Risco de quedas na pessoa idosa e a relação com interações medicamentosas

Cristiane Regina Soares1, Meiry Fernanda Pinto Okuno2

1,2Universidade Federal de São Paulo. São Paulo (SP), Brasil.

Introdução

A transição epidemiológica associada ao envelhecimento da população será um dos principais desafios do Brasil, uma vez que as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs) são frequentemente relacionadas a incapacidades físicas e cognitivas. A doenças circulatórias são responsáveis por 72% das mortes, com destaque para Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), câncer, Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2), e doenças respiratórias crônicas. As DCNTs podem causar incapacidades e aumentar a dependência para a realização das atividades diárias.1-3

A presença de condições crônicas associadas às síndromes geriátricas e à ocorrência de quedas entre a população idosa pode resultar em dependências funcionais severas decorrentes das alterações fisiológicas do envelhecimento. Dessa forma, essa população necessita de medicamentos para controlar as morbidades, manter a saúde e melhorar a qualidade de vida.4

As diretrizes mundiais definem quedas como eventos inesperados em que um indivíduo fica em repouso no solo, piso, ou nível inferior. Quedas recorrentes são caracterizadas por acontecer nos últimos 12 meses quando nenhuma causa aparente tenha sido encontrada; quedas inexplicáveis são aquelas que, ao se realizar uma avaliação multifatorial de risco de quedas, não podem ser explicadas por uma falha na adaptação a um perigo ambiental ou por qualquer outra anormalidade de marcha ou equilíbrio, com lesões graves o suficiente para exigir uma consulta com um médico.4

 As quedas severas resultam em a pessoa deitada no chão sem capacidade de se levantar por pelo menos uma hora, em necessidade de atendimento em pronto-socorro, incluindo hospitalização, associado à perda de consciência ou uma lesão sofrida após uma queda, como fraturas ou luxação.4

Os fatores intrínsecos associados às quedas são as alterações fisiológicas como envelhecimento, fragilidade, sexo, idade, efeitos de medicamentos, e morbidades; os extrínsecos são iluminação do ambiente, comportamento sedentário, uso de dispositivos de auxílio de marcha, mobiliário no quarto ou banheiro, e estruturas prediais.4,5

O risco de quedas na pessoa idosa está associado ao uso diário de medicamentos e pode resultar em Reações Adversas a Medicamentos (RAMs), como a baixa adesão ao tratamento adequado, a dosagens inadequadas, ou à identificação de situações que impeçam o uso dos medicamentos ou a ocorrência de Interações Medicamentosas (IMs). Os efeitos colaterais da medicação que estão intimamente relacionados ao risco de queda podem ser sinais e sintomas de arritmias, hipotensão postural, fraqueza muscular e tontura, além de redução do estado de alerta e alterações na função psicomotora.5-7

O uso de múltiplos medicamentos está relacionado ao aumento da expectativa de vida, ao controle de morbidades como a HAS e a DM2, e ao manejo de condições de saúde. Assim sendo, a combinação adequada de vários medicamentos com base nas evidências encontradas na literatura pode reduzir danos à saúde, controlar morbidades, aumentar a expectativa e melhorar a qualidade de vida. No entanto, algumas terapias medicamentosas são inadequadas e podem causar RAMs, um efeito prejudicial ou indesejável e não intencional quando usados em doses para prevenção, diagnóstico e tratamento.5-7

As IMs são definidas como uma reação farmacológica ou clínica à administração de uma combinação de medicamentos, que podem ocorrer entre o uso de um medicamento e outro, e/ou com alimentos. Essas interações interferem em um mesmo ou semelhante local de receptor e produzem um efeito maior (aditivo ou sinérgico) ou um efeito diminuído (antagonista), o que torna possível a ocorrência de efeitos imprevisíveis no tratamento. Dessa forma, as IMs podem ter efeitos favoráveis ou desfavoráveis à saúde do paciente. Efeitos benéficos são geralmente os esperados no auxílio do tratamento farmacológico, controlando as morbidades; no entanto, quando ocorrem eventos prejudiciais, esses podem comprometer a saúde do paciente.8

