Uso de plantas medicinais por pessoas idosas: protocolo de revisão de escopo

Wilza Aparecida Brito de Oliveira1, Fabiana Ferraz Queiroga Freitas2, Rebeca Lopes de Assis3, Risomar da Silva Vieira4Claudia Santos Martiniano5, Cícera Renata Diniz Vieira Silva6

1,3,4,5Universidade Estadual da Paraíba. Campina Grande (PB), Brasil. 2,6Universidade Federal de Campina Grande. Campina Grande (PB), Brasil.

Introdução

No Brasil, algumas Práticas Integrativas e Complementares (PICS), presentes no Sistema Único de Saúde (SUS) desde a década de 1990, foram institucionalizadas pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPIC), aprovada pela Portaria GM/MS nº 971, de 3 de maio de 2006. Essa política reconhece práticas como a fitoterapia, que inclui o uso de plantas medicinais, como parte das ações de promoção e recuperação da saúde no SUS1.

As plantas medicinais são espécies que contêm, em suas diferentes partes como folhas, flores, raízes e cascas, substâncias com propriedades terapêuticas, utilizadas na prevenção, no tratamento e no alívio de doenças e sintomas2.

Nos dias atuais, a utilização das plantas medicinais é resultado de uma herança deixada pelos ancestrais. Esse conhecimento popular foi transmitido por meio da tradição oral, o que apresenta aspectos positivos pelo alcance do conhecimento sobre seu uso e aspectos perigosos pela dificuldade de comprovações e a falta de conhecimento sobre as propriedades farmacológicas e toxicológica3-4.

A utilização de plantas medicinais é uma prática comum entre pessoas idosas, muitas vezes associada à busca por terapias complementares e ao resgate de saberes tradicionais. Contudo, observa-se uma escassez de estudos recentes que aprofundem essa temática nesse grupo populacional, especialmente no que se refere aos motivos que orientam o uso, à frequência da prática e às percepções de segurança relacionadas a essas substâncias. Essa lacuna evidencia a necessidade de mapear o conhecimento existente, a fim de subsidiar práticas mais seguras, baseadas em evidências, e fomentar novas investigações sobre o cuidado da pessoa idosa.

O uso de plantas medicinais é frequentemente visto como uma alternativa positiva para pessoas idosas, mas surgem preocupações quanto à sua utilização, especialmente pela falta de conhecimento científico e orientação sobre a forma correta de uso. Todas as plantas contêm substâncias que podem ser tanto benéficas quanto prejudiciais à saúde5.

Muitas vezes, o uso de plantas medicinais ocorre de forma mecanizada e sem o devido cuidado, colocando em risco a saúde dessa população. Mas o que é necessário para garantir um uso mais consciente e seguro? Destaca-se a importância de materiais científicos atualizados que sirvam de embasamento para conscientizar profissionais de saúde, pessoas idosas e seus cuidadores sobre os riscos associados ao uso inadequado, incluindo informações sobre posologia, possíveis efeitos colaterais e interações medicamentosas. É essencial que as pessoas busquem sempre orientação e sigam as prescrições de profissionais habilitados, a fim de reduzir o risco de reações adversas e intoxicações6-7.

Estudos com essa temática são importantes porque ajudam entender a utilização e o uso de plantas medicinais por pessoas idosas, contribuindo para esclarecer seus benefícios e os riscos de usos, além de apoiar políticas públicas e aumentar o conhecimento dos profissionais de saúde sobre o assunto8-9.

Em vista da utilização de plantas medicinais por essa população, este material revela-se pertinente por oferecer subsídios a investigações futuras e por fortalecer o embasamento científico disponível a esse público. Assim, o objetiva-se mapear o uso de plantas medicinais no cotidiano de pessoas idosas.

Método

O presente protocolo será conduzido conforme a metodologia JBI para revisões de escopo, que inclui a definição e alinhamento com o objetivo da pergunta de pesquisa; o desenvolvimento e alinhamento dos critérios de inclusão com os objetivos e a pergunta de pesquisa; a descrição da abordagem planejada para busca, seleção, extração e organização das evidências; a busca pelas evidências; a seleção de evidências; a extração das evidências; a análise das evidências; a apresentação de resultados; e o resumo de evidências em relação ao propósito da revisão10-11. A redação do relatório seguirá as recomendações da diretriz Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR), que orienta a estruturação transparente e padronizada das seções da revisão12. O protocolo foi registrado prospectivamente na plataforma Open Science Framework (OSF) sob o DOI 10.17605/OSF.IO/6R8HT.

