Idioma
Percepção materna sobre obstrução de vias respiratórias por corpos estranhos em crianças
Ellen de Araújo Rodrigues Abdala1,
Renata Clemente dos Santos-Rodrigues2,
Ann Gracielle Moreira Gomes3,
João Victor Batista Cabral4,
Maria Helena Marques de Lima5,
Emilly Beatriz Alves Azevedo6,
Elton Douglas Alves da Silva Inácio7,
Keylla Talitha Fernandes Barbosa8
1,2,3,5,6,7,8Universidade Estadual da Paraíba. Campina Grande (PB), Brasil. 4Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa (PB), Brasil.
Introdução
A obstrução das vias aéreas por corpo estranho (OVACE) é uma emergência relativamente comum, com risco potencial de desfechos negativos, como sequelas neurológicas permanentes e morte.1 Caracteriza-se por uma limitação total ou parcial da passagem de ar pelas vias respiratórias, causada por alimentos ou objetos não comestíveis, resultando em variados graus de asfixia e hipóxia. A ausência de oxigênio na corrente sanguínea pode evoluir para parada cardiorrespiratória (PCR), uma emergência cardiológica potencialmente fatal.2-3
Embora todas as faixas etárias sejam suscetíveis ao engasgo, a ocorrência é mais comum entre o público pediátrico. A aspiração de corpo estranho (ACE) resultou em 2.501 óbitos entre os anos de 2013 e 2023, sendo considerada a principal causa de morte por causas externas em crianças menores de seis anos no Brasil. Ao analisar os dados de distribuição etária, observa-se que crianças de um a quatro anos concentram a maioria das hospitalizações por OVACE, sobretudo devido à tendência de explorar objetos com a boca.4-5
A vulnerabilidade infantil está associada ao controle ineficiente da mastigação e deglutição, à ausência de dentição completa e à imaturidade do sistema nervoso autônomo, além do menor calibre das vias aéreas e da realização simultânea de outras atividades durante a alimentação.2-3 O risco de engasgo está relacionado não apenas ao tipo e tamanho do alimento, mas também à idade da pessoa, à quantidade ingerida e à salivação adequada, se apresentando ainda maior com alimentos cujo tamanho se assemelha ao das vias aéreas, especialmente quando não mastigados adequadamente. Características como consistência, textura e formato, especialmente alimentos grandes, redondos, escorregadios, cilíndricos, duros, pegajosos, fibrosos ou compressíveis, aumentam o risco de engasgo, exigindo supervisão constante durante a alimentação.2-4
O episódio de engasgo pode ser testemunhado ou relatado, sendo caracterizado por tosse e/ou sinais evidentes de sufocação, como dificuldade respiratória associada à tosse persistente, vômito, respiração ruidosa, afonia, agitação, ansiedade e o clássico gesto de levar as mãos ao pescoço. A partir da identificação, é necessário avaliar a gravidade da obstrução, que pode ser classificada como leve ou grave.3,6
A obstrução leve é caracterizada pela manutenção da capacidade de resposta, fala, tosse e respiração. Já na obstrução grave, o indivíduo permanece consciente, porém incapaz de falar, podendo apresentar respiração ruidosa, tosse silenciosa e, eventualmente, perda de consciência.3,6-7 Em casos de obstrução leve, a conduta recomendada é o incentivo à tosse vigorosa, monitoramento contínuo e, se necessário, oferta de oxigênio. No entanto, diante da progressão para obstrução grave, a execução imediata da manobra de Heimlich é essencial.7
Apesar de apresentar alto potencial de letalidade, esse tipo de emergência é evitável e pode ser revertido com intervenção rápida por pessoas leigas que presenciem o evento. Ao considerar que a mãe é, na maioria das vezes, a principal cuidadora nos primeiros anos de vida, é fundamental que esteja apta a realizar manobras que possibilitem a desobstrução das vias aéreas. Contudo, os conhecimentos sobre primeiros socorros ainda são pouco difundidos entre a população geral, sendo restritos a pequenos grupos, especialmente entre profissionais da saúde.8