As interações farmacocinéticas podem acontecer quando um ou mais medicamentos afetam a absorção, distribuição, metabolismo ou excreção de outros fármacos. Em relação à absorção, alguns medicamentos podem alterar a absorção de outros medicamentos na corrente sanguínea; a distribuição ocorre por meio da interação das proteínas entre dois ou mais fármacos que competem por um número limitado de sítios de ligação nas proteínas plasmáticas; e o metabolismo das drogas é frequentemente afetado por metabólitos de enzimas no fígado que dissolvem as drogas para serem eliminadas do organismo. No entanto, os níveis de enzimas podem aumentar ou diminuir e influenciar a maneira como os medicamentos são decompostos. A excreção dos medicamentos pode causar danos à função renal ou à eliminação de determinados farmácos.8

As IMs podem ser classificadas em grave quando apresentam risco iminente de morte ao paciente ou requerem intervenção médica para amenizar ou prevenir reações adversas; moderada, quando resultam em agravamento da condição de saúde do paciente ou requerem alterações na farmacoterapia; e leve, quando resultam em efeitos clínicos limitados, que podem incluir aumento da frequência ou gravidade dos efeitos colaterais, mas geralmente não requerem alterações na farmacoterapia.9

Portanto, pesquisas identificaram alta frequência de prescrições de medicamentos e interações medicamentosas entre as pessoas idosas na comunidade ou na alta hospitalar, sendo evidente a necessidade de uma abordagem que garanta uma terapia medicamentosa segura para tais pacientes, principalmente em relação aos medicamentos e interações medicamentosas associadas ao risco de quedas e seus agravantes.6,7

A tomada de decisão compartilhada é resultado da implementação de estratégias apoiadas na educação em saúde das pessoas idosas, seus familiares e profissionais de saúde, considerando particularidades como fragilidade, polifarmácia, IMs, morbidades, expectativa de vida, preferências individuais, e outras síndromes geriátricas. É altamente recomendado rever ou reconciliar as medicações e indicar as Fall Risk-Increasing Drugs (FRIDs) que auxiliam na prevenção de quedas.10

Assim, investigar o risco de quedas em relação às IMs entre as pessoas idosas que frequentam um ambulatório na cidade de São Paulo é relevante, pois contribui para a definição e desenvolvimento de estratégias com foco na prevenção de quedas e no manejo clínico das interações medicamentosas e seus efeitos colaterais.

Do exposto, objetiva-se avaliar o risco de quedas na pessoa idosa e a relação com as interações medicamentosas.

Método

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) por meio do parecer 3.165.580. Atendeu as normas da Resolução 466/12, do Conselho Nacional de Saúde (CNS).11

Trata-se de uma pesquisa transversal, descritiva, com abordagem quantitativa, seguindo as diretrizes do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE).12 A amostra não probabilística, por conveniência, incluiu 117 idosos, atendidos no Ambulatório Médico de Especialidades do Idoso localizado na região Sudeste da cidade de São Paulo – SP, no período entre março e novembro de 2019.

Incluíram-se pessoas idosas com idade superior a 60 anos, capazes de compreender e responder ao formulário e à escala aplicada na pesquisa. Os formulários sociodemográfico e clínico e a escala de risco de queda Fall Risk Score (FRS) foram aplicados por meio de uma entrevista.

A escala de risco de queda FRS criada por Downton, disponibilizada publicamente em 199313 e traduzida no Brasil por Schiaveto (2008),14 utiliza cinco critérios de avaliação de risco de quedas do idoso: já sofreu quedas anteriormente; faz uso de alguma medicação; apresenta algum déficit sensorial; avaliação do estado mental; e avaliação da marcha. A pontuação do instrumento varia de 0 a 11, e o idoso é classificado com risco de queda quando apresenta uma pontuação igual ou superior a 3. Neste estudo, os idosos que obtiveram a pontuação de 0 a 2 foram considerados sem risco de queda e os que fizeram 3 ou mais pontos foram considerados com risco de queda.13,14

Para avaliar o estado mental da pessoa idosa, aplicou-se o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) elaborado por Folstein et al. (1975)15, traduzido e publicado por Bertolucci et al. (1994),16 normalmente utilizado isoladamente ou incorporado a instrumentos mais amplos, permitindo a avaliação da função cognitiva e rastreamento de doenças neurodegenerativas.

