Idioma
Validação de matriz de competências do enfermeiro para atuar sobre desigualdades sociais
Kênia Lara da Silva1,
Elen Cristina Gandra2,
Rafaela Siqueira Costa Schreck3,
Bruna Dias França4,
João André Tavares Álvares da Silva5
1,2,3,4,5Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte (MG), Brasil.
Introdução
As desigualdades sociais representam um desafio para a garantia da justiça social e da equidade em saúde. Em especial, a complexidade que marca o contexto atual, com novas demandas e necessidade, exige análises sobre as manifestações das desigualdades como condição para o acesso a direitos básicos.
Nesse cenário, a atuação dos profissionais de saúde, com destaque especial para a enfermagem, que representa a maior força de trabalho nos sistemas de saúde, é fundamental para o enfrentamento das desigualdades sociais. Essas desigualdades são reconhecidas como variações tanto materiais quanto existenciais entre pessoas e grupos populacionais.¹ Sem uma mudança fundamental das práticas sociais, essas desigualdades continuarão a persistir e a influenciar diretamente no setor saúde. Neste sentido, é necessário implementar estratégias para reduzi-las.²
A crise ocasionada pela pandemia da doença pelo coronavírus 2019 (Covid-19) contribuiu para o aumento das desigualdades, uma vez que provocou uma mudança drástica no contexto socioeconômico do Brasil ao longo de 2020.3 A crise econômica e o desemprego tiveram efeito imediato no aumento dos índices de pobreza. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção de pessoas em situação de extrema pobreza alcançou 9%, evidenciando a ampliação das desigualdades no país.4
A redução das desigualdades é um tema de interesse global e compõe um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas. Nesse cenário, a busca por alternativas inovadoras, criativas e efetivas na redução das desigualdades torna-se um desafio urgente para a sociedade.5
A enfermagem tem um papel essencial no enfrentamento das desigualdades, a partir de ações voltadas para educação, assistência, administração, pesquisa e participação política nos serviços nos quais estão inseridos.6 Desse modo, destaca-se a importância do desenvolvimento de competências que permitam esse profissional atuar nas condições que geram desigualdades. Entende-se que o cuidado com a saúde dos indivíduos vulnerabilizados exige dos profissionais uma prática transformadora. Nesse sentido, a formação crítica e reflexiva é uma estratégia revolucionária e necessária para o enfrentamento das desigualdades sociais.7
A formação profissional consiste em um campo específico, que contribui para o desenvolvimento do indivíduo, partindo dos conhecimentos adquiridos e de experiências vividas.8 Ademais, pode ser considerada uma estratégia de mudança que contribui para que o profissional mobilize de forma sinérgica os recursos de seu acervo pessoal para a ação.9 Nesse sentido, compreende-se como competência a capacidade de intervenção eficaz nos diferentes âmbitos da vida que requerem de maneira inter-relacionada e simultânea, componentes atitudinais, procedimentais e conceituais.10
Apesar da relevância temática, observa-se uma lacuna quanto à sistematização de competências específicas para o enfrentamento das desigualdades sociais na formação do enfermeiro, haja vista que elas vêm sendo desenvolvidas nos cursos de graduação em enfermagem no Brasil sem uma especificidade para o agir profissional do enfermeiro.11 Desse modo, desenvolver um conjunto ou matriz de competências que oriente a atuação no enfrentamento das desigualdades sociais é uma demanda no campo da educação em enfermagem.
