crianças.

Recapitular as atividades desenvolvidas durante o ano e identificar os objetivos cumpridos;

Encerramento.

Reação positiva das crianças em relação à finalização do ano e das atividades;

Retomada espontânea por parte das crianças das temas abordados ao longo do ano;

Despedida afetiva das crianças com a equipe do projeto de extensão.

Os resultados do projeto EducaSaúde demonstram o impacto positivo das atividades realizadas, com ênfase na educação antirracista e na valorização da diversidade étnico-racial, especialmente entre crianças de 4 a 5 anos e educadores.

As atividades com as crianças incluíram a identificação de demandas de saúde, evidenciando um envolvimento significativo dos participantes, promovendo criatividade e individualidade. A temática "De onde vim? Para onde vou?" teve como objetivo explorar o processo de formação do povo brasileiro. Inicialmente, as crianças foram apresentadas a um globo terrestre, onde localizaram os países de interesse. Em seguida, a pergunta “Quem foram os primeiros habitantes do Brasil?” levou a uma discussão orientada sobre os povos indígenas. A narrativa foi enriquecida com histórias e figuras ilustrativas para apresentar os primeiros habitantes do Brasil e o processo de povoamento do território por estrangeiros, destacando a inteligência dos portugueses na navegação e o processo de escravização dos povos africanos, sempre ressaltando a competência e o domínio destes sobre o trabalho no campo. A importância das mulheres na sociedade colonial também foi abordada. A construção de barquinhos de papel ilustrou a invasão portuguesa, e a criação de árvores genealógicas ajudou as crianças a refletirem sobre sua origem e ancestralidade, compreendendo, de maneira sutil, que são fruto de um passado significativo.

Na parte "Para onde vou?", o foco foi trabalhar as perspectivas de futuro das crianças. As atividades começaram com um diálogo sobre as profissões dos pais, seguido do jogo “Que profissão é essa?”, onde as crianças adivinhavam as profissões a partir de imagens. As representações escolhidas para as profissões foram intencionalmente não convencionais, como enfermeiro em vez de médico, e pilota de aeronave em vez de piloto, conectando com a discussão sobre o papel da mulher na colonização. Dentro desse contexto, foram incluídos representantes negros em várias profissões, mostrando que, apesar das dificuldades históricas, os negros estão conquistando espaços anteriormente negados, sublinhando a possibilidade de romper com ideias preconcebidas sobre quem pode ocupar determinados papéis na sociedade.

A atividade "Identidade e Diversidade" abordou as diferenças entre as cores das pessoas por meio de uma brincadeira com impressão das mãos em cartolina. Esse momento foi uma oportunidade para dialogar com as crianças sobre como as pessoas possuem diferentes identidades, expressas por características como a cor da pele, reforçando a importância de cada indivíduo em sua singularidade, a beleza das diferenças e o respeito por elas.

Além das atividades com as crianças, foi essencial abordar as questões raciais com as educadoras da creche, preparando-as para lidar com situações cotidianas que envolvem essas temáticas e aumentando sua confiança para tratar desses assuntos em sala de aula. Os “Círculos de Cultura” foram a metodologia escolhida, proporcionando aos educadores reflexões profundas sobre racismo, diversidade e a identidade da mulher negra no Brasil. A participação ativa permitiu o compartilhamento significativo de experiências e a criação de estratégias para o empoderamento de mulheres e meninas negras.

Na introdução dessa metodologia, as educadoras e auxiliares compartilharam suas histórias familiares, destacando uma ancestralidade predominantemente negra e pobre, com origens no Nordeste e em Minas Gerais, e a figura feminina como a principal provedora da casa. O videoclipe “Eminência Parda” de Emicida foi exibido, abordando os papéis ocupados pelas pessoas negras na sociedade, o que levou os participantes a refletirem sobre suas próprias vidas e experiências de racismo estrutural no Brasil. As discussões subsequentes exploraram o racismo estrutural e o racismo na escola, com os participantes expressando que conhecem pouco sobre sua própria história, sugerindo motivos como a repressão de memórias para evitar sofrimento, a separação familiar, a exploração, a negação da educação e da identidade.

Essas reflexões foram conectadas às vivências atuais, especialmente no comportamento dos pais e das crianças da creche, levando à conclusão de que existe uma responsabilidade compartilhada em transformar o racismo estrutural por meio da educação e do empoderamento das crianças.

A presença da mulher negra, destacada no primeiro círculo, foi retomada em um segundo encontro. Os participantes foram incentivados a listar características de uma mulher bem-sucedida, resultando em atributos como independência, caráter, honestidade, coragem, determinação, paciência, persistência, sonhos, responsabilidade, garra, força de vontade e dedicação. As reflexões subsequentes abordaram os motivos pelos quais a mulher é vista dessa forma, incluindo estereótipos de servidão, objetificação e machismo.

O encerramento das atividades incluiu uma recapitulação dos temas abordados ao longo do ano, com as crianças respondendo positivamente ao conteúdo e uma despedida afetuosa da equipe do projeto. Em todas as etapas, a valorização da negritude foi integrada de forma evidente, mesmo em atividades com temas diversos, como higiene e alimentação, reforçando o impacto abrangente da abordagem antirracista do projeto.

