Idioma
Prática de aleitamento materno em uma unidade de alojamento conjunto: estudo transversal
Ivana Karolina Sousa Santos1,
Michelle de Santana Xavier Ramos2,
Deisy Vital de Melo3,
Lucas Amaral Martins4,
Camilla da Cruz Martins5
1,2,3,4Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Santo Antônio de Jesus (BA), Brasil.
5Universidade Estadual de Feira de Santana. Feira de Santana (BA), Brasil.
Introdução
A amamentação fornece leite materno (LM), um alimento essencial e completo, rico em substâncias e nutrientes necessários para o crescimento e desenvolvimento infantil. No Brasil, embora as taxas de aleitamento materno (AM) tenham aumentado devido a programas de saúde que promovem, protegem e apoiam essa prática, os índices de aleitamento materno exclusivo (AME) até os seis meses ainda estão abaixo das recomendações.¹
As recomendações mais recentes da OMS preconizam que as maternidades devem implementar políticas de amamentação e comunicá-las rotineiramente à equipe e aos pais. Além disso, os profissionais de saúde que prestam serviços de alimentação infantil, incluindo o apoio à amamentação, devem possuir conhecimento, competência e habilidades para auxiliar as mulheres nesse processo.²
O enfermeiro desempenha um papel fundamental no cuidado ao binômio mãe-recém-nascido durante a amamentação. Portanto, é essencial que esse profissional possua conhecimentos e condutas baseadas em evidências científicas para atender às necessidades dessa população.³ A escala LATCH é uma ferramenta útil para a avaliação do aleitamento materno, permitindo a identificação precoce de possíveis intercorrências no binômio mãe-filho.
Desenvolvida por enfermeiras estadunidenses, a escala LATCH foi criada para registrar a avaliação do aleitamento materno de forma sistematizada, auxiliando os profissionais de saúde na identificação de dificuldades e na implementação de intervenções para melhorar o atendimento ao binômio mãe-filho. Sua estrutura de pontuação é similar à escala de Apgar, o que facilita a documentação e a comunicação entre os profissionais.⁴
Escores elevados (>6) estão associados à exclusividade e duração do aleitamento materno. Escores baixos podem indicar a necessidade de intervenção imediata, apoio e acompanhamento pós-alta. Apesar de traduzida e validada para o português, essa ferramenta ainda é pouco utilizada na prática clínica brasileira.⁴
A validação da escala LATCH em português permite a avaliação qualitativa do AM e estimula a realização de estudos na área. Embora um estudo brasileiro tenha investigado os parâmetros da escala LATCH em uma população de alto nível socioeconômico, o que pode limitar a generalização dos resultados, seus achados científicos são relevantes.⁴
Este estudo tem como objetivo avaliar a prática do aleitamento materno em uma unidade de Alojamento Conjunto de uma maternidade pública no Recôncavo da Bahia, utilizando a escala LATCH. A pesquisa justifica-se pela necessidade de gerar evidências científicas sobre a aplicação desse instrumento em um contexto de assistência materno-infantil no Recôncavo Baiano, com o intuito de subsidiar intervenções para a promoção, proteção e apoio ao AM na região.
Método
Este estudo transversal, quantitativo e descritivo, foi realizado na unidade de alojamento conjunto de uma maternidade pública no Recôncavo da Bahia, no período de dezembro de 2023 a abril de 2024. A maternidade é um hospital geral que oferece serviços de baixa, média e alta complexidade, incluindo emergências, consultas ambulatoriais, apoio diagnóstico e assistência obstétrica e neonatal.
A amostra foi selecionada por conveniência, com base na disponibilidade e consentimento das puérperas. Foram incluídas no estudo puérperas de parto vaginal ou cesáreo e seus recém-nascidos, com até 72 horas de vida e idade gestacional superior a 37 semanas, internados na unidade de alojamento conjunto, clinicamente estáveis e sem contraindicação absoluta ou temporária para o aleitamento materno.
Não houve restrição de idade materna, permitindo a participação de adolescentes e a avaliação da assistência prestada a essa faixa etária em relação ao aleitamento materno.
