Experiências de homens adultos em processo criminal por violência conjugal sobre autocuidado e saúde: estudo qualitativo

Fernanda Araújo Valle Matheus1, Andrey Ferreira da Silva2, Selton Diniz dos Santos3, Nadirlene Pereira Gomes4, Anderson Reis de Sousa5, Júlia Renata Fernandes de Magalhães6

1,3Universidade Estadual de Feira de Santana. Feira de Santana (BA), Brazil. 2Universidade Federal de Alagoas. Arapiraca (AL), Brazil. 4,5Universidade Federal da Bahia. Salvador (BA), Brasil. 6Universidade Estadual of Bahia. Guanambi (BA), Brazil.

Introdução

O cuidado e a produção do cuidado à saúde dos homens vêm sendo discutidos em políticas públicas, seja pela escassa procura aos serviços de saúde pelo público masculino, pela necessidade de estimulá-los a assumir comportamentos promotores de saúde, revendo construções e padrões de masculinidades, ou pelo alto índice de morbimortalidade por condições evitáveis, que são, em sua maioria, consequência de causas externas, com significativa expressão da violência.1

No cenário nacional, em relação às ações de saúde voltadas a esse fenômeno, foi criada em 2008 a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), articulada para alcançar a igualdade de gênero na saúde, aproximando e estimulando a participação desses usuários em ações de saúde, constituindo-se como um marco sócio-histórico e político na América Latina, sendo a primeira com esse enfoque, que passou a incorporar o conceito de gênero.2 A implementação dessa política estabeleceu a definição de eixos prioritários de ações, agrupados em áreas temáticas, que contemplam: acesso e acolhimento; doenças prevalentes na população masculina; saúde sexual e reprodutiva; paternidade e cuidado; promoção da saúde e prevenção de violências e acidentes.2

Apesar da criação da política e da sua estruturação nos eixos prioritários, há uma lacuna quanto à busca dos serviços de saúde pelos homens, evidenciada pela expectativa de vida masculina inferior à feminina, resultando em elevada incidência de adoecimento masculino.3 Esses dados são influenciados pela presença, na construção social dos homens, de marcadores identitários que regem o comportamento masculino, tais como a força, o domínio e a virilidade, sendo esses apontados como elementos que permitem compreender a resistência por parte dos homens1 em reconhecer suas necessidades de saúde, podendo resultar na produção de violências, principalmente na conjugalidade.4

Diante desse cenário, parte dos homens, em especial aqueles que estão vivenciando cenários de violência conjugal como autores, subestimam o adoecimento ou não buscam esses equipamentos de saúde por receio de serem denunciados e de sofrerem sanções jurídico-policiais.5 Independentemente da interface com a violência conjugal, são as situações emergenciais que geralmente aumentam a procura masculina aos serviços de saúde, justamente quando necessitam de atendimentos de média e alta complexidade ou cuidados intensivos, o que justifica os maiores índices de morbimortalidade desse público1 e a necessidade de ações preventivas e de promoção da saúde, inclusive relacionadas ao reconhecimento de relações abusivas na esfera conjugal que repercutem direta ou indiretamente na sua saúde e qualidade de vida. Alguns estudos relataram que a perpetração da violência conjugal por homens está fortemente associada aos fatores socioculturais, históricos e psicossociais. Entre os principais elementos estão a socialização masculina baseada em normas de virilidade, controle e dominação, além da exposição prévia aos contextos de violência familiar na infância.3

Diante de tal contexto, compreende-se a importância social da PNAISH, bem como a urgência de apreender os discursos e comportamentos masculinos e sua relação com a saúde, pois esse entendimento poderá desconstruir questões que levam ao adoecimento e ao envolvimento em situações de agravos, como o descuido com a saúde e/ou as implicações da violência doméstica ou urbana, o que perpassa por estratégias de sensibilização e acesso desse público na Atenção Primária à Saúde (APS).2 Ao se considerar a importância do envolvimento masculino em ações de prevenção da violência conjugal que favoreçam seu reconhecimento na condição de quem a pratica, mas também de quem a sofre, bem como as implicações dessa violência para a saúde e qualidade de vida individual, familiar e coletiva, o estudo adota as seguintes questões de pesquisa: Quais são as experiências de homens adultos em processo criminal por violência conjugal sobre autocuidado e saúde? Quais interfaces com os eixos prioritários da PNAISH? Com base nessa política, que aborda as questões voltadas à saúde de homens no cenário brasileiro, definiu-se como objetivo do estudo: descrever as experiências de homens adultos em processo criminal por violência conjugal sobre autocuidado e saúde, e suas interrelações com os eixos prioritários da PNAISH. 

