Jaegwon Kim e a herança brentaniana na filosofia analítica da mente

considerações sobre o representacionalismo

Auteurs

DOI :

https://doi.org/10.51359/2357-9986.2023.260704

Mots-clés :

Filosofia da Mente, Franz Brentano, intencionalidade

Résumé

Via de regra, a maior parte das análises da tese da intencionalidade, a qual foi introduzida na origem da filosofia contemporânea por Franz Brentano em sua obra Psicologia a partir de um ponto de vista empírico (1874), adota as perspectivas estabelecidas pelos filósofos da tradição fenomenológica. Certamente tais abordagens encontram boas justificativas no fato de que a fenomenologia figura entre as principais correntes de pensamento desenvolvidas a partir do projeto inaugurado por Brentano em 1874. No entanto, vários outros pensadores pertencentes a outras correntes de pensamento, as quais certamente não foram menos relevantes para o atual estágio da filosofia contemporânea, analisaram a tese brentaniana da intencionalidade e desenvolveram seus respectivos programas de pesquisa a partir de perspectivas diversas àquelas dos filósofos da tradição fenomenológica. Entre eles figuraram Kasimir Twardowski, Alois Höfler, Alexius Meinong, Carl Stumpf, Anton Marty, Sigmund Freud, entre outros. Além disso, a partir da segunda metade do século passado e na esteira de uma tradição não fenomenológica, alguns pensadores pertencentes à nova corrente definida como filosofia da mente, desenvolvida no ceio da tradição analítica, recolocaram a tese brentaniana da intencionalidade no centro de suas análises filosóficas. A questão fundamental estabelecida por essa tradição foi aberta ao debate nos seguintes termos: a intencionalidade é a marca do mental? Desde então, o modo como essa questão fundamental vem sendo interpretada, bem como as diferentes respostas que ela tem recebido, diverge radicalmente em função dos pressupostos (ontológicos e epistemológicos) assumidos pelos programas de pesquisas dos filósofos da mente envolvidos no debate. Em função deste horizonte aberto, este trabalho está divido em três partes: (i) apresenta de modo sistemático os pontos fundamentais da análise de Fréchette (2021), a qual descreve o distanciamento da interpretação Standard de orientação fenomenológica ao traçar a rota da recepção do programa brentaniano pela tradição analítica da filosofia da mente; (ii) descreve o modo como Jaegwon Kim, em seu livro Philosophy of mind (2011/2019), analisa a tese brentaniana da intencionalidade com o propósito de apresentar uma suposta resposta consensual da filosofia da mente para a pergunta “a intencionalidade é a marca do mental?” O desenvolvimento das partes (i) e (ii) explicitará o pano de fundo para a sustentação da seguinte hipótese: Brentano teria bons argumentos para refutar a análise de Kim acerca da sua tese da intencionalidade, pois ao menos um pressuposto fundamental na definição de intencionalidade é tomado por Kim em sentido equivocado, a saber, presentação (Vorstellung), tal como sustentou Boccaccini (2023). Finalmente, (iii) a minha tese defendida na última parte deste trabalho assume, portanto, que Kim incorre na cilada da multiplicidade de sentidos do termo Vorstellung e, por isso, apresenta uma análise equivocada da tese brentaniana da intencionalidade sustentada no representacionalismo, a qual impede a compreensão da definição do conceito brentaniano de fenômeno (físico e psíquico) nos termos da sua 4ª tese de Habilitação.

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Publiée

2024-02-15

Numéro

Rubrique

Número especial: Origens da Filosofia Contemporânea