A coleta de dados foi realizada por uma estudante de graduação em Enfermagem, após revisão bibliográfica sobre a escala LATCH e a técnica de amamentação, e treinamento ministrado por uma enfermeira obstetra com experiência em aconselhamento e manejo clínico da lactação. Utilizou-se um instrumento estruturado para a entrevista com as puérperas, abrangendo dados sociodemográficos, antecedentes familiares, patológicos e obstétricos, informações sobre o recém-nascido, orientações sobre amamentação e dificuldades encontradas.
As variáveis do estudo foram categorizadas em: epidemiológicas (idade, procedência, ocupação, escolaridade, cor/raça, estado civil), antecedentes obstétricos (número de gestações, partos gemelares, características do parto atual e anteriores, orientações sobre aleitamento materno no pré-natal, abortos, perfil do recém-nascido, patologias prévias e hereditárias, hábitos de vida), características da gestação (fertilização, acompanhamento pré-natal, risco gestacional, complicações), prematuridade e perfil de imunização materna, e escore da escala LATCH.
A técnica de amamentação foi avaliada pela escala LATCH (Figura 1), um acrônimo para as características observadas: pega (LATCH), deglutição audível (Audible swallowing), tipo de mamilo (Type of nipple), conforto (Comfort) e posicionamento (Hold).⁴
Foram calculados o índice de validade de conteúdo (IVC) na etapa do pré-teste e o coeficiente AC2 de Gwet na avaliação dos especialistas, ambos indicando excelente validade de conteúdo e concordância.⁵
A escala possui pontuação de zero a dez, semelhante à escala de Apgar, com escores elevados (>6) associados à maior duração e exclusividade do aleitamento materno, e escores baixos indicando a necessidade de intervenção, apoio e acompanhamento pós-alta.⁵
A coleta de dados ocorreu semanalmente, com a identificação de puérperas em amamentação na unidade de alojamento conjunto e o convite verbal para participação no estudo. Após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), a puérpera era entrevistada e a técnica de amamentação era observada, com aplicação da escala LATCH.

Figura 1 - Escore da escala LATCH.
Fonte: Griffin et al., 2022.
A escala LATCH classifica a amamentação em: boa e eficiente (7 a 10 pontos), moderada (4 a 6 pontos, com necessidade de ajustes) e ruim (0 a 3 pontos, com necessidade de correção e apoio).⁶
Os dados foram organizados em tabelas de frequência absoluta e percentual, e analisados descritivamente, com proporções, médias e desvios padrão. A tabulação e análise estatística foram realizadas nos programas Microsoft Excel 2013 e SPSS.
O estudo seguiu as Resoluções 466/2012, 510/2016 e 580/2018 do Conselho Nacional de Saúde, garantindo o sigilo, anonimato e privacidade das participantes. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (CAAE: 6.546.190).
Resultados
A totalidade das 51 puérperas participantes deste estudo residia em municípios do Recôncavo da Bahia, com uma idade média de 27,8 anos. No que concerne à ocupação, observou-se que 29,4% exerciam atividades em emprego formal, enquanto 25,4% declararam-se lavradoras ou agricultoras. Relativamente à raça/cor da pele, a distribuição foi a seguinte: 56,9% autodeclararam-se pardas, 33,3% pretas e 9,8% brancas. No tocante ao nível de escolaridade, a maioria, correspondendo a 51% da amostra, possuía ensino médio completo.
Quanto ao estado civil, 56,9% das puérperas declararam-se solteiras, e 21,6% casadas. A composição do núcleo familiar predominante, em 19,6% dos casos, era de quatro pessoas. A renda familiar de um salário-mínimo foi relatada por 33,3% das participantes. Notavelmente, um número considerável de puérperas, especificamente 10 das 51 (19,6%), informou não possuir renda familiar. As principais variáveis socioeconômicas e obstétricas das puérperas encontram-se sumarizadas na Tabela 1, a qual detalha a distribuição das características da amostra.