Torna-se essencial, portanto, ampliar a disseminação de informações sobre a identificação precoce e o manejo adequado da obstrução das vias aéreas, bem como estratégias de prevenção do acidente. O momento ideal para essas orientações é durante o pré-natal, visto que a preparação prévia pode reduzir os custos com internações, as intervenções de emergência e, sobretudo, o número de sequelas e/ou óbitos. Investindo-se em estratégias educativas, buscando reduzir os altos gastos da saúde pública com internações e consequentes intervenções, além de diminuir o número de sequelas e/ou óbitos decorrentes.9
No âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), o enfermeiro exerce papel central nas ações de educação em saúde, por estabelecer vínculos de confiança, esclarecer dúvidas e manter contato direto com a gestante ao longo do pré-natal. É sua atribuição orientar sobre questões relacionadas à gravidez, ao puerpério e aos cuidados com o recém-nascido, incluindo a possibilidade de ocorrência de OVACE e os primeiros socorros adequados. Além disso, a conscientização sobre comportamentos preventivos e condutas de risco pode colaborar para reduzir a incidência desses episódios.10
A OVACE representa um relevante desafio para a saúde pública em nível mundial, exigindo medidas eficazes para sua prevenção. Como a vigilância da criança é comumente atribuída à mãe, responsável pelo fornecimento de alimentos e supervisão, é imprescindível capacitá-la para intervir prontamente em situações de engasgo, seja este provocado pela ingestão de alimentos ou pela introdução de objetos na cavidade oral. Objetiva-se, assim, investigar a percepção de mães sobre a prevenção, identificação e manejo da obstrução de vias aéreas por corpo estranho.
Método
Trata-se de uma pesquisa exploratória, descritiva, com abordagem qualitativa, desenvolvida a partir de dados primários. Como a pesquisa qualitativa permite compreender percepções subjetivas, relações sociais e experiências vividas, optou-se por essa abordagem analítica. O estudo foi conduzido de acordo com as diretrizes preconizadas pelos Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ).
A pesquisa foi desenvolvida em uma unidade da Estratégia de Saúde da Família (ESF) no município de Campina Grande, Paraíba. Localizado no agreste paraibano, o município é considerado a segunda cidade mais populosa do interior do Nordeste, com aproximadamente 440.939 habitantes.11 Após a seleção da unidade de saúde, realizada por conveniência, as pesquisadoras entraram em contato com a enfermeira responsável para apresentar os objetivos do estudo e agendar as entrevistas.
Participaram da pesquisa mulheres com filhos de até quatro anos de idade, adscritas à ESF selecionada. Foram entrevistados 11 indivíduos que atenderam aos seguintes critérios de inclusão: ser mãe de, no mínimo, uma criança com idade igual ou inferior a quatro anos e estar cadastrada na unidade de saúde onde a investigação foi conduzida. Foram excluídas as participantes com experiência profissional na área da saúde, como enfermeiras, médicas, fisioterapeutas, doulas, entre outras, bem como mães cujos filhos apresentassem condições clínicas que exigissem conhecimento específico em primeiros socorros para situações de engasgo.
A seleção das participantes ocorreu por conveniência, com o auxílio da enfermeira responsável. O número de participantes foi definido com base na técnica de saturação dos dados, momento em que se identificou a recorrência nos discursos e a ausência de novos elementos significativos.12 Após leitura exaustiva dos relatos, os pesquisadores consideraram que os objetivos do estudo haviam sido alcançados e que a questão norteadora fora devidamente respondida. Ressalta-se, ainda, que não houve recusas ou desistências durante o desenvolvimento da pesquisa.
A coleta dos depoimentos foi realizada entre os meses de agosto e outubro de 2024, nas dependências da unidade de saúde, em ambiente reservado que garantiu a privacidade das participantes. Na ocasião, as pesquisadoras, discentes do curso de Enfermagem, convidaram as mães que buscavam atendimento presencial na ESF a participar do estudo. Inicialmente, eram esclarecidos os objetivos, riscos e benefícios da pesquisa e, caso a mulher aceitasse participar, era realizado o agendamento da data e do horário para a condução das entrevistas, respeitando sua disponibilidade. É oportuno destacar que apenas duas mães que foram convidadas se recusaram a participar da pesquisa.
