Necrofania e fragmentação disciplinar: uma proposta de unidade analítica de terceira ordem para a teoria sociológica contemporânea

Autores

DOI:

https://doi.org/10.51359/2317-5427.2026.269630

Palavras-chave:

teoria sociológica, violência letal, ordem social, normalização da morte, necrofania

Resumo

Este artigo propõe o conceito de necrofania como operador analítico destinado a articular debates contemporâneos sobre violência letal frequentemente tratados de forma fragmentada na teoria social. Em diálogo com discussões sobre biopolítica, necropolítica e economia moral da vida e da morte, argumenta-se que, em certos contextos, a morte violenta deixa de operar como evento excepcional ou limite moral absoluto e passa a integrar o funcionamento ordinário de ordens sociais formalmente reguladas, inclusive em regimes democráticos. A necrofania designa arranjos sociopolíticos nos quais a visibilidade reiterada da morte, a produção sistemática de violência em excesso e sua legitimação institucional operam de modo articulado, produzindo a normalização social da letalidade, cuja articulação simultânea é condição necessária para a caracterização do fenômeno. Ao propor uma unidade analítica de terceira ordem, o artigo busca oferecer uma ferramenta conceitual que, operando em nível metateórico, integra categorias consolidadas sem fundi-las em um princípio único. Metodologicamente, trata-se de um ensaio teórico-conceitual fundamentado em revisão crítica da literatura sociológica.

Biografia do Autor

Gilberto Macedo Pina, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mestre em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI-IBICT/UFRJ, 1997). Mestrando em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPCIS-UERJ). Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ, 2025)

Referências

AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. São Paulo: Boitempo, 2004.

ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

FARIAS, Juliana. Zona de tatuagem: um carimbo do Estado no corpo do favelado. Revista de Antropologia, v. 62, n. 2, p. 275–297, 2019.

FASSIN, Didier. Enforcing order: an ethnography of urban policing. Cambridge: Polity Press, 2013.

FELDMAN, Allen. Strange fruit: the South African Truth Commission and the demonic economies of violence. Social Analysis, v. 46, n. 3, p. 234–265, 2002.

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

FREIRE, Lucas. A gestão da escassez: uma etnografia da administração de litígios de saúde em tempos de “crise”. 2019. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.

GRAHAM, Stephen. Cidades sitiadas: o novo urbanismo militar. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2016.

LACERDA, Paula. Recompondo corpos, reconstruindo trajetórias: ações da medicina e da justiça frente à mutilação sexual de meninos. Cadernos Pagu, n. 44, p. 299–331, 2015.

LUHMANN, Niklas. Sistemas sociais: esboço de uma teoria geral. Tradução de Antonio C. Luz Costa, Roberto Dutra Torres Junior e Marco Antonio Casanova. São Paulo: Editora Vozes, 2016. Publicado originalmente em 1984.

MACHADO DA SILVA, Luiz Antonio. Vida sob cerco: violência e rotina nas favelas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

MEDEIROS, Flavia. Matabilidade como forma de governo: violências, desigualdades e Estado numa perspectiva comparativa entre Florianópolis e Rio de Janeiro. Horizontes Antropológicos, n. 65, p. 1-36, 2023.

MISSE, Michel. Crime e violência no Brasil contemporâneo: estudos de sociologia do crime e da violência urbana. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006.

PRIBERAM. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]. Lisboa: Priberam Informática, 2008–2026. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/. Acesso em: 25 jan. 2026.

SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. In: SIMMEL, Georg. Sociologia. São Paulo: Ática, 2005. p. 577–591.

TELLES, Vera da Silva. A cidade nas fronteiras do legal e do ilegal. Belo Horizonte: Argumentum, 2010.

VIANNA, Adriana. “Políticas da morte e seus fantasmas”. Le Monde Diplomatique Brasil, ano 12, n. 140, 2019, s. p..

WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. 4. ed. Brasília: Editora UnB, 1999. v. 1.

Downloads

Publicado

06-05-2026