Imagens humanitárias do Sertão e da África: a atuação dos “braços sociais” do Caminho da Graça em Tuparetama e Dakar

Gilson Rodrigues Jr

Resumo



A presente proposta surge como parte das reflexões da tese de doutorado , através da qual se pretende desenvolver uma etnografia da rede de atuação dos chamados "braços sociais" do movimento religioso Caminho da Graça. Tratam-se de duas agências humanitárias: SOS Religar, que atuava no Sertão do Pajeú até meados de 2015; e Caminho Nações, atuante na Nigéria e no Senegal. 

A partir de situações suscitadas durante o trabalho de campo desenvolvido até aqui, venho me debruçando acerca da interface entre Estado, Humanitarismo e Religião. Dentre as questões que pretendo compreender, encontra-se a relação existente entre a defesa da urgência da ajuda humanitária, enquanto expressão da compaixão, e a manutenção de desigualdades, advindas destas mesmas ações. Tal questão surge a partir da informações obtidas em campo, acompanhando as intervenções realizadas, ou mesmo nas conversas e entrevistas já realizadas. Percebe-se a construção de "tipos ideais" de vulneráveis, os quais parecem inseparáveis de uma invenção de um Sertão Nordestino e de uma África precarizados. Não se trata aqui de relativizar fatores objetivos como a miséria socioeconômica e simbólica em que tais grupos possam se encontrar, mas como se estabelecem as relações de poder, e como parecem contribuir para a manutenção de desigualdades entre os referidos agentes - e com isso, regiões e/ou nações; classes sociais; raças/etnias; e uma perspectiva religiosa - e aqueles que merecem ser alvo de sua ajuda.

Ainda que o trabalho aponte para especificidades de cada local, e seus públicos-alvo, assim como aqueles que participam mais ativamente de cada uma delas, percebe-se, preliminarmente, alguns convergências: um movimento geopolítico inter-regional e transnacional que tem chamado atenção, suscitando uma discussão sobre processos neocolonizadores e a culpabilização das dinâmicas culturais locais, apontadas como um obstáculo a implementação de melhorias. 

A questão dos movimentos geopolíticos chama a atenção por ser uma prática humanitária "sul-sul", e não "norte-sul", como ocorre habitualmente, sendo idealizada e liderada por grupos de brasileiros que se direcionam para cada uma dessas regiões. Neste sentido, ainda que se adote uma perspectiva crítica, em diálogo com os trabalhos de Didier Fassin, e outros estudiosos, tem sido indispensável compreender as concepções de humanitarismo dos agentes em questão, e como eles buscam diferenciar-se de outras práticas humanitárias, uma vez que parecem concordar que estas, sim, contribuem para a perpetuação de desigualdades, pois dependem disso para continuar existindo, e, consequentemente, não trabalham de maneira a "gerar consciência" naqueles para quem se dirigem. 

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