Idioma
Efeito de um programa virtual de exercícios físicos sobre a qualidade de vida de pessoas idosas durante a pandemia COVID-19
Cleidiane Berto Aguiar1, Antônio Prates Caldeira2, Rosângela Ramos Veloso Silva3
1,2,3Universidade Estadual de Montes Claros. Montes Claros (MG), Brasil.
Introdução
No início do ano de 2020, a população mundial passou a enfrentar o desafio da pandemia causada pelo novo coronavírus (COVID-19), com grandes impactos sociais, econômicos e, sobretudo, sobre a saúde.1 Além desses impactos diretos, a pandemia colocou às claras as profundas desigualdades sociais que geram invisibilidade e terminam por tornar ainda mais dramática a forma como se vivencia essa nova configuração de mundo, especialmente para os grupos mais vulneráveis, incluindo as pessoas mais idosas.2
Para além desses impactos descritos acima, no contexto pandêmico a população idosa apresentou mais vulnerabilidades à exposição, estando entre os grupos mais suscetíveis a complicações da COVID-19, apresentando taxas que variaram de 50% a 84% dos mortos por região no Brasil.3
Atualmente, em praticamente todo o mundo, são registradas mudanças na estrutura etária da população com um destacado envelhecimento populacional.4 Do ponto de vista biológico, o processo de senescência, além das alterações funcionais, pode interferir na percepção da qualidade de vida (QV), já que essa é o produto de uma série de comportamentos, ou seja, a rotina de atividades adotada pela população idosa sendo influenciada por diversos fatores físicos, psicológicos e socioambientais.5-6
A Organização Mundial de Saúde (OMS) ressalta a importância de uma boa relação entre os indivíduos, os ambientes, e as experiências por eles vividas para o desenvolvimento e a manutenção da capacidade funcional que permite o bem-estar na idade avançada.7
Nesse sentido, o conhecimento da percepção das pessoas idosas sobre sua QV permite uma maior compreensão dessa relação sob a perspectiva de quem a vivencia. A autoavaliação da QV compreende a percepção de cada indivíduo e o seu posicionamento no contexto cultural e no sistema de valores da sociedade em que está inserido, cada aspecto contribuindo para moldá-la positiva ou negativamente.8
Assim sendo, a participação em grupos de convivência é uma estratégia recomendada para pessoas idosas no sentido de estimular maior envolvimento social, um aspecto fundamental para a QV. Esses grupos ofertam aos participantes o compartilhamento das experiências vividas e a formação de uma rede de apoio mútuo para enfrentar os desafios do cotidiano, além de ser um local para prática de atividade física e lazer.9
Em todo o país, entretanto, as atividades dos grupos de convivência foram subitamente interrompidas pela pandemia, com potenciais implicações sobre a saúde da população idosa envolvida nas atividades. Embora as atividades ao ar livre sejam tipicamente mais disponíveis e variadas, há muitas possibilidades de se exercitar em casa durante períodos de distanciamento social, tendo os registros mostrado o quanto os impactos sociais da pandemia afetaram a saúde geral.1,9-10
Concernente a isso, as grandes mudanças impostas ao estilo de vida das pessoas idosas a partir da pandemia geraram consequências emocionais graves, como sentimentos de solidão, depressão e ansiedade, de maneira particular àqueles que mantinham um estilo de vida fisicamente ativo.3
Nesse cenário, a tecnologia pode ser utilizada como instrumento de aproximação entre as pessoas fisicamente distantes, bem como uma ferramenta educativa em muitas situações. Dessa forma, observa-se a necessidade de desenvolver intervenções on-line que visem à conexão social e à promoção da saúde da população idosa nesse período.10
Por sua vez, a utilização de redes sociais, de aplicativos de mensagens ou de vídeos com compartilhamento de materiais instrucionais como programas de exercício físico estimulam a continuidade do cuidado e a manutenção de vínculos pré-estabelecidos. Esse tipo de estratégia é válida tanto em períodos de isolamento social, quanto em períodos considerados normais, direcionada a grupos vulneráveis ou com fragilidades.11
Nesse contexto, há a necessidade de se avaliar a percepção das pessoas idosas acerca da prática do isolamento social de forma contextualizada, bem como as medidas de intervenção assumidas para o enfrentamento da situação, uma vez que poucos estudos abordam como as medidas impostas para o enfrentamento à pandemia impactaram a autoavaliação da QV em contextos de grande carência social para grupos de convivência de pessoas idosas.1,3
Dessa forma, a relevância deste estudo está no fato de que o período de isolamento social em decorrência da pandemia de COVID-19 destacou as disparidades de participação em serviços que ofertam programas de exercício físicos para a população idosa. À luz dos determinantes sociais em saúde, amplia-se ainda mais o desafio de disponibilizar estratégias que minimizem o impacto desse tipo de evento na saúde do público em questão, possibilitando, ao mesmo tempo, entender as repercussões na QV.
Visto que o uso da tecnologia como ambiente de interação através de programas de exercício físico remoto ainda é pouco explorado, este estudo objetivou avaliar o efeito de um programa virtual de exercícios físicos sobre qualidade de vida de pessoas idosas durante a pandemia da COVID-19 no município de Pirapora-MG, Brasil.
Método
Trata-se de um estudo de intervenção quase-experimental do tipo antes e depois, com avaliação de efeito da intervenção de caráter quantitativo realizado entre outubro de 2020 e março de 2021 com um grupo de pessoas idosas participantes de um projeto de convivência com ênfase na prática de exercício físico ofertado pelo município antes da implantação das medidas de restrição social devido à pandemia da COVID-19. O projeto com grupos de convivência e atividade física regular para pessoas idosas é desenvolvido há mais de uma década, atendendo 286 participantes distribuídos por 11 núcleos situados em bairros distintos da cidade que possuem espaços estratégicos, como igrejas, praças, escolas, a fim de atender um maior número pessoas que são encaminhadas pelos profissionais da unidade de saúde de referência que observam a necessidade pelo usuário do serviço. O projeto tem como objetivo prevenir agravos decorrentes de doenças crônicas, bem como promover fortalecimento do vínculo e socialização desse público. As aulas ofertadas contemplam treinamento aeróbio e alongamentos ministradas por profissionais de Educação Física quatro dias na semana, com duração de 60 minutos por sessão e com intensidade moderada (autopercepção do esforço).
A avaliação geral da QV antes da intervenção foi realizada no grupo composto por participantes de todos os núcleos; a amostragem foi não-probabilística, composta por pessoas idosas frequentes no projeto e que aceitaram participar voluntariamente do estudo. Não houve cálculo amostral, considerando o desejo de inserção de todo o grupo que já participava do projeto de convivência. Foram excluídos os participantes que apresentaram dificuldades na compreensão das perguntas dos questionários, bem como aqueles que não possuíam contato telefônico e acesso à internet, já que a aplicação dos questionários e a disponibilização do programa de exercícios ocorreram de forma remota. A avaliação de impacto da intervenção foi restrita aos participantes incluídos nos dois momentos do estudo.