O MEEM é composto por diversas questões tipicamente agrupadas em sete categorias, cada uma delas desenhada com o objetivo de avaliar “funções” cognitivas específicas: orientação para tempo (5 pontos); orientação para local (5 pontos); registro de três palavras (3 pontos); atenção e cálculo (5 pontos); lembrança das três palavras (3 pontos); linguagem (8 pontos); e capacidade construtiva visual (1 ponto).17

Devido à conhecida influência do nível de escolaridade sobre os escores totais do MEEM, nesta pesquisa utilizou-se nota de corte proposta por Brucki et al. (2003):18 20 pontos para analfabetos, 25 pontos para pessoas com escolaridade de um a quatro anos, 26,5 pontos para cinco a oito anos, 28 pontos para aqueles com nove a onze anos, e 29 pontos para mais de 11 anos de escolaridade.

As IMs foram analisadas na base de dados Drugs.com, comparando-se os medicamentos e obtendo-se uma lista com as IMs, as quais foram classificadas quanto à potencialidade de ação em interações grave, moderada, leve, e sem interação.9 As IMs graves são classificadas como de risco para a vida do paciente quando requerem intervenção médica para minimizar ou prevenir reações adversas; as moderadas são assim consideradas devido à gravidade da condição de saúde do paciente e/ou quando requerem mudanças no tratamento; já as leves são causadas por efeitos clínicos limitados, que podem incluir um aumento na frequência ou gravidade dos efeitos colaterais, mas geralmente não requerem mudanças na farmacoterapia.9

As variáveis idade em anos, sexo (masculino e feminino), estado civil (casado, solteiro, divorciado e viúvo), escolaridade (anos de estudos), renda familiar (por quantidade de salários mínimos), número de medicamentos utilizados diariamente, classes medicamentosas, IMs nas categorias leve, moderada e grave foram analisadas por meio da estatística descritiva, apresentando as frequências e porcentagem. Os dados coletados foram armazenados em uma planilha eletrônica no Microsoft Office 2016 Excel®. O programa utilizado para a análise foi o Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), na versão 19.

Para a correlação entre as frequências da FRS e as IMs leves, moderadas ou graves utilizou-se o teste da Razão de Verossimilhança e o teste Exato de Fisher, com nível de significância de 5% (p≤0,05). Os modelos de regressão simples e múltipla entre FRS e IMs foram utilizados para analisar o conjunto de variáveis independentes que melhor explicasse o risco de queda. O método de seleção adotado foi o Forward, considerando um intervalo de confiança de 95%.

Resultados

Participaram 117 idosos, com idade média de 71,5 anos, sendo 108 (92,3%) do sexo feminino e 44 (37,6%) viúvas. A média de estudos entre os idosos foi de seis anos, correspondendo ao ensino fundamental incompleto. 94 (80,3%) eram aposentados ou pensionistas e possuíam uma renda familiar de 1,85 salários mínimos. Com relação ao risco de queda, 93 (79,5%) pessoas idosas foram consideradas com risco de quedas.

O número de medicamentos utilizados pelos entrevistados variou de 2 a 17, com a média diária sendo de 6 fármacos. As classes medicamentosas mais usadas foram os anti-hipertensivos, com 85 (72,6%), seguidos por 66 (56,4%) que usavam estatinas, 53 (45,3%) que usavam analgésicos, e 42 (35,9%) que usavam medicamentos antidiabéticos orais e insulinas. Em termos de adesão ao tratamento, 52 (44,4%) mostraram baixa e média adesão ao uso da farmacoterapia em cada categoria.

