Fatores associados à alcoolemia em vítimas de acidente de trânsito submetidas à necropsia

Maicon Henrique Lentsck1, Larissa Zakrzevski2, Flavia Dvulathca3, Bruno Bordin Pelazza4, Maria Regiane Trincaus5, Tatiane Baratieri6, Débora Regina de Oliveira Moura7, Erica de Brito Pilitin8.

1,2,3,4,5,6 - Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO. Guarapuava (PR), Brasil.

7- Universidade Estadual de Maringá/UEM. Maringá (PR), Brasil.

8- Universidade Federal da Fronteira Sul/UFFS. Chapecó (SC), Brasil.

INTRODUÇÃO

Os acidentes de trânsito são reconhecidamente um problema global, apresentam fatores vinculados ao comportamento dos indivíduos, à segurança dos veículos e à inadequação do ambiente urbano.1 Também se torna decorrente do aumento constante do número de veículos, das transformações no estilo de vida e do comportamento de risco que se observam na população em geral.

Nesse sentido, a expressão da mortalidade tem demonstrado crescimento. Na primeira década de ação pela segurança no trânsito no Brasil, houve aumento de 13,5% em relação à década de 2000 e taxa de mortalidade de 19,22/100 mil habitantes,2 sobretudo entre jovens de 15 a 29 anos de idade e devido ao uso de bebidas alcoólicas.3

Ademais, apesar do consumo de bebidas alcoólicas ser adaptado e incentivado em muitas culturas, produz euforia e desinibição, em que altos níveis de álcool no sangue (alcoolemia) causam diminuição do estado de alerta, falsa percepção de velocidade, aumento do tempo de reação, sonolência, diminuição da visão periférica e alterações neuromotoras,4 e essa relação com veículos intensifica a natureza rápida e trágica das fatalidades no trânsito. O impacto dessa fatalidade transcende avaliações quantitativas e recai sobre famílias e sociedade, o que gera vazios emocionais, desafios econômicos e perda de oportunidades.5

O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) é a legislação que determina as questões relacionadas ao trânsito de veículos terrestres no território brasileiro, apresenta como características fundamentais segurança viária e proteção da vida. Dessa maneira, estabelece regras rigorosas para coibir comportamentos perigosos no trânsito, como o excesso de velocidade, o consumo de álcool ao volante e a desobediência às normas de circulação. Além disso, prevê a aplicação de penalidades, como multas e suspensão da habilitação, para aqueles que descumprem suas normativas.6

Alcoolemia é a medida da quantidade de álcool presente no sangue, expressa em gramas por decilitro ou miligramas por mililitro. Tornou-se indicador crucial para avaliar o nível de intoxicação alcoólica, é utilizado na legislação de trânsito para estabelecer limites permitidos para dirigir. No Brasil, foi estabelecida uma política de tolerância zero para o consumo de álcool por motoristas, conhecida como lei seca, e, nesse contexto, a compreensão dos efeitos do álcool no corpo e a ação responsável são fundamentais para garantir a segurança. Dados do Global Burden of Diseases (GBD) descreveram que o consumo de álcool ocupou a 5ª posição, em 2017, entre os fatores de risco que mais contribuem para o número total de Anos de Vida Perdidos Ajustados por Incapacidade.4,7 No Brasil, os dados sobre o consumo de álcool em acidentes fatais são incipientes, contudo, mesmo desatualizados, os dados disponíveis apresentam uma alcoolemia próxima da identificada nos Estados Unidos (30%) e na Europa (25%).8 

Enquanto o panorama da segurança veicular evolui, é crucial atentar para outra face desse desafio, a persistência do consumo de bebidas alcoólicas por parte dos motoristas e a preocupação premente com a segurança no trânsito. Mesmo diante de veículos mais seguros e tecnologicamente avançados, os efeitos adversos do álcool sobre o desempenho cognitivo e a coordenação motora continuam a representar ameaça séria para a segurança rodoviária.9

O tráfego de veículos e pedestres decorre da necessidade de deslocamento físico das pessoas, bem como sua relação com o planejamento urbano, educação, cidadania e segurança. Ademais, constitui campo de estudo para a mobilidade urbana na qualidade de vida da população urbana.10

A Organização das Nações Unidas (ONU) determinou como estratégia para a diminuição dos acidentes de trânsito para os anos entre 2021 e 2030, ações pela segurança no trânsito, com propósito de diminuir em 50% as mortes e lesões no trânsito nesse período.1 Destaca-se que a prevenção de acidentes de trânsito causados em função do consumo de bebidas alcoólicas também está presente na Agenda 2030 da ONU, visando realizar desenvolvimento sustentável relacionado à saúde e ao bem-estar, com metas para a redução do uso nocivo de álcool e das mortes e lesões em estradas.11 Nesse cenário, destaca-se a enfermagem, como profissão capaz de atuar tanto na assistência às vítimas quanto na implementação de programas de prevenção e gerenciamento de dados sobre saúde pública, ampliando a capacidade de prevenção e intervenção em casos de acidentes relacionados ao álcool.12

Ao considerar a Agenda 2030 e a potência de atores-chave, como o enfermeiro, quer seja na aplicação ou na identificação e análise de fatores associados à alcoolemia em vítimas fatais de acidentes de trânsito, a obtenção de dados precisos sobre a presença de álcool no sangue das vítimas contribui significativamente para a compreensão da dinâmica desses acidentes. Nesse contexto, o tipo de coleta de dados deve ser considerado, com ressalvas, à coleta de dados de necropsia, por ser uma fonte essencial de informações, considerando-a como um exame post-mortem detalhado, que permite identificar com precisão causas de morte e condições associadas, como a alcoolemia, com dados de alta confiabilidade para análise epidemiológica e intervenção. A coleta de dados a partir desse exame, particularmente em acidentes de trânsito, é fundamental para mapear fatores de risco e direcionar ações preventivas.13

 OBJETIVO

Identificar os fatores associados à alcoolemia em vítimas de acidentes de trânsito, registrados no Instituto Médico Legal de Guarapuava–PR entre os anos de 2020 e 2021.