Esse aspecto torna-se ainda mais relevante ao considerar que, mais de 60% dos enfermeiros atuam no Sistema Único de Saúde (SUS),12 no qual persistem limitações de acesso aos serviços de saúde devido a disparidades quanto à infraestrutura, aos recursos humanos, ao acesso a medicamentos e à oferta e cobertura dos programas de saúde.13 Assim, além de investimentos no SUS e outras políticas públicas, estratégias e ações são essenciais para reduzir as desigualdades e promover cuidados à saúde.14
Assim, justifica-se a realização deste estudo, diante da necessidade de desenvolver uma matriz de competências para atuar sobre as desigualdades sociais que oriente a formação do enfermeiro, com o desenvolvimento de competências para o enfrentamento das desigualdades sociais. Ressalta-se a responsabilidade dos profissionais da enfermagem como agentes estratégicos para a transformação das condições de desigualdade, uma vez que possuem nos princípios norteadores da profissão a promoção da equidade em saúde e da justiça social.15 Ademais, o enfrentamento das desigualdades sociais pelos enfermeiros se dá de maneira transversal, abrangendo a prática assistencial, o ensino, a gestão e a pesquisa, por meio de ações que ampliem o acesso aos serviços, fortalecem as políticas públicas e contribuem para formação crítica, reflexiva e comprometida com a justiça social.11 O objetivo do estudo foi construir e validar a matriz de competências para atuar sobre as desigualdades sociais na formação do enfermeiro.
Método
Estudo metodológico de abordagem quantitativa, fundamentado no referencial metodológico da psicometria de Pasquali,16 para construção e validação de conteúdo de uma matriz de competências.
Para validação dessa matriz utilizamos procedimentos teóricos, empíricos e analíticos.17-18 A construção e validação de conteúdo da matriz de competências ocorreram entre junho de 2021 a março de 2022, por meio das etapas teóricas: estrutura conceitual, definição dos objetivos e público-alvo, construção dos itens da matriz, seleção e organização dos itens da matriz; empíricas: estruturação do instrumento de validação, técnica Delphi, aplicação, validação do conteúdo; e analíticas: processos de análise empírica dos itens e validação final do instrumento.16-17
Na etapa teórica, demonstraram-se os resultados provenientes da revisão de literatura, a fim de observar as evidências científicas para identificar os conteúdos e conceitos referentes às competências para atuar sobre as desigualdades sociais. A fase inicial de construção da matriz foi realizada, tendo como referência o arcabouço teórico e o conceito de competência delineado por Zabala e Arnau.10 Em seguida, procedeu-se à realização de uma revisão de escopo, na qual foi possível sintetizar as evidências científicas das competências requeridas ao enfermeiro para atuar sobre as desigualdades sociais. Assim, definiu-se o aspecto constitutivo para estruturação da matriz e o público-alvo de aplicação, que são enfermeiros e estudantes de enfermagem. Reconhecendo que a redução das desigualdades é um tema de interesse global, e a busca de soluções nessa direção exige um conjunto apropriado de competências dos profissionais de saúde, entre eles os de enfermagem.
Na etapa empírica, realizou-se a validação de conteúdo por especialistas. Nessa etapa, aplicou-se a técnica Delphi, adotando as fases: elaboração do questionário Delphi; seleção de juízes a partir dos seus conhecimentos; formação do consenso por meio de rodadas de respostas.
O questionário Delphi foi aplicado on-line, por meio da Plataforma SurveyMonkey, e foi composto de quatro seções: (1) apresentação do questionário, com informações do participante e orientações; (2) Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE); (3) dados sociodemográficos; (4) matriz de competências para atuar sobre as desigualdades sociais com os critérios para avaliação dos juízes. Os dados coletados pela Plataforma SurveyMonkey foram exportados e analisados no Microsoft Excel.
De acordo com Pasquali,16 a matriz de competências foi avaliada pelos critérios de clareza, simplicidade, pertinência e precisão. Os critérios foram apresentados em uma escala tipo Likert, com pontuação variando de um a quatro. Se um especialista atribuísse uma pontuação de um ou dois, era solicitada uma justificativa para a resposta. Dessa forma, o questionário foi estruturado para que cada participante pudesse opinar sobre cada uma das competências e também sugerir novas competências com base em sua experiência.
