RELIGIOSIDADE TRUKÁ E O RIO SÃO FRANCISCO (PE): UM ESTUDO DA VIOLÊNCIA SIMBÓLICA DAS GRANDES OBRAS

Manuela Schillaci

Resumo


Este artigo pretende propor uma reflexão sobre a ação da violência simbólica das grandes obras entre os Truká, povo indígena ribeirinho morador do submédio São Francisco, que habita hoje um arquipélago com cerca de 80 ilhotas e cuja maior ilha é a Ilha da Assunção, localizada no Município de Cabrobó (PE). O processo de afirmação identitária e territorial do povo Truká deve ser compreendido a partir da análise dos processos históricos de esbulho das terras e das águas que se deram desde o período colonial, e que veem seu capítulo mais recente com a implementação das grandes obras desenvolvimentistas no submédio São Francisco, refiro-me ao projeto de Transposição do rio São Francisco e as novas barragens. De fato, a política interventiva do hidro-negócio, que já tem modificado a vida e o território Truká com a construção de usinas hidrelétricas desde a década de 1970, inaugura um novo capítulo que prevê, além do projeto detransposição, a implementação das barragens de Pedra Branca e Riacho Seco, no trecho do rio onde moram os Truká. Neste contexto de atualização dos conflitos socioambientais na região, proponho a análise da ação das grandes obras em termos de violência simbólica, porque atinge a dimensão cosmo-territorial da vida dos Truká. Para compreendermos este tipo de impacto devemos nos apoiamos na reflexão sobre cosmologia e território entre os Truká na sua atual configuração territorial, considerando as condutas ecológicas que caracterizam o cotidiano Truká e a ligação com o rio, para partir para a análise da experiência religiosa dos Truká abordada na perspectiva do habitar (INGOLD, 2001; 2002; 2006). Território e cosmologia, são vistas como construções históricas contextuais e indissociáveis, o que nos leva a considerar a relação entre aspectos geográficos e cosmológicos da vivência do território aquático Truká.


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