Vivências na formação acadêmica de estudantes de enfermagem nos estágios assistenciais

Ellen Maria Hagopian1, Thaís Araújo da Silva2,  Maria do Socorro Cardoso dos Santos3

1,3Faculdade Santa Marcelina. São Paulo (SP), Brasil. 2Universidade de Brasília. Brasília (DF), Brasil.

Introdução

A Força de Trabalho em Saúde (FTS), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), compreende os profissionais que realizam tarefas cujo objetivo principal é promover a saúde.1 Distintas áreas de formação, profissões e ocupações que prestam serviços aos sistemas de saúde fazem parte desta Força de Trabalho (FT), por meio de vínculos públicos ou privados, consumindo, integralmente ou parcialmente, o tempo de cada trabalhador.

O conceito de recursos humanos em saúde foi ressignificado pela Campanha do Ano Internacional dos Trabalhadores da Saúde e Cuidadores, da qual recebe subsídios da agenda Brasil, especialmente na articulação entre educação e trabalho e na diversificação de cenários em que essa formação se realiza.1

O Ano Internacional dos Trabalhadores de Saúde e Cuidadores foi assim nomeado em 2021 pela OMS, em reconhecimento e gratidão pelo empenho ininterrupto dos trabalhadores da área da saúde na luta contra a pandemia de COVID-19. Destacou-se, assim, o papel vital dos recursos humanos neste segmento para o cuidado de seus cidadãos.1

O emblema dessa campanha foi direcionado pelas palavras: “proteja, invista e, juntos”. O reconhecimento aos profissionais da saúde deve superar o limite dos aplausos, assegurando ações de proteção em ambientes de trabalho adequados e dignos, além de investimentos justos em educação e emprego.

Na Enfermagem, a formação da FT enfrenta desafios que afetam a qualidade da assistência em saúde. Ainda que a expansão de cursos técnicos e de graduação tenha ocorrido de forma expressiva, observa-se fragilidade em sua estrutura pedagógica, carência de professores qualificados e insuficiência de campos de estágio supervisionado, o que compromete a formação prática e crítica dos futuros profissionais.2

Soma-se a isso a desconexão entre o ensino e as reais demandas do sistema de saúde, o que dificulta a preparação de profissionais capazes de atuar com competência, ética e sensibilidade nas diferentes realidades do país.

 Embora o quantitativo de enfermeiros seja considerável, a distribuição desses profissionais não é igualitária entre as regiões do país, e as políticas de formação técnica encontram-se mais intensivas do que as do Ensino Superior. Para superar esses desafios, é fundamental repensar os modelos educacionais, fortalecer a integração ensino-serviço-comunidade e investir em políticas públicas que garantam qualidade, equidade e valorização na formação em Enfermagem.2-3

Diante desse cenário, torna-se importante a reflexão sobre como se configura a formação da força em Enfermagem, considerando que formar profissionais para atuar no sistema de saúde constitui um desafio constante para a sustentabilidade do sistema público, uma vez que a formação tecnicista é fortemente evidenciada pelo processo de trabalho, centrado na ação terapêutica de indivíduos ou grupos doentes, sadios ou expostos a risco, que requerem medidas voltadas à preservação da saúde, à prevenção ou à cura de doenças.4

Em contrapartida, além da incorporação de habilidades relativas ao conhecimento teórico-operacional propriamente dito, são reivindicadas, para a atuação no campo da saúde, competências relacionais, éticas e políticas, bem como o desenvolvimento de novas formas de gestão, mais coerentes com as demandas exigidas para o exercício do cuidado ao ser humano na atualidade.5

A alta demanda em decorrência da ampliação do mercado de trabalho impulsionou a elevação dos cursos de graduação em saúde no Brasil, com expressivo crescimento do setor privado em todas as áreas.

No que se refere às instituições formadoras na Enfermagem, sua trajetória histórica demonstra que, em 1964, havia 39 cursos de graduação, número que passou para 106 em 1991, representando um aumento de 171%. Essa expansão intensificou-se entre 1995 e 2009, quando o número de cursos passou de 108 para 760, correspondendo a um aumento de aproximadamente 700% na oferta.6

Dados do censo de cursos de graduação em Enfermagem, presenciais e a distância, registraram, em 2021, 1668 cursos de formação, aproximadamente 12 vezes mais do que em 1991. Entre 2009 e 2018, a expansão dos cursos de graduação em Enfermagem (38,4%) foi superior ao crescimento geral dos cursos superiores no Brasil (25,0%).6