Discussão

A partir das atividades desenvolvidas pelos discentes e docentes no projeto de extensão EducaSaúde em 2019, foi possível observar a potencialidade do lúdico aplicado a uma educação antirracista, visando promover a saúde da população negra, especialmente das crianças no contexto da creche. A análise detalhada dos resultados do projeto revela o impacto significativo dessas iniciativas na conscientização e na luta contra o racismo estrutural desde a infância.

Uma das principais forças do EducaSaúde é sua abordagem transversal, que integra a temática antirracista em todas as atividades, mesmo aquelas inicialmente não relacionadas. Essa abordagem demonstra uma compreensão profunda da interseccionalidade entre saúde, educação e identidade racial, reconhecendo que questões como alimentação saudável e higiene estão intrinsecamente ligadas às experiências raciais.

Essa perspectiva é corroborada por um estudo21 que, ao revisar narrativamente a interseccionalidade como prática e conceito na educação, concluiu que tal abordagem é essencial para promover equidade, combater preconceitos e preparar os alunos para um mundo diversificado. A escola, em colaboração com a comunidade e instituições parceiras, deve romper com o binarismo normatizador e assumir sua responsabilidade na formação de cidadãos críticos e inclusivos. A conscientização e formação contínua de educadores são fundamentais para atender às necessidades dos alunos de forma inclusiva, permitindo a expressão de identidades diversas e promovendo um ambiente de libertação das normas conservadoras.21

Além disso, o projeto EducaSaúde demonstra sensibilidade ao adaptar suas atividades à idade das crianças, utilizando métodos lúdicos e interativos para facilitar a compreensão dos conceitos abordados. O envolvimento dos educadores da creche nas discussões sobre questões raciais, evidenciado pelos "Círculos de Cultura", capacita-os para lidar com situações cotidianas envolvendo crianças, promovendo uma reflexão mais profunda sobre o racismo estrutural no contexto escolar.

A integração entre professores, funcionários e alunos extensionistas no projeto possibilitou a criação de vínculos entre as instituições envolvidas, proporcionando ferramentas e conhecimentos sobre saúde que podem ser trabalhados diariamente com as crianças. Essa troca de saberes estabeleceu estratégias adequadas às temáticas emergentes, com ênfase nas dimensões subjetivas e complexas do processo saúde-doença, reforçando a importância de uma abordagem interseccional na educação.

A interseção entre saúde e educação, observada nas atividades voltadas para a identificação de demandas de saúde, ressalta a importância de trabalhar o tema da saúde de maneira ampliada. O projeto EducaSaúde reafirma que a saúde não é apenas uma questão física, mas também envolve a valorização da identidade racial e o respeito à diversidade. Essa abordagem está alinhada com as pesquisas recentes que enfatizam a importância da interseccionalidade ao abordar temas de saúde e educação, corroborando as observações feitas no projeto.

Um estudo publicado na BMC Medical Education explora como o racismo estrutural e a interseccionalidade são fundamentais para entender as disparidades de saúde e sugere a inclusão desses conceitos na educação médica. Essa pesquisa destaca que a interseccionalidade permite uma compreensão mais profunda das múltiplas formas de discriminação que impactam a saúde de populações marginalizadas, o que é essencial para desenvolver estratégias educativas e de saúde mais inclusivas e eficazes. Além disso, outro estudo publicado pelo The BMJ explora como a interseccionalidade pode transformar os serviços de saúde, especialmente em contextos de pandemia, onde diferentes formas de discriminação e exclusão foram exacerbadas. Este estudo também ressalta a necessidade de coletar e analisar dados desagregados para melhor compreender como as desigualdades estruturais afetam o acesso à saúde, especialmente para grupos marginalizados, e como essas informações podem guiar estratégias mais equitativas.22,23

Esses estudos reafirmam a importância de uma abordagem interseccional em projetos como o EducaSaúde, que busca integrar saúde, educação e identidade racial em um contexto de combate ao racismo estrutural desde a infância. Os resultados obtidos, como a mudança na percepção das crianças em relação aos seus cabelos e tons de pele, evidenciam a eficácia das atividades em promover uma consciência crítica e um empoderamento desde a infância. Isso se alinha com os princípios da educação proposta por Paulo Freire, que enfatiza a importância da conscientização e da reflexão na formação de cidadãos críticos.20

Adicionalmente, os "Círculos de Cultura" permitiram um diálogo sobre questões como diversidade étnica e cultural, racismo estrutural e identidade da mulher negra. Esse espaço possibilitou levantar possibilidades de mudanças na escola/creche para combater o racismo e empoderar mulheres e meninas negras, além de discutir a necessidade de dialogar mais com as famílias sobre essas questões.20

Ademais, o projeto EducaSaúde está alinhado com vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 das Nações Unidas, demonstrando seu compromisso com uma abordagem holística para promover o bem-estar das crianças e combater desigualdades sociais.24 O EducaSaúde contribui para a promoção da saúde e do bem-estar das crianças, educação de qualidade, igualdade de gênero e redução das desigualdades étnicas e raciais, por meio de uma abordagem colaborativa com educadores, famílias e comunidades.