Para identificação dos juízes, foram realizadas consultas em 25 de outubro de 2021, no campo “busca por assunto” da Plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), usando os descritores “desigualdades sociais, competências, ensino, enfermagem”. Foram selecionados, por julgamento, os especialistas que atenderam aos seguintes critérios de inclusão e pontuação: ser graduado em enfermagem (requisito básico); possuir titulação de Doutor (dois pontos); ter tese ou dissertação sobre competências e desigualdades; orientar trabalhos de graduação e pós-graduação (dois pontos); participar de grupos de pesquisa com publicação na temática de competência que envolvesse as desigualdades sociais nos últimos cinco anos (dois pontos); atuar na docência da formação da graduação e pós-graduação de enfermagem (dois pontos); desenvolver ações de extensão com a temática de desigualdade (dois pontos). Foram incluídos juízes que atingiram uma pontuação mínima de três pontos.
Como resultado da busca, foram identificados 305 currículos potenciais para compor a amostra dos juízes especialistas. Foram excluídos 281 especialistas, por não atingirem os critérios apontados, e 19 especialistas que não responderam ao convite de participação do estudo. A amostra final foi composta de cinco juízes especialistas.
O número reduzido de profissionais que atenderam aos critérios de seleção evidencia a escassez de especialistas com atuação específica na temática das desigualdades sociais. Adicionalmente, a baixa taxa de resposta ao contato inicial e as desistências são comumente observadas ao longo desse processo.18
A amostra final de juízes, composta por cinco especialistas (n=5), está em consonância com a literatura, a qual não estabelece um consenso quanto ao número ideal de juízes a serem incluídos nesse tipo de estudo. Um estudo de revisão que analisou publicações de pesquisas que utilizaram esse método apontou que o número de especialistas pode variar conforme os objetivos do estudo, a complexidade do instrumento avaliado e a disponibilidade de profissionais qualificados, sendo identificado o uso de amostras que vão de três até a faixa de dois a três dígitos.18 Contudo, reconhece-se, que esse número pode representar uma limitação do estudo, especialmente no que se refere à diversidade de perspectivas, sendo considerado um aspecto de atenção para pesquisas futuras.
Definida a lista de identificação e seleção de juízes, iniciou-se o processo de validação de conteúdo. Foi enviado aos juízes um e-mail convite com a apresentação da pesquisa e de seus objetivos, com uma cópia da proposta da matriz das competências a serem validadas e um link com o questionário Delphi. Após o consentimento dos participantes de forma on-line, seguiu-se com o estudo, atendendo aos procedimentos em pesquisas em ambiente virtual.
O número de rodadas estimadas para a aplicação da técnica Delphi são três. O objetivo dessas rodadas é encontrar o entendimento sobre a visão dos pontos de vista dos especialistas acerca dos resultados pretendidos.18 Durante as rodadas, a matriz de competência foi submetida à apreciação dos especialistas que emitiram suas opiniões quanto ao acordo ou desacordo com os itens avaliados.
Ainda durante as rodadas, foram exploradas as respostas divergentes entre os participantes e as razões para essas diferenças. A cada rodada, os resultados foram analisados por meio do Índice de Validade de Conteúdo (IVC), e foi avaliada a necessidade de incorporação de novas questões, para, então, serem submetidos a uma nova apreciação dos juízes. Foi adotado o IVC > 0,80.19-20 Para o cálculo do índice, foi considerada a soma de concordância dos itens avaliados como três ou quatro pelos especialistas dividido pelo número total de respostas (IVC = número de respostas três ou quatro/número total de respostas). Neste estudo, foram necessárias duas rodadas, considerando os critérios metodológicos descritos. Na primeira rodada, contamos com a participação de cinco especialistas respondentes. Na segunda rodada, obtivemos o retorno de apenas quatro especialistas.
Após coletar as respostas do questionário, realizamos análises e interpretações das respostas abertas. Essa análise foi conduzida em ambas as rodadas, com o objetivo de abordar todas as considerações dos juízes.
A partir desses resultados, os autores propuseram a versão final da Matriz de Competências para Atuar sobre as Desigualdades.