Com a instituição das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), no ano de 2001, intensificou-se a necessidade de reorganizar os cursos de graduação nas áreas da saúde quanto aos conteúdos, à carga horária e às atribuições, de modo a atender às novas exigências do Ministério da Educação, que indicam a urgência de incorporar aos projetos pedagógicos pressupostos relacionados à ética, à cidadania, à epidemiologia e ao processo saúde-doença, na perspectiva do cuidado, aproximando o estudante do eixo teórico do Sistema Único de Saúde (SUS).7

Sustentar a formação contemporânea de acordo com referenciais nacionais e internacionais, com o objetivo de oferecer uma formação que possibilite a qualificação da assistência à saúde, contemplando os princípios do SUS, minimiza vazios assistenciais e permite uma formação cujos conhecimentos e compromissos estejam em consonância com a realidade de saúde do seu país.

Ao considerar a complexidade dos desafios no ensino de profissionais para atuar na área da saúde, alguns fatores devem prevalecer durante a formação, tais como a capacidade de reflexão sobre o meio em que vivem, postura crítica em relação ao seu trabalho e ao conhecimento apreendido, integração de diferentes saberes no planejamento de ações em saúde, incentivo ao trabalho em equipe e atuação ética.8

O estágio supervisionado, nesse contexto, exerce uma função essencial que vai além da sala de aula, pois permite ao estudante desenvolver uma compreensão mais aprofundada de seu papel profissional e valorizar o cuidado humanizado ao paciente.9

Além de integrar teoria e a prática, o estágio contribui para a construção de atitudes, competências e posturas necessárias à prática profissional. Nesse espaço, o aluno vivencia situações reais de atendimento, muitas vezes diferentes daquelas previstas na teoria, como intercorrências, desafios éticos e decisões clínicas. Também lhe proporciona a oportunidade de compreender como sua atuação pode gerar um impacto positivo na vida dos pacientes e na comunidade. O estágio representa, ainda, um momento importante para que o estudante identifique áreas com as quais mais se identifica, auxiliando na escolha de sua futura especialização.10

Enquanto atividade formativa, o estágio supervisionado deve contribuir para a consolidação do ensino e da aprendizagem, por meio de ações planejadas, executadas, acompanhadas e avaliadas por enfermeiro, em consonância com o projeto pedagógico do curso. Seu propósito central é garantir o desenvolvimento das competências e habilidades gerais e específicas necessárias ao exercício profissional.11 

Embora necessários e importantes para a formação da categoria da Enfermagem, os estágios supervisionados revelam diversos desafios, distintos entre si, que impactam o processo das vivências formativas e precisam ser superados ao longo da experiência. Destacam-se a dificuldade dos graduandos em articular a teoria com a prática em ambientes complexos, a limitação de recursos humanos e materiais necessários ao desenvolvimento do trabalho, os desafios relacionais com as equipes dos serviços assistenciais, bem como com os pacientes e familiares, que por vezes demonstram resistência em serem atendidos por estagiários. Outro desafio relevante é a variabilidade na qualidade da supervisão, que depende tanto da disponibilidade quanto da preparação pedagógica dos enfermeiros preceptores.12

Esses fatores influenciam diretamente a autonomia, a segurança e a confiança dos alunos durante as práticas, exigindo das instituições de ensino uma organização criteriosa dos estágios e a adoção de estratégias de acompanhamento contínuo, com vistas a garantir uma aprendizagem significativa.

Destaca-se que tais vivências podem ser compreendidas a partir de referenciais teóricos que valorizam a aprendizagem experiencial, reflexiva e dialógica.

O aprendizado ocorre em um ciclo contínuo, que envolve a experiência concreta, observação reflexiva, a conceituação abstrata e a experimentação ativa. No contexto do estágio, esse movimento se materializa quando o estudante vivencia situações reais de cuidado, reflete criticamente sobre elas, com o apoio do docente supervisor, e ressignifica suas práticas profissionais.13

A educação como prática de liberdade, fundamenta-se no diálogo e na problematização da realidade, o que se alinha diretamente ao papel do docente supervisor como mediador crítico do processo formativo, que acolhe dúvidas, estimula a autonomia e favorece o desenvolvimento de uma postura ética e humanizada.14

Esses referenciais dialogam diretamente com as DCNs do Curso de Enfermagem, que defendem a formação de um profissional crítico, reflexivo, generalista e capaz de aprender continuamente ao longo do seu percurso profissional.15

As DCNs reforçam que o estágio supervisionado deve possibilitar ao estudante integrar teoria e prática, desenvolver raciocínio clínico, atuar de forma ética e interprofissional, e construir autonomia e responsabilidade social.