Método

Trata-se de um estudo qualitativo, do tipo pesquisa-ação, entendida como pesquisa social de base empírica cuja proposta se articula a uma ação com fins de prevenção, minimização e/ou resolução de um determinado problema de interesse coletivo, sendo composta pelas seguintes fases: diagnóstico, planejamento das ações, execução das ações, avaliação e análise de dados.6 Destaca-se que o recorte deste artigo se refere à fase da pesquisa-ação relativa à execução das ações.

O estudo constitui um projeto em parceria com a primeira e segunda Vara de Justiça pela Paz em Casa do município de Salvador, Bahia, Brasil, com articulações com escolas públicas, repartições e unidades de saúde na APS. Nesses locais eram realizados Grupos Reflexivos (GR) com homens em processo criminal por violência conjugal, cumprindo a Lei nº 11.340,7-8 a qual recomenda em seu artigo 45 a participação masculina em grupos de reeducação.

O termo "Grupos Reflexivos" refere-se a um método construtivista utilizado para a construção e produção de conhecimentos teóricos e práticos de forma ativa e reflexiva, possibilitando o diálogo, a circulação de discursos e a produção de discursos coletivos.8 Essa técnica, comumente realizada em atividades de educação em saúde, foi utilizada para a construção e produção de conhecimentos teóricos e práticos de forma ativa e reflexiva, promovendo a troca dialógica. Durante a realização dos GR, participaram dois facilitadores com formação na área da saúde, doutorandos estudiosos da temática, devidamente capacitados para conduzir a atividade, o que favoreceu o processo de acolhimento dos participantes e contribuiu para a criação de um ambiente propício ao compartilhamento das experiências.

Durante os GR, foram realizadas oito atividades de educação em saúde que abordaram as seguintes temáticas: influência da família na formação do "eu"; construção social da desigualdade de gênero; masculinidades e a formação do "novo homem"; saúde de homens e o incentivo ao autocuidado; percepção da conduta violenta e resolução pacífica de conflitos.7

Foram encaminhados pelas referidas varas de violência 46 homens. Destes, 44 participaram do estudo, uma vez que atenderam aos critérios de inclusão: estar respondendo a processo judicial por violência conjugal e ter participado do encontro do GR intitulado: "Saúde de homens e o incentivo ao autocuidado". Foram excluídos dois homens que não apresentavam condições psicoemocionais, conforme a avaliação realizada por uma psicóloga vinculada às referidas varas. Foram realizados cinco ciclos: o primeiro, segundo e quinto ciclos foram compostos por nove homens; o terceiro ciclo, por 14 homens, e o quarto, por três homens, perfazendo um total de 44 homens.

Os participantes foram orientados quanto aos preceitos éticos contidos nas Resoluções nº 466/12 e nº 510/2016 e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) sob o parecer número 6.603.953.

A coleta de dados ocorreu durante a atividade de educação em saúde intitulada: "Saúde de homens e o incentivo ao autocuidado", que teve como objetivo alertar para doenças/agravos aos quais a população masculina se encontra vulnerável pelo fato de "ser homem" e incentivar o autocuidado da saúde. Durante essa atividade, os homens participavam de um jogo de tabuleiro humano elaborado com base teórica nos eixos preconizados pela PNAISH.

Em cada eixo, eram realizadas perguntas norteadoras pelo facilitador como estímulo aos participantes para falarem "o que lhes viesse à mente", com vistas ao aprofundamento temático e à potencial discussão. As perguntas foram: no eixo "Acesso e Acolhimento", questionou-se: "Você costuma fazer uso do serviço de saúde? Conte-nos a sua experiência"; no eixo "Agravos e condições crônicas na população masculina", indagou-se: "Como está a sua saúde e o que tem feito para cuidar dela?"; no eixo "Saúde Sexual e Reprodutiva", foi perguntado: "Qual a sua opinião sobre o uso do preservativo?"; no eixo "Paternidade e Cuidado", perguntou-se: "Você tem filho? Se sim, você teve oportunidade de acompanhar sua esposa no pré-natal? Conte como foi sua experiência"; no eixo "Prevenção de violências e acidentes", questionou-se: "Você já se envolveu em algum acidente ou situação de violência? Se sim, conte como foi".