Incluíram-se 675 fármacos (comprimidos, cápsulas ou pílulas), sendo os anti-hipertensivos os mais utilizados, com 130 (19,3%), seguidos dos analgésicos, anti-inflamatórios e relaxantes musculares, com 86 (12,7%), após os medicamentos antidiabéticos orais, 79 (11,7%), as estatinas, 69 (10,2%), os diuréticos, 48 (7,1%), os inibidores da bomba de prótons e gastrocinéticos, 35 (5,1%), e os antiagregantes plaquetários, 35 (5,1%). O total de comprimidos do hormônio tireoidiano foi de 32 (4,7%) e os antidepressivos e benzodiazepínicos de 27 (4%).

Após as análises na base de dados Drugs.com, foram identificadas 491 IMs, das quais 26 (5,3%) foram consideradas IMs graves, 381 (77,6%) IMs moderadas, 84 (17,1%) IMs leves e 30 receituários não apresentaram IMs (Tabela 1). Entre as IMs, 7 (6%) pacientes apresentaram IMs na categoria leve, 58 (49,6%) na categoria moderada, 22 (18,8%) na categoria grave e 30 (25,6%) não tiveram IMs (Tabela 2).

Tabela 1 - Distribuição das frequências das interações medicamentosas nas categorias leve, moderada e grave de idosos atendidos em um Ambulatório Médico de Especialidades do Idoso na região Sudeste da cidade de São Paulo (SP). São Paulo (SP), Brasil, 2019.

Interações Medicamentosas

Total

N

%

Leve

84

17,1

Moderada

381

77,6

Grave

26

5,3

Total

491

100

Tabela 2 - Distribuição das frequências das interações medicamentosas nas categorias leve, moderada e grave de idosos atendidos em um Ambulatório Médico de Especialidades do Idoso na região Sudeste da cidade de São Paulo (SP). São Paulo (SP), Brasil, 2019.

Interações medicamentosas

Total

N

%

Não tem IM*

30

25,6

Grave

22

18,8

Moderada

58

49,6

Leve

7

6,0

Total de pacientes

117

100

IM* Leve

 

 

Sim

50

42,7

Não

67

57,3

Total de pacientes

117

100

IM* Moderada

 

 

Sim

80

68,4

Não

37

31,6

Total de pacientes

117

100

IM* Grave

 

 

Sim

20

17,1

Não

97

82,9

Total de pacientes

117

100

*IM: Interação Medicamentosa

A tabela 3 demonstra a correlação entre as frequências do risco de quedas e as IMs nas categorias leve, moderada e grave. Os pacientes idosos possuem risco de quedas em relação ao total de IMs (p=0,0006), sendo 88% (p=0,0488) de terem IM leve e 90% (p<0,0001) de ocorrência de IM moderada.

Tabela 3 - Correlação das frequências entre o risco de quedas e as interações medicamentosas nas categorias leve, moderada e grave de idosos atendidos em um Ambulatório Médico de Especialidades do Idoso na região Sudeste da cidade de São Paulo. São Paulo (SP), Brasil, 2019.

Variáveis

FRS

Não tem risco de queda

Alto risco de queda

Total

p-valor

IM*

N

%

N

%

N

%

 

Não tem IM*

14

46,7

16

53,3

30

100

0,0006

Leve

2

28,6

5

71,4

7

100

 

Moderada

5

8,6

53

91,4

58

100

 

Grave

3

13,6

19

86,4

22

100

 

IM* Leve

 

 

 

 

 

 

 

Sim

6

12,0

44

88,0

50

100

0,0488§

Não

18

26,9

49

73,1

67

100

 

IM* Moderada

 

 

 

 

 

 

 

Sim

8

10,0

72

90,0

80

100

<0,0001§

Não

16

43,2

21

56,8

37

100

 

IM* Grave

 

 

 

 

 

 

 

Sim

2

10,0

18

90,0

20

100

0,3599§

Não

22

22,7

75

77,3

97

100

 

*IM: Interação Medicamentosa; FRS: Fall Risk Score; Teste da Razão de Verossimilhança; §Teste Exato de Fisher

As pessoas idosas com risco de quedas possuem 6,86 vezes (p=0,0001) maior probabilidade de IMs moderadas. O risco de quedas entre os participantes da pesquisa e a relação com IMs moderadas é a variável que melhor explica o risco de pessoas idosas caírem (p=0,0001) (Tabela 4).