A pesquisa seguiu as considerações das Resoluções 466/2012 e 510/2016, com aprovação por Comitê de Ética e Pesquisa Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) nº 44851015.4.0000.5149. Os participantes foram codificados para garantir sigilo e anonimato.
Resultados
Do processo de validação, participaram cinco especialistas na primeira rodada, sendo três do sexo feminino. Quanto à qualificação profissional, todos eram graduados em enfermagem, com titulação de Doutor, sendo três doutores em Enfermagem, um doutor em Educação e um doutor em Psicologia. Ressalta-se que três especialistas eram docentes de universidades públicas e dois de universidades privadas do Brasil, e todos possuíam produção científica na temática de interesse do estudo.
Na segunda rodada de validação, contamos com a participação de quatro dos cinco especialistas, sendo dois do sexo feminino. Destes, três tinham titulação de doutor em Enfermagem e um de doutor em Psicologia. A perda de um dos especialistas se deu devido à não devolução da avaliação da matriz dentro do prazo preestabelecido.
A matriz de competências
Na fase de construção dos elementos e itens presentes na matriz, delimitaram-se quatro domínios de competências, em níveis crescentes de complexidade (identificação, análise, atuação e transformação), com 15 competências gerais e suas ações ou competências específicas. O modelo está estruturado apresentando cada domínio com sua definição e, na sequência, as competências gerais e suas ações. As ações, também denominadas de competências específicas, representaram a dimensão mais objetiva, de onde podiam ser extraídos os índices de sucesso para a avaliação do alcance da competência. Esquematicamente, estruturou-se uma matriz contendo quatro domínios e as 15 competências definidas.
O primeiro domínio de competência da matriz foi a identificação, que implicou na capacidade de reconhecer e compreender as desigualdades sociais, identificando situações, fatos, contextos ou condições que geraram ou expressaram as desigualdades. Nesse domínio, estavam definidas três competências e suas respectivas ações e esperava-se que o estudante fosse capaz de reconhecer, discriminar e compreender as desigualdades sociais.
O segundo domínio foi a análise e exprimiu a capacidade de examinar, investigar, mensurar ou refletir, de forma crítica, sobre situações, fatos, contextos ou condições de desigualdades vivenciadas por um indivíduo, grupo ou população, sendo capaz de debater e problematizar suas circunstâncias, causas e elementos determinantes. Neste domínio, estavam definidas três competências e esperava-se que o estudante fosse preparado para examinar, refletir e problematizar as desigualdades sociais.
O terceiro domínio foi a atuação e contemplou cinco competências. Esperava-se que o estudante fosse preparado para informar a capacidade de ação, de forma emancipatória, diante de situações, fatos, contextos ou condições de desigualdades vivenciadas por indivíduos, grupos ou populações. Presumiram-se liderança, engajamento e tomada de decisão na construção de ações, estratégias e políticas para o enfrentamento das desigualdades.
O quarto e último domínio foi a transformação social, estando definidas quatro competências. Esperava-se que o estudante fosse preparado para transformar situações, fatos, contextos ou condições de desigualdades, ao inovar processos, negociar conflitos, ressignificar ações, impactando modos de vida de indivíduos, grupos e populações. Implicou em formular julgamentos comprometendo-se com uma resposta, mobilizando valores, enfrentando dilemas e decidindo pelo que se julgasse melhor. Incluiu ações e estratégias de mudança social.
Validade de conteúdo da matriz de competências
Após o consenso com especialistas, permaneceram os quatro domínios, no entanto houve adaptação para as competências (Quadro 1).
Quadro 1 - Itens modificados para a segunda rodada, conforme sugestão dos especialistas para a Matriz de Competências para Atuar sobre as Desigualdades Sociais. Belo Horizonte (MG), Brasil, 2022.