As atividades de educação em saúde tiveram duração média de 90 minutos, sendo gravadas com o auxílio de um gravador e transcritas por meio de um editor de textos. Cabe destacar que a coleta foi interrompida diante da presença de repetição de informações nos discursos, caracterizando a saturação teórica dos dados.9 Após as etapas iniciais, foi realizada a validação das transcrições pelos participantes e, após anuência, os dados foram submetidos ao processo de sistematização e análise. A pesquisa atendeu aos critérios de consolidação do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ).

As respostas dos participantes foram sistematizadas com base no Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), conforme proposto por Lefevre e Lefevre10 por meio das seguintes etapas: 1) transcrição de todas as falas resultantes dos GR e das entrevistas; 2) análise do material verbal coletado, extraindo-se de cada um dos depoimentos orais as seguintes figuras metodológicas: Ideias Centrais (IC) e suas respectivas Expressões-Chave (ECH); 3) a partir das IC e ECH, organizaram-se os vários discursos-síntese, denominados discursos do sujeito coletivo.

A IC é uma expressão que permite traduzir o conteúdo explicitado pelos sujeitos em suas falas. Constitui, portanto, a maneira sintética e precisa de descrever ou revelar o sentido e o tema das expressões-chave de cada um dos depoimentos orais.14 Essa etapa ocorreu com o apoio do software NVIVO10, que favorece a organização de dados qualitativos.

Os dados foram organizados de forma dedutiva a partir dos eixos prioritários da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), especialmente em relação aos eixos prioritários definidos pela política no Brasil.1

Resultados

Caracterização

Os participantes do estudo foram, em sua maioria, negros 35(79,5%), com 42(95,5%) na faixa etária adulta (25 a 60 anos) e dois (4,5%) idosos (> 60 anos). Quanto ao nível de escolaridade, houve predominância do Ensino Médio completo 20(45,5%), seguido pelo Ensino Fundamental completo 10(22,7%) e pelo Ensino Superior sete(15,9%). Quanto aos aspectos conjugais, a maioria estava solteira 26(59,1%), seguida de união estável oito(18,2%), casados sete(15,9%) e divorciados dois(4,5%).

Conhecer o discurso masculino relacionado à saúde

O discurso coletivo dos homens em contexto de violência conjugal permitiu abordar suas experiências relacionadas aos cinco eixos da PNAISH. Assim, o estudo foi organizado conforme os eixos da PNAISH de forma dedutiva, visando elucidar a ocorrência destes na experiência dos homens em relação ao cuidado de si e da saúde, bem como às interações socioafetivas.

A partir da compreensão das relações existentes entre a autopercepção da saúde pelos homens que se encontravam em contexto de violência conjugal e os eixos prioritários da PNAISH, buscou-se desvelar o DSC, a partir do reconhecimento das IC existentes em torno do fenômeno, expressa na discursividade masculina, em um movimento de interpretação teórica com o referencial adotado (Quadro 1).

Quadro 1 - Análise das relações entre as narrativas masculinas no contexto da violência conjugal e os eixos de ação da PNAISH. Salvador (BA), Brasil, 2024.

IC 1: O acesso e o acolhimento nos serviços de saúde - dos fatores impeditivos impostos pelo trabalho e estruturais da Atenção Primária, à busca por resolutividade e às vivências de não acolhimento na média complexidade

DSC: [...] tenho dificuldade de ir ao posto de saúde que fica próximo da minha casa, pois ele funciona no horário em que estou trabalhando. Além disso, para marcar consultas, temos que madrugar nas filas [...] às vezes que precisei ir à unidade de saúde, fui bem tratado pelas recepcionistas, mas não consegui me consultar por falta de vagas. Quando eu tenho alguma queixa, seja uma dor de garganta, dor de cabeça, eu procuro a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), mas eu não me sinto acolhido. [...] eles me falam que eu não deveria estar lá, que a UPA é para atender emergência [...] mas como que eu vou aguardar 15 dias, para passar com o médico, se estou com dor de garganta naquele momento? Por isso, vou na UPA mesmo não sendo bem tratado, pelo menos sou atendido e medicado. [...] confesso que só busco o serviço de saúde quando tenho algum sintoma grave. (Homens adultos em contexto de violência conjugal)

IC 2: Saúde Sexual e Reprodutiva - do estereótipo do uso do preservativo e outras questões relacionadas à sexualidade à vivência de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).