Tabela 4 - Modelo de regressão simples e múltipla do risco de quedas em relação às interações medicamentosas nas categorias leve, moderada e grave de idosos atendidos em um Ambulatório Médico de Especialidades do Idoso na região Sudeste da cidade de São Paulo (SP). São Paulo (SP), Brasil, 2019.

Variáveis

Estimativa

p-valor

ICǁ de 95%

IM* Leve (Sim vs Não)

0,99

0,0544

[0,98; 7,4]

IM* Moderada (Sim vs Não)

1,93

0,0001

[2,6; 18,2]

IM* Grave (Sim vs Não)

0,97

0,2155

[0,6; 12,3]

Constante

0,27

0,4125

 

IM* Moderada (Sim vs Não)

1,93

0,0001

[2,6; 18,2]

*IM: Interação Medicamentosa; ǁIC: Intervalo de Confiança

Discussão

As pessoas idosas apresentaram risco de cair quando identificadas IMs nas categorias leve ou moderada. O risco de quedas está associado às IMs moderadas, caracterizadas pela intensificação da condição de saúde do paciente quando requer mudanças no tratamento.

As pessoas idosas com múltiplas comorbidades, consequentemente, utilizam o tratamento medicamentoso com tendência à polifarmácia, o que as expõe a mais eventos adversos como o risco de quedas, comprometimento funcional e cognitivo, fragilização e possíveis hospitalizações advindas das quedas, podendo ocasionar um aumento na chance de serem classificadas como vulneráveis.19

O uso racional de medicamentos por essa população com foco em prevenir quedas é um grande desafio para a saúde pública. Medidas educativas e administrativas são necessárias para assegurar à população geriátrica qualidade e manutenção da capacidade funcional, sobretudo por meio de avaliação periódica do risco de quedas e da farmacoterapia, principalmente as relacionadas a interações medicamentosas.19

Corroborando os resultados deste estudo sobre a relação significativa do risco de quedas relacionado às interações entre medicamentos, pesquisa realizada na Alemanha avaliou 2.120 pacientes com idade média de 76 anos, acompanhados por sete anos, 84,9% dos quais foram monitorados após a internação, identificando-se que 63,6% tiveram quedas frequentes. Quanto ao uso de medicamentos relacionados ao aumento de quedas, a pesquisa revelou que 20,8% dos idosos tinham pelo menos um medicamento prescrito, 16,9% dos entrevistados tinham uma interação e 32,3% faziam parte do grupo de medicamentos associados ao risco de caírem e do grupo de interações medicamentosas.6

Observou-se que os medicamentos com potencial para quedas e as interações farmacológicas foram estatisticamente significantes em associação com o aumento de internações hospitalares (p=0,003) e com quedas frequentes (p=0,006). As quedas foram frequentes no grupo de pessoas idosas que usavam medicamentos relacionados a quedas e tinham interações medicamentosas (10,2%), enquanto no grupo que não utilizava esses fármacos e não tinham interações, as quedas ocorreram em 5,9% da amostra.6

Pesquisa realizada na região Sul do Brasil identificou 2187 interações medicamentosas, das quais 9,1% potencializaram o risco de quedas. As interações medicamentosas aumentaram o risco de quedas e foram classificadas conforme a gravidade, sendo 44,3% graves, 39,2% moderadas e 1,5% leve. Sendo assim, o estudo concluiu que o aumento do risco de quedas ocorreu devido aos potenciais efeitos adversos das interações medicamentosas.20