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal, delimitado ao Instituto Médico Legal (IML) da Polícia Científica da Unidade de Guarapuava-PR, com o propósito de analisar os óbitos por acidentes de trânsito submetidos à necropsia nos anos de 2020 e 2021, considerando a aprovação da pesquisa para início nesse período e por a pesquisa ser constituinte inicial do projeto: “As Causas Externas no Paraná: Estudo de Coorte Retrospectivo e Prospectivo”.

O IML consiste numa unidade administrativa, técnica e financeiramente autônoma, vinculada à Secretaria de Estado de Segurança Pública do Paraná (SESP/PR). A unidade do IML de Guarapuava tem a quarta maior demanda do Estado, atrás de Curitiba, Londrina e Ponta Grossa, atendendo 19 cidades, sendo: Boa Ventura de São Roque, Campina do Simão, Candói, Cantagalo, Foz do Jordão, Guarapuava, Goioxim, Inácio Martins, Laranjeiras do Sul, Marquinho, Nova Laranjeiras, Palmital, Pinhão, Porto Barreiro, Prudentópolis, Reserva do Iguaçu, Santa Maria do Oeste, Turvo e Virmond.

A escolha da região para o estudo considera questões geográficas, por ser entroncamento de rodovia estadual e federal que implica dinâmico trânsito de pessoas e transportes de cargas. Além disso, a cidade polo, por ser um município de médio porte, configura-se como importante centro para reprodução social e econômica e, com isso, apresenta problemas contemporâneos para esse tipo de cidade, como carência de planejamento urbano e consequente aumento de veículos e violência no trânsito.

Os dados foram obtidos por meio de registros referentes a informações administrativas, representados pelos seguintes documentos: laudos de necropsia, laudos de toxicologia e informações contidas na Declaração de Óbito (DO), arquivadas física e digitalmente no IML. Os documentos puderam traçar perfil ampliado das vítimas de acidentes de trânsito, por esclarecerem aspectos fisiológicos e toxicológicos, os quais fundamentaram a precisão da medicina forense, preenchidos e arquivados sob sigilo, exceto a DO, acessada neste caso, a via arquivada na instituição.

O laudo de necropsia permite a análise de fatos ocorridos durante o fato do óbito, armas utilizadas, causa da morte, informações pessoais da vítima, entre outros aspectos, e o exame toxicológico expõe a presença de substâncias químicas exógenas presentes na amostra de sangue analisada, e ambos ambasam os inquéritos policiais e processos judiciais. Já a DO é o documento base do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde (SIM/MS), e fornece dados dos óbitos referentes à identificação da vítima, local de ocorrência do óbito, causa do óbito, causas externas, dentre outros elementos.

Na coleta de dados, entre dezembro de 2021 e setembro de 2023, foram acessados 794 laudos, sendo que 50 foram excluídos, uma vez que se tratava de causa de morte por fatores naturais ou indeterminados, apresentavam documento com informações ausentes e laudos pertencentes a outras unidades do IML do Paraná. Na sequência, os dados foram organizados em planilha do software Microsoft Excel®, considerando o acesso inicial aos documentos digitalizados e, na sequência, dados de documentos físicos. A entrada das variáveis na planilha levou em consideração grupos de informações previamente definidos, após coleta-piloto, a fim de garantir melhor organização e unidirecionalidade da coleta pelos coletadores, sendo estes acadêmicos de enfermagem e medicina, que após capacitação foram divididos em duplas com garantia de refinamento das variáveis coletadas a fim de qualificar a planilha e ter uniformidade na coleta.

Para as variáveis de estudo, foram consideradas as características sociodemográficas (sexo; faixa etária; estado civil; raça/cor; escolaridade; número de filhos e ocupação); histórico do óbito (ano da ocorrência; trimestre do óbito; município de residência; município de ocorrência; local de ocorrência; tipo de ambiente e óbito fatal); necropsia (causa imediata da morte; tipo de trauma; tipo de energia empregada; tipo de lesão; número de lesões e agravante do óbito); toxicologia (álcool e cocaína); evento suicida e acidente de trabalho.

A variável dependente foi a alcoolemia, definida pela identificação da toxicologia para álcool, considerada aquela com detecção de álcool igual ou superior a 0,01 g de álcool por litro de sangue. Para a sequência da análise dos dados, foram construídas tabelas de frequência e proporção das variáveis categóricas por meio de frequência relativa (%) e absoluta (n), em que a comparação entre os grupos com a presença ou não de alcoolemia foi realizada pelo teste do Qui-Quadrado de Pearson ou exato de Fischer (para valores esperados menores que 5), em que o valor de p≤0,05 foi considerado significativo. Para a identificação da associação independentemente das demais variáveis, foi realizado análise múltipla por meio de modelos de regressão logística utilizando o modelo stepwise forward, que estimaram o Ods Ratio (OR) e respectivos intervalos de confiança (IC). Foram incluídas no modelo as variáveis com p<0,20 na análise bivariada e mantidas no modelo final as variáveis que permaneceram significativas (p<0,05) ou que ajustaram o modelo. A adequação dos modelos finais foi verificada a partir dos testes de deviance, Hosmer-Lemeshow, a colinearidade das variáveis foi testada com o fator de inflação da variância (VIF) e as análises estatísticas realizadas com o software Stata® versão 12.

Esta pesquisa respeitou o preconizado pela resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, obtendo aprovação da análise ética sob o parecer n.º 4.821.226/2021.

RESULTADOS

Os resultados apresentados revelam uma análise abrangente dos óbitos por causas externas registrados no Instituto Médico Legal (IML) de Guarapuava-PR, durante o período de 2020 a 2021. De um total de 744 casos, 444 (59,7%) foram excluídos por se tratar de causas externas não configuradas como acidente de trânsito. Do restante, 300 (40,3%) casos configuram-se como acidentes de trânsito, e destes, 106 (35,3%) casos não foram realizados exame para alcoolemia. Da população final (194), observaram-se 81 (41,7%) casos positivos de alcoolemia no sangue (Figura 1).