DSC: [...] eu confesso que não gosto de usar preservativo, pois não consigo manter a ereção. [...] já passei por situações constrangedoras por conta disso. [...] apesar de as unidades de saúde e as farmácias disponibilizarem camisinha, eu não tenho o costume de tê-la no bolso. [...] eu uso porque já tive coceira e corrimentos no pênis depois de uma relação sem proteção. [...] quando eu fui me consultar e vi que era uma médica mulher, fiquei com vergonha de contar e resolvi procurar um profissional do sexo masculino, [...] que me orientou a usar camisinha não só para evitar doença, mas também gravidez. (Homens adultos em contexto de violência conjugal)

IC 3: Paternidade e Cuidado - do estranhamento do exercício paterno à inclusão no pré-natal do parceiro e ao despertar para o cuidado com os filhos e para o autocuidado

DSC: [...] na primeira gravidez não teve nada disso, eu quase nunca acompanhava e, quando eu ia, me deixavam aguardando do lado de fora e até na consulta da minha primeira filha, chamaram a avó [...] quando minha ex-esposa engravidou do meu segundo filho e fez pré-natal na unidade de saúde perto de casa, fui chamado para ir a uma consulta com ela. Achei estranho, mas a acompanhei e lá a enfermeira solicitou que eu fizesse vários exames e tomasse algumas vacinas [...] além disso, eu ouvi o coração do meu filho, aprendi coisas que deveria fazer quando ele nascesse, como trocar a fralda, dar banho, colocar para arrotar. Fui convidado até para participar de um grupo de gestantes, mas meu trabalho não liberou [...] achei muito legal e, sempre que possível, eu acompanhava as consultas.

IC 4: Doenças prevalentes na população masculina - da predisposição relacionada aos maus hábitos de vida e saúde ao desencadeamento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT).

DSC: [...] como eu passo o dia inteiro no trabalho, não consigo me alimentar nos horários certos. [...] como em fast food. Não faço exercícios físicos; além disso, eu fumo e bebo bastante. Por conta disso, eu acabei ficando com a pressão alta e o açúcar no sangue elevado. Apesar desses problemas, eu não consigo ser acompanhado no posto de saúde. [...] quando me sinto mal, eu tomo algum medicamento para controlar a pressão. (Homens adultos em contexto de violência conjugal)

IC 5: Prevenção de acidentes e violências - do histórico de violências na convivência social aos impactos diretos na saúde e na manutenção da vida

DSC: [...] já me envolvi em várias confusões. Já briguei em casa com minha esposa por discordar de coisas que ela me disse; nos bares por conta da bebida. Discuti durante uma partida de futebol porque, no jogo, um rapaz me deu um "carrinho" violento. [...] discuti várias vezes no trânsito [...] bati o carro por conta de imprudência. [...] já estive internado no hospital quando sofri grave acidente [...] tive braço quebrado [...] várias escoriações. Quase morri! (Homens adultos em contexto de violência conjugal)

 Discussão

O discurso masculino de homens em processo judicial por violência conjugal desvelou as experiências relacionadas à saúde pautadas nas dimensões da PNAISH, nos eixos: acesso e acolhimento nos serviços de saúde, saúde sexual e reprodutiva, paternidade e cuidado, doenças prevalentes na população masculina e prevenção de acidentes e violências.

No eixo "acesso e acolhimento", o discurso apontou dificuldades na busca por assistência à saúde na APS, muitas vezes, justificadas pelo fato de que esses serviços funcionam, comumente, no mesmo horário do trabalho, desvelando problemáticas como longas filas para o atendimento e ausência de vagas para consultas. A literatura científica sinaliza que a ausência da população masculina na APS está relacionada aos fatores estruturais, como conflito de horário com o trabalho11 e culturais, que associam as práticas de cuidado da saúde ao atributo feminino e/ou centram essas práticas na promoção da saúde de outros grupos, havendo necessidade de avanços na superação desse cenário.12