Para viabilizar a coleta de dados, foi desenvolvido um instrumento semiestruturado, elaborado pelos pesquisadores, que compreendia questões relativas à caracterização socioeconômica, como sexo, idade, cor, nível de escolaridade, ocupação e renda familiar, bem como três questões disparadoras sobre experiências e conhecimentos relacionados aos primeiros socorros diante da obstrução das vias respiratórias por corpo estranho.
As interações foram registradas por meio de gravação de voz em aparelho celular, mediante consentimento prévio das entrevistadas. O tempo médio de cada entrevista foi de aproximadamente 20 minutos. Todas as entrevistas foram transcritas na íntegra, e os discursos foram revisados por dois pesquisadores independentes. Para assegurar o sigilo e preservar a identidade das participantes, os depoimentos das mães entrevistadas foram identificados por pseudônimos, selecionados a partir de nomes de flores.
A análise dos dados seguiu as etapas preconizadas pela análise de conteúdo, conforme proposta por Bardin13, compreendendo: pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados obtidos e interpretação inferencial. Esse processo metodológico permitiu uma imersão aprofundada no corpus textual, favorecendo a classificação, organização e sistematização dos dados. As unidades de sentido foram agrupadas com base nas convergências e divergências identificadas nos relatos das participantes, o que possibilitou a construção de categorias temáticas representativas do fenômeno investigado.
Para auxiliar o processamento dos dados, foi utilizado o software para análise de dados textuais em pesquisa qualitativa IRAMUTEQ (Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires). Definiu-se a Classificação Hierárquica Descendente (CHD), a qual se trata de um tipo de análise de conglomerados inseridos no corpo do texto, possibilitando a formação de classes conforme a associação das palavras.
A pesquisa foi conduzida em conformidade com as Diretrizes e Normas Regulamentadoras previstas na Resolução nº 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), vinculada ao Ministério da Saúde, a qual estabelece os preceitos éticos e legais aplicáveis às pesquisas envolvendo seres humanos no Brasil. A participação foi voluntária, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). O estudo obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo Seres Humanos da Universidade Estadual da Paraíba (CEP-UEPB), sob o parecer nº 6.897.903.
Resultados
O estudo contou com a participação de 11 mães, sendo a média de idade de 29 anos e 7 meses. A maioria se autodeclarou branca (n = 6; 54,6%) ou parda (n = 5; 45,4%). Quanto à escolaridade, observou-se que 54,5% (n = 6) referiram ter ensino superior completo ou em andamento; 18,2% (n = 2) declararam ter ensino médio completo; 9,1% (n = 1) relataram possuir o ensino médio incompleto; e 18,2% (n = 2) indicaram ter o ensino fundamental incompleto.
No que se refere à ocupação, houve predominância de mulheres que se dedicam às atividades domésticas ou que são estudantes (n = 7; 63,6%). Algumas participantes desempenhavam atividades profissionais formais, como professora (n = 1; 9,1%), contadora (n = 1; 9,1%), analista socioambiental (n = 1; 9,1%) e profissional de educação física (n = 1; 9,1%). A renda mensal das participantes variava amplamente, com algumas recebendo benefícios sociais, como o Bolsa Família, e outras com rendimentos entre valores inferiores a um salário-mínimo (n = 4; 36,3%) e até três salários-mínimos mensais (n = 1; 9,1%).
No contexto familiar, todas as participantes possuíam pelo menos um filho, com a quantidade variando entre um (54,5%), dois (27,2%), três (9,1%) e quatro filhos (9,1%). Esse panorama geral destaca a pluralidade de perfis presentes no estudo, abrangendo diferentes níveis de escolaridade, condições econômicas e contextos familiares.
Ao analisar os discursos, emergiram 105 segmentos de texto, sendo retidos 85 para a Classificação Hierárquica Descendente, o que corresponde a uma taxa de retenção de 80,95%. Além disso, foram geradas 3.508 ocorrências, das quais 474 corresponderam a formas ativas e 83 a formas suplementares. O conteúdo léxico organizou-se em sete classes, conforme apresentado no dendrograma da Figura 1.

Figura 1 - Dendrograma do corpus textual referente às respostas da entrevista, Campina Grande (PB), Brasil, 2024.