Figura 1. Delineamento da população estudada. Guarapuava (PR), Brasil, 2024.

Para as características sociodemográficas, identificaram-se associações bivariadas significativas entre as variáveis sexo (p=0,005), estado civil (p=0,008) e a ocupação (p<0,001) e a alcoolemia no sangue de vítimas de acidente de trânsito. As prevalências relevantes para a presença de álcool no sangue de indivíduos que foram a óbito pelo acidente de trânsito foram o sexo masculino (92,6%), faixa etária de 20 a 59 anos (87,7%), solteiro (72,8%), e as ocupações agricultor e pedreiro (19,8%) (Tabela 1).

Tabela 1. Características sociodemográficas de vítimas de acidentes de trânsito admitidas pelo IML de Guarapuava-PR, segundo alcoolemia. Guarapuava (PR), Brasil, 202-21. (N= 194).

 

 

Características

 

Total

 

Alcoolemia

 

 

P valor*

 

Não

 

Sim

 

N

%

 

n

%

 

n

%

 

Sexo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

0,005

    Feminino

32

16,5

 

26

23,0

 

6

7,4

 

 

    Masculino

162

83,5

 

87

77,0

 

75

92,6

 

 

Faixa etária

 

 

 

 

 

 

 

 

 

-

    0 a 19 anos

15

7,7

 

10

8,8

 

5

6,2

 

 

    20 a 59 anos

149

76,8

 

78

69,0

 

71

87,7

 

 

    60 anos e mais

28

14,4

 

23

20,4

 

5

6,2

 

 

    Não informado

2

1,0

 

2

1,8

 

0

0,0

 

 

Estado civil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

0,008

    Casado

54

27,8

 

41

36,3

 

13

16,0

 

 

    Solteiro

112

57,7

 

53

46,9

 

59

72,8

 

 

    Divorciado

8

4,1

 

6

5,3

 

2

2,5

 

 

    União Estável

5

2,6

 

4

3,5

 

1

1,2

 

 

    Viúvo

5

2,6

 

3

2,7

 

2

2,5

 

 

    Não informado

10

5,2

 

6

5,3

 

4

4,9

 

 

Cor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

-

    Parda

23

11,9

 

10

8,8

 

13

16,0

 

 

    Branca

164

84,5

 

99

87,6

 

65

80,2

 

 

    Preta

4

2,1

 

2

1,8

 

2

2,5

 

 

    Amarelo/Indígena

2

1,0

 

1

0,9

 

1

1,2

 

 

    Não informado

1

0,5

 

1

0,9

 

0

0,0

 

 

Escolaridade

 

 

 

 

 

 

 

 

 

0,132

    Analfabeto

10

5,2

 

5

4,4

 

5

6,2

 

 

    Ensino fundamental incompleto

55

28,4

 

30

26,5

 

25

30,9

 

 

    Ensino fundamental

56

28,9

 

27

23,9

 

29

35,8

 

 

    Ensino médio

53

27,3

 

38

33,6

 

15

18,5

 

 

    Ensino superior

11

5,7

 

6

5,3

 

5

6,2

 

 

    Não informado/Ignorado

9

4,6

 

7

6,2

 

2

2,5

 

 

Número de filhos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

0,238

    0

74

38,1

 

38

33,6

 

36

44,4

 

 

    1

52

26,8

 

29

25,7

 

23

28,4

 

 

    2 e mais

47

24,2

 

31

27,4

 

16

19,8

 

 

    Não informado

21

10,8

 

15

13,3

 

6

7,4

 

 

Ocupação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

<0,001

    Agricultor

31

16,0

 

15

13,3

 

16

19,8

 

 

    Motorista

20

10,3

 

17

15,0

 

3

3,7

 

 

    Pedreiro/auxiliar de pedreiro

21

10,8

 

5

4,4

 

16

19,8

 

 

    Estudante

14

7,2

 

11

9,7

 

3

3,7

 

 

    Auxiliar em serviços gerais    

20

10,3

 

9

8,0

 

11

13,6

 

 

    Outros

88

45,4

 

56

49,6

 

32

39,5

 

 

*Qui-Quadrado de Pearson ou exato de Fischer.

Valor de p não informado por conter células com valor zero.

Para as características do histórico do óbito, observou-se associação significativa apenas entre município de ocorrência (p=0023) e alcoolemia. Contudo, pode-se observar maior prevalência entre os óbitos de 2020 (54,3%), no quarto trimestre (32,1%), local de ocorrência se destacou a Rodovia (50,6 %), em ambientes considerados não rurais (50,6%) (Tabela 2).

Tabela 2. Características do histórico do óbito de vítimas de acidentes de trânsito admitidas pelo IML de Guarapuava-PR, segundo alcoolemia. Guarapuava (PR), Brasil, 2020-21. (N=194).