Para a coleta de dados, foram utilizados um questionário semiestruturado, elaborado pelos autores do estudo, para variáveis sociodemográficas (idade, sexo, cor da pele autorreferida, situação conjugal, arranjo familiar, renda, e nível de escolaridade), e o comportamento adotado no período da pandemia, assim como os instrumentos World Health Organization Quality of Life-Bref (WHOQOL-Bref) e o World Health Organization Quality of Life Assessment for Older Adults (WHOQOL-Old), ambos desenvolvidos pelo The WHOQOL Group, adaptados e validados para o contexto da população brasileira.12-13
O WHOQOL-Bref, forma abreviada do WHOQOL-100, é composto por 26 questões, sendo 2 gerais relacionadas à QV e à saúde global, e 24 englobando quatros domínios: a) físico; b) psicológico; c) social; d) ambiental. O WHOQOL-Old tem 24 questões distribuídas em seis facetas: a) funcionamento dos sentidos (FS); b) autonomia (AUT); c) atividades passadas, presentes e futuras (APPF); d) participação social (PS); e) morte e morrer (MM); f) intimidade (INT). O WHOQOL-Old é um instrumento específico para a avaliação da QV em pessoas idosas, devendo o mesmo ser aplicado em conjunto com o WHOQOL-Bref.13
A coleta dos dados ocorreu em dois momentos via telefone pelo mesmo pesquisador, treinado previamente. O contato telefônico de cada participante foi disponibilizado pela coordenação do projeto de convivência ao pesquisador após a apresentação dos objetivos da pesquisa à secretaria do município responsável pelo serviço e a sua anuência. A coleta antes da intervenção foi realizada entre outubro e dezembro de 2020, com duração média de 37 minutos em cada chamada; a intervenção foi realizada durante oito semanas, nos meses de janeiro e fevereiro de 2021, e a coleta após a intervenção ocorreu no mês de março de 2021, com duração média de 29 minutos em cada aplicação dos instrumentos. Durante o contato, o objetivo da pesquisa foi explicitado aos participantes, quando houve também o consentimento de participação no estudo e da gravação dos áudios das respostas. Os dados coletados foram armazenados em dispositivos de mídia, sendo posteriormente transferidos e armazenados em um banco de dados próprio do estudo.
A aplicação dos questionários ocorreu no primeiro contato telefônico, quando cada participante foi indagado se gostaria de participar da intervenção, além de receber a cartilha ilustrativa e o programa virtual de exercícios físicos para inseri-los em sua rotina. Aqueles que aceitaram foram notificados via aplicativo de mensagens, com orientações para utilização do material. A cartilha ilustrativa digital com uma sessão de exercícios físicos e alongamentos a serem realizados em casa, bem como os vídeos semanais contendo o programa de exercícios físicos foram enviados diretamente para cada participante. Aqueles que não participaram do programa de exercícios não receberam nenhum tipo de intervenção no período.
A análise dos dados consistiu em estatística descritiva com medidas de tendência central e dispersão. Para a comparação entre os domínios/facetas dos instrumentos WHOQOL e as variáveis do grupo em estudo, foi aplicado o teste U de Mann-Whitney, considerando-se que a análise da distribuição dos dados por meio do teste Kolmogorov-Smirnov não apresentava distribuição normal. Para análise entre as médias dos domínios e facetas dos instrumentos antes e após a intervenção, utilizou-se o teste de Wilcoxon. Todos os resultados foram analisados pelo software SPSS na versão 20.0, sendo adotado o critério de determinação de significância estatística de 5% (p<0,05).
O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Montes Claros – Minas Gerais (UNIMONTES) sob o parecer nº 4.332.488. Todos os participantes registraram consentimento da pesquisa, confirmando o aceite após ouvirem a leitura do termo de consentimento livre e esclarecido.
Intervenção
O programa disponibilizado no formato virtual, por meio de material educativo, foi composto por vídeos previamente selecionados pelos autores do estudo e enviados semanalmente aos participantes da pesquisa durante oito semanas. Os vídeos foram padronizados e orientados por um profissional de Educação Física externo ao projeto de convivência, contendo uma sequência de exercícios com cinco alongamentos para os principais grupos musculares e dez exercícios corporais visando ao fortalecimento muscular, à melhora da funcionalidade, à flexibilidade e mobilidade de pessoas idosas, bem como à preservação da autonomia.
Os exercícios propostos foram encolhimento de ombros, respiração abdominal, extensão de joelhos, elevação frontal, extensão de quadril, elevação sobre a cabeça, flexão plantar/dorsiflexão, agachamento, elevação pélvica, e desenvolvimento alternado. A descrição para a realização de cada exercício foi encaminhada de forma escrita e ilustrada, juntamente com a orientação dos materiais e espaço adequados a serem utilizados na execução.
As sessões de exercícios do programa com duração de 30 minutos em média foram compostas por três séries com 12 repetições de cada exercício e com intervalo de descanso de um minuto entre as séries. Cada participante foi orientado a realizar o treinamento seguindo as informações contidas nos materiais, e a cumprir a frequência de cinco dias por semana a fim de manter, no mínimo, o nível básico de atividade física regular recomendado.14 Na impossibilidade de controlar a adesão com a regularidade planejada na pesquisa, foi considerada a afirmação de realização das 40 sessões do programa de exercícios físicos após as oito semanas de intervenção, já que os participantes não foram supervisionados.
Após oito semanas, realizou-se o segundo contato telefônico para reaplicação dos questionários e avaliação da QV a fim de comparar a percepção dos participantes antes e depois da disponibilização do programa virtual de exercícios físicos por meio de material educativo durante o período de isolamento social. As respostas obtidas por meio dos instrumentos aplicados foram consolidadas, sendo os domínios do WHOQOL-Bref e as facetas do WHOQOL-Old analisadas separadamente. Os escores foram calculados utilizando as sintaxes próprias, elaboradas e recomendadas pelo The WHOQOL Group para o software Statistical Package for Social Sciences (SPSS®). Cada domínio/faceta foi representado em escores percentuais de zero a 100, sendo o maior valor correspondente à melhor percepção da QV na população estudada.12-13
Resultados
O projeto de convivência atendia antes do período de isolamento um total de 286 pessoas idosas. Todas foram convidadas para participar da pesquisa, mas 14 delas não compuseram a amostra por não possuírem contato telefônico e acesso à internet, ou por não compreenderem as perguntas dos instrumentos utilizados, totalizando 272 participantes no primeiro momento da pesquisa. Para a intervenção, 94 participantes se disponibilizaram em inserir o programa de exercícios físicos à rotina; houve, porém, duas perdas devido à falta de contato telefônico após três tentativas em dias e horários diferentes na avaliação do segundo momento. Assim, após a disponibilização do programa proposto, 92 pessoas idosas foram contabilizadas para realizar as análises estatísticas.
