Os conceitos de democracia e revolução no pensamento autoritário de direita entre a ditadura do Estado Novo e o fim do regime militar

Diogo Cunha

Resumo


O objetivo deste artigo é examinar os significados dos conceitos de revolução e democracia dados pelos pensadores autoritários de direita entre as décadas de 1930 e 1980. Parte-se da hipótese de que a mudança operada nesses conceitos nesse período contribuiu para a legitimação dos dois regimes autoritários do século XX brasileiro, funcionando como “conceitos de movimento” tal como foi teorizado por Reinhart Koselleck. Na primeira parte do artigo examinamos as contribuições de Pierre Rosanvallon e de Reinhart Koselleck para elucidar o que estamos entendendo por “conceitos de movimento”. Na segunda parte, oferecemos alguns marcos referenciais da trajetória desses conceitos entre o final do século XVIII e a década de 1920. Na terceira parte, examinamos como alguns pensadores autoritários de direita operaram uma mudança nos significados dos conceitos de revolução e de democracia na década de 1930. Na quarta parte, estudamos a permanência desses significados no início dos anos 1960 para demonstrar que a designação do golpe de Estado de 1964 como uma “revolução democrática” se inscrevia em uma forma de pensar própria da direita e da extrema-direita desde os anos 1930. A última parte examina como o pensamento autoritário de direita pensou a transição para a democracia. Concluímos que os significados dados aos conceitos de revolução e democracia pelos pensadores autoritários de direita entre os anos 1930 e 1970 não ficaram restritos ao círculo das elites políticas e intelectuais, o que explica as relações ambíguas que uma parte da sociedade ainda entretém com a democracia.

Palavras-chave


Pensamento político brasileiro; revolução; democracia; direitas; história dos conceitos.

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