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Antes |
Depois |
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Domínio 1: Identificação |
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D1C1. Reconhecer as desigualdades sociais - Perceber situações de desigualdades e injustiças envolvendo diferentes grupos sociais - Identificar as iniquidades relativas à diversidade étnica e cultural - Constatar índices ou parâmetros de vulnerabilidade |
D1C1. Perceber as desigualdades sociais - Perceber situações de desigualdades e injustiças envolvendo diferentes grupos sociais - Identificar as iniquidades resultantes de discriminação/preconceito - Investigar/identificar índices ou parâmetros de vulnerabilização |
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D1C2. Discriminar as desigualdades sociais - Caracterizar os recursos disponíveis e redes de apoio no território para enfrentar as desigualdades - Distinguir os tipos de violência - Diferenciar necessidades e vulnerabilidades dos diferentes indivíduos e grupos sociais |
D1C2. Classificar as desigualdades sociais - Discernir os tipos de violência produzidas pelas desigualdades - Diferenciar necessidades e vulnerabilidades dos indivíduos e grupos sociais |
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Domínio 2: Análise |
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D2C3. Problematizar fatos, contextos ou condições de desigualdades sociais - Questionar a diversidade étnica e cultural na força de trabalho - Problematizar as formas de violência - Contestar as políticas de enfrentamento das desigualdades - Confrontar as situações de injustiça entre os grupos sociais |
D2C3. Problematizar fatos, contextos ou condições de desigualdades sociais - Questionar a diversidade étnica e cultural na força de trabalho - Problematizar as formas de violência - Compreender as políticas públicas para o enfrentamento das desigualdades sociais no contexto das relações de poder na sociedade - Confrontar as situações de injustiça entre os grupos sociais |
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Domínio 4: Transformação |
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D4C1. Resolver situações de desigualdades sociais - Reduzir as causas de violência - Ampliar recursos e redes para os grupos vulneráveis no enfrentamento das desigualdades - Reduzir ou erradicar a pobreza |
D4C1. Resolver situações de desigualdades sociais - Reduzir as causas de violência - Ampliar recursos e redes para os grupos vulneráveis no enfrentamento das desigualdades - Atuar em movimentos ou grupos de erradicação da pobreza |
IVC: Índice de Validação de Conteúdo; D: domínio; C: competência.
Na avaliação da confiabilidade, o IVC apresentou consistência interna total satisfatória em 11 das 15 competências propostas nos domínios da matriz. Contudo, foi necessário adaptar as competências 1 e 2 do domínio 1; a competência 3 do domínio 2; e a competência 1 do domínio 4. As sugestões dos especialistas sobre os itens da matriz foram adequações textuais.
Os especialistas realizaram o processo de validação de conteúdo dos itens do instrumento, segundo os critérios de clareza, simplicidade, pertinência e precisão (Quadro 2). Os itens que apresentaram percentual de concordância inferior a 80% foram reformulados.
Quadro 2 - Distribuição dos itens da Matriz de Competências para Atuar sobre as Desigualdades Sociais, de acordo com o percentual de concordância dos especialistas. Belo Horizonte (MG), Brasil, 2022.
