Intervenção educativa individual sobre minipílula exclusiva de progestógeno no conhecimento de gestantes: estudo antes e depois

Emmanuel Calisto da Costa Brito1, Ana Luiza Barbosa da Silva Negreiros2, Juliana Brito Martim3, Camila Fonseca Bezerra4Poliana Guerino Marson5, Leila Rute Oliveira Gurgel do Amaral6Danielle Rosa Evangelista7

1,2,3,5,6,7Universidade Federal do Tocantins. Palmas (TO), Brasil. 4Universidade Regional do Cariri. Crato (CE), Brasil.

Introdução

O planejamento reprodutivo (PR) é uma estratégia desenvolvida e apoiada em nível global pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que rege ações de cuidado nessa temática. Envolve atividades de consulta, ações educativas e assistência profissional voltada para os critérios de elegibilidade e para o protagonismo da mulher em todo o processo.1 O PR engloba um conjunto de ações básicas, na forma de assistência direta à saúde, medicamentos e insumos que possibilitam as pessoas a decisão de ter ou não ter filhos, assim como a quantidade e o intervalo entre eles.2

Uma gravidez bem planejada, proveniente de um PR eficiente leva a consequências positivas no período do pré-natal, como o menor índice de intercorrências nesse período, assim como uma maior participação dos pais nos atendimentos e recursos oferecidos pelos profissionais.3

Outro fator relevante do planejamento reprodutivo são as ações educacionais voltadas à contracepção e educação sexual, as quais compõem o cenário diário dos serviços de saúde pública no Brasil. Este cenário é promissor do ponto de vista educativo e psicossocial, e a contracepção tem seu potencial nele.4 Há diversos métodos contraceptivos e dividem-se em orais e injetáveis, permanentes e temporários. Dentre os temporários, os contraceptivos orais subdividem-se em “combinados” e “só de progestógenos”. Ganham destaque dada a sua facilidade de uso, praticidade no manuseio pelo profissional de saúde e fácil acesso pela mulher.1

As pílulas orais só de progestógenos (PSP), também denominadas minipílulas, são medicamentos que apresentam doses baixas de progestogênio. Por não conterem o princípio ativo estrogênio, são prescritas em situações em que há contraindicação absoluta ou relativa para o uso de estrogênios e durante a amamentação, por não interferirem na produção do leite materno, o que as torna uma opção favorável no período puerperal, necessitando que a ideia de seu uso seja discutida entre profissional e mulher ainda durante o pré-natal.1

O puerpério, importante período no pós-parto, é entendido como uma fase em que as ações envolvendo saúde sexual e reprodutiva devem ser iniciadas e bem desenvolvidas, dado o risco gradual de uma nova gestação não planejada. Os meses seguintes ao parto representam o risco de novas gravidezes e nesse período é imprescindível que o planejamento reprodutivo esteja sendo realizado corretamente e permeado por orientações adequadas dos profissionais de saúde, inclusive enfermeiros.5

As intervenções educacionais sobre planejamento reprodutivo direcionadas a mulheres durante a gestação são pouco descritas na literatura científica, embora sejam fundamentais, incluindo o planejamento de gestações futuras e estratégias voltadas à prevenção de agravos que comprometam a saúde sexual e reprodutiva desse público.6

As estratégias de educação em saúde no pré-natal demonstram efeito positivo no aumento do conhecimento das gestantes, embora geralmente sejam aplicadas por meio de abordagens grupais. Além disso, contribuem para o fortalecimento do vínculo entre equipe de saúde e paciente e promovem o sentimento de pertencimento da mulher, favorecendo o planejamento da gravidez, o desenvolvimento da autonomia, da corresponsabilidade e da prática do autocuidado voltada à sua saúde.7

Sabe-se, nesse contexto, que o planejamento reprodutivo deve ser iniciado ainda durante a gestação, caracterizando-se pela oferta de assistência à saúde sexual, reprodutiva e familiar. No entanto, durante revisão de literatura realizada para a elaboração desta publicação, evidenciou-se uma lacuna no conhecimento acerca das atividades educacionais individuais direcionadas às gestantes sobre contracepção e planejamento reprodutivo.

Esta pesquisa, motivada pela experiência de um dos pesquisadores atuantes na Estratégia Saúde da Família em áreas de maior vulnerabilidade social de Palmas – TO, onde foram observados curtos intervalos entre gravidezes, objetivou avaliar os efeitos de uma cartilha educativa sobre pílulas exclusivas de progestógenos no conhecimento de gestantes.