Na primeira etapa do estudo, participaram 272 pessoas idosas, sendo a maioria do sexo feminino (n=239-87,9%), com idade predominante entre 60-69 anos de idade (n=155-57,0%), pardos (n=171-62,9%), casados (n=139-51,1%), residentes com familiares (n=150-55,1%), com escolaridade de até quatro anos (n=126-46,4%), conforme a Tabela 1.
Tabela 1 - Caracterização sociodemográfica de um grupo de pessoas idosas (n=272) participantes de um projeto de atividade física regular. Pirapora (MG), Brasil, 2021.
|
Variáveis |
(n) |
(%) |
|
Sexo |
|
|
|
Feminino |
239 |
87,9 |
|
Masculino |
33 |
12,1 |
|
Idade (anos) |
|
|
|
60-69 |
155 |
57,0 |
|
70-79 |
101 |
37,1 |
|
≥80 |
16 |
5,9 |
|
Cor da pele |
|
|
|
Parda |
171 |
62,9 |
|
Preta |
48 |
17,6 |
|
Branca |
46 |
16,9 |
|
Amarela |
4 |
1,5 |
|
Ignorada |
3 |
1,1 |
|
Situação conjugal |
|
|
|
Casado (a) |
139 |
51,1 |
|
Viúvo (a) |
58 |
21,3 |
|
Separado (a)/divorciado (a) |
47 |
17,3 |
|
Solteiro (a) |
23 |
8,5 |
|
União estável |
5 |
1,8 |
|
Arranjo familiar |
|
|
|
Mora com outros familiares |
150 |
55,1 |
|
Mora só com o (a) cônjuge |
74 |
27,2 |
|
Mora sozinho |
47 |
17,3 |
|
Mora com não familiares |
1 |
0,4 |
|
Fonte da renda |
|
|
|
Aposentadoria |
179 |
65,9 |
|
Outros |
55 |
20,2 |
|
Pensão |
27 |
9,9 |
|
Trabalho próprio |
11 |
4,0 |
|
Anos de estudo |
|
|
|
0 |
14 |
5,2 |
|
1-4 |
112 |
41,2 |
|
5-8 |
58 |
21,2 |
|
9-12 |
66 |
24,3 |
|
≥13 |
22 |
8,1 |
Em relação às mudanças de comportamento devido à pandemia, todos os participantes avaliados referiram adesão ao isolamento social, restringindo o contato com as pessoas, sendo que 41 deles (15,1%), informaram ter saído de casa apenas para atendimento à saúde. Quanto à dificuldade para realizar as atividades de rotina, 165 participantes (60,7%) informaram muita dificuldade. Registrou-se ainda manutenção do padrão alimentar para 171 participantes (62,9%), e aumento do tempo de uso de televisão ou aparelhos eletrônicos para 132 (48,5%) dos entrevistados. A prática de exercício físico reduziu para 207 (76,1%) participantes (Tabela 2).
Tabela 2 - Hábitos comportamentais adotados em decorrência da pandemia da COVID-19 por um grupo de pessoas idosas (n=272) participantes de um projeto de atividade física regular. Pirapora (MG), Brasil, 2021.
|
Variáveis |
(n) |
(%) |
|
Restrição de contato com as pessoas |
|
|
|
“Procurei tomar cuidados, ficar distante das pessoas, reduzir o contato, mas continuei trabalhando e/ou saindo.” |
24 |
8,8 |
|
“Fiquei em casa, só saindo para compras em supermercado e farmácia.” |
207 |
76,1 |
|
“Fiquei rigorosamente em casa, saindo só por necessidades de atendimento à saúde.” |
41 |
15,1 |
|
Dificuldade para realizar as atividades de rotina |
|
|
|
“Muita.” |
165 |
60,7 |
|
“Moderada.” |
30 |
11,0 |
|
“Um pouco.” |
60 |
22,1 |
|
“Nenhuma.” |
17 |
6,2 |
|
Sentiu falta de estar com os familiares e amigos |
|
|
|
“Sempre.” |
180 |
66,2 |
|
“Muitas vezes.” |
71 |
26,1 |
|
“Poucas vezes.” |
18 |
6,6 |
|
“Não senti falta.” |
3 |
1,1 |
|
Alimentação durante a pandemia |
|
|
|
“Piorou muito.” |
16 |
5,9 |
|
“Piorou um pouco.” |
52 |
19,1 |
|
“Ficou igual.” |
171 |
62,9 |
|
“Melhorou.” |
33 |
12,1 |
|
Tempo de uso de tela (televisão, aparelhos eletrônicos) |
|
|
|
“Aumentou muito.” |
54 |
19,8 |
|
“Aumentou um pouco.” |
78 |
28,7 |
|
“Permaneceu igual.” |
131 |
48,2 |
|
“Não assisto televisão/não uso aparelhos eletrônicos.” |
9 |
3,3 |
|
Prática de atividade física durante a pandemia |
|
|
|
“Reduziu muito.” |
114 |
41,9 |
|
“Reduziu.” |
93 |
34,2 |
|
“Inalterada.” |
56 |
20,6 |
|
“Aumentou.” |
9 |
3,3 |
Na mensuração inicial da QV a partir do WHOQOL-Bref, observou-se um escore geral de 65,1 (± 5,6). A análise específica dos diferentes domínios mostrou diferença significativa quanto à situação conjugal para o domínio Social entre as pessoas idosas com ou sem cônjuge. Na análise do arranjo familiar, o mesmo domínio Social mostrou-se com escores diferentes entre as pessoas idosas que vivem sozinhas ou acompanhadas. Na avaliação de faixas etárias, apenas o domínio Psicológico mostrou-se diferente entre pessoas idosas com idade até 79 anos e aqueles com 80 anos ou mais. Em relação aos resultados do WHOQOL-Bref, o domínio Social foi o que gerou escores percentuais médios mais elevados, enquanto o domínio Físico foi o que apresentou os percentuais médios mais baixos para o grupo avaliado (Tabela 3).