Pergunta de pesquisa e critérios de elegibilidade

Após busca prévia nas fontes de dados JBI CONNECT+, Cochrane Library, PROSPERO, OSF e Google Scholar, constatou-se a ausência de revisões semelhantes, o que reforça a lacuna sobre o tema. Assim, definiu-se a seguinte questão norteadora de revisão: “Como as pessoas idosas utilizam plantas medicinais em seu cotidiano”?

Utilizou-se o mnemônico "PCC", recomendado pelo JBI Manual for Evidence Synthesis10, definido como:

  • População: Pessoas idosas
  • Conceito: Utilização de plantas medicinais
  • Contexto: Cotidiano de vida

Não haverá limitações geográficas nesta revisão, pois a intenção é explorar o escopo da utilização de plantas medicinais por pessoas idosas em diferentes contextos globais.

Tipos de evidência

A revisão incluirá estudos primários disponíveis nas principais bases de dados da área da saúde, além de dissertações e teses identificadas em bases específicas de literatura acadêmica que respondam à questão norteadora do estudo, sem restrições de tempo ou idioma, visando recuperar o maior número possível de evidências.

Revisões de literatura, editoriais e estudos que não abordem o uso de plantas medicinais no cotidiano de pessoas idosas serão excluídos.

Estratégia de busca e período de coleta de dados

A estratégia de busca será organizada em três fases. Serão utilizados descritores controlados e descritores não controlados, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, de acordo com as particularidades de cada base de dados. Os descritores controlados serão selecionados a partir dos vocabulários DeCS e MeSH incluindo termos como “Plantas Medicinais” e “Idoso”. Já os descritores não controlados incluirão palavras ou sinônimos comumente encontrados nos títulos e resumos dos estudos, como “ervas medicinais”, “uso de plantas”, “pessoas idosas”, “idosos” e “terapias naturais”. O uso dessas variações busca ampliar a sensibilidade da busca e evitar a perda de estudos relevantes.

A estratégia de pesquisa terá como objetivo encontrar artigos de pesquisa primária, dissertações e teses em várias bases de dados e será organizada em três fases:

  • Fase 1 (busca inicial): realizada busca inicial nas bases de dados de descritores nacionais (DeCS) e internacionais (MeSH), bem como nas bases MEDLINE/PubMed (via National Library of Medicine) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) para busca exploratória com o objetivo de identificar os principais descritores e palavras-chave utilizadas nos estudos que abordaram a temática de interesse (Quadro 1).

 Quadro 1 - Estratégias de busca construídas para a pesquisa. Campina Grande (PB) Brasil, 2024.

FONTE DE INFORMAÇÃO

ESTRATÉGIA DE BUSCA

N

MEDLINE

(Aged OR Elderly OR “Older people”) AND ("Plants, Medicinal" OR "Medicinal plant" OR "Medicinal plants OR "Medicinal herb" OR "Medicinal herbs" OR "Pharmaceutical Plant" OR "Pharmaceutical Plants")

328

Catálogo de teses e dissertações da CAPES

idosos AND plantas medicinais

58

  • Fase 2 (busca completa): a estratégia final de busca será aplicada nas seguintes fontes de dados escolhidas para este estudo: MEDLINE/PubMed, LILACS/BVS, Cochrane, Web of Science (WOS), SCOPUS, EMBASE, adaptando-se as especificidades de indexação de cada base.
  • Fase 3 (busca manual e referências cruzadas): as listas de referências dos artigos recuperados na busca de texto completo e incluídos na seleção final também serão rastreadas para inclusão na amostra do estudo.

A escolha desses portais e bases de dados se deu por constituírem grandes acervos de publicações nas áreas relevantes para o estudo. A elaboração das chaves de busca e a coleta dos artigos serão desenvolvidas com o apoio de uma bibliotecária especializada em revisões.