Tabela 1 - Características socioeconômicas e obstétricas das puérperas. Santo Antônio de Jesus (BA), Brasil, 2024.
|
Características maternas |
Frequência absoluta (n) |
Frequência relativa (%) |
|
Idade |
||
|
< 40 anos |
49 |
96,1% |
|
> 40 anos |
2 |
3,9% |
|
Raça/cor de pele |
|
|
|
Parda |
29 |
56,9% |
|
Preta |
17 |
33,3% |
|
Escolaridade |
|
|
|
Ensino Médio Completo |
26 |
51% |
|
Ensino Médio Incompleto |
9 |
17,6% |
|
Ensino Fundamental Completo |
5 |
9,8% |
|
Ensino Superior Completo |
5 |
9,8% |
|
Estado civil |
|
|
|
Solteira |
29 |
56,9% |
|
Casada |
11 |
21,6% |
|
União Estável |
11 |
21,6% |
|
Renda familiar |
|
|
|
1 salário mínimo |
17 |
33,3% |
|
< 1 salário mínimo |
12 |
23,5% |
|
> 1 salário mínimo |
10 |
19,6% |
|
Entre 3 e 5 salários mínimos |
1 |
2% |
|
Não possui renda |
10 |
19,6% |
|
Ocupação |
|
|
|
Emprego formal |
15 |
29,4% |
|
Lavoura/agricultura |
13 |
25,4% |
|
Trabalho doméstico |
10 |
19,6% |
|
Trabalho autônomo |
5 |
9,8% |
|
Não informado |
8 |
15,7% |
|
Gestações prévias |
|
|
|
Sim |
28 |
55% |
|
Não |
23 |
45% |
|
Abortos prévios |
|
|
|
Sim |
12 |
42,9% |
|
Não |
16 |
57,1% |
|
Partos prévios |
|
|
|
Cirúrgico |
16 |
59% |
|
Vaginal |
11 |
41% |
|
Complicações em gestações prévias |
|
|
|
Sim |
11 |
39,3% |
|
Não |
17 |
60,7% |
No que tange aos antecedentes patológicos das puérperas, 11,8% apresentavam comorbidades, sendo a hipertensão arterial sistêmica (HAS) a mais prevalente, diagnosticada em 66,7% dos casos, seguida pela Diabetes Mellitus (DM), diagnosticada em 16,7% dos casos. Durante as entrevistas, não foram relatados casos de tabagismo ou uso de drogas ilícitas, contudo, 23,5% das participantes informaram consumo de bebida alcoólica. A maioria das puérperas, correspondendo a 72,5% da amostra, declarou professar alguma religião, enquanto apenas 15,7% relataram a prática de exercícios físicos.
A realização de cirurgias prévias foi informada por 45,1% das participantes, sendo a cesariana a mais citada, representando 56,5% dos procedimentos. Aproximadamente 80,4% das puérperas relataram histórico de comorbidades familiares, com 78% desses casos ocorrendo em parentes de primeiro grau. As primigestas constituíram 45% da amostra. Dentre as puérperas com gestações prévias que culminaram em parto, 59% realizaram parto por via cirúrgica e 40,7% por via vaginal. Dessas últimas, 91% realizaram o parto em posição deitada na maca e 36,3% foram submetidas a episiotomia. Houve relatos de ao menos um aborto prévio em 42,8% das participantes, e 39,3% informaram complicações em gestações anteriores.
Quanto ao perfil dos recém-nascidos de gestações anteriores, observou-se que 15,5% foram prematuros, 11,1% nasceram pré-termo, 15% foram considerados pequenos para a idade gestacional (PIG) e 7,4% grandes para a idade gestacional (GIG).
No que diz respeito aos aspectos da gestação atual, todas foram descritas como resultado de fertilização espontânea, sendo 41,2% planejadas, 11,8% indesejadas, 64,7% estratificadas como de risco habitual, 2% de risco intermediário e 33,3% de alto risco. A atualização do cartão vacinal foi relatada por 84,3% das participantes, enquanto 15,7% informaram não tê-lo atualizado até a data do parto.