Portanto, o EducaSaúde desempenha um papel importante na promoção de múltiplos ODS, contribuindo para um mundo mais saudável, justo e inclusivo para as crianças e comunidades atendidas. Sua estratégia inspiradora mostra como um projeto educacional pode abordar a temática antirracista de maneira holística e eficaz, promovendo o empoderamento, a valorização da diversidade e o combate ao racismo desde tenra idade.

Outrossim, o projeto possibilitou aos alunos extensionistas ampliar seus conhecimentos e seus horizontes, por meio das atividades realizadas com as crianças e equipe da creche, articulando ações de extensão com o desenvolvimento de pesquisa e difusão da produção de conhecimento científico, no campo da saúde e da sociologia, buscando sempre articular com ações educativas de saúde e o desenvolvimento de estratégias para a valorização e empoderamento da população negra.

Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas ao analisar os resultados e conclusões. Em primeiro lugar, por se tratar de um relato de experiência, a generalização dos achados é restrita, pois os resultados refletem a realidade de um contexto específico. Outro aspecto importante a ser destacado é a avaliação dos impactos do projeto sobre o comportamento e a percepção das crianças em relação à diversidade étnico-racial, uma vez que esta foi realizada de maneira exploratória. Ademais, a participação ativa dos educadores nas atividades pode ter influenciado positivamente os resultados, mas essa contribuição não foi quantificada, o que dificulta a análise do peso específico de cada intervenção realizada. Essas limitações ressaltam a importância de conduzir estudos futuros para compreender melhor o impacto de projetos educacionais como o EducaSaúde em diferentes contextos e populações.

Conclusão

Os resultados do projeto EducaSaúde oferecem insights sobre a eficácia de abordagens antirracistas na promoção da conscientização e na luta contra o racismo estrutural desde a infância. Por meio de uma análise detalhada das atividades realizadas ao longo de 2019, fica claro o significativo impacto dessas iniciativas na vida das crianças, educadores e comunidades envolvidas.

A abordagem transversal do EducaSaúde, integrando a temática antirracista em todas as atividades, demonstra uma compreensão profunda da interseccionalidade entre saúde, educação e identidade racial. Além disso, a sensibilidade ao adaptar as atividades à idade das crianças e o envolvimento dos educadores nas discussões sobre questões raciais são aspectos que destacam a eficácia e relevância do projeto.

As mudanças observadas no comportamento e na percepção das crianças em relação à sua própria identidade étnico-racial, assim como os diálogos abertos sobre diversidade, racismo e empoderamento feminino, evidenciam os impactos positivos das intervenções do EducaSaúde.

Ademais, o alinhamento do projeto com diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 das Nações Unidas destaca sua importância na promoção de um mundo mais saudável, justo e inclusivo para as crianças e comunidades atendidas.

O EducaSaúde, portanto, não apenas oferece uma abordagem inspiradora para lidar com questões antirracistas na educação, mas também serve como um modelo eficaz para promover o empoderamento, a valorização da diversidade e o combate ao racismo desde a mais tenra idade. É fundamental que iniciativas como essa sejam reconhecidas e replicadas em diferentes contextos, visando construir sociedades mais justas e igualitárias para as futuras gerações.

Contribuições dos autores

Concepção do estudo: Ágata Guerra Fraga Souza, Vitória Cabral, Mikaela Teodoro, Guilherme Dumas, Isabela Oliveira de Almeida, Débora de Souza Santos. Coleta de dados: Ágata Guerra Fraga Souza, Vitória Cabral, Mikaela Teodoro, Guilherme Dumas, Isabela Oliveira de Almeida, Débora de Souza Santos. Análise e interpretação dos dados: Ágata Guerra Fraga Souza, Vitória Cabral, Mikaela Teodoro, Guilherme Dumas, Isabela Oliveira de Almeida, Débora de Souza Santos. Redação do manuscrito: Ágata Guerra Fraga Souza, Gabriela Rodrigues Bragagnollo Fahning, Vitória Cabral, Mikaela Teodoro, Guilherme Dumas, Isabela Oliveira de Almeida, Débora de Souza Santos. Revisão crítica do manuscrito: Ágata Guerra Fraga Souza, Gabriela Rodrigues Bragagnollo Fahning, Débora de Souza Santos. Aprovação da versão final do texto: Ágata Guerra Fraga Souza, Gabriela Rodrigues Bragagnollo Fahning, Débora de Souza Santos.

Conflito de interesse

Os autores declararam que não há conflito de interesse.   

Financiamento

Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Programa de Desenvolvimento da Pós-Graduação (PDPG) - CAPES: Auxílio nº: 1093/2023, Processo Nº 88881.744335/2022-01.

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Correspondência:

Gabriela Rodrigues Bragagnollo

E-mail: gabriela.rodrigues.bragagnollo@usp.br

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