As buscas também foram realizadas na literatura cinzenta, utilizando o Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Google Scholar, Biblioteca Digital de Teses e Dissertações.

Todas as etapas da busca serão registradas e apresentadas em fluxograma, conforme as diretrizes PRISMA, incluindo o número total de estudos identificados, selecionados, excluídos e incluídos na síntese final.

Será adotada uma estratégia de busca padrão, desenvolvida de forma sistemática e reprodutível, com base em descritores controlados e termos livres relacionados ao tema da pesquisa, a saber: (Aged OR Elderly OR “Older people”) AND (“Plants, Medicinal” OR “Medicinal plant” OR “Medicinal plants” OR “Medicinal herb” OR“Medicinal herbs” OR “Pharmaceutical Plant” OR “Pharmaceutical Plants”) Essa estratégia será aplicada de maneira adaptada às diferentes bases de dados e repositórios, nos campos de indexação relevantes, a fim de ampliar o alcance das buscas garantindo a abrangência e a sensibilidade necessárias para identificar o maior número possível de estudos relevantes.”

Busca dos estudos

Inicialmente, a coleta de dados será realizada utilizando estratégia adequada para cada base de dados. As duplicatas serão removidas e os títulos e resumos de todos os estudos identificados serão avaliados de forma independente, de acordo com os critérios de inclusão, por dois revisores (WAB e RLA) usando o software Rayyan. Divergências entre os avaliadores serão discutidas para se chegar a um consenso. Em caso de discordância persistente, um terceiro revisor (CRDVS) será consultado. Em seguida, passará para a leitura na íntegra dos artigos selecionados.

As publicações selecionadas por título e resumo serão totalmente recuperadas e extraídas independentemente por dois revisores após a leitura do texto completo. A seleção dos estudos, os critérios de elegibilidade e os motivos de inclusão e exclusão em cada etapa serão relatados em um fluxograma específico, de acordo com o PRISMA-ScR10.

Todas as exclusões realizadas serão justificadas. As referências dos artigos também serão avaliadas, considerando a possibilidade de incluir estudos que não foram recuperados no momento da busca nas bases de dados selecionadas. Esta etapa também contemplará a extração e sumarização das informações dos artigos incluídos que respondam ao objetivo da revisão. Todos os estudos incluídos nessa fase serão divididos entre os revisores, que irão preencher a matriz de síntese da extração de dados.

Extração de dados

Os dados serão extraídos do corpus de análise por dois revisores (WAB e RLA) em uma planilha construída no Microsoft Excel®, adaptada para atender aos objetivos da pesquisa (Quadro 2).

Quadro 2 - Instrumento de extração de dados. Adaptado do JBI Manual for Evidence Synthesis (2020). Campina Grande. Brasil, 2024.

Tipo de publicação

Se artigo, dissertação ou tese

Ano

Ano em que o estudo foi publicado

País

País em que o estudo foi desenvolvido

Objetivo

Descrever objetivo principal do estudo

Desenho metodológico

Tipo de pesquisa realizado pelos autores do estudo

Tipos de plantas medicinais utilizadas

Detalhar os tipos de plantas medicinais utilizadas pelas pessoas idosas

Com qual frequência as plantas medicinais são utilizadas.

Detalhar com qual frequência as plantas medicinais são utilizadas pelas pessoas idosas

Motivações da utilização

Detalhar a motivação da utilização de plantas medicinais pelas pessoas idosas

Fontes de informação sobre plantas medicinais

Descrever quais fontes de conhecimento da população idosa sobre de plantas medicinais

Benefícios da utilização das plantas medicinais

Descrever os benefícios percebidos pelas pessoas idosas sobre a utilização das plantas medicinais

Desafios relacionados ao uso seguro de plantas medicinais

Descrever os desafios relacionados ao uso seguro de plantas medicinais, percebidos pelas pessoas idosas

Formas de uso

Descrever as formas de uso das plantas medicinais pelas pessoas idosas

Essas informações poderão ser ajustadas pelos revisores ao longo do processo de extração dos dados, com o objetivo de melhor atender aos objetivos do estudo. Quaisquer alterações feitas no instrumento serão relatadas no texto final da revisão de escopo. Divergências nos dados extraídos pelos revisores serão resolvidas por meio de discussão e consenso ou pela intervenção de um terceiro revisor (CRDVS).

