Esticando a verdade sem alcançar a contradição: o caso do dialeteísmo

Autores/as

DOI:

https://doi.org/10.51359/2357-9986.2020.248951

Palabras clave:

dialeteísmo, contradição, paraconsistência, negação, paradoxo do mentiroso

Resumen

Dialeteias são contradições verdadeiras. Dialeteísmo é a visão de que há dialeteias e dialeteístas são aqueles que defendem tal visão. Uma das principais motivações para o dialeteísmo encontra-se nos paradoxos semânticos, como o paradoxo do Mentiroso. A sentença do mentiroso, na abordagem dialeteísta, instancia uma dialeteia. O problema é: como aceitar contradições verdadeiras? Como dialeteísmo é a visão que algumas, mas não todas, contradições são verdadeiras, o dialeteísmo demanda um tratamento paraconsistente. Porém, não é qualquer sistema paraconsistente que pode ser aplicado ao dialeteísmo. A interpretação do símbolo de negação deve ser um operador formador de contradição (ofc) com o sentido relevante para a aplicação dialeteísta. Especificamente, na versão de dialeteísmo que discutiremos nesse artigo, defendida por Graham Priest, temos que, para que o dialeteísmo faça sentido, a negação da lógica subjacente deve atender a dois requisitos: (i) ser um ofc e (ii) não ser explosiva. A Lógica do Paradoxo (LP) tem sido apontada  como a lógica adequada ao dialeteísmo. Veremos que, a fim de lidar com contradições sem trivialidade, dialeteístas “esticam” a verdade de modo que a verdade possa incluir, em alguns casos, a falsidade também. Nesse caso, haveria sentenças verdadeiras e falsas,  chamadas de aglutinações de valores de verdade (truth-value gluts). Em LP, aglutinações de valores de verdade são fundamentais para garantir os requisitos (i) e (ii). Todavia, vamos argumentar que tal procedimento de esticar a verdade, permitindo aglutinações, garante a paraconsistência ao custo de distorcer a interpretação da noção de contradição envolvida no dialeteísmo. Especificamente, tal distorção enfraquece a interpretação da negação comprometendo o sentido de contradição relevante para o dialeteísmo. Vamos argumentar que as próprias restrições dialeteístas a uma compreensão adequada do Mentiroso mostram que as condições (i) e (ii) são incompatíveis e que, com isso, o projeto dialeteísta enfrenta consideráveis obstáculos.

Biografía del autor/a

Ederson Safra Melo, Universidade Federal do Maranhão

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão, Brasil.

Jonas Rafael Becker Arenhart, Universidade Federal de Santa Catarina

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Artigo produzido enquanto o autor era Research Fellow no Instituto Círculo de Viena, na Universidade de Viena, Áustria.

Citas

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Publicado

2020-11-27

Número

Sección

Número Especial sobre Filosofia da Lógica