Complicações durante a gestação atual foram relatadas por 60,8% das puérperas, sendo a infecção do trato urinário a mais prevalente, presente em 35,5% dos casos. O tipo de parto predominante foi a cesariana, representando 86,3% dos partos, com apenas 13,7% de partos vaginais. Complicações durante o parto foram relatadas por 5,9% das puérperas, distribuídas entre sofrimento fetal (33,3%), hemorragia (33,3%) e eclâmpsia (33,3%).
Não foram observados partos pré-termo na amostra. Entre os neonatos, 5,8% nasceram pequenos para a idade gestacional e 13,7% grandes para a idade gestacional. Aproximadamente 11,8% não choraram ao nascer, e 17,6% não saíram da sala de parto acompanhados de suas mães, sendo que, destes, 88,9% permaneceram distantes por menos de uma hora.
A maioria das puérperas, representando 80,4% da amostra, informou ter recebido orientações sobre aleitamento materno (Tabela 2). Essas orientações foram realizadas durante o pré-natal em 60,8% dos casos e na maternidade em 58,9% dos casos. As orientações sobre aleitamento materno foram ministradas por profissionais de saúde em 78,4% dos casos. O estímulo ao contato pele a pele foi realizado em 86,3% dos casos, e 88,2% das puérperas iniciaram a amamentação na primeira hora após o parto.
Tabela 2 - Características relacionadas ao aleitamento materno para as puérperas. Santo Antônio de Jesus (BA), Brasil, 2024.
|
Aleitamento Materno |
Frequência absoluta (n) |
Frequência relativa (%) |
|
Aspectos gerais |
||
|
Orientações prévias |
||
|
Sim |
41 |
80,4% |
|
Não |
10 |
19,6% |
|
Interesse em manter AME até 6º mês |
|
|
|
Sim |
46 |
56,9% |
|
Não |
7 |
33,3% |
|
Amamentou na 1ª hora |
|
|
|
Sim |
45 |
88,2% |
|
Não |
6 |
11,8% |
Das puérperas, 90,2% demonstraram interesse em realizar a manutenção da amamentação exclusiva até o sexto mês; no entanto, das que possuíam licença-maternidade, apenas 14,3% teriam duração de 180 dias, o equivalente a seis meses.
Quanto à utilização da escala LATCH, a pontuação no escore geral foi de 7, com mínimo de 5 e máximo de 9. A distribuição das frequências absolutas e relativas referentes à pontuação das puérperas em cada componente-chave encontra-se na Tabela 3.
Tabela 3 - Características de aleitamento materno das puérperas com base na Escala LATCH. Santo Antônio de Jesus/BA, 2024.
|
Avaliação da qualidade do AM |
Frequência absoluta (n) |
Frequência relativa (%) |
|
Escala/ Escore LATCH |
||
|
L - Pega |
||
|
0 |
5 |
9,8% |
|
1 |
38 |
74,5% |
|
2 |
8 |
15,7% |
|
A - Deglutição audível |
|
|
|
0 |
18 |
35,3% |
|
1 |
28 |
55% |
|
2 |
5 |
9,8% |
|
T - Tipo de mamilo |
|
|
|
0 |
0 |
- |
|
1 |
3 |
5,9% |
|
2 |
48 |
94,1% |
|
C - Conforto (mama/mamilo) |
|
|
|
0 |
3 |
5,9% |
|
1 |
18 |
35,3% |
|
2 |
3 |
58,8% |
|
H - Colo (posicionamento) |
|
|
|
0 |
0 |
- |
|
1 |
15 |
29,4% |
|
2 |
36 |
70,6% |
Os componentes pega, deglutição e conforto foram os que mais demandaram intervenções, justificando os escores finais da escala LATCH obtidos pelas puérperas avaliadas. Os melhores resultados da avaliação foram observados no posicionamento do recém-nascido e da puérpera durante a amamentação, e no tipo de mamilo.