Tabela 3 - Escores de qualidade de vida obtidos a partir do instrumento WHOQOL-Bref entre pessoas idosas durante o período de isolamento social (n=272). Pirapora (MG), Brasil, 2021.
|
|
Sexo: Masculino / Feminino |
|
||
|
Domínios |
Média (desvio-padrão) |
Mediana |
Mínimo-Máximo |
p-valor* |
|
FIS |
66,7 (±8,8) / 68,6 (±8,1) |
68,6 / 68,6 |
45,7-80,0 / 42,9-94,3 |
0,396 |
|
PSI |
71,3 (±8,0) / 74,1 (±7,8) |
70,0 /73,3 |
53,3-86,7 / 50,0-96,7 |
0,052 |
|
SOC |
78,0 (±4,6) / 77,4 (±8,7) |
80,0 / 80,0 |
66,7-86,7 / 40,0-100 |
0,699 |
|
AMB |
72,5 (±9,1) / 71,6 (±8,8) |
70,0 / 70,0 |
55,0-100 / 52,5-100 |
0,775 |
|
|
Situação conjugal: Com cônjuge / Sem cônjuge |
|
||
|
Domínios |
Média (desvio-padrão) |
Mediana |
Mínimo-Máximo |
p-valor* |
|
FIS |
66,5 (±7,8) / 68,2 (±8,7) |
68,6 / 68,6 |
45,7-88,6 / 42,9-94,3 |
0,666 |
|
PSI |
74,5 (±7,5) / 73,0 (±8,2) |
73,3 / 73,3 |
53,3-96,7 / 50,0-96,7 |
0,058 |
|
SOC |
79,6 (±7,1) / 75,0 (±9,0) |
80,0 / 73,3 |
46,7-100 / 40,0-93,3 |
<0,001 |
|
AMB |
72,7 (±8,7) / 70,6 (±8,9) |
72,5 / 70,0 |
52,5-100 / 55,0-100 |
0,060 |
|
|
Arranjo familiar: Sozinho / Acompanhado |
|
||
|
Domínios |
Média (desvio-padrão) |
Mediana |
Mínimo-Máximo |
p-valor* |
|
FIS |
67,8 (±7,8) / 68,5 (±8,3) |
68,6 / 68,6 |
48,6-82,9 / 42,9-94,3 |
0,687 |
|
PSI |
73,0 (±7,4) / 73,9 (±7,9) |
73,3 / 73,3 |
56,7-90,0 / 50,0-96,7 |
0,332 |
|
SOC |
75,2 (±8,5) / 77,9 (±8,2) |
73,3 / 80,0 |
46,7-93,3 / 40,0-100 |
0,009 |
|
AMB |
72,5 (±10,3) / 71,6 (±8,5) |
70,0 / 70,0 |
55,0-100 / 52,5-100 |
0,643 |
|
|
Faixa etária (anos): 60-79 / 80+ |
|
||
|
Domínios |
Média (desvio-padrão) |
Mediana |
Mínimo-Máximo |
p-valor* |
|
FIS |
68,4 (±8,0) / 68,1 (±10,5) |
68,6 / 71,4 |
42,9-94,3 / 48,6-82,9 |
0,489 |
|
PSI |
74,1 (±7,8) / 70,2 (±6,9) |
73,3 / 70,0 |
50,0-96,7 / 60,0-86,7 |
0,013 |
|
SOC |
77,5 (±8,5) /76,6 (±5,4) |
80,0 / 73,3 |
40,0-100 / 66,7-86,7 |
0,240 |
|
AMB |
71,9 (±9,0) / 69,4 (±7,1) |
70,0 / 70,0 |
52,5-100 / 55,0-80,0 |
0,379 |
*Teste U de Mann-Whitney; FIS: Físico; PSI: Psicológico; SOC: Social; AMB: Ambiental.
Em relação ao WHOQOL-Old, a média global de todo o instrumento foi de 76,8 (±7,5), e as facetas que apresentaram maiores escores foram Intimidade e Funcionamento do Sensório. Diferenças significativas foram identificadas para os escores Funcionamento do Sensório entre os sexos masculino e feminino; Intimidade entre aqueles com ou sem cônjuge; e Morte e Morrer entre as pessoas idosas que vivem sozinhas e as que residem com outras pessoas em seu domicílio. Em relação à faixa etária, registrou-se diferença significativa para a faceta Participação Social, com maiores escores para as pessoas idosas de 60 a 79 anos (Tabela 4).
Tabela 4 - Escores de qualidade de vida obtidos a partir do instrumento WHOQOL-Old entre pessoas idosas durante o período de isolamento social (n=272). Pirapora (MG), Brasil, 2021.
|
|
Sexo: Masculino / Feminino |
|
||
|
Facetas |
Média (desvio-padrão) |
Mediana |
Mínimo-Máximo |
p-valor* |
|
FS |
70,2 (±15,9) / 78,7 (±17,9) |
65,0 / 80,0 |
50,0-100 / 35,0-100 |
0,012 |
|
AUT |
72,9 (±11,1) / 70,6 (±9,8) |
75,0 / 70,0 |
50,0-100 / 50,0-100 |
0,176 |
|
APPF |
77,6 (±7,4) / 76,6 (±8,4) |
80,0 / 75,0 |
55,0-95,0 / 50,0-100 |
0,504 |
|
PS |
75,9 (±9,9) / 74,6 (±9,6) |
80,0 / 75,0 |
50,0-100 / 40,0-100 |
0,347 |
|
MM |
81,8 (±16,9) / 75,8 (±22,4) |
85,0 / 85,0 |
40,0-100 / 20,0-100 |
0,266 |
|
INT |
82,9 (±10,8) / 84,1 (±12,9) |
80,0 / 80,0 |
55,0-100 / 25,0-100 |
0,408 |
|
|
Situação conjugal: Com cônjuge / Sem cônjuge |
|
||
|
Facetas |
Média (desvio-padrão) |
Mediana |
Mínimo-Máximo |
p-valor* |
|
FS |
76,5 (±17,5) / 80,0 (±18,3) |
80,0 / 80,0 |
40,0-100 / 35,0-100 |
0,231 |
|
AUT |
70,7 (±10,3) / 71,2 (±9,6) |
70,0 / 70,0 |
50,0-100 / 50,0-100 |
0,494 |
|
APPF |
76,7 (± 8,5) / 76,7 (±8,1) |
75,0 / 77,5 |
50,0-100 / 55,0-100 |
0,928 |
|
PS |
74,6 (±10,3) / 75,0 (±8,8) |
75,0 / 75,0 |
40,0-100 / 40,0-95,0 |
0,820 |
|
MM |
74,9 (±22,3) / 78,4 (±21,4) |
75,0 / 85,0 |
20,0-100 / 20,0-100 |
0,129 |
|
INT |
86,1 (±11,4) / 81,6 (±13,5) |
80,0 / 80,0 |
45,0-100 / 25,0-100 |
0,008 |
|
|
Arranjo familiar: Sozinho / Acompanhado |
|
||
|
Facetas |
Média (desvio-padrão) |
Mediana |
Mínimo-Máximo |
p-valor* |
|
FS |
80,0 (±19,2) / 77,2 (±17,6) |
95,0 / 80,0 |
45,0-100 / 35,0-100 |
0,255 |
|
AUT |
73,2 (±10,0) / 70,4 (±9,9) |
75,0 / 70,0 |
55,0-100 / 50,0-100 |
0,118 |
|
APPF |
76,5 (±7,9) / 76,8 (±8,4) |
75,0 / 75,0 |
55,0-95,0 / 50,0-100 |
0,799 |
|
PS |
75,8 (±8,4) / 74,6 (±9,8) |
80,0 / 75,0 |
55,0-100 / 40,0-100 |
0,480 |
|
MM |
84,4 (±17,0) / 74,9 (±22,5) |
85,0 / 80,0 |
35,0-100 / 20,0-100 |
0,009 |
|
INT |
82,4 (±11,4) / 84,3 (±12,9) |
80,0 / 80,0 |
50,0-100 / 25,0-100 |
0,246 |
|
|
Faixa etária (anos): 60-79 / 80+ |
|
||
|
Facetas |
Média (desvio-padrão) |
Mediana |
Mínimo-Máximo |
p-valor* |
|
FS |
78,0 (±17,8) / 73,2 (±18,7) |
80,0 / 65,0 |
35,0-100 / 45,0-100 |
0,185 |
|
AUT |
71,2 (±10,0) / 67,9 (±8,9) |
70,0 / 70,0 |
50,0-100 / 50,0-85,0 |
0,221 |
|
APPF |
76,6 (±8,5) / 77,0 (±6,3) |
75,0 / 80,0 |
50,0-100 / 60,0-85,0 |
0,578 |
|
PS |
75,1 (±9,6) / 71,4 (±9,2) |
77,5 / 70,0 |
40,0-100 / 55,0-90,0 |
0,034 |
|
MM |
76,3 (±22,2) / 79,3 (±18,9) |
85,0 / 85,0 |
20,0-100 / 40,0-100 |
0,703 |
|
INT |
84,1 (±12,8) / 82,3 (±9,6) |
80,0 / 80,0 |
25,0-100 / 65,0-100 |
0,285 |
*Teste U de Mann-Whitney; FS: Funcionamento do Sensório; AUT: Autonomia; APPF: Atividades Passadas, Presentes e Futuras; PS: Participação Social; MM: Morte e Morrer; INT: Intimidade.