 

 

Características

 

Total

 

Alcoolemia

 

P Valor*

 

Não

 

Sim

N

%

 

n

%

 

n

%

Ano

 

 

 

 

 

 

 

 

0,207

    2020

95

49,0

 

51

45,1

 

44

54,3

 

    2021

99

51,0

 

62

54,9

 

37

45,7

 

Trimestre do óbito

 

 

 

 

 

 

 

 

0,266

    Primeiro trimestre

43

22,2

 

29

25,7

 

14

17,3

 

    Segundo trimestre

38

19,6

 

20

17,7

 

18

22,2

 

    Terceiro trimestre

45

23,2

 

22

19,5

 

23

28,4

 

    Quarto trimestre

68

35,1

 

42

37,2

 

26

32,1

 

Município de residência

 

 

 

 

 

 

 

 

0,847

    Guarapuava

49

25,3

 

27

23,9

 

22

27,2

 

    Outros

144

74,2

 

85

75,2

 

59

72,8

 

Município de ocorrência

 

 

 

 

 

 

 

 

0,023

    Guarapuava

67

34,5

 

46

40,7

 

21

25,9

 

    Laranjeiras do Sul

18

9,3

 

14

12,9

 

4

4,9

 

    Pinhão

16

8,2

 

4

3,5

 

9

11,5

 

    Pitanga

13

6,7

 

8

7,1

 

8

9,9

 

    Prudentópolis

13

6,7

 

5

7,1

 

8

9,9

 

    Outros

67

34,5

 

36

31,9

 

31

38,3

 

Local da ocorrência

 

 

 

 

 

 

 

 

-

    Via pública

95

49,0

 

64

56,6

 

31

38,3

 

    Rodovia

82

42,3

 

41

36,3

 

41

50,6

 

    Domicílio

2

1,0

 

1

0,9

 

1

1,2

 

    Trabalho

2

1,0

 

2

1,8

 

0

0,0

 

    Rio/lago/piscina

1

0,5

 

1

0,9

 

0

0,0

 

    Área rural

4

2,1

 

1

0,9

 

3

3,7

 

    Hospital/serviço de saúde

8

4,1

 

3

2,7

 

5

6,2

 

Tipologia de ambiente

 

 

 

 

 

 

 

 

0,186

    Não rural

110

56,7

 

69

61,1

 

41

50,6

 

    Rural

84

43,3

 

44

38,9

 

40

49,4

 

Óbito fatal/Imediato

 

 

 

 

 

 

 

 

0,339

    Sim

167

86,1

 

95

84,1

 

72

88,9

 

    Não

27

13,9

 

18

15,9

 

9

11,1

 

Categoria da Causa externa

 

 

 

 

 

 

 

 

-

    Não especificada

17

8,8

 

13

11,5

 

4

4,9

 

    Atropelamento

27

13,9

 

12

10,6

 

15

18,5

 

    Capotamento

23

11,9

 

10

8,8

 

13

16,0

 

    Colisões

121

62,4

 

76

67,3

 

45

55,5

 

    Queda de veículo

5

2,6

 

1

0,9

 

4

4,9

 

    Acidente máquina pesada

1

0,5

 

1

0,9

 

0

0,0

 

Categoria da Vítima

 

 

 

 

 

 

 

 

-

    Pedestre

27

13,9

 

12

10,6

 

15

18,5

 

    Ciclista

2

1,0

 

0

0,0

 

2

2,5

 

    Motociclista

29

14,9

 

16

14,2

 

13

16,0

 

    Ocupante de automóvel

130

67,0

 

79

69,9

 

51

63,0

 

    Ocupante de caminhão

5

2,6

 

5

4,4

 

0

0,0

 

    Ocupante de veículo pesado

1

0,5

 

1

0,9

 

0

0,0

 

*Qui-Quadrado de Pearson ou exato de Fischer.

Valor de p não informado por conter células com valor zero.

Para as características da necropsia e toxicologia, não foram observadas associações significativas entre as variáveis e a alcoolemia de vítimas de acidente de trânsito. Houve alta prevalência de óbitos devido a trauma cranioencefálico (36,8%), politrauma (94,7%), lesão contusa (96,1%) e testes toxicológicos negativos para cocaína (80,2%) (Tabela 3).

Tabela 3. Características da necropsia e toxicologia de vítimas de acidentes de trânsito admitidas pelo IML de Guarapuava-PR, segundo alcoolemia. Guarapuava (PR), Brasil, 2020-21. (N=194).

 

 

Características

 

Total

 

Alcoolemia

 

 

P valor*

 

Não

 

Sim

 

N

%

 

n

%

 

n

%

 

Causa imediata da morte

 

 

 

 

 

 

 

 

 

0,536

    Trauma cranioencefálico

60

30,9

 

29

25,7

 

31

38,3

 

 

    Choque hipovolêmico

43

22,2

 

27

23,9

 

16

19,8

 

 

    Politrauma

48

24,7

 

29

25,7

 

19

23,5

 

 

    Choque neurogênico

18

9,3

 

10

8,8

 

8

9,9

 

 

    TRM

8

4,1

 

6

5,3

 

2

2,5

 

 

    Trauma torácico

8

4,1

 

5

4,4

 

3

3,7

 

 

    Outros

9

4,6

 

7

6,2

 

2

2,5

 

 

Tipo de trauma

 

 

 

 

 

 

 

 

 

0,709

    Único

11

5,7

 

7

6,2

 

5

4,9

 

 

    Politrauma

183

94,3

 

106

93,8

 

77

95,1

 

 

Tipo de energia empregada

 

 

 

 

 

 

 

 

 

0,642

    Mecânica

189

97,4

 

109

96,5

 

80

98,8

 

 

    Outras

5

2,5

 

4

3,6

 

1

1,2

 

 

Tipo de lesão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

-

    Contusa

187

96,4

 

109

96,5

 

78

96,3

 

 

    Perfuro-contusa

2

1,0

 

2

1,8

 

0

0,0

 

 

    Corto-contusa

4

2,1

 

1

0,9

 

3

3,7

 

 

    Indeterminada

1

0,5

 

1

0,9

 

0

0,0

 

 

Número de lesões

 

 

 

 

 

 

 

 

 

-

    1

5

2,6

 

4

3,5

 

1

1,2

 

 

    2

4

2,1

 

2

1,8

 

2

2,5

 

 

    > 2

183

94,3

 

105

92,9

 

78

96,3

 

 

    Sem lesões

2

1,0

 

2

1,8

 

0

0,0

 

 

Agravante do óbito

 

 

 

 

 

 

 

 

 

-

    Não

183

94,3

 

106

93,8

 

72

94,3

 

 

    Sim

9

4,6

 

5

4,4

 

4

4,9

 

 

    Sem elementos

2

1,0

 

2

1,8

 

0

0,0

 

 

Toxicologia para cocaína

 

 

 

 

 

 

 

 

 

0,717

    Negativo

158

81,4

 

93

82,3

 

65

80,2

 

 

    Não realizada

36

18,6

 

20

17,7

 

16

19,8

 

 

Suicídio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

-

    Não

194

100,0

 

113

100,0

 

81

100,0

 

 

Acidente de trabalho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

0,642

    Não

190

97,9

 

110

97,3

 

80

98,8

 

 

    Sim

4

2,1

 

3

2,7

 

1

1,2

 

 

*Qui-Quadrado de Pearson ou exato de Fischer.