Os discursos masculinos revelam ainda que eles se queixam da dificuldade para agendamento de consulta médica. Para uma melhor experiência masculina de acesso às unidades básicas de saúde, ações exitosas destacaram a estratificação das pessoas segundo riscos/vulnerabilidade e o apoio ao autocuidado, estando essas ações diretamente relacionadas à disponibilidade de consultas de cuidado continuado e de demanda espontânea, atividades coletivas, atendimentos em grupo, procedimentos de Enfermagem, exames, medicamentos, entre outros.13

Diante da não resolução de suas demandas na APS, os participantes da pesquisa revelaram que, apesar de não se sentirem bem acolhidos, buscam atendimento na UPA na tentativa de solucionar seus problemas clínicos de menor complexidade, a exemplo de resfriados, inflamações na garganta e cefaleia. A busca masculina aos serviços de saúde ocorre, muitas vezes, a partir da atenção ambulatorial e hospitalar de média e alta complexidade, reforçando a inadequação da atenção primária e dos aspectos de promoção da saúde e cuidado, o que contribui para o aumento da morbimortalidade masculina.14

No eixo: "Saúde sexual e saúde reprodutiva", os homens revelaram não utilizar preservativo nas relações sexuais, o que não está relacionado à falta de acesso ao insumo, e sim aos fatores subjetivos, relacionais e culturais. Entre estes, destacam-se a percepção de confiança e exclusividade na relação, a crença de que o uso do preservativo reduz o prazer sexual, o desejo de reafirmação da masculinidade por meio do sexo sem barreiras, além da baixa percepção de risco quanto à infecção por ISTs ou gravidez não planejada.15 A não utilização desses preservativos pelos homens se ancora na interferência no prazer, na manutenção da virilidade, no tempo de relacionamento e no tipo de vínculo afetivo-sexual com a pessoa, consequência da construção moral religiosa cristã que defende uma indissociabilidade entre casamento, confiança e fidelidade, conforme apontado em estudo.16 Sobre o tempo de relacionamento e o vínculo afetivo-sexual, o ideal do amor, monogamia e fidelidade são vistos como fatores de proteção frente às ISTs.

Nesse sentido, a utilização do preservativo, inclusive, pode colocar em prova esses ideais e gerar questionamentos no relacionamento, comprometendo a segurança e a solidez desse vínculo.17 Uma pesquisa internacional apontou que o uso do preservativo, dentro do contexto da conjugalidade, pode ser interpretado como falta de confiança por ser considerado um elemento de infidelidade, catalisando situações de violência de cunho psicológico e sexual.18 Por outro lado, as questões da saúde sexual e reprodutiva continuam a ser práticas centradas nas mulheres, o que reproduz a construção cultural e social que estrutura a submissão e repressão da mulher frente às relações de poder no campo sexual, inclusive na negociação com seus parceiros acerca da utilização do preservativo.16

Outro elemento importante remete à busca masculina por atendimento diante do aparecimento de sinais e sintomas já instalados de ISTs. A busca pelos serviços de saúde, associada ao surgimento de sintomatologias de ISTs foi evidenciada em estudo brasileiro com homens jovens, os quais revelaram que só buscavam assistência diante da presença de alguns desconfortos na região genital que os impediam de ter outras relações sexuais.18

Os resultados revelaram ainda que a vergonha emerge, enquanto sentimento, quando o profissional de saúde atuante é do gênero feminino, levando-os, inclusive, a desistir do atendimento e buscar um profissional do sexo masculino. Um estudo nacional apontou que a exposição e a manipulação do corpo geram nos homens situações desconfortáveis na relação profissional-paciente, visto que estes se sentem mais à vontade ao interagir com médicos e enfermeiros do mesmo sexo, em especial quando se trata de queixas na região genital.16 Diante desse cenário, é importante pensar em estratégias que permitam melhor a vinculação da população masculina no âmbito da APS. Ainda no tocante à PNAISH, observa-se que a sexualidade masculina tem sido abordada pontualmente, com foco na infertilidade, nas ISTs, ou nas questões relacionadas aos órgãos genitais, mantendo uma visão estereotipada do masculino.1

Em relação ao eixo: "Paternidade e cuidado", o discurso coletivo masculino apontou para a percepção de ações de incentivo ao exercício paterno no pré-natal, bem como para o cuidado com os filhos e autocuidado, embora pontue experiências anteriores em que não havia acompanhamento direto dos homens no pré-natal, sendo, inclusive, convidados a aguardar suas parceiras fora do consultório quando buscavam participar das consultas. Outro estudo apontou que, na percepção masculina, são barreiras na participação masculina no pré-natal: a compreensão de que a saúde materna e infantil diz respeito exclusivamente às mulheres, o fato de estarem sempre em seu horário de labor, a compreensão de que os cenários de realização das consultas são desconfortáveis e inibitórios e a falta de acolhimento dos profissionais de saúde.19