Método

Estudo de abordagem quantitativa, prospectivo, do tipo antes e depois, desenvolvido por meio da implementação de questionário de investigação socioeconômico e reprodutivo, questionário de avaliação do conhecimento antes e depois da intervenção, e intervenção individual entre mulheres gestantes por meio de uma cartilha educativa sobre o uso da pílula só de progestógeno como método contraceptivo no período de lactação.

O estudo, desenvolvido no período de abril/2021 a abril/2023, foi realizado em duas Unidades Básicas de Saúde (UBS) pertencentes à Rede de Atenção Básica do Município de Palmas, Tocantins, localizado na região de saúde Capim Dourado, com uma estimativa de 306.296 habitantes.8

A população do estudo foi composta por 145 gestantes residentes nas áreas de abrangência das UBSs 409 Norte e 603 Norte, situadas na região norte da cidade. A amostra, de caráter não probabilístico e intencional, incluiu 114 mulheres grávidas, identificadas no período de coleta de dados, que atenderam aos critérios de elegibilidade (mulheres gestantes, maiores de 18 anos, que participassem de consultas e/ou outras atividades do pré-natal exclusivamente no âmbito das unidades participantes do estudo) e aceitaram participar do estudo. O processo de seleção ocorreu, primeiramente, a partir do mapeamento e da escolha das participantes com base nos prontuários. Excluíram-se mulheres que não residiam no município de Palmas e que possuíam limitações físicas, cognitivas, neurológicas ou mentais que as impossibilitassem de participar da pesquisa.

Após a apresentação da pesquisa e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), foram aplicados dois questionários, com tempo médio de 20 minutos. O primeiro teve como objetivo caracterizar o perfil social, econômico, ginecológico e obstétrico das gestantes. O segundo visou avaliar o conhecimento prévio sobre a minipílula exclusiva de progestógeno, contemplando aspectos relacionados às suas principais características, modo de uso, efeitos colaterais mais frequentes, formas corretas e incorretas de administração e situações cotidianas associadas ao seu uso.

Em seguida, realizou-se a intervenção educativa individual com cada participante, por meio da apresentação da cartilha “Pílula só de progestógeno e seu uso durante o aleitamento materno: educando no pré-natal”, desenvolvida pelo pesquisador principal no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal do Tocantins.

A intervenção teve duração máxima de 20 minutos, ocorrendo em sala reservada nas UBSs, de forma dialogada entre o pesquisador e cada gestante. Durante o encontro, todo o conteúdo da cartilha foi apresentado, esclarecendo informações sobre mitos e verdades acerca da PSP, seus efeitos colaterais mais comuns, critérios de elegibilidade e situações recorrentes entre usuárias do método. Ao final, a participante recebia um exemplar da cartilha para levar consigo.

A cartilha educativa possui dimensões de 148 × 105 mm, totalizando oito páginas frente e verso, organizadas em dez tópicos: 1. O que são pílulas só de progestógeno? 2. Como elas evitam a gravidez? 3. Qual das PSPs está disponível gratuitamente no SUS de Palmas-TO e onde obtê-la? 4. Elas são realmente eficazes? 5. Como devo usá-las? 6. Quais as vantagens do uso durante a amamentação? 7. Quem pode usar e quem não pode? 8. Quais são as desvantagens? 9. Se eu parar de tomar as pílulas, vou demorar a engravidar? 10. Outros recados importantes sobre as PSP.

Passados 10 dias de cada entrevista e atividade educativa, procedeu-se à reaplicação do questionário de avaliação do conhecimento utilizado na primeira fase, com tempo médio de 30 minutos. Ao término, realizou-se uma breve fala de encerramento da coleta de dados, com duração aproximada de 10 minutos.

Para a análise quantitativa utilizou-se software estatístico SPSS, versão 22.0. Para as variáveis categóricas, aplicou-se estatística descritiva por meio de frequências absolutas e relativas. As variáveis numéricas foram analisadas por medidas de tendência central e dispersão, conforme a distribuição dos dados, avaliada pelo teste de normalidade de Shapiro-Wilk.