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Itens |
IVC |
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CL |
SP |
PT |
PC |
Geral |
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Domínio 1: Identificação |
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D1C1 - Perceber as desigualdades sociais |
1,00 |
1,00 |
1,00 |
1,00 |
1,00 |
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D1C2 - Classificar as desigualdades sociais |
0,75 |
1,00 |
1,00 |
1,00 |
0,94 |
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D1C3 - Compreender as desigualdades sociais |
0,83 |
0,83 |
1,00 |
1,00 |
0,92 |
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Domínio 2: Análise |
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D2C1 - Examinar as desigualdades sociais |
0,83 |
0,83 |
1,00 |
0,83 |
0,88 |
|
D2C2 - Analisar criticamente as situações ou condições de desigualdades sociais |
0,83 |
1,00 |
1,00 |
0,83 |
0,92 |
|
D2C3 - Problematizar fatos, contextos ou condições |
0,75 |
1,00 |
1,00 |
1,00 |
0,94 |
|
Domínio 3: Atuação |
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D3C1 - Elaborar ações de enfrentamento das desigualdades |
1,00 |
0,80 |
1,00 |
0,80 |
0,90 |
|
D3C2 - Realizar atendimentos de indivíduos, grupos ou populações em situações de desigualdades |
1,00 |
0,80 |
0,80 |
0,80 |
0,85 |
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D3C3 - Atuar colaborativamente para enfrentar as desigualdades sociais |
1,00 |
1,00 |
1,00 |
1,00 |
1,00 |
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D3C4 - Mobilizar indivíduos, grupos ou comunidades no enfrentamento das desigualdades |
0,80 |
0,80 |
0,80 |
0,80 |
0,80 |
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D3C5 - Defender ações de enfrentamento das desigualdades sociais e a favor da justiça social |
1,00 |
0,80 |
1,00 |
1,00 |
0,95 |
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Domínio 4: Transformação |
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D4C1 - Resolver situações de desigualdades sociais |
0,75 |
0,75 |
1,00 |
1,00 |
0,88 |
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D4C2 - Melhorar condições de desigualdades |
0,80 |
0,80 |
0,80 |
0,80 |
0,80 |
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D4C3 - Transformar os contextos de desigualdades |
1,00 |
1,00 |
1,00 |
1,00 |
1,00 |
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D4C4 - Ressignificar fatos, conceitos ou condições relativos a desigualdades sociais |
1,00 |
0,80 |
1,00 |
1,00 |
0,95 |
CL: Clareza; SP: Simplicidade; PT: Pertinência; PC: Precisão; D: domínio; C: competência.
A seguir, apresenta-se a versão final da Matriz de Competências para Atuar sobre as Desigualdades Sociais validada após a segunda rodada da técnica Delphi (Figura 1).

Figura 1 - Matriz de competências para atuar sobre as desigualdades sociais na formação do enfermeiro, após validação. Belo Horizonte (MG), Brasil, 2022.
Discussão
A redução das desigualdades constitui tema de interesse global compondo um dos ODS da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas. A busca por alternativas inovadoras, criativas e efetivas para enfrentar essas desigualdades permanece como um desafio para diferentes sociedades.5
Neste sentido, a criação da matriz de competências para atuar sobre as desigualdades sociais representa um avanço pedagógico, no campo da atuação profissional em saúde, ao propor um instrumento teórico e prático capaz de orientar a formação dos profissionais diante dessa temática. Trata-se de uma ferramenta educacional que contribui para o desenvolvimento de competências específicas a serem mobilizadas na prática profissional da enfermagem, e que respondem às demandas sociais e éticas da profissão, com potencial de aplicabilidade para outras áreas da saúde. A matriz viabiliza a construção de conhecimento acerca das competências necessárias para o enfrentamento das desigualdades sociais. Além de sua relevância científica, contribui para o saber e o cuidado em enfermagem. A especificidade da formação de competências para o agir profissional no enfrentamento das desigualdades e da escassez de estudos sobre a temática ressalta a necessidade da implementação de processos de avaliação nessa área, à luz de um rigor teórico metodológico, com critérios claros de validade e confiabilidade.
A elaboração e a validação de um instrumento educativo norteador para formação de competências profissionais do enfermeiro para atuar sobre as desigualdades sociais, uma das maiores emergências do século XXI,21 contribui diretamente para a prática do enfermeiro. Somam-se a esse cenário os desafios educacionais relacionados ao avanço tecnológico, às novas formas de interação social e aos mecanismos de competitividade no mercado de trabalho.22
Assim, destaca-se a importância da validação de matrizes curriculares, por meio de instrumentos de conteúdo específico, como uma matriz de competências. Esta se apresenta como uma ferramenta inovadora a ser utilizada no ensino em enfermagem, orientando os docentes sobre as ações necessárias para o desenvolvimento de competências para atuar sobre as desigualdades sociais. Dentre os aspectos necessários à linguagem de um bom instrumento, destacam-se objetividade e clareza,23 considerada em todos os itens da matriz desse estudo.