Discussão
A maioria das puérperas participantes do estudo autodeclarou-se parda e preta, possuía ensino médio completo e renda familiar de um salário-mínimo. Contudo, percentuais relevantes referiram ensino médio incompleto ou apenas nível fundamental e ausência de renda familiar. A renda familiar tem se mostrado um determinante que pode dificultar o AME. No Brasil, identificou-se que a baixa renda familiar elevou em 1,22 a chance de cessação do AME.¹
Destaca-se que, para alguns estudiosos, a amamentação é considerada um dos poucos comportamentos positivos de saúde que ocorre com maior frequência em pessoas de menor renda, principalmente no que se refere ao benefício relacionado à redução de gastos. Observa-se, também, que a educação é um determinante importante, pois, em países de alta e média renda, pessoas com melhor nível educacional tendem a amamentar por mais tempo.⁷
A prática da amamentação é relevante para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), lançados pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015, como 17 metas a serem alcançadas até 2030.⁸ De formas direta e indireta, o aleitamento materno associa-se a todos os ODS, sendo indispensável para o alcance dos objetivos que incluem a erradicação da pobreza, a nutrição e fome zero, e a saúde e o bem-estar materno e infantil.⁷
No contexto brasileiro, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC), especificamente no eixo II, que trata do aleitamento materno e alimentação complementar saudável, ancora-se na promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno, considerando as vantagens da amamentação para a criança, mãe e sociedade, bem como a importância de se estabelecer hábitos alimentares saudáveis.⁹
Estudo de revisão bibliográfica evidenciou que as mudanças nas práticas hospitalares, de acordo com os 10 Passos da IHAC, aumentaram a prevalência do aleitamento materno.¹⁰ Estudo conduzido no Sudoeste da Bahia obteve uma média de idade de 27,7 anos (desvio padrão [DP] = 6,5) entre as puérperas estudadas, valor próximo ao observado no presente estudo.¹¹ A idade materna é um fator a ser considerado na adesão e duração do AM, pois alguns autores observam que, com o aumento da idade, há mais chances de ocorrência de alta autoeficácia em amamentar.¹²
Outro estudo demonstrou que a sucção no seio materno até a primeira hora de vida após o parto ocorreu em 63% dos binômios avaliados,¹³ enquanto um percentual maior, 88,2%, das puérperas que integraram a amostra do presente estudo amamentaram até a primeira hora, o que pode ser justificado pela Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC), conferida pelo Ministério da Saúde, adotada pela maternidade onde as mesmas se encontravam.
Alguns dos objetivos do HAC são: diminuir a morbimortalidade infantil por meio do estímulo à prática da amamentação; mobilizar e capacitar profissionais de saúde para mudarem rotinas e condutas inadequadas que possam prejudicar a amamentação e determinar desmame precoce; e implementar os dez passos para o sucesso do aleitamento materno, estabelecidos pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).¹⁴
Os resultados acerca da amamentação na primeira hora de vida estão acima do observado no Brasil em 2020, quando houve ascensão da prevalência do AM continuado na primeira hora de vida (53,1%). Além disso, o percentual observado entre os binômios estudados já atinge a meta global para 2030, que é de cerca de 70%.¹⁵
Observou-se a prevalência de menores pontuações nos componentes-chave da escala LATCH referentes à pega inadequada (9,8%) e deglutição inaudível (35,3%), o que orientou a conduta escolhida para esses binômios, voltada para a correção da técnica e orientações acerca dos sinais de pega incorreta e sucção inadequada. O resultado se aproxima do observado em outra pesquisa, onde 36,9% (60/162) dos recém-nascidos tiveram escores menores em relação à qualidade da pega e 49,4% (80/162) apresentaram deglutição inaudível quando avaliados.¹³
Para uma boa avaliação da amamentação, o uso de instrumentos validados é imprescindível, e a escala LATCH é a mais utilizada na prática clínica, pois identifica aspectos que interferem na técnica de amamentação, orientando o tipo de intervenção necessária para melhorar a experiência do binômio.¹
O uso da escala LATCH pela profissional de enfermagem reitera a importância de se considerarem diferentes aspectos no processo da amamentação, como a qualidade da pega do neonato, a deglutição durante a mamada, o tipo de mamilo, o conforto da mãe e a necessidade de ajuda para o posicionamento do lactente. Alterações nesses componentes-chave podem ocasionar complicações posteriores, que geram dificuldades no processo de aleitamento materno.¹
O suporte contínuo às mães, a educação durante o pré-natal e a conscientização sobre a importância da manutenção do aleitamento materno foram percebidos como elementos fundamentais para promover uma amamentação bem-sucedida e contribuir para o bem-estar da mãe e do recém-nascido. Desse modo, nota-se a relevância da assistência prestada pela enfermagem ao longo de toda a gestação, parto e pós-parto.