Para verificar a associação entre as variáveis de exposição e o desfecho “conhecimento das gestantes sobre a minipílula”, aplicaram-se os testes qui-quadrado ou exato de Fisher, considerando-se a variável dependente dicotômica, com pontuação de 1 ponto por questão. As participantes com pontuação de 0 a 5 foram classificadas como de conhecimento insatisfatório, e aquelas com 6 a 10 pontos, como de conhecimento satisfatório. A comparação entre os níveis de conhecimento antes e após a intervenção educativa foi realizada por meio do teste de McNemar, adequado para análises pareadas de dados dicotômicos.9

A garantia ética do estudo foi assegurada mediante a assinatura do Termo de Compromisso para Utilização de Dados junto à Secretaria Municipal de Saúde de Palmas. O estudo obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação Escola de Saúde Pública de Palmas, sob o Parecer nº 5.829.489.

Resultados

As Tabelas 1 e 2 descrevem, respectivamente, o perfil socioeconômico e os aspectos sexuais e reprodutivos das participantes.

 Tabela 1 - Distribuição das gestantes segundo perfil socioeconômico. Palmas, Tocantins, Brasil, 2022.

Características

                  n

%

Raça/Cor

Branca

Parda/Negra

Amarela

Ausente

 

18

90

1

5

 

15,8

78,9

  0,9

  4,4

Faixa etária

Até 27 anos

28 anos ou mais

Ausente

 

60

52

2

 

52,6

45,6

  1,8

Estado civil

União Estável/Noiva/Casada

Solteira

Ausente

 

80

31

3

 

70,2

27,2

  2,6

Religião

Católica

Evangélica

Não sabe/Não possui/Não quis informar

Outra

Ausente

 

32

56

23

1

2

 

28,1

49,1

20,2

  0,9

  1,8

Escolaridade

Ensino fundamental

Ensino médio

Ensino técnico

Ensino superior

Mestrado

Ausente

 

10

68

7

27

1

1

 

  8,8

59,6

  6,1

23,7

  0,9

  0,9

Renda

Até 3.000 reais

Acima de 3.000,01 reais

Ausente

 

80

26

8

 

70,2

22,8

  7,0

Tabela 2 - Distribuição das gestantes segundo dados ginecológicos e obstétricos. Palmas, Tocantins, Brasil, 2022.

Características

          n

%

Menarca

9 a 12 anos

13 a 17 anos

Ausente

 

57

53

4

 

50,0

46,5

  3,5

Sexarca

12 a 17 anos

18 a 24 anos

Ausente

 

67

41

6

 

58,8

36,0

  5,3

Número de gestações

1  gestação

2  gestações

3 a 4 gestações

5 ou mais gestações

 

31

32

38

13

 

27,2

28,1

33,3

11,4

Número de partos

1 e 2 partos

3 ou mais partos

Não se aplica

 

55

18

41

 

48,2

15,8

36,0

Número de partos cesáreos

1 e 2 partos

3 ou mais partos

Não se aplica

 

31

3

80

 

27,2

  2,7

70,2

Número de partos normais

1 e 2 partos

3 e 4 partos

5 ou mais partos

Não se aplica

 

37

9

1

67

 

32,5

  7,9

  0,9

58,8

Número de abortos

1  aborto

2  abortos

3 abortos

Nenhum aborto

 

24

7

2

81

 

21,1

  6,1

  1,8

71,1

A média da sexarca entre as gestantes entrevistadas foi de 16,92 anos, acompanhada de um desvio padrão de 2,473.

A Tabela 3 apresenta os valores absolutos e percentuais obtidos, segundo a classificação do conhecimento das participantes em satisfatório (notas de 6 a 10) e insatisfatório (notas de 0 a 5). Também apresenta o resultado do teste qui-quadrado, aplicado para verificar a associação estatística entre as variáveis socioeconômicas e reprodutivas e o nível de conhecimento das gestantes antes da intervenção educativa individual.

Tabela 3 - Distribuição das gestantes segundo as características socioeconômicas, gineco-obstétricas e nível de conhecimento antes da intervenção educativa individual. Palmas, Tocantins, Brasil, 2022.

