EDUCAÇÃO ENTRE CIGANOS NA PARAÍBA: OBSERVANDO PRÁTICAS DE APRENDIZAGEM NA CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA

Edilma Nascimento Jacinto Monteiro

Resumo


Este artigo é construído na perspectiva de uma análise reflexiva sobre a construção do ser Calon a partir da aprendizagem da língua materna entre crianças ciganas. Buscando estar atento às singularidades do processo educacional, este texto apresenta notas teóricas sobre consciência, humanidade e aprendizagem em diálogo, com observações feitas no processo de aprendizagem da língua materna em dois contextos distintos de grupos de ciganos na Paraíba. Apontando que, além da escolaridade entre o grupo, existem formas de educação que nos fazem pensar como Calon, e que nos leva a refletir sobre aprendizagem e reconhecimento na perspectiva de uma educação prática.


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Referências


(...)o processo de construção do “ser homem” calon que, tornando-se adulto através do casamento, deverá buscar prestígio e honra através da demonstração pública da sua capacidade de conseguir prover sua família, prosperá-la e promovê-la a níveis mais altos do status social Calon (MONTEIRO, 2017:16)

Os humanos tornam-se humanos por meio de um aprendizado intenso não apenas das habilidades de sobrevivência, mas também dos hábitos e costumes sociais, parentescos e leis sociais — isto é, cultura. (...). Pode-se dizer que a cultura é a adaptação humana (...) (LEAKEY, 2000: 92-93)

(...) é um processo não de transmissão de informação, mas de redescobrimento dirigido. Como tal, ele envolve um misto de imitação e improvisação: isso pode ser mais bem compreendido, na verdade, como as duas faces de uma mesma moeda. Copiar é imitativo, na medida em que ocorre sob orientação; é improvisar, na medida em que o conhecimento que gera é conhecimento que os iniciantes descobrem por si mesmos (...). O processo de aprendizado por redescobrimento dirigido é transmitido mais corretamente pela noção de mostrar. Mostrar alguma coisa a alguém é fazer esta coisa se tornar presente para esta pessoa, de modo que ela possa apreendê-la diretamente, seja olhando, ouvindo ou sentindo. (INGOLD, 2010:17)

(...) na teoria da prática social, é a ideia de que toda atividade (o que seguramente inclui a aprendizagem) é situada nas relações entre pessoas, contextos e práticas. Isso nos levou às noções de que a aprendizagem é situada em complexas comunidades de práticas (culturais e mutantes, como parte do processo histórico que constitui a vida social). As coisas são constituídas por, e constituídas como, as suas relações; e assim, produção cultural é aprendizagem que é produção cultural (...) (JEAN LAVE, 2015: 40)

Aprender na prática envolve aprender a fazer o que você já sabe, e fazer o que você não sabe, interativamente, ambos ao mesmo tempo. Tais relações, múltiplas e contraditórias, são todas, juntas e, ao mesmo tempo, “a relação” em questão – chamem isso de “aprender na/como prática”. (LAVE, 2015:41)

(...)as famílias ciganas da comunidade valorizam (...) características que, nos vários estudos efetuados, são atribuídas às famílias de classes sociais favorecidas: domínio de si, autonomia e curiosidade, mas também segurança e responsabilidade, (...) Essa valorização, a par com a socialização de crianças e jovens em valores culturais que consideram superiores aos valores transmitidos pela sociedade maioritária (o respeito e o não abandono dos mais velhos; o carinho e o não abandono das crianças; a solidariedade com os doentes e a preservação da virgindade das raparigas até ao casamento), a forte coesão e proteção grupal em momentos de forte tensão e exposição individual no que se refere a relações inter-étnicas, bem como o medo que, como forma de poder e de estratégia de sobrevivência, suscitam nos outros, é parcialmente explicativa da segurança e algum sentimento de superioridade evidenciados pelos elementos de etnia cigana em relação à restante sociedade (CASA-NOVA, 2005:201)


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