Uma das principais barreiras enfrentadas na formação em saúde é a desconexão entre teoria e prática.24 Muitas vezes, essa formação não contempla adequadamente a temática das desigualdades sociais e frequentemente os cursos espelham as estruturas sociais que as sustentam, o que interfere no alcance da equidade e integralidade do cuidado, que são princípios fundamentais do Sistema Único de Saúde.25 Portanto, estudos que incentivem essa integração curricular, desde os primeiros anos de formação são essenciais para superar essa barreira.
Para esses autores,25 outros desafios, em relação à aplicabilidade de matrizes de competências, devem ser enfrentados. Em relação a este estudo, destacam-se os desafios de promover espaços coletivos e continuados de formação dos docentes; à definição dos diferentes momentos do curso de avaliar essas competências; à identificação dos instrumentos de avaliação mais adequados aos diversos domínios e subdomínios, além de desenvolver estratégias educacionais que abarquem a complexidade das competências a serem desenvolvidas, assim como os cenários de prática para sua experimentação.
Destaca-se a preocupação metodológica deste estudo na construção e validação da matriz, permitindo sua replicabilidade e adaptação em diferentes contextos para além da formação em enfermagem. Ainda, a validação do conteúdo, com base nos critérios de clareza, simplicidade, pertinência e precisão, constitui etapa fundamental para consolidar o conhecimento produzido e garantir a adequação das competências representadas no constructo elaborado, colaborando com o aprimoramento da formação profissional.
Dessa forma, a matriz apresenta-se como um instrumento que pode ser utilizado como referência para orientar os sujeitos – gestores educacionais, professores e estudantes – envolvidos nos processos de ensino-aprendizagem de enfermagem. No entanto, sugere-se a ampliação da aplicação do instrumento aos docentes e ao público-alvo, a fim de alcançar uma versão com escolhas metodológicas mais afinadas, sobretudo em relação à clareza e à precisão da matriz.
Nessa conjuntura, considerando o impacto das desigualdades em múltiplos contextos, reforça-se o potencial interprofissional da matriz, que pode ser adaptada para outros cursos da área da saúde, por meio de novos estudos de validação. A interprofissionalidade surge como uma resposta estratégica ao modelo historicamente fragmentado da formação e das práticas em saúde. A formação em saúde, tradicionalmente pautada por uma lógica disciplinar, tende a enfatizar competências específicas de cada profissão, o que dificulta o desenvolvimento de modelos mentais compartilhados, a construção de uma identidade coletiva e o reconhecimento, valorização e respeito mútuo entre as diferentes áreas.24
Nesse sentido, ampliar a aplicação da matriz para docentes e estudantes de distintos cursos da área da saúde pode representar um avanço para a promoção da educação interprofissional. Tal ampliação potencializa a articulação entre saberes e práticas, promovendo a aprendizagem colaborativa e a atuação em equipe, elementos fundamentais para a consolidação de uma formação em saúde mais integral. A adoção de abordagens interprofissionais no processo formativo contribui para a construção de competências colaborativas e para o fortalecimento de práticas mais resolutivas e centradas na integralidade do cuidado e equidade.24
Como limitação do estudo, destaca-se o fato de a matriz ter sido aplicada exclusivamente no contexto da formação em enfermagem, o que restringe a amplitude dos dados obtidos em relação às demais áreas da saúde. Essa delimitação, entretanto, não diminui o potencial da matriz, que pode ser adaptada e aplicada a outros cursos da área da saúde, especialmente diante da relevância das desigualdades sociais que impactam transversalmente os diversos campos de atuação em saúde. Reforça-se, assim, sua aplicabilidade em contextos interprofissionais, desde que acompanhada por novos estudos de validação que considerem as especificidades de cada profissão. Ainda acresce como limitação o número de especialistas na validação da matriz. No entanto, não há consenso na literatura quanto ao número ideal.18
O número de especialistas envolvidos neste estudo reflete uma realidade do campo temático em questão. Dos 19 profissionais que atenderam aos critérios de seleção, apenas cinco aceitaram participar do processo de validação, o que evidencia não apenas a escassez de especialistas com atuação direta na temática das desigualdades sociais, mas também as dificuldades recorrentes de engajamento nesse tipo de estudo. A baixa taxa de resposta ao contato inicial e as desistências ao longo do processo são comumente observadas.18 Para superar esse desafio em pesquisas futuras, recomenda-se o fortalecimento de redes colaborativas entre instituições e pesquisadores, a fim de garantir maior mobilização e engajamento de especialistas com expertise na área, ampliando a diversidade de perspectivas no processo avaliativo. Ademais, destaca-se a necessidade de incentivar o envolvimento de novos pesquisadores na temática das desigualdades sociais, considerando sua relevância crescente e a urgência de ampliar o campo científico voltado a esse debate.