Em consonância, a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS) estabelece que a formação em saúde deve ocorrer no próprio processo de trabalho, valorizando a problematização, a aprendizagem significativa e a reflexão crítica sobre as práticas profissionais. Essa perspectiva fortalece o papel do docente como dispositivo pedagógico essencial, atuando como facilitador do processo de aprendizagem e apoiando o estudante na transformação de experiências concretas em saberes, a partir da análise crítica do cotidiano dos serviços.16

Dessa forma, este estudo objetiva compreender as vivências dos graduandos de Enfermagem durante os estágios assistenciais previstos na grade curricular de um curso de Enfermagem em uma instituição de Ensino Superior localizada no Estado de São Paulo.

Método

Trata-se de um estudo com delineamento qualitativo, de caráter exploratório. A realização da pesquisa ocorreu em uma universidade privada localizada na cidade de São Paulo, com mais de 60 anos de atuação na formação de enfermeiros(as). Como critérios de inclusão estabeleceram-se: estar regularmente matriculado(a) no sétimo semestre da graduação de Enfermagem e ter concluído os estágios assistenciais previstos na grade curricular para tal semestre.

A abordagem dos participantes da pesquisa, realizada em agosto de 2024, junto aos estudantes de Enfermagem do 7º semestre do curso de graduação em Enfermagem, ocorreu durante uma reunião de encerramento de estágio, na qual os alunos apresentaram projetos por eles desenvolvidos ao longo da experiência. A coleta de dados ocorreu por meio do envio eletrônico, via programa Google Forms, de um formulário contendo as perguntas propostas pelo instrumento, precedido da assinatura do Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE).

O instrumento de coleta de dados foi direcionado às questões alusivas à escolha profissional, às oportunidades e aos desafios vivenciados no campo de estágio, bem como às expectativas em relação ao futuro da formação.

A análise dos dados foi realizada à luz do referencial da educação emancipatória de Paulo Freire, o qual estabelece, como pressuposto, uma prática educativa permeada pelo diálogo entre os atores históricos e sociais. Para que a transformação seja efetivamente libertadora, o docente deve favorecer a participação ativa do discente na construção do próprio conhecimento.17

O estudo obteve a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Santo Amaro sob parecer de nº 6.895.630. Foi garantido o anonimato dos participantes, identificados como “Estudante 1” (E1), Estudante 2 (E2) e assim sucessivamente.

Resultados

Dos 58 estudantes elegíveis, 26 participaram do estudo, resultando em uma taxa de resposta de 44,8%. Quanto à caracterização da amostra, a idade média dos participantes foi de 32 anos; 84,6% identificaram-se com o gênero feminino e 57,7% declararam-se solteiros. Em relação à raça/cor, 50% autodeclararam-se brancos, 42,3% pardos e 7,7% pretos. No que se refere à atividade profissional, 73,1% dos estudantes exerciam atividade remunerada e, durante o período do estudo, 84,6% frequentavam o curso no turno diurno.

Quanto à experiência por cenário de prática, a Tabela 1 apresenta os resultados gerais bem como aqueles específicos das áreas de estágio em Saúde do Adulto, Saúde da Criança, Saúde da Mulher e Unidade Básica de Saúde (UBS).

 Tabela 1 - Experiência por cenário. São Paulo (SP), Brasil. 2024.

Experiências

Excelente

Boa

Média

Indiferente

Ruim

Péssima

Geral

15,4%

50,0%

26,9%

-

7,7%

15,5%

Saúde do Adulto

23,1%

26,9%

42,3%

3,8%

3,8%

23,1%

Saúde da Criança

23,1%

50,0%

11,5%

3,8%

7,7%

23,1%

Saúde da Mulher

42,3%

42,3%

11,5%

3,8%

-

-

UBS

30,8%

42,3%

15,4%

3,8%

3,8%

  3,8%

Os fatores que sustentaram as avaliações realizadas em campo de estágio apresentaram as seguintes respostas: 42,3% referiram-se ao acolhimento e ao direcionamento docente, 30,8% relacionaram-se ao campo de estágio, considerando-se a facilidade de acesso e estrutura da organização, 23,1% apontaram o acolhimento da equipe local; e 3,8% destacaram o contato com pacientes e familiares.

Em relação ao papel do docente de Enfermagem, os graus de prioridade atribuídos às atitudes e aos comportamentos do professor resultaram conforme apresentado no Gráfico 1.

