A Política do Conhecimento
da Ética Individual à Transformação Estrutural
DOI:
https://doi.org/10.51359/2357-9986.2025.266457Palavras-chave:
epistemologia social, injustiças epistêmicas, preconceito identitário, branquitudeResumo
Este artigo examina os limites da teoria de injustiça epistêmica de Fricker (2007), argumentando que sua proposta normativa centrada no cultivo individual de virtudes éticas e epistêmicas é insuficiente para enfrentar as dimensões estruturais e intencionais da opressão. A análise desenvolve-se em três momentos. Primeiro, reconstrói criticamente a teoria de Fricker, argumentando que sua solução baseada na virtude decorre de diagnosticar o preconceito como falha espontânea na percepção individual, e apresenta as críticas de Anderson, Dotson e Medina, que convergem ao apontar o caráter excessivamente individualista dessa abordagem. Segundo, aprofunda a compreensão do racismo como projeto político-epistêmico de dominação, mobilizando contribuições de intelectuais negras brasileiras (Carneiro, Gonzalez, Bento) para argumentar que as injustiças epistêmicas constituem elementos intrínsecos e intencionalmente estruturados dentro de sistemas de dominação. A análise examina como a branquitude funciona como posição normativa que molda práticas epistêmicas e como o mito da democracia racial opera para encobrir essa intencionalidade estrutural. Terceiro, propõe exercícios de pensamento que ilustram como a saliência e desvalorização de características identitárias resultam de sistemas articulados de poder que deliberadamente marcam, hierarquizam e subordinam. O artigo conclui que o enfrentamento efetivo das injustiças epistêmicas requer transformações estruturais profundas nas instituições e sistemas que organizam nossas práticas de conhecimento, deslocando a ênfase da ética individual para a transformação estrutural e reconhecendo que tais sistemas operam frequentemente não por acidente, mas por desígnio.
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