Na segunda etapa do estudo, 94 pessoas idosas aceitaram participar da intervenção; houve porém duas perdas devido à falta de contato telefônico após três tentativas em dias e horários diferentes, sendo avaliado um total de 92 pessoas idosas após a disponibilização do programa proposto. A maioria dos participantes da intervenção era do sexo feminino (n=81-88,0%), com média de idade de 69,4 anos, pardas (n=49-53,3%), casadas (n=62-67,4%), e residia com familiares (n=59-64,2%).
A análise do efeito do programa virtual de exercícios físicos revelou aumento significativo do escore global do WHOQOL-Bref após a intervenção (p<0,001). A análise de cada domínio de forma separada, ainda que tenha revelado aumento dos escores, não revelou diferenças significativas. Em relação ao WHOQOL-Old, não foram identificadas diferenças significativas entre os escores das facetas ou mesmo para o escore global do instrumento (Tabela 5).
Tabela 5 - Escores de qualidade de vida obtidos a partir dos instrumentos WHOQOL-Bref e WHOQOL-Old entre pessoas idosas durante o período de isolamento social (n=92), antes e após intervenção virtual de incentivo à prática de exercício físico. Pirapora (MG), Brasil, 2021.
|
Escores do WHOQOL-Bref |
||||
|
Domínios |
Programa Virtual de Exercícios Físicos Média (desvio-padrão) Antes / Depois |
Erro padrão Antes / Depois |
p-valor* |
|
|
FIS |
68,1 (±9,1) / 68,8 (±7,4) |
0,95 / 0,77 |
0,336 |
|
|
PSI |
75,7 (±8,9) / 75,9 (±7,7) |
0,92 / 0,80 |
0,799 |
|
|
SOC |
79,1 (±8,8) / 79,5 (±8,5) |
0,91 / 0,89 |
0,592 |
|
|
AMB |
74,6 (±11,2) / 75,2 (±10,2) |
1,16 / 1,07 |
0,690 |
|
|
Total |
66,5 (±6,9) / 74,1 (±6,4) |
0,71 / 0,67 |
<0,001 |
|
|
Escores do WHOQOL-Old |
||||
|
Facetas |
Programa Virtual de Exercícios Físicos Média (desvio-padrão) Antes / Depois |
Erro padrão Antes / Depois |
p-valor* |
|
|
FS |
71,9 (±12,4) / 73,6 (±10,7) |
1,29 / 1,11 |
0,466 |
|
|
AUT |
75,7 (±9,9) / 75,2 (±9,0) |
1,04 / 0,93 |
0,857 |
|
|
APPF |
77,3 (±9,8) / 77,2 (±9,5) |
1,02 / 0,99 |
0,956 |
|
|
PS |
74,3 (±11,9) / 74,9 (±9,9) |
1,24 / 1,03 |
0,649 |
|
|
MM |
76,4 (±21,5) / 75,8 (±20,5) |
2,24 / 2,14 |
0,819 |
|
|
INT |
84,8 (±13,1) / 85,7 (±11,9) |
1,37 / 1,24 |
0,607 |
|
|
Total |
80,3 (±7,8) / 80,7 (±7,1) |
0,82 / 0,75 |
0,628 |
|
(*) Teste de Wilcoxon
Discussão
Este estudo possibilitou verificar a QV de pessoas idosas participantes de um grupo de convivência no norte do estado de Minas Gerais, Brasil. Os escores observados na primeira etapa revelaram-se mais baixos do que registram outros estudos em relação a alguns domínios e facetas por meio dos instrumentos utilizados.15-16 Foram observadas melhorias na avaliação da QV considerando uma perspectiva multidimensional após a intervenção, com oito semanas de um programa remoto de exercícios físicos. Esse achado converge para o entendimento de que a estratégia ofertada contribuiu para manter ou impulsionar os níveis de atividade física do grupo no período pesquisado.
Ao avaliar os valores observados, destacou-se a especificidade do contexto do grupo pesquisado quando comparado a outros estudos da literatura.17,18 Por se tratar de pessoas idosas que participavam do mesmo grupo de convivência e que, subitamente, foram submetidas ao distanciamento físico com limitação de interação social, esperavam-se possíveis alterações na percepção dos aspectos e fatores que envolvem a QV. Entendeu-se que a rotina foi modificada de forma repentina e as relações sociais foram possivelmente afetadas, tendo esses fatos porventura interferido sobre a QV das pessoas idosas.2,5,10
É notável que a utilização dos instrumentos WHOQOL para avaliação da QV é amplamente difundida no âmbito da saúde pública. No entanto, observam-se divergências na literatura no que se refere à apresentação e interpretação dos resultados. Os critérios para o cálculo dos escores dessas ferramentas são diversos tanto em estudos nacionais quanto internacionais,8,19-20 e por não haver uma uniformidade na utilização de valores ou unidades de medida, existe dificuldade na interpretação e comparação dos dados.