A experiência obtida pela pesquisadora envolvida no estudo foi crucial para o desenvolvimento de um raciocínio clínico direcionado e voltado para as necessidades imediatas dos binômios. Aplicar a escala LATCH à beira do leito e fazer uso da "tecnologia leve" que é a orientação individual, capaz de reduzir a ansiedade e trabalhar as dúvidas e dificuldades das puérperas acerca do processo de amamentação, é um cuidado de enfermagem capaz de mitigar internações prolongadas.¹⁶
Algumas limitações foram observadas no presente estudo e precisam ser consideradas. A pesquisa foi conduzida em uma única maternidade pública por um período curto, o que pode restringir a generalização dos resultados para outras regiões ou contextos de atendimento em unidades de alojamento conjunto na Bahia. Tal fato pode ser superado com mais produções científicas resultantes de estudos multicêntricos. Além disso, a pesquisa se concentrou em avaliações quantitativas, abrindo espaço para futuras investigações qualitativas que explorem as experiências subjetivas das mães durante a amamentação.
Quanto às contribuições da pesquisa para a equipe de enfermagem no campo da saúde materno-infantil, a aplicação da escala LATCH, criada por enfermeiras estadunidenses e validada para a língua portuguesa, permite uma avaliação precisa e antecipada, identificando as principais dificuldades na amamentação e promovendo intervenções imediatas e eficazes. Desse modo, a execução de estudos de cunho qualitativo pode contribuir para a percepção de aspectos particulares do processo de amamentação.
Conclusão
Na realidade investigada, a prática do aleitamento materno foi avaliada pela escala LATCH como eficiente, contudo, pode haver necessidade de ajustes em alguns itens identificados. Embora a ferramenta LATCH classifique a amamentação de forma geral, destaca-se a importância de um olhar individualizado para cada item avaliado, pois se faz necessário ajuste e apoio para um direcionamento adequado da assistência, evitando problemas que comprometem a qualidade da prática da amamentação.
A assistência prestada pela pesquisadora no alojamento conjunto, com a utilização da escala LATCH, demonstrou ser de grande contribuição para a tomada de decisão durante a prática clínica. O estudo reafirma a importância fundamental do papel da enfermagem na promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno, evidenciando como a utilização de ferramentas sistemáticas pode melhorar significativamente a qualidade do cuidado oferecido às puérperas e seus recém-nascidos.
Contribuições dos autores
Concepção do estudo: Ivana Karolina Sousa Santos e Michelle de Santana Xavier Ramos. Coleta de dados: Ivana Karolina Sousa Santos. Análise e interpretação dos dados: Ivana Karolina Sousa Santos e Michelle de Santana Xavier Ramos. Redação do manuscrito: Ivana Karolina Sousa Santos e Michelle de Santana Xavier Ramos. Revisão crítica do manuscrito: Deisy Vital de Melo, Lucas Amaral Martins, Camilla da Cruz Martins. Aprovação da versão final do texto: Michelle de Santana Xavier Ramos e Camilla da Cruz Martins.
Conflito de interesse
Os autores declararam que não há conflito de interesse.
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- Merhy EE. Saúde: a cartografia do trabalho vivo. 2. ed. São Paulo: Hucitec , 2005. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-311X2008000800023
Correspondência:
Ivana Karolina Souza Santos
E-mail: ivanakarolinaenfa@gmail.com
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