Clarice Lispector:nas trevas dos acontecimentos
DOI:
https://doi.org/10.51359/1982-6850.2019.240845Palavras-chave:
Clarice Lispector, filosofia, literatura, acontecimentoResumo
Sob uma lua que demarca o tempo, mas que, em certa altura da noite, desaparece, o protagonista central do romance A maçã no escuro, Martim, dorme profundamente mergulhado no fundo de uma noite silenciosa. Assim como na narrativa dos Vedas (Upanixade), presente na citação que abre esse romance, o texto é marcado por uma não distinção entre forma e informe. Corpos vivos e inanimados compartem uma mesma atmosfera em que o exterior (Jardim) e interior (quarto de hotel) oscilam entre o discernível e o indiscernível de uma noite silenciosa de março em que os acontecimentos, mais do que pontos de convergências de experiências linearmente ordenadas, são irrupções, fissuras e desdobramentos que constroem, ao mesmo tempo em que descontroem, um enredo marcado pelo mistério de um crime em que a morte assume a condição de dýnamis, isto é, de potência criadora e reveladora de sentido. Esse artigo pretende, portanto, estabelecer uma reflexão, centrada especificamente no personagem Martim, sobre o papel da linguagem como lugar de perdição, mas também, de acontecimento em que sujeito e mundo se definem, dinamicamente, pelo jogo entre a fundação e a despossessão das categorias que definem as antagonias tais como: conhecimento - ignorância, todo-vazio, palavra-silêncio e vida-morte.
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