Em que pesem as barreiras existentes na inclusão dos homens na consulta pré-natal, é escassa a produção científica que apresenta os benefícios da participação masculina no pré-natal em relação à sua saúde, sinalizando a necessidade da utilização dessa estratégia como fonte de captação dos homens nas atividades de promoção da saúde e prevenção de agravos.20 Nesse ínterim, a PNAISH instituiu o eixo: "Paternidade e cuidado", ressaltando a importância da promoção do envolvimento masculino no planejamento reprodutivo, na concepção e no desenvolvimento infantil.3

Com vistas a uma resposta mais efetiva para esse eixo, foi instituída pelo Ministério da Saúde, em 2016, a Estratégia Pré-natal do Parceiro (EPNP), que visa, além do envolvimento paterno, contribuir para a melhoria do acesso desses homens aos serviços de saúde.21 Essa estratégia estabelece a participação dos homens em, no mínimo, duas consultas pré-natal e em atividades educativas; a realização de testes rápidos e exames de rotina; a atualização do cartão de vacina; as abordagens de temáticas voltadas ao público masculino; e as orientações sobre o papel do homem na gestação, no pré-parto, no parto, no puerpério imediato e nos cuidados com a criança.21

Algumas experiências são apontadas na literatura nacional como estratégias de fortalecimento da EPNP. Em Salvador, os homens são estimulados a participar da EPNP durante a realização do projeto Sábado do Homem, no qual as unidades de saúde abrem uma vez ao mês, aos sábados, com vistas à promoção dos atendimentos, aumentando a adesão e o comparecimento masculino nessa atividade.22 Diante desse cenário, emerge a necessidade de ampliação das experiências exitosas para todo o território nacional, sendo esse o principal desafio da PNAISH para os próximos anos.

No eixo: "Doenças prevalentes na população masculina", o discurso coletivo masculino evidencia a presença de fatores de risco modificáveis, tais como alimentação não saudável, inatividade física, consumo excessivo de bebida alcoólica e tabagismo. Esses fatores estão presentes no dia a dia masculino, considerando uma rotina com elevada carga de trabalho, sedentarismo e a cultura do consumo de álcool e cigarro para fins recreativos, pelos seus efeitos relaxantes, e de socialização.23 Diante disso, esse público apresenta vulnerabilidade às doenças do aparelho respiratório e cardiovascular, alterações na função metabólica e cânceres, gerando impacto social e de saúde significativo para a sociedade.

As DCNT são responsáveis por mais da metade do total de mortes no Brasil e no mundo. Em 2019, no cenário brasileiro, ocorreram 730.000 óbitos de homens e mulheres. Ao analisar por sexo, 56,1% ocorreram de forma prematura na população masculina.24 Alguns estudos apontaram que as doenças do aparelho circulatório estão entre a primeira e a terceira causa de morte no público masculino. As mortes por diabetes aumentaram 70% globalmente entre 2000 e 2019, com elevação de 80% da morbimortalidade masculina.25

Este cenário tem gerado preocupação dos governantes, levando-os à elaboração do Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das DCNT no Brasil, 2021-2030, para a prevenção dos fatores de risco das DCNT e para a promoção da saúde da população, com vistas a reduzir desigualdades em saúde.24 Apesar disso, pela própria construção cultural da invulnerabilidade masculina, existe um estímulo à exposição aos riscos e à redução do cuidado com sua saúde.