Valor de p não informado por conter células com valor zero.

A Tabela 4 apresenta o modelo bivariado das variáveis eleitas (p<0,020) em sua ordenação para o modelo múltiplo. As análises de regressão logística determinaram no modelo múltiplo a associação à alcoolemia independentemente das demais variáveis em vítimas de acidentes de trânsito submetidas à necropsia no IML de Guarapuava-PR, das seguintes variáveis: estado civil solteiro (p=0,016 e OR = 3,34); ocupação pedreiro (p=0,005 e OR = 6,00); ocupação agricultor (p=0,029 e OR = 3,11); sexo masculino (p=0,034 e OR = 3,18); e categoria da causa externa (CE) capotamento (p=0,020 e OR = 6,98) (Tabela 4).

Tabela 4. Análises bivariada e múltipla da associação de óbitos de vítimas por acidentes de trânsito e alcoolemia, em necropsias do IML de Guarapuava-PR, segundo alcoolemia, conforme ordenação de entrada no modelo múltiplo. Guarapuava (PR), Brasil, 2020-21. (N=194).

 

Modelo bivariado

 

Modelo Múltiplo

Características

OR

IC

P valor*

 

ORaj

IC

P valor

Estado civil - Solteiro

3,51

1,69; 7,25

0,001

 

3,34

1,25; 8,92

0,016

Ocupação - Pedreiro

5,60

1,87; 16,72

0,002

 

6,00

1,74; 20,71

0,005

Sexo - masculino

3,73

1,45; 9,56

0,006

 

3,18

1,09; 9,25

0,034

Local de ocorrência - Rodovia

2,06

1,12; 3,79

0,020

 

1,71

0,85; 3,45

0,131

Categoria da causa externa – Queda de veículo

13,00

1,10; 152,35

0,041

 

35,00

0,10; 34,98

0,982

Categoria da causa externa – Atropelamento

4,06

1,04; 15,72

0,042

 

4,31

0,89; 20,69

0,068

Categoria da causa externa – Capotamento

4,22

1,05; 16,98

0,042

 

6,89

1,35; 34,98

0,020

Município de ocorrência – Laranjeiras do Sul

0,33

0,09; 1,11

0,074

 

0,59

0,15; 2,37

0,465

Ocupação – motorista

0,30

0,08; 1,13

0,077

 

0,28

0,06; 1,24

0,094

Município de ocorrência - Guarapuava

0,53

0,26; 1,07

0,078

 

0,70

0,27; 1,79

0,460

Trimestre do óbito - Terceiro

2,16

0,91; 5,14

0,080

 

1,97

0,69; 5,57

0,201

Local de ocorrência – hospital

3,44

0,77;15,33

0,105

 

2,74

0,47; 15,94

0,260

Número de filhos - não informado

0,42

0,14, 1,20

0,108

 

0,52

0,15; 1,81

0,308

Número de filhos - 1 a 2 filhos

0,54

0,25; 1,16

0,115

 

0,45

0,15; 1,39

0,169

Causa imediata – outros

0,26

0,05; 1,39

0,117

 

0,32

0,04; 2,35

0,266

Categoria da vítima – ocupante de automóvel

0,51

0,22; 1,19

0,122

 

0,65

0,25; 1,71

0,393

Local de ocorrência – área rural

6,19

0,61; 61,98

0,121

 

2,88

0,25; 33,13

0,395

Ocupação – Auxiliar em serviços gerais

2,13

0,80; 5,71

0,129

 

1,85

0,58; 5,83

0,292

Cor - Branca

0,50

0,20; 1,21

0,129

 

0,44

0,14; 1,38

0,161

Ocupação – agricultor

1,86

0,81; 4,27

0,139

 

3,11

1,12; 8,60

0,029

Município de ocorrência – Pinhão

2,61

0,73; 9,32

0,139

 

2,39

0,56; 10,21

0,237

Ambiente do óbito - rural

1,52

0,85; 2,72

0,148

 

1,16

0,54; 2,52

0,691

Causa imediata – choque hipovolêmico

0,55

0,24; 1,23

0,148

 

0,80

0,29; 2,18

0,676

Causa imediata – trauma torácico

0,31

0,05; 1,67

0,174

 

0,50

0,07; 3,55

0,496

Trimestre do óbito - Segundo

1,81

0,75; 4,59

0,179

 

1,14

0,38; 3,42

0,806

Escolaridade - Ensino médio

0,39

0,09; 1,56

0,186

 

0,27

0,04; 1,74

0,170

*Regressão logística simples.

Regressão logística múltipla.

Modelo ajustado por número de filhos

DISCUSSÃO

O problema global de acidentes viários relacionados ao consumo de álcool tem implicações sérias, sendo uma das principais causas de ocorrências desse tipo em todo o mundo. A influência do álcool eleva significativamente a probabilidade de acidentes e afeta tanto motoristas quanto pedestres, e mesmo em quantidades moderadas, a substância compromete as habilidades visuais e motoras, além de prejudicar a capacidade de discernimento, essencial para a segurança no trânsito. Esse efeito é agravado pela associação do consumo de álcool a comportamentos de risco, como excesso de velocidade e negligência quanto ao uso do cinto de segurança.4

No contexto brasileiro, a situação das fatalidades em acidentes de trânsito apresenta uma realidade preocupante, em que o país se figura entre os líderes mundiais em taxas de mortalidade nesse cenário. A relação direta entre o consumo de bebidas alcoólicas e as mortes no trânsito torna esse aspecto uma questão de extrema relevância, especialmente ao considerar que é uma das principais causas de óbito, sobretudo entre os jovens, em que os acidentes de trânsito são considerados um dos principais agravos totalmente atribuíveis ao álcool.14 No presente estudo, os óbitos por acidentes de trânsito foram mais prevalentes entre as demais causas externas.