Gráfico 1 - Grau de prioridade relacionada às atitudes e aos comportamentos do professor. São Paulo (SP). Brasil, 2024.

Em relação às dúvidas vocacionais surgidas durante o período de estágio, no que se refere à escolha profissional, 57,7% dos estudantes relataram não apresentar questionamentos, enquanto 42,3% afirmaram ter dúvidas sobre a sua futura atuação.

As justificativas apresentadas pelos graduandos foram analisadas e agrupadas em três categorias principais: “Preceptoria e acolhimento”, “Inspiração versus desmotivação” e “Posturas docentes”. As falas que ilustram tais categorias serão apresentadas a seguir.

Preceptoria e acolhimento

Alguns campos de estágio faziam a gente questionar se queríamos seguir firme ou não. (E18)

Sim, algumas vezes pelo fato do não acolhimento das equipes. (E22)

Inspiração versus desmotivação

Muito cansativo, dúvidas sobre se vale a pena, se fiz a escolha correta. (E6)

A Enfermagem tem que lutar muito, muitos documentos, muitas etapas, poucos profissionais, muitos pacientes, demanda. Na teoria é uma coisa, mas na prática é totalmente diferente. (E9)

Gosto muito da área, mas os estágios deixaram a desejar, sinto que não fui preparada para atuar depois da formação. (E13)

Após ser tratada de forma hostil por profissionais que um dia já passaram pelo mesmo processo que estou passando, nos limitando, nos impedindo de executar os procedimentos, não só tive dúvida, como também me senti envergonhada por fazer parte desta categoria. Mas o que me motivou sempre foi saber que, não importa como os outros agem, não vou permitir que o comportamento alheio influencie no meu profissionalismo. E a falta de empatia dos profissionais, e, inclusive, dos docentes, é algo inenarrável, decepcionante, resumindo, abuso de poder a fim de alimentar um ego inflamado. Desnecessário! (E15)

Posturas docentes

Quanto à influência positiva dos docentes na decisão de seguir na área, 80,8% dos participantes responderam “sim” e 19,2% “não”. Ao justificarem suas respostas, destacaram-se as seguintes fala:

Docente tem um dos papéis fundamentais, passar confiança e aprimorar o aluno, moldando da melhor forma, o direcionamento deles é fundamental, por esse e por outros motivos, estão sempre se atualizando. (E1)

A melhor forma de ensinar é através do exemplo, e alguns docentes ensinam como não devemos ser em relação a relações interpessoais e trabalho em equipe, já outros usamos de inspiração de quem queremos ser um dia. (E2)

Eles podem despertar a vontade de continuar, ou podem também acabar com um sonho. (E5)

E o primeiro contato, a postura do profissional que nos ensina, pode ser crucial no profissional que seremos. (E7)

Acredito que todos os professores que passei são inteligentes, procuram se atualizar sempre, sempre defendem o SUS, sempre falam do nosso conselho de classe. Muitos são, sim, mas talvez pela profissão, alguns são soberbos. (E9)

A postura dos professores frente às intercorrências ou problemáticas de ensino é reflexo das ações dos enfermeiros frente às questões similares no ambiente profissional. (E12)

Alguns não, pois são arrogantes e não sei como atuam numa área assim. (E13)

Muitas vezes, as atitudes dizem mais do que qualquer discurso, daí a necessidade de expressá-las através de uma postura correta e coerente, partindo do pressuposto de que o respeito, a justiça e a moralidade são elementos essenciais inerentes ao comportamento ético de cada dia na área da saúde. Dessa maneira, o docente de estágio é um espelho para seu aluno. (E14)

Alguns são ótimos exemplos, de postura, de conhecimento, de paciência e de empatia, e, ou melhor, principalmente em empatia. Mas tem alguns que se esquecem de como é difícil estar onde estamos, se acham no direito de nos humilhar, nos julgar e nos condenar, por simples capricho. E não venha me dizer que são regras, regras existem para serem melhoradas, e muitas vezes existe, sim, uma flexibilidade, mas o docente abusa de seu poder e prejudica o aluno só pra se sentir melhor e superior. Não há uma conversa esclarecedora pra entender melhor as dificuldades do aluno e o momento vivido. A instituição deveria avaliar melhor seus docentes, e dar um pouco mais de credibilidade às falas dos alunos. Afinal, se trata de como nos sentimos diante da situação e do quanto isso pode influenciar negativamente o desenvolvimento do conhecimento. Fala-se tanto em EMPATIA como em HUMANIZAÇÃO. Mas parece que isso só serve para ser servido e não recebido. (E15)