Acerca do grupo pesquisado, na primeira etapa do estudo observou-se o predomínio de pessoas idosas do sexo feminino. Esse dado coincidiu com os resultados da maior parte dos estudos apresentados na literatura, em que havia maioria de mulheres participantes em projetos que ofertavam exercício físico. Com relação a outras características demográficas de pessoas idosas vinculadas a projetos que envolviam atividade física no Brasil, o maior número de participantes eram pessoas idosas casadas, aposentadas, com faixa etária entre 60-69 anos e que viviam acompanhadas, dados similares aos observados nesta pesquisa.8,19 A similaridade das características demográficas entre os diversos estudos definiu um perfil de pessoas idosas mais envolvidas com as atividades físicas.
Tal perfil reforça que a adoção e manutenção de um estilo de vida mais ativo possibilita benefícios em todas as fases da vida, podendo afetar sobremaneira a longevidade dos indivíduos. Esse comportamento fortalece a ideia da prática de exercício físico como agente promotor de saúde e qualidade de vida principalmente para as pessoas idosas nos diferentes aspectos, sejam eles físicos, psicológicos ou sociais, pois além de evitar o isolamento, melhora também a capacidade funcional e cognitiva, proporcionando um melhor relacionamento familiar e social.7,20
No período da pandemia da COVID-19, o distanciamento social, preconizado e necessário naquele momento como estratégia para reduzir os riscos associados à forma mais grave da doença, fez emergir novos desafios e problemas psicoemocionais. As medidas de distanciamento que dificultaram a manutenção dos níveis recomendados da prática de exercício físico e a redução do comportamento sedentário eram tão importantes para a melhora da saúde física e mental quanto o engajamento social, que também é um fator primordial para o envelhecimento bem-sucedido.4,21
Nessa lógica, é importante ressaltar que períodos de isolamento social não são normalmente experienciados a longo prazo, mas seus impactos podem ser vivenciados por toda uma vida.11 No grupo pesquisado, destacou-se o comportamento adotado pelas pessoas idosas no período, cuja limitação do círculo de convivência social somada à diminuição da prática regular de exercício físico pode ter influenciado na redução de capacidades funcionais como a autonomia e a independência, e pode ter afetado diretamente os vínculos afetivos construídos até então, conforme aponta a literatura.4-5,11
Em relação à QV, os domínios do WHOQOL-Bref nos quais as pessoas idosas pesquisadas apresentaram maior pontuação percentual e, consequentemente, maior nível de satisfação, foram o Social para pessoas idosas com cônjuge e/ou que residiam com outras pessoas em seu domicílio, e o Psicológico para aqueles com até 79 anos. Esses dados foram ratificados por outros estudos realizados com pessoas idosas e que encontraram maiores médias ou escores de pontuação nos mesmos domínios avaliados.19-20
Ainda em relação ao WHOQOL-Bref, o menor percentual observado foi no domínio Físico, dado discordante da literatura.8,15 Apesar de não ser possível confirmar esta possibilidade, o comportamento adotado pelas pessoas idosas avaliadas com a diminuição da prática regular de exercícios físicos no período da pandemia pode explicar os dados observados nesse domínio, que avalia itens como dor e desconforto, energia e fadiga, sono e repouso, mobilidade, atividades da vida cotidiana, dependência de medicação, e capacidade para o trabalho, visto que a prática sistemática de exercício físico é uma aliada para a preservação da integridade física e funcional.22-23
Quanto às facetas do instrumento WHOQOL-OLD, observou-se maior percentual médio nas facetas Intimidade, e Morte e Morrer. Importante salientar que os resultados observados divergiram de outros estudos realizados com pessoas idosas praticantes de exercício físico, uma vez que os percentuais médios alcançados pelos participantes avaliados no grupo em questão superaram os dados descritos na literatura.15,19
Ao analisar os aspectos sociodemográficos que influenciaram a QV de forma significativa, foram observadas diferenças desse grupo quando comparado a outros estudos que avaliaram as percepções da pessoa idosa sobre a sua posição na vida ao considerar os diversos fatores intervenientes.8,23 Os dados do grupo avaliado reforçaram a provável interferência singular de cada dimensão, seja física, mental, social, entre outras, na autopercepção da QV no período avaliado.
Quanto ao sexo, as mulheres do grupo pesquisado apresentaram desempenho superior aos homens na faceta Funcionamento do Sensório, e tal achado coincidiu com a literatura. Estudos revelaram uma maior satisfação do sexo feminino nessa faceta relacionada ao funcionamento dos sentidos e menor impacto da perda das habilidades sensoriais na avaliação da QV quando comparada aos homens.24-25
As pessoas idosas com cônjuge e/ou que residiam com mais pessoas apresentaram maior contato com os familiares e amigos, bem como maior frequência de ajuda recebida ou prestada no seu círculo de convivência,18,24 sendo tal fato observado nos domínios Psicológico e Social. A faceta Intimidade apresentou desempenho satisfatório, mostrando que as pessoas idosas que tinham pessoas próximas ao seu redor eram capazes de transmitir-lhes bons sentimentos, e aqueles participantes que viviam acompanhados relataram menor temor sobre a morte, conforme a faceta Morte e Morrer. Essas características podem ter possibilitado a manutenção de um comportamento mais ativo e resiliente no processo de perda e controle da autonomia, como encontrado no grupo pesquisado.16,26
Para o grupo avaliado, a idade foi uma variável que apresentou diferença significativa na faceta Participação Social, sendo que pessoas idosas com até 79 anos mostraram percentual superior quando comparados às pessoas idosas octogenárias, dado reportado em outros estudos.19,21 Tal achado pode estar relacionado ao engajamento e à participação em atividades na comunidade, sendo que as pessoas idosas abaixo dos 80 anos tenderam a viver com maior protagonismo.
Verificou-se que para esse grupo de pessoas idosas, conviver com cônjuge e/ou residir com outras pessoas em seu domicílio, bem como a idade, pareceram influenciar de forma positiva a QV. A solidão e o isolamento social frequentemente acontecem simultaneamente e afetam uma parcela significativa da população idosa. No entanto, iniciativas que favoreçam a convivência social e a aprendizagem contínua, propostas que auxiliem a impulsionar a autoestima, a inclusão e o estabelecimento de novos objetivos nessa fase da vida podem refletir positivamente na QV de pessoas idosas.3,10
Ressalta-se ainda que um envelhecimento ativo nos âmbitos físico e social apresenta-se como fator decisivo para uma percepção satisfatória da QV e da própria saúde. A utilização de estratégias que auxiliem as pessoas a manterem-se ou tornarem-se fisicamente ativas possibilita sua autonomia no gerenciamento e tomada de decisões sobre suas vidas, uma vez que pessoas idosas tendem a se manter atuantes e independentes através da socialização e integração na sociedade.11,22
No que diz respeito à avaliação do efeito da intervenção, a adesão ao programa de exercícios físicos pode ter possibilitado aos participantes uma melhoria significativa na percepção da QV, apesar de não apresentarem diferença significativa de forma isolada nos domínios do WHOQOL-Bref. A avaliação da QV de forma multidimensional no grupo avaliado apresentou resultado satisfatório, reafirmando assim os achados na literatura de que pessoas idosas fisicamente ativas mantêm suas capacidades funcionais mais preservadas, o que resulta em um processo de envelhecimento bem-sucedido.6,18,20 O estudo demonstrou a importância e o efeito positivo de um programa virtual de exercícios físicos, ainda que não supervisionados, realizados no ambiente domiciliar através de orientações remotas durante oito semanas para pessoas idosas no período da pandemia.