A presente pesquisa contribui para a compreensão da mortalidade em vítimas de acidentes de trânsito ao identificar fatores associados ao uso de álcool, acrescentando informações à literatura existente. No cenário em questão, para os anos de 2020 a 2021, 41,7% da população observada apresenta alcoolemia no sangue, em uma combinação de álcool e direção inquestionavelmente perigosa. Ainda, revelou-se a presença de significativas associações entre variáveis como estado civil, ocupação, sexo e categoria da causa externa e alcoolemia, sugerindo que tais fatores podem ter influência sobre as mortes em acidentes de trânsito. Observou-se, por exemplo, uma maior incidência de envolvimento em acidentes entre pessoas solteiras. Neste contexto, serão examinadas algumas possíveis causas desses agravos e serão sugeridas medidas para mitigá-las.

Em relação ao sexo, homens são mais propensos a dirigir sob a influência de álcool, o que aumenta significativamente o risco de acidentes fatais.15 Nesse estudo, identificou-se que o sexo masculino apresenta 3,18 mais chance de consumo de álcool em óbitos por acidentes de trânsito. Assim como nesse estudo, em Joinville-SC, identificou-se que os homens representaram 83,6% dos casos registrados entre os mortos, o que corrobora os resultados da atual pesquisa.16 O uso do álcool afeta o tempo de reação, a tomada de decisões e a coordenação motora, tornando a condução muito mais perigosa.5

Algumas explicações podem ser suficientes para explicar esse comportamento masculino no trânsito, como comportamentos de risco, como excesso de velocidade, direção agressiva e falta de uso de dispositivos de segurança. Assim como o consumo de álcool e drogas, também é mais comum entre os homens o uso de motocicletas, veículos menos seguros, e a agressividade e impulsividade, com possíveis diferenças fisiológicas em resposta ao estresse.15

Embora, à primeira vista, possa-se simplificar a afirmação de que os homens se envolvem mais em acidentes de trânsito por serem os principais condutores, é crucial considerar diversos fatores além da distribuição por sexo. O modo como os indivíduos conduzem veículos reflete não apenas sua identidade de gênero, mas também aspectos mais amplos de sua personalidade e comportamento social. Indivíduos exemplares no volante são caracterizados por um equilíbrio social notável, confiança, cautela e sobriedade. Em contrapartida, aqueles com comportamento marcadamente antissocial são mais propensos a se envolver em acidentes, muitas vezes devido ao seu desrespeito pelas regras e leis de trânsito.5

Nesse comparativo, as mulheres tendem a adotar uma abordagem mais cuidadosa na direção, independentemente do tipo de veículo. As mulheres se destacam como exemplos de comportamento seguro no trânsito, como indicado por dados governamentais em São Paulo, a maior capital do país. Nesse estado, apenas uma em cada cinco pessoas envolvidas em acidentes de trânsito é do sexo feminino, atribuindo-se esse índice a um comportamento mais cauteloso e à menor hostilidade nas estradas por parte das condutoras.6

Os indivíduos solteiros apresentam uma chance de 3,34 vezes maior de consumo de álcool em óbitos por acidentes de trânsito do que outras categorias do estado civil. Em estudo que avaliou a mortalidade no trânsito em Roraima, comparando dados do IML e do Sistema de Informações sobre Mortalidade, identificou, dentre outras características, que os solteiros representaram 66,7% dos óbitos investigados.17

A relação entre beber, dirigir e ser solteiro está muitas vezes associada a um estilo de vida social mais ativo. Pessoas solteiras tendem a ter um estilo de vida social mais energético, participando de eventos sociais e festas onde o consumo de bebidas é comum. Esse tipo de ambiente proporciona oportunidades para o consumo de álcool devido à natureza festiva e à pressão social para se integrar ao grupo. Em ambientes sociais, como festas e eventos, há frequentemente uma forte pressão dos pares para aceitar e consumir bebidas alcoólicas. A necessidade de se encaixar no grupo e a influência dos amigos podem levar uma pessoa a beber mais do que pretendia inicialmente, o que resulta em risco de tomar decisões imprudentes, como dirigir após beber.18

Comparados aos que estão em relacionamentos estáveis, os solteiros podem ter uma rede menos estruturada, o que significa que podem não ter figuras próximas para intervir ou oferecer alternativas seguras de transporte em eventos sociais onde o álcool é consumido. Além disso, a falta de responsabilidades familiares também pode influenciar seu comportamento em relação ao álcool e ao trânsito. Sem a obrigação de cuidar de uma família, os solteiros podem sentir-se menos inclinados a moderar seu consumo de álcool. Essa combinação de uma rede de apoio limitada e uma menor sensação de responsabilidade familiar pode aumentar a probabilidade de tomarem decisões irresponsáveis, como dirigir sob a influência do álcool.19

Apesar de não ser um fator relacionado à alcoolemia, é apontada na literatura a relação complexa com os mais jovens, e adicionada à sua falta de compromisso com a família e a sociedade pode influenciar a maior propensão para a experimentação com álcool.19 Nessa fase da vida, tais responsabilidades podem ser menores ou inexistentes, tornando-os mais inclinados a explorar o álcool sem considerar as possíveis consequências.18 Além disso, a disponibilidade de tempo livre pode desempenhar um papel significativo. Em que esse excesso de tempo livre pode levar os jovens a se envolverem em comportamentos de risco, incluindo o consumo de álcool, como uma forma de passar o tempo ou buscar sensações.20

