Ecologia Simbólica e Interacionismo em disputa: duas perspectivas teórico-metodológicas sobre a relação Humanos e Não-Humanos

Raoni Borges Barbosa

Resumo


Este artigo apresenta o modelo teórico-metodológico de Descola, enquanto teórico formado na linhagem francesa de pensamento social e antropológico, cujos traços marcantes são a definição do social como realidade objetiva passível de apreensão em uma escrita realista que registra uma hermenêutica da alteridade. Descola tem se destacado pelos estudos da relação homem-natureza a partir de sua proposta de antropologia como “Ecologia Simbólica”, enfatizando como as noções de Natureza e Alteridade são centrais e correlatas para o entendimento de uma estrutura social dada e seu respectivo repertório simbólico de classificação do mundo. Tem influenciado substancialmente o perspectivismo ameríndio ou multinaturalismo desenvolvido por Viveiros de Castro. Em um segundo momento, o artigo parte da de-construção da obra de Descola, entendida como variação do estruturalismo francês, para tensionar seu esquema analítico com base na proposta interacionista do social e da cultura. Neste sentido, discorre sobre o entendimento de autores como Schwartz, Barth, Ingold e Mura sobre a emergência processual, tensa, conflitual e indeterminada de sociabilidades ou sistemas sócio-técnicos, com suas cosmologias específicas e suas tradições de conhecimentos e moralidades construídas no cotidiano de processos intersubjetivos entre indivíduos em jogo comunicacional. Busca, assim, evidenciar o quanto as propostas estruturalistas e interacionistas de antropologia partem de pressupostos teórico-metodológicos distintos e resultam em modelos analíticos opostos e discordantes.Palavras-chave: Ecologia simbólica, perspectivismo ameríndio e multinaturalismo, interacionismo, relação humanos e não-humanos, sistemas sóciotécnicos e tradições de conhecimentos

Texto completo:

PDF

Referências


BARTH, Frederik. 2000. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro: Contra Capa.

CERTAU, Michel de. 1982. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.

CLIFFORD, James e MARCUS, E. George (Orgs). 1986. Writing Culture: The Poetics and Politics of Ethnography. Berkeley: University of Califórnia Press.

COLOMBO, Enzo. 2005. Descrever o social: A Arte de escrever a pesquisa empírica. In: MELUCCI, Alberto (Org.). Por uma sociologia reflexiva: pesquisa qualitativa e cultura. Petrópolis: Vozes, p. 265-288.

DESCOLA, Philippe. 1992. Societies of nature and the nature of Society. In: Adam Kuper (Ed.), Conceptualizing Society. New York: Routledge, p. 107-126.

DESCOLA, Philippe. 2002. Genealogia de objetos e antropologia da objetivação. Horizontes Antropológicos, 8 (18): 93-112.

DESCOLA, Philippe. 2005. Par dela nature et culture. Paris: Gallimard..

DURKHEIM, Émile. 2007. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes.

FABIAN, Johannes. 1983. The Time and the Other: how anthropology makes its object. New York: Columbia University Press.

FAVRET-SAADA, Jeanne. 2005. “Ser afetado”. Cadernos de Campo, 3(3): 155-161.

GIUMBELLI, Emerson. 2000. Para além do “trabalho de campo”: reflexões supostamente malinowskianas. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, 17(48).

GOFFMAN, Erving. 1988. Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Editora Guanabara.

GOFFMAN, Erving. 2010. Comportamento em lugares públicos. Petrópolis: Vozes.

GOFFMAN, Erving. 2012. Ritual de interação: ensaios sobre o comportamento face a face. Petrópolis: Vozes.

GOFFMAN, Erving. 2012a. Os quadros da experiência social: Uma perspectiva de análise. Petrópolis: Vozes.

GOLDMAN, Marcio. 2003. Os tambores dos mortos e os tambores dos vivos. Etnografia, antropologia e política em Ilhéus, Bahia. Revista de Antropologia. São Paulo, USP, 46(42): 445-476.

GOLDMAN, Marcio. 2005. Jeanne Favret-Saada, os afetos, a etnografia. Cadernos de Campo, 13(13): 149-153.

HABERMAS, Jürgen. 1968. Erkenntnis und Interesse. Frankfurt am Main: Suhrkamp.