Ainda sobre o risco de quedas associado a interações medicamentosas, estudo realizado no Piauí identificou 158 interações medicamentosas entre 286 participantes da pesquisa. A relação entre o risco de ocorrência de quedas e a presença de interações medicamentosas mostrou uma chance 3,16 vezes maior do risco de queda relacionado ao uso de medicamentos do que em pacientes sem interação medicamentosa. Dessa maneira, é importante uma avaliação criteriosa da prescrição medicamentosa, além de orientações adequadas aos usuários para verificar as possíveis interações medicamentosas.21

Pesquisa realizada na Arábia Saudita, com 387 pacientes, identificou instabilidade ao caminhar em 48,8% dos participantes, enquanto 32% estavam preocupados em cair. Mais de 21% dos pacientes caíram durante o último ano, dentre os quais 11 (2,84%) caíram quatro ou mais vezes nesse período e 54,2% relataram alguma lesão devido à queda. Os principais resultados mostraram que mais da metade dos participantes apresentavam alto risco de quedas, sendo as chances de alto risco de quedas maiores entre os pacientes que faziam uso de polimedicação, ou seja, o número de medicamentos foi um dos principais fatores que podem contribuir para ocorrência de quedas.22

Estudo realizado na Paraíba comparou o risco de quedas entre 30 idosos polimedicados e 30 idosos não polimedicados, identificando uma redução do risco leve (26,7%) de quedas em idosos com uso de múltiplos medicamentos, havendo, no entanto, um aumento dos riscos moderado (63,3%) e elevado (10%) de quedas para esse mesmo grupo. A pesquisa concluiu, assim, que existe influência das medicações em relação ao aumento do risco de quedas entre as pessoas idosas.23

Em outra pesquisa realizada no Acre com 441 indivíduos idosos, 42,5% relataram episódios de quedas, dentre os quais 80,7% utilizavam no mínimo um medicamento diariamente e 48,6% usavam dois ou três medicamentos rotineiramente. Nos últimos 12 meses, a pesquisa identificou a ocorrência de 47% de quedas entre as pessoas idosas que faziam uso da medicação. Observa-se que o risco de quedas pode aumentar em relação a eventos adversos e agravos de grupos farmacológicos, como hipotensão postural, vertigem, tontura, perda de equilíbrio e vulnerabilidade.24

Ação educativa realizada com 140 pessoas idosas sobre a prevenção de quedas e polimedicação identificou, durante os relatos dos participantes, que alguns já tinham sofrido quedas recorrentes e ainda não haviam realizado simples adaptações domiciliares necessárias para prevenir novos episódios. A polifarmácia não foi um assunto muito citado, com poucos usuários tendo referido com exatidão a definição.25

No entanto, a partir do debate durante a ação educativa, muitos relataram efeitos colaterais dos medicamentos, tais quais confusão em relação aos horários para uso das medicações e interações medicamentosas. A pesquisa salienta que a ação educativa foi efetiva para cuidados com uso de múltiplos medicamentos e quedas da população idosa, bem como para a identificação dos fatores e atitudes de risco evitáveis, contribuindo para diminuir a morbidade e a mortalidade, e para melhorar a qualidade de vida na fase do envelhecimento.25

Em geral, o alto risco de quedas pode aumentar o número de internações hospitalares e a mortalidade ou sequelas advindas de acidentes por quedas, bem como acarretar uma piora na qualidade de vida, sendo uma das possíveis causas dos efeitos negativos das interações farmacológicas em diversos domínios da saúde das pessoas idosas com múltiplas morbidades. Dessa maneira, é importante rever regularmente a medicação, as metas hipertensivas e glicêmicas, bem como as possíveis desprescrições direcionadas para cada paciente de forma global.26,27

Além disso, a prevenção de quedas deve ser considerada por meio da análise do contexto social do paciente, da capacidade de autogerenciar a terapia, da mobilidade e das capacidades cognitivas e funcionais, uma vez que a terapia requer ajustes nas doses ou substituição medicamentosa, ou ainda a adequação às diferentes realidades da comunidade.26,27

Por conseguinte, é importante reconhecer os eventos adversos dos medicamentos e o impacto da prescrição relacionada às interações medicamentosas, bem como identificar as barreiras para a adesão ao tratamento, possibilitando assim implementar intervenções multidisciplinares associadas ao risco de quedas.10