As informações coletadas nessa fase serão armazenadas em um banco de dados eletrônico criado no programa Microsoft Excel for Windows®.

Sumarização dos resultados

Após a etapa de extração, as informações coletadas serão organizadas, analisadas e interpretadas de modo a permitir a elaboração de uma descrição dos resultados em consonância com os objetivos do estudo e com as questões norteadoras da revisão. A análise dos dados será apoiada pelo software IRaMuTeQ, de forma a favorecer a sistematização e a categorização temática dos achados. A síntese dos resultados seguirá uma abordagem narrativa, orientada por uma estrutura interpretativa baseada no referencial JBI, garantindo maior consistência e transparência às inferências produzidas.

Os resultados serão apresentados utilizando tabelas, quadros e fluxogramas que representem as principais categorias identificadas, favorecendo a compreensão dos dados. O processo de organização e análise dos dados será apoiado pelo software Microsoft Excel®, que permitirá o agrupamento das informações extraídas.

Considerações éticas

Os dados serão oriundos das bases de dados e repositórios de acesso público virtuais, dispensando aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Os dados resultantes desta pesquisa serão publicados em revistas científicas e apresentados em eventos científicos da área. 

Resultados

A organização e o mapeamento das informações selecionadas fornecerão subsídios relevantes acerca do uso de plantas medicinais por pessoas idosas. Tais evidências poderão contribuir para a delimitação de lacunas no conhecimento e orientar o desenvolvimento de futuras investigações nesta temática, especialmente em um país como o Brasil, caracterizado por ampla biodiversidade e riqueza de saberes tradicionais.

Os dados extraídos serão apresentados graficamente por meio de tabelas, quadros, fluxogramas ou diagrama de fluxo, como preconizam as recomendações de apresentação e interpretação dos dados de revisões de escopo. Os resultados serão apresentados por meio de um fluxograma, evidenciando as etapas de identificação, triagem, inclusão e exclusão dos estudos, conforme estabelecido pelo protocolo PRISMA-ScR. Posteriormente, serão construídos quadros e representações gráficas para ilustrar os principais achados da revisão10.

Considerações finais

Este protocolo tem como propósito descrever e organizar de forma clara as etapas metodológicas da revisão de escopo sobre o uso de plantas medicinais por pessoas idosas. Busca-se, assim, reduzir possíveis vieses ao longo do processo, promover transparência e garantir que todos os revisores sigam critérios padronizados. Espera-se que este protocolo contribua para identificar e compreender as evidências disponíveis sobre o tema, além de incentivar novas revisões e aprofundamentos futuros sobre a temática.

Contribuições dos autores

Concepção do estudo: Wilza Aparecida Brito de Oliveira, Cícera Renata Diniz Vieira Silva, Rebeca Lopes de Assis, Risomar da Silva Vieira, Claudia Santos Martiniano, Fabiana Ferraz Queiroga Freitas. Coleta de dados: Wilza Aparecida Brito de Oliveira, Cícera Renata Diniz Vieira Silva, Rebeca Lopes de Assis. Análise e interpretação dos dados: Wilza Aparecida Brito de Oliveira, Cícera Renata Diniz Vieira Silva, Rebeca Lopes de Assis. Redação do manuscrito: Wilza Aparecida Brito de Oliveira. Revisão crítica do manuscrito: Wilza Aparecida Brito de Oliveira, Cícera Renata Diniz Vieira Silva, Rebeca Lopes de Assis, Risomar da Silva Vieira, Claudia Santos Martiniano, Fabiana Ferraz Queiroga Freitas. Aprovação da versão final do texto: Wilza Aparecida Brito de Oliveira, Cícera Renata Diniz Vieira Silva, Rebeca Lopes de Assis, Risomar da Silva Vieira, Claudia Santos Martiniano, Fabiana Ferraz Queiroga Freitas.

Conflito de interesse

Os autores declararam que não há conflito de interesse.

Referências

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Autor Correspondente

Nome: Wilza Aparecida Brito de Oliveira

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