Após a análise dos trechos, foram definidas as seguintes classes: 1) A sutileza do engasgo e a fragilidade do instante; 2) Entre orientações e convicções; 3) Frente a frente com a criança engasgada: e agora?; 4) Engasgo e alimentação: entre o sustento e o risco; 5) Ciclos da infância e a propensão ao engasgo; 6) Preocupações maternas; e 7) Os saberes descritivos acerca da manobra. Na Figura 2, apresenta-se o diagrama representativo das classes, com suas respectivas palavras, frequências e valores de qui-quadrado (χ²), ou seja, a representação visual dos termos indica as semelhanças linguísticas existentes entre eles.

Figura 2 - Diagrama das classes integrantes do dendrograma do corpus textual referente às entrevistas, Campina Grande (PB), Brasil, 2024.
Por meio da organização do dendrograma e da visualização do diagrama, é possível observar que as classes 6 (Preocupações maternas) e 1 (A sutileza do engasgo e a fragilidade do instante) estão fortemente relacionadas ao objetivo do estudo, uma vez que abordam a identificação, prevenção e manejo da obstrução das vias respiratórias por corpos estranhos. Dessa forma, emergem três subcorpus: o subcorpus A, formado pelas classes 1 (A sutileza do engasgo e a fragilidade do instante) e 6 (Preocupações maternas); o subcorpus B, formado pelas classes 2 (Entre orientações e convicções), 3 (Frente a frente com a criança engasgada: e agora?) e 7 (Os saberes descritivos acerca da manobra); e o subcorpus C, composto pelas classes 4 (Engasgo e alimentação: entre o sustento e o risco) e 5 (Ciclos da infância e a propensão ao engasgo).
Ao considerar o conteúdo temático dos respectivos subcorpus textuais, foi possível elencar três categorias temáticas centrais, a saber: Categoria I (subcorpus A): Prevenção em cada gesto: o cuidado vigilante das mães contra o engasgo infantil; Categoria II (subcorpus B): Entre o saber e o instinto: a percepção materna frente ao engasgo infantil; e Categoria III (subcorpus C): Saber e insegurança: o dilema materno no manejo do engasgo infantil.
Quadro 1 - Correlação entre as classes, subcorpus e categorias. Campina Grande (PB), Brasil, 2024.
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Classe |
Subcorpus |
Categorias |
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Classe 1 - A Sutileza do engasgo e a fragilidade do instante Classe 6 - Preocupações maternas |
A |
Categoria I - Prevenção em Cada Gesto: O Cuidado Vigilante das Mães Contra o Engasgo Infantil |
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Classe 2 - Entre orientações e convicções Classe 3 - Frente a frente com criança engasgada. E agora? Classe 7 - Os saberes descritivos acerca da manobra |
B |
Categoria II - Entre o saber e o instinto: A percepção Materna Frente ao Engasgo Infantil |
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Classe 4 - Engasgo e Alimentação, entre o sustento e o risco Classe 5 - Ciclos da infância e a propensão ao engasgo |
C |
Categoria III - Saber e Insegurança: O Dilema Materno no Manejo do Engasgo Infantil. |
Categoria I (subcorpus A) - Prevenção em Cada Gesto: O Cuidado Vigilante das Mães Contra o Engasgo Infantil
Essa grande categoria buscou investigar quais ações as mães adotam na tentativa de evitar que seus filhos se engasguem. Conforme os depoimentos, as mães afirmam que:
Assisti aula ao vivo e tudo mais, era o medo do primeiro filho. Eu converso muito com ele, mostro tudo o que é pequenininho não pode colocar na boca, eu ainda tenho cuidado com os alimentos. Fico olhando ele comer e tudo mais, pra mastigar bem. (Bromélia)
Um doce, alguma coisa corre o risco tudo corre o risco. É prestar atenção no que eles estão na boca quando ele está comendo, com sede bebendo água... tudo isso tem que prestar atenção, não deixar brinquedinho pequeno perto. Eu falo com eles não coloque e presto atenção principalmente a mais pequenininha que já colocou bilha na boca (bola de gude). (Dália)
Não dou coisa tão mole não, dou coisa tão seca que eu tenho medo dele se engasgar e geralmente ele come coisa líquida. (Flor de Lótus)
Eu sempre dou as coisas pequenininhas, se eu puder machucar eu machuco, se eu puder cortar, eu corto também e a água também eu dou a ele pra ele mesmo tomar e não se engasgar. (Girassol)
Categoria II (subcorpus 2, 3 e 7) - Entre o saber e o instinto: A percepção Materna Frente ao Engasgo Infantil
Essa categoria englobou os conhecimentos das mães relacionados ao reconhecimento das manifestações clássicas apresentadas pelas crianças no momento do engasgo. Conforme relatos:
Você nota que a pessoa não tá respirando pode ficar roxa a boca dela pretinha. (Bromélia)
Sufocada tentando respirar e sem conseguir agoniada. (Dália)
Falta de ar começar a ficar vermelho o olho aberto acho que as mãos balançando. (Flor de Lótus)
Ficar vermelho, ficar com dificuldade de respirar ou não respirar... não emite sons. (Hortênsia)
Categoria III (subcorpus 4 e 5) - Saber e Insegurança: O Dilema Materno no Manejo do Engasgo Infantil.