Características

Conhecimento satisfatório n [%]

Conhecimento insatisfatório n [%]

p-valor

Raça/Cor (n=109/05 CA†)

Branca

Parda/Negra

Amarela

 

  7 [38,9]

22 [24,4]

    0 [0,0]

 

11 [61,1]

68 [75,6]

1 [100,0]

 

0,374*

Faixa etária (n=112/02 CA†)

Até 27 anos

28 anos ou mais

 

13 [21,7]

15 [28,8]

 

47 [78,3]

37 [71,2]

 

0,382*

Estado civil (n=113/01 CA†)

Casada/Noiva/União Estável

Solteira

 

23 [28,0]

6 [19,3]

 

59 [72,0]

25 [80,7]

 

 

0,345*

Religião (n=112/02 CA†)

Católica

Evangélica

Não sabe/Não possui/Não quis informar

Outra

 

13 [40,6]

12 [21,5]

  4 [17,4]

    0 [0,0]

 

19 [59,4]

44 [78,5]

19 [82,6]

1 [100,0]

 

 

0,144*

Escolaridade (n=113/01 CA†)

Ensino fundamental

Ensino médio

Ensino técnico

Ensino superior

Mestrado

 

  1 [10,0]

17 [25,0]

  2 [28,5]

  8 [29,7]

1 [100,0]

 

  9 [90,0]

51 [75,0]

  5 [71,5]

19 [70,3]

    0 [0,0]

 

 

0,348*

 

 

Renda (n=106/08 CA†)

Até 3000 reais

Acima de 3000,01 reais

 

20 [25,0]

  7 [26,9]

 

60 [75,0]

19 [73,1]

 

0,845*

Menarca (n=110/04 CA†)

9 a 12 anos

13 a 17 anos

 

17 [29,8]

12 [22,6]

 

40 [70,2]

41 [77,4]

 

0,393*

Sexarca (n=108/06 CA†)

12 a 17 anos

18 a 24 anos

 

18 [26,9]

11 [26,9]

 

49 [73,1]

30 [73,1]

 

0,997*

Número de gestações (n=114)

Até 2 gestações

3 ou mais gestações

 

15 [23,8]

14 [27,4]

 

48 [76,2]

37 [72,6]

 

0,657*

Número de partos (n=73/41 CA†)

1 e 2 partos

3 ou mais partos

 

15 [27,2]

  5 [27,8]

 

40 [72,8]

13 [72,2]

 

  0,594**

Número de Abortos (n=33/81 CA†)

Até 1 aborto

2 ou mais abortos

 

3 [12,5]

4 [44,4]

 

21 [87,5]

  5 [55,6]

 

0,046*

 *Teste qui-quadrado   **Teste exato de Fisher   †Casos Ausentes

A Tabela 4 apresenta a associação entre as características socioeconômicas e gineco-obstétricas e o nível de conhecimento, classificado como satisfatório ou insatisfatório, após a intervenção educativa, indicando o valor de p obtido pelo teste qui-quadrado.

Tabela 4 - Distribuição de gestantes segundo as características socioeconômicas, gineco-obstétricas e conhecimento após a intervenção educativa individual. Palmas, Tocantins, Brasil, 2022.

Características

Conhecimento satisfatório n [%]

Conhecimento insatisfatório n [%]

    p-valor

Raça/Cor (n=106/08 CA†)

Branca

Parda/Negra

Amarela

 

18 [100,0]

 80 [92,0]

 1 [100,0]

 

0 [0,0]

7 [8,0]

0 [0,0]

0,441*

Faixa etária (n=109/05 CA†)

Até 27 anos

28 anos ou mais

 

55 [91,7]

47 [96,0]

 

5 [8,3]

2 [4,0]

0,311**

Estado civil (n=110/04 CA†)

Casada/Noiva/União Estável

Solteira

 

76 [95,0]

28 [93,3]

 

4 [5,0]

2 [6,7]

 0,523**

Religião (n=109/05 CA†)

Católica

Evangélica

Não sabe/Não possui/Não quis informar

Outra

 

32 [100,0]

  49 [92,5]

  20 [87,0]

  1 [100,0]

 

  0 [0,0]

  4 [7,5]

3 [13,0]

  0 [0,0]

 

 

0,256*

Escolaridade (n=110/04 CA†)

Ensino fundamental Ensino médio

Ensino técnico

Ensino superior

Mestrado

 

  9 [90,0]

63 [95,4]

  6 [85,7]

24 [92,3]

1 [100,0]

 

1 [10,0]

  3 [4,6]

1 [14,3]

  2 [7,7]

  0 [0,0]

 

 

0,832*

Renda (n=103/11 CA†)

Até 3000 reais

Acima de 3000,01 reais

 

72 [93,5]