O aluno, quando está no seu processo de aprendizagem, se torna vulnerável às influências externas, e é quando o exemplo do docente pode espelhar no seu desenvolvimento. Ao refletir o perfil profissional daquele docente, ele pode buscar ser um bom profissional como esse ou ter aquele docente como um exemplo a não ser seguido, porém, pra tanto, o aluno precisa conseguir identificar se aquele docente é ou não um bom profissional, e isso depende de inúmeros fatores, como p.ex., a concepção pessoal do aluno. (E16)

Sim, creio que seremos, no início de nossa profissão, um espelho de docentes que foram nossas inspirações, por isso a importância de um docente qualificado. (E24)

Maus docentes são uma péssima influência, até mesmo a assiduidade dos alunos muda de acordo com a postura do docente. (E25)

Discussão

A caracterização sociodemográfica do estudo evidencia a predominância do gênero feminino, aspecto historicamente associado à profissão da Enfermagem. A Enfermagem constitui a maior FTS, tanto em âmbito nacional quanto internacional, correspondendo a aproximadamente 59% da FT mundial e a cerca de 70% no Brasil. No contexto brasileiro, 84,6% dessa FT é composta por mulheres.18

Dado imprescindível para o direcionamento docente na Enfermagem é a condição de um quantitativo relevante de estudantes que possuem vínculos com atividades remuneradas no período contrário aos estudos. Os estudantes que trabalham enfrentam desafios diários, como aqueles relacionados ao trajeto percorrido até a instituição de ensino, a exemplo do trânsito, que gera atrasos e repercute na perda de aulas, além do cansaço físico e da carga emocional. São alunos que buscam, por meio da formação superior, reconhecimento social, formação profissional e a obtenção de diploma, com vistas a melhores oportunidades de inserção no mercado de trabalho.19

Parte significativa dos estudantes de Ensino Superior no Brasil é composta por estudantes que trabalham por motivos de necessidade econômica e/ou aprimoramento profissional. Desempenhar simultaneamente os papéis de trabalhador e estudante constitui um desafio, tornando imprescindível a promoção da qualidade do ensino e do processo de aprendizagem durante a graduação.12

O estágio curricular supervisionado no curso de graduação em Enfermagem é um componente obrigatório do currículo, cuja formação generalista, humanista e reflexiva está prevista pelas DCNs20, e tem como objetivo o desenvolvimento de competências técnicas, éticas e atitudinais para a formação dos futuros enfermeiros. O campo de estágio permite ao alunado vivenciar, junto aos docentes, profissionais da área da saúde, pacientes e familiares, as diferentes ocorrências no processo de saúde-doença da população sob sua demanda de cuidados.

A educação libertadora de Freire representa uma orientação teórica, configurando-se como uma ferramenta para a transformação social, política e para a crítica aos modelos alinhados à educação tradicional. Tal perspectiva indica a relevância de se estabelecer diálogos, envolvendo reflexões as quais permitem que as transformações necessárias à construção do conhecimento superem os modelos tradicionais institucionalizados das práticas dos serviços de saúde.21

Relacionar a teoria com a prática é essencial durante o desenvolvimento dos estágios práticos, facultando aos aprendizes o aprimoramento de suas habilidades, do raciocínio crítico, da tomada de decisão e do trabalho em equipe.

O pensamento freiriano, expressado por meio da ação-reflexão-ação, propõe uma busca contínua pela compreensão das realidades como um produto histórico, e requer, assim, o diálogo com os atores sociais para a leitura das demandas decorrentes das disparidades territoriais.22

 A área da Obstetrícia foi a que obteve maior percentual na avaliação geral como “excelente”, seguida pela Pediatria como “boa” e pela saúde do adulto como “média”. Para o desenvolvimento do olhar crítico-reflexivo do aluno, quanto maiores as oportunidades de diversificação as áreas de atuação, melhor será a compreensão do estudante para relacionar a teoria com a prática e para agir nas distintas situações enfrentadas pelo profissional enfermeiro em seu cotidiano de trabalho.23

A falta de disponibilidade do docente que acompanha o estágio, assim como a resistência de pacientes em relação ao cuidado prestado por estagiários, são fatores que tornam o processo de estágio desfavorável, uma vez que a vivência prática é indispensável e obrigatória para a formação.24 Por meio dos desafios dos campos de estágio, o futuro profissional passa a validar os ensinamentos do curso, necessitando do auxílio do professor que tem como responsabilidade esclarecer dúvidas, direcionar condutas, orientar caminhos, estabelecer prioridades e permitir o desenvolvimento do raciocínio crítico.25

As falas dos participantes evidenciam que a influência do docente, por meio do exemplo, é indispensável para uma formação adequada e satisfatória do estudante. A contribuição de cada professor, em suas respectivas especialidades, é singular e deve favorecer e conduzir o processo de aprendizagem, estimulando o aluno à reflexão sobre suas práticas nos contextos técnico e ético.