Concomitantemente, o histórico do comportamento fisicamente ativo do grupo avaliado contribuiu sobremaneira e positivamente na avaliação da QV, pois a participação em estratégias de promoção de saúde de pessoas idosas possibilita um envelhecimento saudável e, consequentemente, favorece o bem-estar global.24 Logo, o programa virtual de exercícios físicos ofertado foi uma alternativa para estimular o aumento e manutenção dos níveis de atividade física dessa população.
No contexto de pandemia, as medidas de distanciamento foram essenciais para a saúde da população, podendo no entanto ter provocado alterações comportamentais nem sempre benéficas, tais como a redução da prática de exercício físico regular e o consequente aumento do sedentarismo, que possivelmente implicaram de forma negativa na avaliação da QV.2,11,21 Nessa perspectiva, a disponibilização do programa virtual de exercícios físicos pode ter auxiliado o grupo estudado a se manter fisicamente ativo no domicílio e ter afetado positivamente a QV. Esse achado demonstrou que programas virtuais de exercícios físicos podem ser realizados satisfatoriamente através de materiais educativos.
Este estudo apresentou limitações no que diz respeito especialmente à utilização de uma amostra por conveniência, à aplicação dos instrumentos via telefone, e à não-representatividade da amostra em relação à cidade de Pirapora. Adicionalmente, não foi possível assegurar que a aceitação em participar da intervenção implicou em adesão efetiva ao programa proposto. A inexistência de pesquisas nacionais que avaliaram a qualidade de vida de pessoas idosas fisicamente ativas no período da pandemia impossibilitou estabelecer comparações. Entretanto, o estudo teve o mérito de apresentar possibilidades de intervenção que se mostraram positivas para o grupo avaliado.
Com base nos resultados observados, embora não seja possível afirmar, o estudo mostrou que alguns domínios da QV estavam abaixo do esperado e do registrado por outros estudos, sugerindo uma possível influência da pandemia. Por outro lado, os resultados após a intervenção realizada demonstraram que a percepção da QV de pessoas idosas foi positivamente influenciada pelo programa virtual de exercícios físicos durante o período de distanciamento social.
Nesse sentido, são necessários estudos futuros que desenvolvam e ofertem programas virtuais de exercícios físicos para pessoas idosas, assim como ferramentas de avaliação para melhor compreensão dos seus efeitos na QV durante o processo de envelhecimento.
Conclusão
Os resultados da intervenção realizada mostraram um efeito positivo do programa proposto de exercícios físicos no formato virtual na percepção global da QV de pessoas idosas. Os achados do presente estudo são consideráveis por contribuírem, através da utilização de recursos tecnológicos, para que os profissionais desenvolvam ferramentas e possibilidades de intervenção direcionadas para a promoção da saúde dessa população em contextos singulares.
Diante dos dados encontrados, recomenda-se a criação de estratégias de cuidado através de alternativas viáveis e seguras que incentivem a autonomia e a independência, especialmente com a manutenção de um estilo de vida fisicamente ativo, mesmo em períodos de restrição de contato social.
No que tange às implicações para a enfermagem, as práticas inovadoras rompem com o tradicional modelo de oferta de cuidados, possibilitando um olhar mais amplo sobre os diversos fatores que abrangem a pessoa idosa. Assim, o aconselhamento e a divulgação de programas de exercícios físicos nos seus diferentes formatos para esse público é um investimento em educação em saúde uma vez que o movimento pode reduzir as fragilidades e favorecer a mudança de comportamento.
Contribuições dos autores
Concepção do estudo: Cleidiane Berto Aguiar, Antônio Prates Caldeira. Coleta de dados: Cleidiane Berto Aguiar. Análise e interpretação dos dados: Cleidiane Berto Aguiar, Antônio Prates Caldeira. Redação do manuscrito: Cleidiane Berto Aguiar, Antônio Prates Caldeira, Rosângela Ramos Veloso Silva. Revisão crítica do manuscrito: Cleidiane Berto Aguiar, Antônio Prates Caldeira, Rosângela Ramos Veloso Silva. Aprovação da versão final do texto: Cleidiane Berto Aguiar, Antônio Prates Caldeira, Rosângela Ramos Veloso Silva.
Conflito de interesse
Os autores declararam que não há conflito de interesse.