Adicionalmente, a falta de uma estrutura social estável também pode contribuir para a experimentação com álcool. Indivíduos que enfrentam instabilidade social, como a falta de uma rede de apoio sólida, podem recorrer ao álcool como uma forma de lidar com o estresse, a solidão ou outros problemas emocionais. Isso pode ser especialmente relevante em grupos demográficos mais vulneráveis, como pessoas em situação de desemprego, em comunidades desfavorecidas ou em transição para a vida adulta.21

Outro fator associado à alcoolemia, independentemente das demais variáveis, foi a ocupação de pedreiro, com uma chance de 6 vezes mais consumo de álcool em óbitos por acidentes de trânsito do que as demais ocupações. Estudo que examinou a prevalência do consumo, uso e uso indevido de substâncias viciantes entre trabalhadores da construção no Marrocos destacou prevalência de 63% de consumo de álcool, o que pode aumentar o risco de acidentes de trânsito.22

Os acidentes de trânsito fatais associados à alcoolemia e à profissão de pedreiro estão conectados por uma variedade de fatores que abrangem desde as condições de trabalho até aspectos culturais e socioeconômicos. Primeiramente, destacam-se as exigentes condições laborais enfrentadas por muitos pedreiros, em que o setor da construção civil frequentemente implica em jornadas extensas, exposição a ambientes perigosos e demandas físicas intensas. Além disso, existem os fatores socioeconômicos que afetam tanto os pedreiros quanto a população em geral, como a instabilidade financeira, a escassez de oportunidades de emprego estáveis e as pressões do ambiente de trabalho, que podem levar muitos indivíduos a recorrerem ao álcool como um meio de enfrentar as dificuldades.

Tais condições podem resultar em fadiga e estresse, o que leva muitos trabalhadores a buscarem uma forma de escapismo ou relaxamento após o expediente. Infelizmente, o álcool frequentemente é utilizado como um mecanismo para lidar com essas pressões do trabalho.23 Além disso, a cultura da indústria da construção civil muitas vezes valoriza o convívio social e a socialização após o trabalho, muitas vezes em bares ou locais onde o consumo de álcool é comum. O hábito de ingerir bebida em estabelecimentos após o trabalho pode ser uma prática arraigada nesse meio, criando um ambiente propício ao consumo excessivo de álcool.24

Outro fator importante é o estilo de vida em turnos irregulares comuns na construção civil, em que pedreiros e outros trabalhadores dessa área muitas vezes enfrentam horários de trabalho imprevisíveis e irregulares, afetando seu padrão de sono, tempo de lazer e até mesmo a convivência familiar. Essa falta de rotina pode contribuir para hábitos pouco saudáveis, incluindo o consumo de álcool como uma forma de lidar com o estresse e a falta de estabilidade na vida cotidiana.25

Outro achado importante do presente estudo é a associação significativa entre o consumo de álcool e agricultores nos óbitos por acidentes de trânsito na população investigada. A especificidade desse resultado denota ampla frente para exploração em pesquisas futuras, mesmo já sendo observada relação, como em estudo no Vietnã que identifica a relação do uso do álcool e acidentes de trânsito, identifica em sua mostra que 55% das vítimas eram agricultores.26

Quando se trata de analisar os elementos associados aos acidentes fatais de trânsito envolvendo agricultores que consumiram álcool, é fundamental levar em conta uma variedade de considerações. O estilo de vida rural e tradicional pode desempenhar um papel significativo, pois em muitas comunidades rurais, o consumo de álcool é uma parte integrante da cultura local, que integrada a um quadro complexo de desigualdades e dificuldades de acesso a diversas políticas públicas para a população rural brasileira, como aponta estudo no nordeste do Brasil que identificou prevalência de abuso de álcool de 32% entre agricultores, e mesmo identificar a associação com acidentes de trânsito, indica a necessidade de apoio social por meio de políticas estatais para essa parcela populacional.27

As condições de trabalho desafiadoras enfrentadas pelos agricultores, como longas horas de trabalho, trabalho manual intenso e estresse relacionado às pressões sazonais, como a colheita, podem contribuir para o consumo de álcool como uma forma de lidar com o estresse e a fadiga.28 Esses fatores ambientais e sazonais, como a pressão para concluir o trabalho dentro de prazos apertados, também podem aumentar o risco de acidentes de trânsito. A agricultura moderna demanda deslocamentos frequentes e o uso de veículos, tornando a habilidade de dirigir fundamental. No entanto, o estresse e intensas jornadas de trabalho podem levar os agricultores a recorrerem ao álcool, comprometendo sua capacidade de conduzir com segurança. 

Considerando que muitos agricultores residem em áreas remotas, é possível que enfrentem isolamento social, o que, por sua vez, pode contribuir para problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade. O consumo de álcool pode ser utilizado como um mecanismo para lidar com esses sentimentos de solidão e isolamento. A falta de apoio social e recursos para enfrentar questões de saúde mental pode aumentar o risco de comportamentos de risco, incluindo o consumo de álcool associado à condução.29

O presente estudo também identificou uma relação direta da categoria da causa externa com a alcoolemia, em que indivíduos envolvidos em acidentes de trânsito do tipo capotamento apresentaram 6,89 mais chance em relação às demais categorias de apresentar álcool no sangue. Esta categoria da causa externa de acidente de trânsito pode estar relacionada às altas velocidades em curvas ou estradas em más condições, superfícies escorregadias ou frenagens abruptas, resultando na perda de controle do veículo e na sua rotação em torno de seu eixo longitudinal ou lateral, fazendo com que o veículo gire em torno de si mesmo.30

Diversos são os fatores estressores enfrentados diariamente pelos condutores em seu percurso habitual, rotina de trabalho e em viagens, tanto curtas quanto longas, e a combinação desses estresses com os desafios físicos e emocionais vivenciados pelo motorista durante a condução amplifica consideravelmente os riscos de acidentes de trânsito, independentemente da categoria ou tipo de acidente. Essa conclusão tem sido consistentemente abordada em pesquisas ao longo do tempo, sublinhando a importância e a atualidade do tema.31