A partir dos depoimentos pôde-se identificar que a maioria das mães têm conhecimento prévio das medidas iniciais a serem tomadas. Entretanto, as participantes destacaram ainda a insegurança em realizar a manobra, segundo as falas abaixo:
Minha mãe sempre fala que a gente pega ela coloca ela de “papo pra baixo” pra que ela não chegue a se engasgar da forma que se engasgue de morrer como diz o povo. Eu coloquei ela cabeça, de papo pra baixo aí aliviou e eu mexi nas costinhas dela só isso mesmo esfreguei bem forte. (Angélica)
Depende da idade porque eu conheço a que você coloca ela no braço e da leve palmadinha e vira e verifica. acho que da idade de 4 anos se ajoelha na frente dele faz tipo em adulto só que mais leve. minha mãe mesmo se vier uma pessoa engasgada ela vai logo com um tapa nas costa sabe aí eu fico com medo disso as mais antigas assim acabam passando pras mães mais novas isso. (Bromélia)
Meu marido chegava e ele chupava lá o nariz era o que podia fazer na hora. (Dália)
Acho que não, eu consigo manter a tranquilidade só acho que eu não conseguia ficar com ele (filho). É questão de segundos assim qualquer coisa engasga eu tenho muito medo eu acho que todo mundo deveria aprender porque evitava por que depois que engasga é tão pouco tempo pra você resolver não dá tempo chegar socorro não dá tempo nada. (Rosa)
Discussão
A obstrução das vias aéreas por aspiração de corpos estranhos é uma emergência respiratória que requer intervenção imediata. Em acidentes presenciados nos quais não foram adotadas medidas de primeiros socorros antes da assistência médica especializada, foi relatado um aumento na ocorrência de desfechos neurológicos desfavoráveis, em comparação com eventos em que o objeto foi removido pelo próprio observador.14
Embora possa ocorrer em qualquer faixa etária, as crianças são particularmente vulneráveis ao evento emergencial, sobretudo aquelas com idade inferior a dois anos, uma vez que tendem a explorar o ambiente ao seu redor, principalmente por meio de estímulos sensoriais, utilizando o paladar e o tato. Esse comportamento aumenta o risco de engasgo, pois, embora possuam habilidades motoras finas suficientes para levar objetos à boca, apresentam mecanismos de deglutição imaturos e uma árvore traqueobrônquica de diâmetro reduzido, o que eleva o risco de obstrução das vias respiratórias.15
Estudo retrospectivo conduzido com 163 pacientes pediátricos diagnosticados com aspiração de corpo estranho (ACE) demonstrou que os alimentos foram os itens mais frequentemente aspirados (78%), com destaque para nozes, amendoins e sementes, seguidos por moedas (10%), pilhas (3,7%), peças de brinquedos (4%), botões (2,4%) e outros (2%). Essa alta incidência pode estar associada à capacidade limitada de mastigação em crianças, decorrente do desenvolvimento incompleto dos dentes molares, bem como a fatores motores e comportamentais próprios da faixa etária.16 Esses achados reiteram a relevância da supervisão materna durante a alimentação infantil, destacando seu papel na prevenção de incidentes e na promoção de práticas alimentares seguras.