25 [96,2]

 

5 [6,5]

1 [3,8]

 

0,525**

Menarca (n=107/07 CA†)

9 a 12 anos

13 a 17 anos

 

52 [92,8]

48 [94,2]

 

4 [7,2]

3 [5,8]

 

0,552**

Sexarca (n=105/09 CA†)

12 a 17 anos

18 a 24 anos

 

63 [95,4]

36 [92,3]

 

3 [5,6]

3 [7,7]

 

0,395**

Número de gestações (n=111/CA†)

Até 2 gestações

3 ou mais gestações

 

57 [91,9]

47 [96,0]

 

5 [8,1]

2 [4,0]

 

0,327**

Número de partos (n=71/43 CA†)

1 e 2 partos

3 ou mais partos

 

52 [96,3]

16 [94,2]

 

2 [3,7]

1 [5,8]

 

0,566**

Número de Abortos (n=32/82 CA†)

Até 1 aborto

2 ou mais abortos

 

22 [95,6]

  8 [88,9]

 

  1 [4,4]

1 [11,1]

 

0,490**

*Teste qui-quadrado   **Teste exato de Fisher   †Casos Ausentes

A Tabela 5 apresenta os níveis de conhecimento das participantes antes e após a intervenção educativa, analisados por meio do teste de McNemar. Considerou-se conhecimento insatisfatório quando as gestantes obtinham pontuação de 0 a 5 e satisfatório quando a pontuação obtida era de 6 a 10.

Tabela 5 – Distribuição de gestantes segundo o grau de conhecimento antes e após a intervenção educativa individual. Palmas, Tocantins, Brasil, 2022.

 

Nível de conhecimento

Conhecimento pré-intervenção

Conhecimento

pós-intervenção

p-valor McNemar

 

n

%

n

%

 

Conhecimento insatisfatório

0 a 5 pontos

 

85

 

  74,6

 

7

 

  6,1

 

Conhecimento satisfatório

6 a 10 pontos

 

 

 

 

       < 0,001

29

  25,4

104

91,2

 

Total

114

100,0

111

97,3

 

Discussão

Os achados desta pesquisa encontram-se em conformidade com o perfil nacional, que evidencia queda da fecundidade entre mulheres de todas as raças no período de 2001 a 2015, sendo observadas taxas de 2,10 para brancas em 2001 e 1,69 em 2015; 2,75 para negras em 2001 e 1,88 em 2015; e 2,65 para pardas em 2001 e 1,96 em 2015.10

A média de idade de 27,62 anos entre as participantes corrobora dados nacionais, que indicam maior ocorrência de gravidez entre mulheres de 20 a 24 anos. Esse achado sugere que a mulher brasileira exerce controle sobre sua fecundidade ainda em idade jovem, o que diferencia o país de nações desenvolvidas, como algumas europeias, onde a transição da fecundidade ocorre em idades mais avançadas. Apesar disso, observa-se que a taxa de fecundidade das brasileiras continua em declínio.11

Estudos realizados em menor escala no Brasil também corroboram os achados desta pesquisa, ao analisarem o perfil e os fatores associados ao uso de contraceptivos orais combinados, destacando que a utilização desses métodos foi significativamente mais prevalente entre mulheres com idade entre 20 e 35 anos.12

O achado de mulheres gestantes solteiras nesta pesquisa evidencia a monoparentalidade nesse grupo. Nesse contexto, refletem-se os impactos sociais associados, como maior vulnerabilidade, dificuldade de acesso a empregos formais e o desafio de criar os filhos de forma autônoma.13

A média salarial das gestantes foi inferior a três salários-mínimos, sendo que a maioria declarou receber menos de R$ 3.000,00. Esses dados, analisados à luz da literatura, refletem um problema social persistente no Brasil: a prevalência de gestações entre mulheres com baixa renda familiar, aliada a uma remuneração insuficiente para garantir o sustento adequado de uma família brasileira. Em 2023, considerando o salário mínimo nominal em fevereiro (R$ 1.302,00), o valor necessário para assegurar uma boa qualidade de vida seria de R$ 6.547,58, muito acima da média salarial observada entre as gestantes deste estudo.14

