“... QUEM MANDA AQUI SOU EU!” RAINHAS COROADAS NOS MARACATUS NAÇÃO PERNAMBUCANOS: INVERSÃO DE PAPEIS E RUPTURAS NOS ESPAÇOS DE PODER

Jailma Maria Oliveira

Resumo


Relata-se uma experiência etnográfica de observação e análise de um ritual festivo – maracatu nação pernambucano - através das relações de gênero que classificam e organizam espaços, posições e poderes nessa manifestação. Foca-se as rainhas coroadas e o seu poder de agência, numa perspectiva de ruptura de uma estrutura simbólica definidora de espaços para homens e mulheres. A presença das rainhas no comando do maracatu implica num processo de mudança, de modo que as práticas relacionadas às classificações ficam mais evidentes, bem como os arranjos de poder que deslocam para os homens ou para as mulheres a legitimidade de liderança. Do ponto de vista da mudança, Turner pode ser útil para a análise das implicações dela resultante no contexto das ações. Os dados provêm da observação de campo e de fontes oficiais. As nações de maracatu dividem-se em dois espaços: o batuque - masculino, liderado pelo mestre, emana um poder temporal e a corte - feminina, liderada pela rainha, um poder espiritual, com relativa equidade entre ambos. A função de presidente dá o controle efetivo sobre o grupo. Consoante com sua sobreposição com os cargos de mestre e de rainha, produz-se ambiguidades de poder e desigualdades, justificando-se práticas nos preceitos das religiões afro-brasileiras, as quais os grupos se filiam. Desdobra-se para realizar ou não o ritual de coroação da rainha, o qual lhe confere legitimidade e visibilidade, podendo acirrar disputas com o mestre do batuque. 


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