O estudo evidencia barreiras de acesso a esses serviços, dificultando o monitoramento dessas doenças e levando essa população à adoção de medidas como a automedicação. Além das questões socioculturais já sinalizadas, ressalta-se a existência de uma série histórica, apontada na literatura, que reforça a falta de acesso dessa população aos serviços de saúde, justificada não apenas por questões laborais, como também pela concepção de que o exercício do cuidado se centra no atendimento da população feminina e infantil.25

Com vistas à mitigação desse problema, foram criadas estratégias que se alinham aos preceitos da Política Nacional de Atenção Básica e da PNAISH. Em maio de 2019 foi criado, pela Portaria nº 930, o programa "Saúde na Hora", tendo como público-alvo usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) atendidos na APS, com o objetivo de ampliar o acesso às ações e serviços, estendendo o horário de atendimento e favorecendo a presença masculina nesses momentos alternativos.26 Apesar disso, apenas 1.987 (5%) dos postos de saúde do país participam do programa, em 387 (7%) municípios. Desse total, 900 deles começaram a funcionar com horário ampliado, sendo os estados com o maior número de adesão ao programa: São Paulo, com 407 unidades de saúde, e Minas Gerais, com 288. 27 Nesse contexto, mesmo após 15 anos de implantação da PNAISH, bem como experiências exitosas, reforça-se a necessidade de ampliação dessas ações e de outras ações nas demais regiões do país, especialmente para aquelas cujos indicadores voltados à saúde do homem reforçam maior vulnerabilidade a essa problemática.

No eixo: "Prevenção de violências e acidentes", o discurso coletivo masculino revela que os participantes da pesquisa possuem discursos pautados na violência em espaços domésticos, de lazer e no trânsito, sendo que as atitudes violentas ocorrem por divergência de opiniões e desentendimentos potencializados, em algumas situações, pelo uso de álcool. As experiências de violência no cotidiano masculino se associam, muitas vezes, a uma tentativa de manutenção de poder, elemento que faz parte do constructo social do ser homem. Contudo, a imutabilidade desses comportamentos os vulnerabiliza às causas externas, gerando impactos não só na saúde da população masculina, como também sociais.8

As causas externas de morbimortalidade se constituem como as principais causadoras de óbitos de homens no período de 2009 a 2018, sendo mais prevalentes em adultos jovens, solteiros e com baixo nível de escolaridade.25 A mortalidade geral da população brasileira no período citado totalizou 3.596.434 óbitos. Desse quantitativo, 67,9% (n = 2.442.915) foram de pessoas do sexo masculino.25 Nesse cenário, as principais causas de morte foram as agressões, os acidentes de trânsito, os traumatismos acidentais, seguidas das lesões autoprovocadas voluntariamente.

Ao se ter em vista o cenário de vulnerabilidades às causas externas, as internações hospitalares dos homens se apresentam elevadas, sobrecarregando os serviços de saúde e elevando significativamente os gastos públicos. As hospitalizações masculinas em decorrência das causas externas totalizaram 59.468.451 entre os anos de 2009 e 2018, sendo a faixa etária de 20 a 59 anos responsável por 34,8% desse total (n = 20.693.695).26 Esse contexto implica diretamente nos gastos públicos despendidos pelo SUS, que gastou cerca de R$ 7.082.295.712,35 entre os anos de 2009 e 2018. Desse valor, 78,3% dos gastos, o equivalente a R$ 5.546.172.615,70, foram com homens vitimados por causas externas.26

É importante destacar que o consumo de álcool, geralmente, encontra-se presente em situações que envolvem violência, principalmente aquelas que ocorrem no ambiente doméstico. Muitas situações nas quais ocorrem desentendimentos de opiniões são influenciadas pelo uso de álcool, o que é corroborado por estudo realizado em cidades da América Latina, incluindo Salvador e Rio de Janeiro, revelando que 68% dos homens, que cometeram agressões, consumiram álcool antes de agredir suas companheiras.27

A prática imprudente do uso de álcool antes do ato de dirigir também foi apontada nos discursos dos participantes da pesquisa, repercutindo em situações extremas como acidentes automobilísticos, levando-os à necessidade de intervenção hospitalar devido à gravidade do ocorrido. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) revelou que, de 2009 a 2018, ocorreram 250.790 óbitos por acidentes automobilísticos na população masculina, representando 28,5% da mortalidade por causas externas, e estimou em cerca de R$ 50 bilhões por ano o valor que a sociedade brasileira perde com os acidentes de trânsito.28

Observa-se que o número de internações e óbitos da população masculina por causas externas permaneceu alto, mesmo após 15 anos de implantação da PNAISH em todo o território nacional. É urgente a reorganização dos serviços, melhorando a qualidade da assistência, sobretudo no que se refere ao acolhimento como ação técnico-assistencial que implica em mudanças na relação profissional/usuário. Tal postura deve se dar em todos os momentos da produção do serviço de saúde, iniciando desde o primeiro contato com a pessoa, envolvendo a escuta, a atenção, a valorização de queixas, a identificação das necessidades que podem vir a ser satisfeitas, o tratamento de forma humanizada e o reconhecimento do usuário como participante ativo do seu processo saúde-doença.17