Estudo nacional, também envolvendo gestantes, obteve resultados semelhantes aos desta pesquisa. Nesse estudo, a maioria das grávidas (62,6%) declarou renda menor ou igual a três salários-mínimos, sendo que 7,6% relataram renda familiar inferior a um salário mínimo, evidenciando um padrão preocupante semelhante ao observado nesta pesquisa.15 Como agravante, verificou-se maior frequência de baixo peso ao nascer entre crianças de mulheres com renda de até um salário-mínimo.16

Ao analisar a fecundidade, outro estudo nacional identificou que baixa renda familiar, puérperas com idade inferior a 19 anos e baixa escolaridade configuram um contexto social desfavorável, associado a maior prevalência de gravidezes não planejadas. Nesta pesquisa, a faixa etária de início da atividade sexual das participantes apresentou média de 15,3 anos, valor próximo ao observado nacionalmente para jovens brasileiros.17

Vale ponderar que parâmetros sexuais e reprodutivos, como a idade da menarca e da sexarca, aliados a fatores como baixa renda e limitado acesso à informação, constituem indicadores importantes para o desenvolvimento de ações profissionais voltadas à educação sexual ainda na adolescência. Esses achados são especialmente relevantes quando considerados no contexto de promoção de orientações sobre o método contraceptivo mais adequado para cada mulher, dado que a população feminina brasileira ainda apresenta lacunas significativas de informação sobre planejamento reprodutivo, seus benefícios e particularidades.4

Tendo em vista a média de gestações, esta pesquisa revelou a tendência de pelo menos 2 filhos por mulher gestante. Esse achado diverge da literatura, que indica as primigestas como maioria. Contudo, uma análise mais aprofundada sobre o número de filhos e sua relação com fatores causais permite compreender essa diferença. As mulheres primíparas são predominantes e, até a primeira gestação, geralmente realizam planejamento reprodutivo; entretanto, a partir da terceira gravidez, essa situação tende a ser descrita como inoportuna ou não planejada.18

Nesta pesquisa constatou-se valor expressivo de cesarianas entre as participantes. Um panorama mundial sobre os partos cesáreos alerta que a situação está em evidente crescimento, com taxa global de cesarianas em 21,1%, revelando ampla utilização do procedimento, especialmente na América Latina, em destaque como uma das regiões de maior ocorrência de cesarianas.19 Na concepção da prestação de assistência adequada à saúde materno-infantil, a OMS prescreve que que a taxa ideal de partos cesáreos em uma instituição de saúde deve estar entre 10% e 15%.20

Embora esta pesquisa não tenha aprofundado a análise acerca das causas dos abortos relatados, a prevalência significativa dessa variável pode ser incorporada aos dados nacionais, ao descrever o aborto inseguro como um agravo de interesse da saúde pública, considerando sua associação à morte materna e o fato de ser mais prevalente entre mulheres em situação de vulnerabilidade social.21

Observa-se discreto aumento na porcentagem de conhecimento satisfatório à medida que aumenta o grau de escolaridade. Estudo discute a correlação estatística entre a quantidade de anos de estudo da mulher gestante e o uso de métodos contraceptivos, uma vez que quanto maior o seu nível de conhecimento, mais atenção a mulher dá ao seu planejamento reprodutivo.22

A porcentagem de mulheres pardas e negras também foi superior entre aquelas com conhecimento insatisfatório, quando comparadas às brancas. A literatura destaca que a assistência à saúde sexual e reprodutiva oferecida às mulheres negras é frequentemente insuficiente, o que se relaciona diretamente a maiores taxas de óbito materno nesse grupo. Esse contexto reforça a necessidade de uma atenção integral e qualificada durante o ciclo gravídico-puerperal, considerando as possíveis complicações decorrentes de adoecimentos nesse período.23

Sobre o aborto e o uso de contraceptivos, observa-se que as mulheres que já vivenciaram essa situação demonstram conhecer os principais métodos anticoncepcionais disponíveis - especialmente as pílulas, o preservativo masculino, os anticoncepcionais injetáveis e o dispositivo intrauterino (DIU). Contudo, verifica-se uma baixa procura por consultas especializadas com profissionais de saúde para a escolha do método mais adequado ao seu comportamento sexual, o que pode contribuir para falhas no uso dos métodos mencionados.24