HANNERZ, Ulf. 1980. Exploring the city: Inquiries toward an Urban Anthropology. New York: Columbia University Press.

INGOLD, Tim. 2010. Da transmissão de representações à educação da atenção. Educação, Porto Alegre, v.33, n.1, p. 6-25.

KUSNHER, Gilbert. 1969. The Anthropology of complex societies. Biennal review of anthropology, 6: 80-131.

LATOUR, Bruno. 2005. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Rio de Janeiro: Editora 34.

LATOUR, Bruno. 2011. Perspectivismo: “tipo” ou “bomba”? Primeiros Estudos 1(1): 173-178.

LÉVI-STRAUSS, Claude. 1976. As estruturas elementares do parentesco. São Paulo: EdUSP/Editora Vozes.

LIMA, Tânia Stolze. 1996. Os dois e seu múltiplo: reflexões sobre o perspectivismo em uma cosmologia Tupi. Mana 2(2): 21-47.

LIMA, Tânia Stolze. 1999. Para uma teoria etnográfica da distinção natureza e cultura na cosmologia Juruna. RBCS – Revista Brasileira de Ciências Sociais 14(40): 43-52.

MALINOWSKI, Bronislaw. 1976. Argonautas do pacifico ocidental: Um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia. São Paulo: Abril Cultural.

MAIZZA, Fabiana. 2009. Cosmografia de um mundo perigoso: Espaço e relações de afinidade entre os Jarawara da Amazônia. Tese. São Paulo: USP.

MARX, Karl. 2004. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo.

MURA, Fábio. 2010. “A trajetória dos chiru na tradição de conhecimento Kaiowa”. Mana, Rio de Janeiro, v.16, n.1, p. 123-50.

MURA, Fábio. 2014. “Beyond nature and the supernatural: Some reflections on religion, ethnicity and traditions of knowledge”. In: Vibrant, v.11, n.2, p407-443.

ORTNER, Sherry B. 2011. Teoria na antropologia desde os anos 60. Mana, 17( 2):. 419-466.

PARSONS, Talcott. 1949. The structure of social action. Glencoe, Illinois: The Free Press.

RIVIÉRE, Peter. 2001. A predação, a reciprocidade e o caso das Guianas. Mana 7(1): 31-53.

SIMMEL, Georg. 1970. O indivíduo e a díade. In: F. H. Cardoso & O. Ianni (Orgs). Homem e Sociedade. 5ª edição, São Paulo: Editora Nacional, p. 128-135.

SIMMEL, Georg. 1986. La ampliación de los grupos y la formación de la individualidad. In: Sociología: Estudios sobre las formas de socialización. Madrid: Alianza Editorial, p. 741-807.

SIMMEL, Georg. 1998. O conceito e a tragédia da cultura. In: SOUZA, J; ÖELZE, B. (Org.). Simmel e a modernidade. Brasília: UnB, p.77-105.

SIMMEL, Georg. 2003. Fidelidade: Uma tentativa de análise sócio-psicológica. RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, 2( 6): 513-519.

SIMMEL, Georg. 2010. Gratidão: Um experimento sociológico. RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, 9(26): 785-804.

SIMMEL, Georg. 2011. O conflito como sociação. RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, 10(30): 569-574.

SIMMEL, Georg. 2013. A tríade. In: Maria Claudio Coelho (Org. e tradução). Estudos sobre interação: textos escolhidos. Rio de Janeiro: EdUERJ, p. 45-74.

SCHWARTZ, T. 1978. “The size and shape of a culture”. In: Frederik Barth (ed.), Scale and social organization. Oslo, Bergen: Universitetsforlaget.

TURNER, Victor. 2013 [1969]. O Processo ritual: Estrutura e antiestrutura. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo B.. 1992. From the enemy’s point of view: Humanity and Divinity in an Amazonian society. Chicago, University of Chicago Press.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo B.. 1996. Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio. Mana 2(2): 115-144.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo B.. 2011. Perspectivismo ameríndio. Blog Chakaruna, domingo, 11 de dezembro de 2011. http://hernehunter.blogspot.com.br/2011/12/perspectivismo-amerindio.html (Visto no dia 01 de junho de 2016).

WEBER, Max. 1922. Wissenschaft als Beruf. Vortrag.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.