A adoção de um comportamento materno vigilante e protetivo é especialmente importante para a identificação precoce da obstrução. Ao analisar os discursos das participantes do presente estudo, observou-se que as mães relataram os principais sinais de dificuldade respiratória, tais como alteração na coloração da pele, especialmente cianose em face e boca, além de manifestações de sufocamento, como olhos arregalados e gestos com as mãos. Esses relatos evidenciam um conhecimento empírico por parte das cuidadoras, o que contribui para o reconhecimento inicial do engasgo, ainda que de forma limitada.
A aspiração de corpo estranho apresenta uma variedade de manifestações clínicas, especialmente em crianças. O grau de dificuldade será determinado por diversos fatores, incluindo a idade do paciente, o tipo de corpo estranho ingerido e o intervalo entre a obstrução e a remoção.17 As manifestações clínicas relacionadas à presença de corpo estranho nas vias aéreas podem variar conforme a localização do objeto, abrangendo desde tosse de início súbito, dificuldade respiratória e asfixia até quadros assintomáticos.18
Pesquisa retrospectiva realizada em um hospital do Chile identificou que 100% dos pacientes avaliados com obstrução de vias aéreas por corpo estranho (OVACE) apresentaram algum sintoma respiratório. O estridor foi o sinal mais frequente (38%), seguido por sibilância (31%) e dificuldade respiratória (23%).18 A literatura aponta que esses sintomas são comuns na maioria dos casos de obstrução das vias aéreas, corroborando os relatos das mães entrevistadas, que demonstraram percepção básica dos sinais de alerta, como cianose, expressão de sufocamento e agitação.16-18
Além de possuir conhecimento adequado sobre primeiros socorros, é necessário que as mães apresentem uma atitude positiva em relação à aspiração de corpos estranhos. O engasgo emergiu nas falas das mães entrevistadas como um evento marcado pelo medo e pela insegurança diante das condutas imediatas a serem adotadas, especialmente quando a situação envolve os próprios filhos.
As características do temperamento afetivo ansioso materno podem afetar suas habilidades parentais, influenciando negativamente a adoção de medidas voltadas aos primeiros socorros, o que acarreta riscos à aspiração de corpo estranho (ACE).19 O puerpério é um período delicado, marcado por diversas alterações no cotidiano feminino, como dúvidas, preocupações emergentes e possíveis riscos à saúde. Além disso, pode haver intensificação de sentimentos como irritabilidade, medo e frustração frente ao novo cenário da maternidade, o que pode comprometer negativamente a capacidade de resposta diante de emergências respiratórias.20
Estudo realizado com puérperas de um município de São Paulo mostrou que, das 50 mulheres entrevistadas, 22 (44%) informaram não saber como desengasgar uma criança, 20 (40%) referiram ter conhecimento para executar a manobra de Heimlich e apenas 8 (16%) relataram possuir pouco conhecimento. Quanto à insegurança, a mesma pesquisa evidenciou que mais da metade das participantes (52%) mencionou não se sentir preparada para realizar tal ato, o que se assemelha aos relatos do presente estudo. A insegurança e o medo em situações críticas prevalecem, levando à busca por ajuda externa em vez de intervenções diretas e precoces.20
A ausência de preparo técnico para a realização de manobras de desengasgo acentua o sentimento de impotência e vulnerabilidade diante de situações de emergência, o que reforça a importância de capacitações específicas para a condução de emergências respiratórias em crianças. Os achados do presente estudo revelam as estratégias e reações adotadas pelas cuidadoras diante de episódios de engasgo infantil, destacando a prevalência de práticas intuitivas e de saberes transmitidos por familiares e amigos ao longo de gerações. Entre as ações mais comumente mencionadas, destaca-se colocar a criança de bruços e bater em suas costas.