Não houve associação estatística entre as variáveis e o nível de conhecimento após a intervenção na amostra examinada, entre características socioeconômicas como faixa etária, renda, religião, escolaridade, estado civil e raça com o conhecimento a partir da atividade educativa individual realizada. De igual modo, as características sexuais e reprodutivas (menarca, sexarca, número de partos, abortos e gestações) não demonstraram associação estatística significativa, mesmo após a intervenção educativa, pondo em evidência que estas variáveis não interferem no nível de conhecimento de uma mulher gestante que passou por intervenção educativa. No entanto, estudo revela que existe um padrão duplicado de vulnerabilidade associado à educação reprodutiva para as mulheres brasileiras, onde as mais vulneráveis como as pretas, pardas, e/ou nortistas, que residem em zona rural e com menor escolaridade sofrem pela pouca educação em saúde voltada ao PR, como também pelo acesso insuficiente aos métodos contraceptivos.25

Para a amostra analisada, a interpretação indica que a atividade educativa, realizada de maneira dialogada, horizontalizada e individual, com explanação da cartilha educativa e esclarecimento de dúvidas durante a apresentação, constitui um método eficaz de promoção da saúde, com potencial de aplicação em outras ações voltadas ao público gestante, diferenciando-se das estratégias convencionais realizadas em grupo na Atenção Primária à Saúde.

Aliadas a um pré-natal integral, voltado às necessidades da gestante, com o envolvimento de todas as categorias profissionais na ESF, as atividades educativas, sejam elas individuais ou em grupo, são valiosas, elevam a qualidade no cuidado gestacional e promovem mudanças no processo de autocuidado da mulher, o que reforça o achado na presente pesquisa, tanto pelo caráter individual da atividade educativa, quando pelo âmbito da estratégia saúde da família.26-27

Quanto à característica da horizontalidade na educação em saúde de mulheres gestantes, a prática evidencia seu potencial à medida que se desenvolve um pré-natal centrado na mulher e na família, destacando, ainda, que o profissional de saúde exerce papel fundamental na promoção da horizontalidade durante a prestação da educação em saúde.28

Nesse contexto, estudo etíope evidencia que ações educativas e aconselhamento são atividades essenciais para mulheres, especialmente quando abordam questões de saúde sexual e reprodutiva de forma atrativa e lúdica. A pesquisa africana corrobora os achados deste artigo, ao identificar associação estatisticamente significativa entre a educação em saúde e a melhoria do conhecimento de gestantes que participaram de atividades educativas utilizando a tecnologia “imagens ilustrativas”, o que contribuiu positivamente para o aumento do acesso e do uso de ácido fólico entre as participantes.29

Como limitações metodológicas do presente estudo, destacam-se a amostragem não probabilística e a escolha intencional das UBSs, o que impede a generalização dos resultados.

 Conclusão

O estudo revelou que fatores socioeconômicos, reprodutivos e obstétricos não se associam ao conhecimento das gestantes sobre a pílula só de progestógeno. No entanto, a atividade educativa individual, dialogada e apoiada pela cartilha, mostrou potencial significativo para promover mudanças no conhecimento das participantes sobre o PR durante o pré-natal. É necessário, contudo, a realização de outros estudos com maior amostragem para consolidar tais achados.

A educação em saúde individual e dialogada sobre o uso da minipílula, desempenhada pelo enfermeiro no pré-natal da Atenção Primária à Saúde, revelou-se estratégia importante para fortalecer o cuidado e promover a saúde reprodutiva de gestantes.

Consolidar uma base teórica e científica sobre educação individual em saúde é essencial para fortalecer as ações de enfermagem na saúde sexual e reprodutiva da mulher usuária do Sistema Único de Saúde.

Contribuições dos autores

Concepção do estudo: Emmanuel Calisto da Costa Brito. Coleta de dados: Emmanuel Calisto da Costa Brito, Ana Luiza Barbosa da Silva Negreiros, Juliana Brito Martim. Análise e interpretação dos dados: Emmanuel Calisto da Costa Brito, Danielle Rosa Evangelista. Redação do manuscrito: Emmanuel Calisto da Costa Brito, Danielle Rosa Evangelista. Revisão crítica do manuscrito: Emmanuel Calisto da Costa Brito, Danielle Rosa Evangelista, Camila Fonseca Bezerra, Poliana Guerino Marson, Leila Rute Oliveira Gurgel do Amaral. Aprovação da versão final do texto: Emmanuel Calisto da Costa Brito, Danielle Rosa Evangelista.

Conflito de interesse 

Os autores declararam que não há conflito de interesse.   

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Autor Correspondente

Emmanuel Calisto da Costa Brito

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