Memória, mercado e ritual
Um ensaio sobre o dia de finados no cemitério Senhor da Boa Sentença / PB
DOI:
https://doi.org/10.51359/2526-3781.2025.265711Palabras clave:
antropologia da morte, Ritual, Memória, dia de finados cemitérioResumen
Este ensaio etnográfico (MALINOVSKI, 1978) tem como objetivo analisar as dinâmicas sociais, econômicas e simbólicas observadas durante o Dia de Finados no ano de 2024. A pesquisa busca compreender as interações entre os visitantes, comerciantes e trabalhadores, bem como a organização cemiterial e os rituais fúnebres praticados no cemitério (REIS, 1991).
A chegada ao campo ocorreu pouco antes das cinco horas, as imagens capturadas tiveram a iluminação natural do amanhecer foi considerada para a composição das imagens. A disposição espacial dos comerciantes revelou uma organização estruturada conforme os diferentes acessos ao local. A fotografia do local se tornou uma ferramenta essencial no trabalho etnográfico, foi essencial para registar e colaborou na análise dos dados, de acordo com o pensamento de Landa et al (2014).
A pesquisa identificou a relevância econômica e social do comércio durante o evento, caracterizado tanto pela venda de itens simbólicos quanto pela interação entre vendedores e visitantes. Foram realizadas entrevistas exploratórias com comerciantes, que destacaram a importância da data para a geração de renda. Observou-se também a presença de trabalhadores de serviços essenciais, como vendedores ambulantes e equipes de limpeza, cuja atuação estruturava o funcionamento do espaço.
O aumento gradual do fluxo de visitantes foi registrado a partir das seis horas, coincidindo com o início das celebrações religiosas. Foram identificadas diferentes formas de homenagem aos mortos, variando desde grandes arranjos florais até acendimentos de velas individuais. Destacou-se um diálogo sobre a extinção do sepultamento em igrejas, evidenciando discussões sobre distinções sociais nos espaços funerários (ARIÉS, 1981).
Três aspectos específicos foram analisados: a ausência de sinalização adequada, comprometendo a orientação dos visitantes; a cruz central do cemitério como ponto de convergência de práticas religiosas diversas; e o aumento na quantidade de velas, interpretadas como símbolos de memória e conexão espiritual. Uma observação relevante foi o estado de deterioração de uma estátua de Jesus, abandonada entre os túmulos, evidenciando um possível descaso com a manutenção do espaço funerário. A reação verbalizada de um visitante – "Cadê a administração? Jesus está no chão..." – reforçou a carga simbólica da cena, e uma dimensão de sujeira (DOUGLAS, 1976)
A documentação fotográfica e as observações realizadas permitiram compreender a interseção entre práticas rituais, economia da morte e dinâmicas socioculturais do Dia de Finados. Os registros coletados contribuem para a análise da relação entre memória, mercado e religião no contexto funerário urbano. Dessa forma, a percepção da dinâmica social que envolve o cemitério com suas práticas socioculturais está associada ao contexto histórico vivenciado, e as relações construídas entre os indivíduos ajudaram a compreender o espaço do cemitério não apenas como lugar de morte, mas, principalmente, como espaço de vida, atividade social, memória e continuidade simbólica, onde os enlutados resistem no fortalecimento de suas práticas culturais mesmo com todas as formas do cenário de solidão de vivenciar esse dia (SILVA, 2021).
Citas
ARIÈS, Philippe. O homem diante da morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981.
DOUGLAS, Mary. Pureza e perigo. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1976.
LANDA, Mariano Báez. Ferraz, Ana Lúcia Camargo; Mendonça, João Martinho de Ana Lúcia Camargo Ferraz e João Martinho de Mendonça (Orgs.). Antropologia visual: perspectivas de ensino e pesquisa; Brasília- DF: ABA, 2014.
MALINOVSKI, B. 1978. “Introdução” In Malinowski, Os argonautas do Pacífico Ocidental, Col. Os Pensadores. S.P: Abril editores.
REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
SILVA, Weverson Bezerra. Dia dos mortos na pandemia: as fases de vivenciar a morte no cemitério em tempos de solidão. Revista de @ntropologia da UFSCar, 13 (2), jul./dez. 2021.
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