A interação entre o docente e o campo de prática configura-se como um mecanismo central para a consolidação do conhecimento, uma vez que o professor atua não apenas como transmissor de saberes, mas como mediador das experiências práticas.

Por meio da supervisão direta, orientação constante, ativa e reflexiva, o docente facilita a construção do raciocínio crítico do estudante, promovendo a análise de situações reais à luz da teoria aprendida. Além disso, a observação das condutas profissionais, a participação em decisões clínicas e o acompanhamento das respostas dos pacientes permitem que o aluno compreenda as nuances do cuidado em saúde, reconhecendo tanto os desafios quanto as possibilidades de atuação do enfermeiro.

 Esse vínculo, portanto, não apenas reforça a aplicação prática do conhecimento, mas também fortalece a confiança, a autonomia e a tomada de decisão ética do futuro profissional, criando um ciclo contínuo de aprendizagem e reflexão.

O estudo apresenta limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados, uma vez que a amostra foi reduzida e proveniente de uma única instituição, o que limita a generalização dos achados para outros contextos educacionais.

Considerações finais

A realização desta pesquisa evidencia a importância de uma educação transformadora que oportunize ao estudante a construção ativa de suas competências, as quais desdobram em conhecimentos, habilidades e atitudes.

A Enfermagem, por se tratar de um grupo profissional imprescindível para o cuidado da saúde da população, diante das distintas realidades de atendimento, assim como dos desafios dos serviços de saúde, tais como o fenômeno da precarização da assistência, necessita buscar aprimoramentos constantes na formação de seus futuros enfermeiros, por meio de influências positivas de seus formadores.

Por sua vez, o docente que acompanha e supervisiona as atividades propostas nos estágios assistenciais, deve em suas ações educativas, transpor o que é visto como tradicional e favorecer ao estudante, reflexões que o sensibilizem a pensar criticamente sobre as práticas vivenciadas por ele. Faz-se necessário que o docente compreenda o quanto as suas atitudes influenciam, tanto positiva quanto negativamente, as escolhas profissionais dos alunos.

Os achados deste estudo reforçaram a relevância da aprendizagem experiencial e reflexiva na formação do enfermeiro, evidenciando como a interação entre o docente e o campo de prática contribui para a construção da identidade profissional e para o desenvolvimento de competências técnicas, éticas e relacionais.

A supervisão efetiva, aliada às posturas docentes inspiradoras, permite que os estudantes transformem experiências concretas em saberes significativos, fortalecendo o raciocínio crítico, a autonomia e a capacidade de tomada de decisão ética.

Do ponto de vista organizacional, os achados indicaram a necessidade de revisão e de aprimoramento da estrutura dos estágios supervisionados, considerando a capacitação contínua dos docentes, a diversificação dos cenários de prática e a adoção de estratégias que promovam o acolhimento e a integração dos estudantes. Tais medidas podem favorecer experiências mais significativas, reduzir dúvidas vocacionais e inspirar a permanência e o engajamento dos alunos na profissão, contribuindo para a formação de profissionais mais preparados para atuar nos complexos contextos do sistema de saúde brasileiro.

Contribuições dos autores

Concepção do estudo: Ellen Maria Hagopian. Coleta de dados: Ellen Maria Hagopian. Análise e interpretação dos dados: Ellen Maria Hagopian, Thaís Araújo da Silva, Maria do Socorro Cardoso dos Santos. Redação do manuscrito: Ellen Maria Hagopian, Thaís Araújo da Silva, Maria do Socorro Cardoso dos Santos. Revisão crítica do manuscrito: Ellen Maria Hagopian, Thaís Araújo da Silva, Maria do Socorro Cardoso dos Santos. Aprovação da versão final do texto: Ellen Maria Hagopian, Thaís Araújo da Silva, Maria do Socorro Cardoso dos Santos.

Conflito de interesse

Os autores declararam que não há conflito de interesse.

Referências

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Autor Correspondente

Ellen Maria Hagopian

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