Letramento em saúde nas práticas de saúde: não mais prescritivas e sim coprodutoras de cuidados
DOI:
https://doi.org/10.5205/1981-8963.2025.265756Palavras-chave:
Letramento em Saúde, Determinantes Sociais de Saúde, EnfermagemResumo
Com a nova perspectiva teórica da complexidade para entender-se LS para a prática e a pesquisa, abandona-se a perspectiva positivista3, resultando no entendimento de que é necessário superar a mera classificação e prescrição para os usuários. Isto coaduna-se com a concepção de que educar para a saúde é uma prática emancipatória e uma experiência de vida libertadora em qualquer forma de LS (individual, familiar, comunitário, eletrônico, digital etc.) quando implantamos esta prática centrada na pessoa/paciente e estrutura na equação: usuário + profissionais de saúde + organizações de saúde responsivas ao LS.
Atualmente, mesmo com a crescente atenção dada ao cuidado centrado na pessoa e em seu envolvimento com tal cuidado, tanto no nível político quanto prático, a literatura tem negligenciado o papel dos serviços de saúde para realizá-lo no âmbito do LS. A maior parte da atenção tem sido dada às competências de LS dos indivíduos para acessar, compreender e usar as informações de saúde, a fim de navegar efetivamente no sistema de serviços de saúde.4 Desde 2016, a OMS5 considera o LS como um determinante social da saúde (DSS) e não unicamente uma habilidade cognitiva. Enquanto um DSS, o LS impacta os resultados em saúde, mas não deve ser tratado como apenas uma competência fixa individual, em que os recursos distribuídos e disponíveis em sua rede social devem ser considerados.6
É importante ressaltar que essa nova perspectiva conceitual de LS possui dois aspectos principais: (a) as habilidades em acessar, entender, avaliar e usar informações em saúde que os usuários/comunidades adquirem ao longo da vida e (b) a organização dos serviços de saúde para tornar os serviços e as informações de saúde acessíveis para que usuários/comunidades possam usar ambos para melhorar sua saúde.7 Essa perspectiva, requer mudanças no fazer saúde exclusivamente prescritivo, abrindo espaço para práticas coprodutivas de saúde com as quais os profissionais de saúde/serviços de saúde e usuários/comunidades colaboram no processo de cuidado.
A coprodução da saúde é definida como “o trabalho interdependente de usuários e profissionais que estão criando, projetando, produzindo, entregando, avaliando e reavaliando os relacionamentos e ações que contribuem para a saúde de indivíduos e populações”.2,8 Ela traz consigo uma nova na lógica de fazer saúde, embasada na voz de usuários/comunidades, para melhoria do cuidado prestado. Isto é, o cuidado é realizado com eles e para eles.
A coprodução de conhecimentos para assistência à saúde rejeita o modelo conduzido unicamente pelos profissionais de saúde no processo de entrega de serviços, o qual caracteriza os usuários/comunidades como meros recipientes de assistência. Em vez disso, este novo modelo de entender-se LS, defende que os usuários possuem um conjunto crítico de saberes. Porém, esse conhecimento não é explorado, limitando sua participação no funcionamento do sistema de serviços de saúde.4 Nesse sentido, os serviços de saúde devem implementar estratégias eficazes e baseadas em evidências para usuários/comunidades e para o contexto organizacional, de maneira a propiciar a tomada de decisões informadas sobre saúde e promovendo uma experiência de cuidado mais personalizada. Práticas de saúde guiadas pelo processo de coprodução colaborativa e participativa geram resultados sociais e científicos, contribuindo para a resolução de problemas complexos de saúde pública.9
Nesse cenário, LS individual e LS organizacional são dois requisitos essenciais para coprodução dos serviços de saúde. O desenvolvimento do LS com o engajamento de profissionais de saúde em envolver usuários/comunidades em parcerias que valorizam a coprodução de saúde pode resultar em maior qualidade, segurança e equidade no cuidado e aprendizado coletivo, entre outros.10 Por um lado, tanto serviços como profissionais devem: (a) desenvolver uma visão organizacional compartilhada sobre LS; (b) preocupar-se com a incorporação de ações concretas de LS nas políticas organizacionais; (c) identificar os líderes de LS para promover o comprometimento organizacional para atender às necessidades especiais de informação dos usuários/comunidades com diversificação de condições de LS; e (d) engajar profissionais de saúde nas iniciativas que visam à realização da coprodução de serviços de saúde.4
Portanto, a interação entre LS (individual/comunitário e organizacional) e a coprodução de serviços de saúde deve ser examinada nos níveis macro (sistemas de saúde), meso (serviços de saúde) e micro (relacionamentos paciente-profissional), a fim de implementar um ecossistema de serviços de saúde que se retroalimenta - quanto mais engajados estiverem usuários/comunidades maior será sua contribuição para construção de serviços de saúde mais eficazes.
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