Conclusão
Entende-se que a formação por competências requer o desenvolvimento no estudante e futuro profissional da saúde da capacidade de mobilizar conhecimentos, habilidades e atitudes, para lidar com as situações da vida real, e isso inclui os dilemas relacionados às iniquidades sociais e os diferentes contextos de vulnerabilidade social.
O contexto globalizado da prática de saúde, no qual os problemas em saúde transcendem as barreiras nacionais, requer que os profissionais da enfermagem, para além das competências técnicas, tenham uma formação ampliada e respeitem as características de cada sociedade, superando o caráter utilitarista muitas vezes associado ao entendimento de competência, atrelado às exigências de mercado ou ainda como um modelo ou padrão a ser seguido. Nesse sentido, espera-se que as competências desenvolvidas, nos enfermeiros, sejam voltadas para a formação de cidadãos críticos-reflexivos no mundo contemporâneo, capazes de intervir no paradigma de naturalização das desigualdades sociais.
Nesse sentido, a matriz de competências proposta configura-se como uma ferramenta estratégica inovadora, com potencial de impacto na qualificação da formação em enfermagem. Ao favorecer o desenvolvimento de competências às reais necessidades da população e aos princípios do SUS, a matriz contribuirá para consolidação de práticas profissionais mais justas, éticas e efetivas no enfrentamento das desigualdades sociais. Além de seu valor pedagógico, a matriz pode subsidiar políticas públicas voltadas à indução de mudanças nos currículos da formação em saúde, servindo como base para a formulação de diretrizes educacionais que favoreçam a formação de profissionais com excelência técnica e responsabilidade social. Ao orientar a construção de percursos formativos mais sensíveis às desigualdades, esse instrumento se insere como elemento chave na promoção da equidade na atenção à saúde e, consequentemente, no fortalecimento do SUS.
Contribuições dos autores
Concepção do estudo: Kênia Lara da Silva. Coleta de dados: Kênia Lara da Silva, Elen Cristina Gandra, Rafaela Siqueira Costa Schreck, Bruna Dias França, João André Tavares Álvares da Silva. Análise e interpretação dos dados: Kênia Lara da Silva, Elen Cristina Gandra, Rafaela Siqueira Costa Schreck, Bruna Dias França, João André Tavares Álvares da Silva. Redação do manuscrito: Kênia Lara da Silva, Elen Cristina Gandra, Rafaela Siqueira Costa Schreck, Bruna Dias França, João André Tavares Álvares da Silva. Revisão crítica do manuscrito: Kênia Lara da Silva, Elen Cristina Gandra, Rafaela Siqueira Costa Schreck, Bruna Dias França, João André Tavares Álvares da Silva. Aprovação da versão final do texto: Kênia Lara da Silva.
Conflito de interesse
Os autores declararam que não há conflito de interesse.
Financiamento
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.
Referências
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- Ford J, Sowden S, Olivera J, Bambra C, Gimson A, Aldridge R, et al. Transforming health systems to reduce health inequalities. Future Healthc. J. [Internet]. 2021 [cited 2024 Jun 12];8(2):e204-e209. DOI: https://doi.org/10.7861/fhj.2021-0018
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Autor Correspondente
Nome: Kenia Lara da Silva
E-mail: kenialara17@gmail.com
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