Diante de uma obstrução, órgãos internacionais como o European Resuscitation Council (ERC)21, a American Heart Association (AHA)22 e o Australian and New Zealand Committee on Resuscitation (ANZCOR)23 preconizam a adoção das manobras de desengasgo.24 A técnica consiste em aplicar tapas com a base da mão entre as escápulas da criança, de zero a dois anos de idade, enquanto se mantém o corpo inclinado para frente e direcionado para o solo. Acredita-se que os golpes nas costas criem uma forte vibração de ar e aumentem a pressão intratorácica nas vias aéreas, o que contribui para desalojar a obstrução.21-24
Outra medida importante são os impulsos abdominais, conhecidos como manobra de Heimlich, que consistem na aplicação de pressão na região epigástrica, localizada na parte inferior do diafragma. O socorrista deve se posicionar por trás da vítima, que deve estar levemente inclinada para frente, e realizar a compressão do abdômen para dentro e para cima, utilizando uma das mãos.7 Adicionalmente, também podem ser instituídas as compressões torácicas, realizadas com o socorrista abraçando a vítima por trás e utilizando o punho fechado para pressionar a metade inferior do esterno. Ambas as técnicas têm como objetivo aumentar a pressão intratorácica e facilitar a eliminação do corpo estranho.7,25
Embora haja consenso quanto à importância das técnicas de desobstrução das vias aéreas, existem divergências nas literaturas especializadas sobre a forma de realizá-las. Em casos de OVACE com vítima consciente, a American Heart Association (AHA) recomenda posicionar o bebê de cabeça para baixo e realizar a combinação de cinco golpes nas costas e cinco compressões no peito. Para crianças, são indicadas as compressões abdominais, conhecidas como manobra de Heimlich.22
Já a Korean Association of Cardiopulmonary Resuscitation26 descreve que a combinação de cinco golpes nas costas e cinco compressões no peito deve ser aplicada em bebês. No entanto, para crianças com idade igual ou superior a oito anos, as compressões abdominais devem ser instituídas apenas se os golpes nas costas se mostrarem ineficazes. Em pacientes com obstrução das vias aéreas e que se encontrem inconscientes, devem ser instituídas medidas de suporte básico de vida.26
Outras técnicas também são descritas, com destaque para o incentivo à tosse em crianças conscientes e engasgadas com tosse eficaz, o que sugere uma obstrução parcial. Contudo, em situações críticas, essa medida pode ser insuficiente devido à menor força respiratória infantil e à possibilidade de atraso na adoção de intervenções mais eficazes, como os golpes nas costas.7,24 A compreensão limitada das crianças diante da emergência também pode dificultar a aplicação dessa estratégia. A varredura digital cega da orofaringe é desaconselhada, devido ao risco de trauma, epiglotite traumática, agravamento da obstrução e ineficácia em casos de corpos estranhos localizados na traqueia ou na laringe.7,24-25
Além do conhecimento das técnicas de primeiros socorros, é imperativo instituir medidas de prevenção. No que diz respeito à alimentação, os resultados da pesquisa indicam que a preocupação das mães está centrada na adequação do tipo e da consistência dos alimentos à idade e à capacidade mastigatória das crianças, sendo comum a supervisão dos filhos durante as refeições, bem como a orientação sobre a mastigação e a ingestão hídrica de forma independente. A presença materna durante a ingestão de alimentos pode favorecer a identificação precoce de episódios de engasgo e proporcionar maior agilidade na resolução de eventos emergenciais, contribuindo para uma alimentação mais segura.27
Nesse contexto, a prática de restringir o acesso a pequenos objetos constitui uma estratégia amplamente adotada pelas participantes, visando à prevenção de acidentes. Tal abordagem protetiva inclui ações como a remoção de itens potencialmente perigosos do alcance das crianças e a orientação para que esses objetos não sejam levados à boca, evidenciando um comportamento preventivo integrado ao cotidiano familiar.28
As pilhas e moedas, por serem pequenos objetos frequentemente presentes no ambiente doméstico, representam um risco potencial à saúde infantil. Dada sua fácil acessibilidade e atratividade para crianças pequenas, é fundamental que esses itens sejam mantidos fora de alcance, especialmente considerando seu elevado potencial lesivo em caso de ingestão ou aspiração. Assim, a adoção de estratégias preventivas, como o controle rigoroso do acesso a brinquedos que utilizam pilhas e a supervisão constante durante o manuseio de objetos de diâmetro reduzido, configura-se como medida essencial para a prevenção de acidentes evitáveis.27-28
É indiscutível o impacto do conhecimento na segurança e autonomia em realizar as técnicas de primeiros socorros. Porém, as orientações sobre a temática ainda são incipientes, sobretudo durante a gestação e puerpério, sendo muitas vezes negligenciadas nos serviços de atenção primária à saúde, os quais priorizam aspectos clínicos da gestação.29 Essa lacuna compromete a preparação materna para o cuidado pós-natal, evidenciando a necessidade de um pré-natal mais abrangente, que considere o acolhimento, o vínculo e as demandas reais das gestantes, além fortalecimento da confiança das mães diante de situações emergenciais, promovendo um ambiente mais seguro para o recém-nascido.30
A atuação do enfermeiro se destaca como essencial nesse contexto, tanto por seu papel de educador em saúde quanto pela capacidade de desenvolver estratégias pedagógicas eficazes, como oficinas e orientações individualizadas nas consultas. A inclusão sistemática do tema primeiros socorros no pré-natal, mediada por esse profissional, tem potencial para reduzir internações e óbitos evitáveis.