Reforçam-se, por tais evidências, a necessidade de maiores intervenções que fomentem discussões sobre gênero, os diversos tipos de masculinidades, bem como os indicadores de saúde relacionados à saúde do homem. Torna-se necessário, assim, incluir a dimensão das masculinidades, compreendidas como plurais, na estratégia de revisão, reformulação e execução das políticas de saúde no Brasil. Além disso, é necessário que os profissionais sejam constantemente capacitados para incorporar questões de gênero no contexto das ações em saúde, além de sua vinculação com a transversalidade, a equidade e a integralidade.

Conclusão

Por meio das narrativas de homens em processo criminal por violência conjugal, participantes de GR, foi possível evidenciar o discurso coletivo relacionado à saúde referente aos cinco eixos da política: acesso e acolhimento; paternidade e cuidado; saúde sexual e reprodutiva; prevenção de acidentes e violências; e doenças prevalentes. Embora os GR sejam realizados com o intuito de promover, aos homens, espaços para reflexões acerca dos comportamentos nas relações conjugais e sua interface com a saúde e qualidade de vida, o discurso masculino reitera a perpetuação de fatores impeditivos para o acesso e a acessibilidade, tais como incompatibilidade de horário de trabalho, maus hábitos de vida e saúde, que podem acarretar doenças crônicas, a não utilização de preservativos e maior vulnerabilidade às IST, o despertar para o exercício da paternidade e histórico de violências nas relações sociais e no repertório de vida.

Embora o estudo se limite por não aprofundar os entraves ao cuidado em saúde, são notórias as barreiras para assegurar a oferta de cuidado à saúde de homens nos serviços de saúde, sendo essencial maior investimento em estratégias que estimulem e favoreçam o acesso da população masculina no âmbito da APS e o fortalecimento dos eixos preconizados pela PNAISH. No que tange às implicações para a prática profissional, é urgente que os profissionais consigam exercer o cumprimento da política focal de saúde masculina, suas especificidades e cientificidade para guiar a tomada de decisão e o cuidado em saúde. É importante que formuladores de políticas públicas repensem estratégias de acesso e a implementação de novas ações que promovam o vínculo e o acolhimento dos homens na APS.

Nessa perspectiva, o estudo em tela apontou para a importância de espaços de diálogo e autorreflexão, a partir de ações de educação em saúde para homens, podendo ser realizadas por meio de GR, método de baixo custo e alto potencial de engajamento. Essa estratégia viabiliza a identificação de entraves e caminhos para o aprimoramento do acesso e acolhimento à população masculina no âmbito da APS, podendo ser implementada em contextos diversos, como situação prisional, diversidade sexual, cultural, de gênero e/ou etnia, população LGBTQIAP+, indígenas, quilombolas, entre outros.

Contribuições dos Autores

Concepção do estudo: Fernanda Araújo Valle Matheus; Andrey Ferreira da Silva; Nadirlene Pereira Gomes; Júlia Renata Fernandes de Magalhães. Coleta de dados: Fernanda Araújo Valle Matheus; Andrey Ferreira da Silva; Júlia Renata Fernandes de Magalhães. Análise e interpretação dos dados: Fernanda Araújo Valle Matheus; Andrey Ferreira da Silva; Júlia Renata Fernandes de Magalhães. Redação do manuscrito: Fernanda Araújo Valle Matheus; Andrey Ferreira da Silva; Selton Diniz dos Santos; Anderson Reis de Sousa; Júlia Renata Fernandes de Magalhães. Revisão crítica do manuscrito: Selton Diniz dos Santos; Nadirlene Pereira Gomes; Anderson Reis de Sousa. Aprovação da versão final do manuscrito: Fernanda Araújo Valle Matheus; Andrey Ferreira da Silva; Selton Diniz dos Santos; Nadirlene Pereira Gomes; Anderson Reis de Sousa; Júlia Renata Fernandes de Magalhães.

Conflito de interesse

Os autores declararam que não há conflito de interesse.  

Financiamento

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB).

Referências

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Autor Correspondente

Andrey Ferreira da Silva

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