Nesse ínterim, o capotamento é uma grave ocorrência no trânsito, frequentemente resultando em lesões graves e morte, e quando combinado com o consumo de álcool, o risco aumenta significativamente devido à redução da capacidade de reação do motorista. Para prevenir tais tragédias, é essencial evitar dirigir sob influência de álcool, respeitar limites de velocidade e manter a atenção na estrada, além de medidas de conscientização sobre os perigos do álcool ao volante e fiscalização eficaz, são medidas cruciais.32

Para alcançar essa prevenção, é imperativo a implementação de medidas que abordem tanto os usuários das vias quanto os veículos e equipamentos envolvidos. Isso inclui a realização de fiscalizações rigorosas, aplicação de punições adequadas e programas de educação voltados para os condutores.26

É evidente a necessidade de um esforço contínuo na prevenção de acidentes, bem como a revisão da legislação vigente para garantir sua eficácia. Isso implica uma presença mais ativa da polícia, com rondas frequentes pela cidade e o uso de bafômetros nas ruas, especialmente nos fins de semana e em áreas com grande concentração de bares e boates, onde o consumo de bebidas alcoólicas tende a aumentar em todas as faixas etárias.33 Nesse sentido, destaca-se a atuação do profissional enfermeiro, tanto na assistência imediata às vítimas quanto na promoção de políticas públicas e programas educativos voltados à conscientização sobre os riscos do álcool no trânsito, considerando o caráter multifacetado da profissão. Esses profissionais estão na linha de frente dos serviços de urgência e emergência, sua formação técnica e científica permite avaliar rapidamente o quadro clínico das vítimas e agir de maneira decisiva. Ademais, possui uma função estratégica na promoção de saúde e na educação da população em diversos ambientes, auxiliando na promoção da mudança de comportamentos e redução da incidência de acidentes relacionados ao álcool, reforçando a importância de uma abordagem interdisciplinar na redução de danos.

Estudo que buscou desenvolver um índice de priorização para aceleração do cumprimento das metas nacionais de saúde propostas pela Agenda 2030 identificou que dentre os cinco indicadores com pior desempenho nacional está a taxa de mortalidade por acidentes de trânsito.34 Assim, evidencia-se que o estudo da alcoolemia e mortalidade no trânsito é fundamental para compreensão do fenômeno e direcionamento de políticas públicas para atingir a meta do ODS 3 de redução em 50% das mortes e ferimentos por acidente de trânsito.

Considera-se limitação do estudo o período pequeno de abrangência da pesquisa e o número limitado de exames toxicológicos realizados pelo IML durante o período analisado, com falta de informações nos laudos de coleta ou informações discrepantes, como idade, cor, local de ocorrência e residência das vítimas. Entretanto, algumas dessas limitações foram minimizadas pela consulta direta na DO. Além disso, devido à natureza transversal desse estudo, deve-se considerar que a temporalidade e a causalidade podem ficar comprometidas.

CONCLUSÃO

O presente estudo identificou os fatores associados à alcoolemia em vítimas de acidentes de trânsito, registrados no IML de Guarapuava–PR entre os anos de 2020 e 2021. Verificou-se que o sexo masculino, estado civil solteiro, as ocupações de pedreiro e agricultor e a categoria da causa externa capotamento estiveram associados à alcoolemia em óbitos por acidente de trânsito.

Recomenda-se aprimoramento nas políticas públicas no que se refere às fiscalizações em relação ao consumo de álcool entre condutores, especialmente com foco em pessoas do sexo masculino, solteiras e que trabalham como pedreiros e agricultores. E ainda, que sejam intensificadas as ações educativas, com ênfase no público-alvo em questão, a fim de melhorar a conscientização e consequente educação no trânsito, impactando na redução de acidentes e mortes.

As ações propostas estão em conformidade com o proposto no ODS 3 – Saúde e bem-estar, que direcionam para a importância da prevenção do consumo nocivo do álcool, além de que ações educativas e fiscalizatórias no trânsito contribuem para atingir a meta de redução pela metade das mortes e dos ferimentos globais por acidentes em estradas.

Por fim, o estudo evidenciou dados pouco explorados em relação à ocupação e à categoria de causa externa de capotamento, o que aprimora o olhar para esse público na literatura, direcionando a necessidade de mais estudos para compreensão do fenômeno.

CONTRIBUIÇÕES

Maicon Henrique Lentsck: concepção, planejamento do estudo, análise e interpretação, redação e revisão crítica; Larissa Zakrzevski: concepção, planejamento do estudo, coleta, análise e interpretação e redação; Flavia Dvulathca: planejamento do estudo, coleta, análise e interpretação e redação; Bruno Bordin Pelazza: planejamento do estudo, redação e revisão crítica; Tatiane Baratieri: planejamento do estudo, análise e interpretação, redação e revisão crítica; Maria Regiane Trincaus: análise e interpretação de dados e e revisão crítica; Débora Regina de Oliveira Moura: revisão crítica; Érica de Brito Pitilin: revisão crítica.

CONFLITO DE INTERESSES

Nada a declarar

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à equipe do Instituto Médico Legal da Polícia Científica da Unidade de Guarapuava–PR.

REFERÊNCIAS

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  1. Leitão NCL, Bezerra ÍMP, Pimentel RMM, Pereira GAV, Monteiro A, Silva AP, et al. Fatores associados à incidência e mortalidade em acidentes de trânsito envolvendo motociclistas e pedestres: uma revisão sistemática rápida.J Hum Growth Dev [Internet]. 2022 [cited 2024 jun 19]; 32(1):72-82. DOI: http://dx.doi.org/10.36311/jhgd.v32.12614
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Correspondência

Maicon Henrique Lentsck

E-mail: mlentsck@unicentro.br

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