Referências
- Betsch C, Wieler LH, Habersaat K, & COSMO group. Monitoring behavioural insights related to COVID-19. Lancet [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 21]; 395(10232):1255-56. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30729-7
- Jiménez-Pavón D, Carbonell-Baeza A, Lavie CJ. Physical exercise as therapy to fight against the mental and physical consequences of COVID-19 quarantine: Special focus in older people. Prog Cardiovasc Dis [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 21]; 63:386-88. DOI: https://doi.org/10.1016/j.pcad.2020.03.009
- Silva Júnior MD. Vulnerabilidades da população idosa durante a pandemia pelo novo coronavírus. Rev Bras Geriatr Gerontol [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 21]; 23(3):e200319. DOI: https://doi.org/10.1590/1981-22562020023.200319
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira. Rio Janeiro: IBGE; [Internet]. 2021[cited 2022 Mar 21]; 210 p. Available from: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101892.pdf
- Silveira TA, Silva Júnior EG, Eulálio MC. Esperança e Qualidade de Vida em Pessoas Idosas. Rev Psicol Saúde [Internet]. 2022[cited 2022 Mar 26]; 14(1):201-214. DOI: http://dx.doi.org/10.20435/pssa.v14i1.1338
- Billett MC, Campanharo CRV, Lopes MCBT, Batista REA, Belasco AGS, Okuno MFP. Functional capacity and quality of life of hospitalized octogenarians. Rev Bras Enferm [Internet]. 2019[cited 2022 Mar 21]; 72(Suppl 2):43-48. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2017-0781
- World Health Organization. Decade of healthy ageing: Plan of action. Geneve: WHO; [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 21]. 31 p. Available from: https://www.who.int/publications/m/item/decade-of-healthy-ageing-plan-of-action?sfvrsn=b4b75ebc_25
- Pinto JM, Fernandes APG, Carvalho MT, Graminha CV, Figueiredo ACA, Walsh IAP. Características socioeconômicas, autoavaliação de saúde e qualidade de vida em mulheres. Rev Fam, Ciclos Vida Saúde Contexto Soc [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 23]; 8(2):210-218. DOI: https://doi.org/10.18554/refacs.v8i2.4526
- Glidden RF, Borges CD, Pianezer AA, Martins J. A participação de idosos em grupos de terceira idade e sua relação com satisfação com suporte social e otimismo. Bol Acad Paul Psicol [Internet]. 2019[cited 2022 Mar 19]; 39(97): 261-275. São Paulo. Available from: https://pepsic.bvsalud.org/pdf/bapp/v39n97/a11v39n97.pdf
- Wu B. Social isolation and loneliness among older adults in the context of COVID-19: a global challenge. Glob Public Health [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 21]; 5(27):1-4. DOI: https://doi.org/10.1186/s41256-020-00154-3
- Novaes CFMN, Wanderley FAC, Falcão IM, Alves RB, LIMA AT, Soares MCB Protocolo de atividade física remoto para grupos de Academia da Saúde e Estratégia da Saúde da Família. Rev Bras Ativ Fis Saúde [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 17]; 25:e0167.Available from: https://rbafs.org.br/RBAFS/article/view/14370/11097
- Fleck MPA, Louzada S, Xavier M, Chachamovich E, Vieira G, Santos L, et al. Aplicação da versão em português do instrumento abreviado de avaliação da qualidade de vida “WHOQOL-Bref”. Rev Saúde Pública [Internet]. 2000[cited 2022 Mar 21]; 34(2):178-183. DOI: https://doi.org/10.1590/S0034-89102000000200012
- Fleck MPA, Chachamovich E, Trentini CM. Development and validation of the portuguese version of the WHOQOL-Old module. Rev Saúde Pública [Internet]. 2006[cited 2022 Mar 21]; 40(5):785-791. DOI: https://doi.org/10.1590/S0034-89102006000600007
- Hämäläinen R-M, Breda J, Gomes FS, Gongal G, Khan W, Mendes R, et al. New global physical activity guidelines for a more active and healthier world: the WHO Regional Offices perspective. Br J Sports Med [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 22]: 54(24): 1449-1450. DOI: https://doi.org/10.1136/bjsports-2020-103531
- Pucci GCMF, Neves EB, Santana FS, Neves DA, Saavedra FJF. Efeito do treinamento resistido e do pilates na qualidade de vida de idosas: um ensaio clínico randomizado. Rev Bras Geriatr Gerontol [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 24]; 23(5):e200283. DOI: https://doi.org/10.1590/1981-22562020023.200283
- Bolina AF, Araújo MC, Hass VJ, Tavares DMS. Associação entre arranjo domiciliar e qualidade de vida de idosos da comunidade. Rev Latinoam Enferm [Internet]. 2021[cited 2022 Mar 21]; 29:e3401. DOI: https://doi.org/10.1590/1518-8345.4051.3401
- Rebêlo FL, Lima NFS, Costa JKO, Santos JCM. Qualidade de vida de participantes de um programa de prevenção de quedas no município de Maceió. Rev Pesqui Fisioter [Internet]. 2021[cited 2022 Mar 21]; 11(1):116-124. DOI: http://dx.doi.org/10.17267/2238-2704rpf.v11i1.3381
- Souza Júnior EV, Viana ER, Cruz DP, Silva CS, Rosa RS, Siqueira RL, et al. Relação entre funcionalidade da família e qualidade de vida do idoso. Rev Bras Enferm [Internet]. 2022[cited 2022 Mar 21]; 75(2):e20210106. DOI: http://doi.org/10.1590/0034-7167-2021-0106
- Peixoto N, Lima LCV, Bittar CML. Percepções sobre qualidade de vida entre idosos que participam de uma Universidade Aberta para Maturidade. Acta Sci [Internet]. 2017[cited 2022 Mar 21]; 39(2):209-216. Available from: https://www.researchgate.net/publication/318867371_Percepcoes_sobre_qualidade_de_vida_entre_idosos_que_participam_de_uma_Universidade_Aberta_para_Maturidade
- Rétsági E, Prémusz V, Makai A, Melczer C, Betlehem J, Lampek K, et al. Association with subjective measured physical activity (GPAQ) and quality of life (WHOQoL-BREF) of ageing adults in Hungary, a cross-sectional study. BMC Public Health [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 21]; 20(Suppl.1):1061. DOI: https://doi.org/10.1186/s12889-020-08833-z
- Rocha SV, Dias CRC, Silva MC, Lourenço CLM, Santos CA. A pandemia de COVID-19 e a saúde mental de idosos: possibilidades de atividade física por meio dos Exergames. Rev Bras Ativ Fis Saúde [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 21]; 25:e0142. DOI: https://doi.org/10.12820/rbafs.25e0142
- Souza Filho BAB, Tritany EF. COVID-19: importância das novas tecnologias para a prática de atividades físicas como estratégia de saúde pública. Cad Saúde Pública [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 21]; 36(5):e00054420. DOI: https://doi.org/10.1590/0102-311X00054420
- Oliveira DV, Peres PM, Moreira CR, Pereira DA, Silva NA, Emanuel Silva SE, et al. Qualidade de vida e capacidade funcional de idosos fisicamente ativos: possíveis relações. Rev Aten Saúde [Internet]. 2022[cited 2022 Mar 26]; 20(71):3-11. DOI: https://doi.org/10.13037/2359-4330.8138
- Gil-Lacruz M, Gil-Lacruz AI, Domingo-Torrecilla P, Cañete-Lairla MA. Health-related quality of life and physical activity in a community setting. Int J Environ Res Public Health [Internet]. 2021[cited 2022 Mar 22]; 18:7301. Available from: https://www.mdpi.com/1660-4601/18/14/7301
- Zutin TLM, Carli FVBO, Menegucci T, Zalbinate MC, Bossoni ACD, Viana KC, et al. Qualidade de vida de idosos institucionalizados em cuidados paliativos. Rev Eletr Acervo Saúde [Internet]. 2020[cited 2022 Mar 24]; 43(Suppl):e2790. DOI: https://doi.org/10.25248/reas.e2790.2020
- Clementino MD, Goulart RMM. Imagem corporal, estado nutricional e qualidade de vida em idosos longevos. Rev Bras Geriatr Gerontol [Internet]. 2019[cited 2022 Mar 24]; 22(6): e190181. DOI: https://doi.org/10.1590/1981-22562019022.190181
Correspondência:
Cleidiane Berto Aguiar
E-mail: cleidianeberto1@gmail.com
Direitos autorais dos autores, 2025. Esta obra está licenciada sob Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. Texto da licença: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt-br



