Embora aborde questões relevantes sobre a temática, o presente estudo apresenta algumas limitações. Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, a generalização dos resultados é limitada, uma vez que os achados referem-se a um contexto específico e a um grupo populacional selecionado por conveniência, o que pode restringir a diversidade de experiências sobre o fenômeno estudado. Ademais, durante a execução da pesquisa, não foi possível transcrever os achados em tempo hábil para que as participantes validassem seus discursos. Assim, o processo de interpretação dos dados está sujeito à influência subjetiva dos pesquisadores, ainda que medidas de rigor, como a triangulação e a validação entre pesquisadores, tenham sido adotadas para minimizar possíveis vieses.
Considerações Finais
Os achados deste estudo revelam que, embora relatem um conhecimento técnico-científico ainda incipiente, as mães demonstram cuidado e vigilância constantes na prevenção de eventos emergenciais. Entre as ações adotadas, destacam-se a supervisão atenta durante a alimentação, a seleção criteriosa dos alimentos e a restrição ao acesso de objetos pequenos. Tais práticas derivam, em sua maioria, de saberes empíricos adquiridos por meio de experiências prévias e orientações informais, evidenciando a importância da educação em saúde como estratégia fundamental para a prevenção de acidentes na infância.
Adicionalmente, o estudo evidenciou que, apesar de reconhecerem os sinais clássicos do engasgo, muitas mães relataram insegurança quanto à realização das manobras de desobstrução, sobretudo diante da urgência e da gravidade da situação. Diante disso, torna-se necessário ampliar o acesso a capacitações práticas e contínuas, capazes de fortalecer a confiança e a autonomia materna no manejo de emergências.
A adoção de ações educativas durante as consultas pré-natais e puerperais pode contribuir significativamente para a disseminação do conhecimento, promovendo maior segurança e assertividade na adoção das condutas recomendadas. Nesse contexto, o papel dos profissionais de saúde é essencial, sendo fundamental a implementação de estratégias como rodas de conversa, oficinas práticas, uso de materiais educativos impressos e abordagens em sala de espera, que favoreçam a construção de saberes e práticas seguras no cuidado infantil.
Contribuições dos autores
Concepção do estudo: Ellen de Araujo Rodrigues Abdala. Data collection: Ellen de Araujo Rodrigues Abdala, Maria Helena Marques de Lima, Emilly Beatriz Alves Azevedo e Elton Douglas Alves da Silva Inácio. Análise e interpretação dos dados: Keylla Talitha Fernandes Barbosa. Redação do manuscrito: Renata Clemente dos Santos Rodrigues. Revisão crítica do manuscrito: Ellen de Araujo Rodrigues Abdala e Renata Clemente dos Santos Rodrigues. Aprovação da versão final do texto: Ann Gracielle Moreira Gomes e João Victor Batista Cabral.
Conflito de Interesses
Os autores declararam que não há conflito de interesses.
Referências
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Autor Correspondente
Ellen de Araujo Rodrigues
E-mail: ellenabdala@gmail.com
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