A literatura sugere medidas para aprimorar a avaliação das interações entre fármacos, incluindo tecnologias da informação e comunicação, métodos de feedback, identificação visual de medicamentos, revisão constante da medicação, e atividades educativas para pacientes, cuidadores e familiares.10 A utilização adequada para rastrear as interações pode diminuir o número de medicamentos prescritos inapropriadamente, reduzir o número de omissões na prescrição, e, consequentemente, promover a indicação adequada da farmacoterapia com base em evidências clínicas para prevenção de quedas.10,27

As tecnologias da informação e comunicação podem assessorar a equipe multiprofissional na revisão dos medicamentos, na identificação de alertas eletrônicos para a administração e checagem dos mesmos, permitindo um suporte de dados das interações e eventos adversos de acordo com critérios específicos para a pessoa idosa, além de promover a transição de cuidados relacionados à terapêutica medicamentosa de uma forma coordenada e organizada do hospital para o domicílio.10,27

A conciliação dos medicamentos é entendida como um processo consciencioso, centrado na pessoa idosa e interprofissional. Esse processo apoia o gerenciamento dos medicamentos com a finalidade de elaborar uma lista precisa de fármacos em todos os pontos de transição entre os receituários, objetivando fornecer a terapêutica medicamentosa adequada, verificar os medicamentos potencialmente inapropriados, e propor sugestões em situações de interações medicamentosas moderadas e graves, especialmente entre aquelas que estão relacionadas ao alto risco de quedas.27-29

Para aumentar a segurança do paciente em relação ao risco de quedas, é necessário haver colaboração e estreita comunicação entre a equipe multiprofissional com o objetivo de identificar as interações na prescrição e permitir a troca dos medicamentos que, em associação, causariam danos ao paciente.10 Para atingir essa meta, este estudo demonstra que o risco de quedas está associado às interações medicamentosas, sendo primordial identificar os riscos aos quais os idosos estão expostos durante o uso da terapia medicamentosa.

Como limitação do estudo, cita-se a realização em um único centro, com assistência exclusiva para pacientes do sistema público de saúde, o que pode não representar outras realidades e, assim sendo, os resultados não podem ser generalizados. Ademais, o estudo transversal impede o estabelecimento das relações de causa e efeito, sendo necessário realizar pesquisas longitudinais e com maiores amostras para acompanhar as dificuldades encontradas pelos idosos em relação às interações medicamentosas associadas ao risco de quedas e, desse modo, sugerir futuras intervenções para a prática clínica.

Conclusão

O risco de quedas apresentou alta probabilidade em relação às interações medicamentosas na categoria moderada. Destarte, é importante direcionar cuidados para adequar a terapêutica medicamentosa e organizar a prescrição dos fármacos de forma a reduzir as reações adversas, orientando a pessoa idosa, seus familiares e cuidadores sobre a importância da prevenção de risco de quedas, da adesão à terapia medicamentosa prescrita para o controle das morbidades, dos riscos dos medicamentos e das interações medicamentosas.

Contribuições dos autores

Concepção do estudo: Cristiane Regina Soares, Meiry Fernanda Pinto Okuno. Análise e interpretação dos dados: Cristiane Regina Soares, Meiry Fernanda Pinto Okuno. Redação do manuscrito: Cristiane Regina Soares, Meiry Fernanda Pinto Okuno. Revisão crítica do manuscrito:  Cristiane Regina Soares, Meiry Fernanda Pinto Okuno. Aprovação da versão final do texto: Cristiane Regina Soares, Meiry Fernanda Pinto Okuno.  

Conflito de interesse

Os autores declararam que não há conflito de interesse.  

Agradecimentos

À Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo (EPE-UNIFESP) e ao Ambulatório Médicos de Especialidades (AME) do Idoso da região Sudeste da cidade de São Paulo (SP) por predisporem a realização desta pesquisa. 

Referências

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Correspondência

Cristiane Regina Soares

E-mail: crissoares31@yahoo.com.br

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