A Casa de Axé é viva

Autores

DOI:

https://doi.org/10.51359/2526-3781.2025.267213

Palavras-chave:

Etnografia, Candomblé, Casa

Resumo

Pouco antes da minha feitura, ouvi minha ialaxé dizer que “a casa de axé é viva”. Essa frase germinou em mim como uma semente. Desde então, venho tentando escutar o que ela quer dizer, com o corpo inteiro, como quem escuta tambor. Este ensaio fotoetnográfico nasce dessa escuta sensível, cultivada na experiência cotidiana de uma casa de axé, onde o Candomblé se enraíza e se reinventa a cada dia. Entendo a casa como organismo vivo, campo de forças, construção afetiva e ontológica. A etnografia aqui praticada não é apenas observação: é participação, é desenho, é canto, é gesto. Inspirada por autores como Marcelin (1999), Dumans (2021), Santos (2023), Alvarenga (2017) e Krenak (2022), proponho uma leitura da casa não como imóvel ou propriedade, mas como entidade viva, que respira, chama, repele, exige cuidado. A casa de axé tem corpo, desejo, ética e agência. Ela se faz em rede com ancestrais, com folhas, com lama, com silêncio, com festa. A festa, aliás, é aqui entendida como política radical de celebração da vida. Este ensaio visual desenhado é uma tentativa de traduzir aquilo que o capital não consegue comer: o encantamento, a vibração, o tempo outro. Ao desenhar etnograficamente essa casa, busco registrar o indizível, o sutil, aquilo que escapa à linguagem linear. Cada imagem-legenda propõe um caminho possível de tradução sensível da experiência. Não se trata de ilustração, mas de relação. Cada desenho é parte da casa. Tudo aqui é corpo e é mundo.

Referências

ALVARENGA, Marcos. Cozinha também é lugar de magia: alimentação, aprendizado e a cozinha de um terreiro de Candomblé. 2017. 160 f., il. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) — Universidade de Brasília, Brasília, 2017.

DUMANS, André. Interstícios, distâncias e formas provisórias de existência. Mana, v. 27, n. 2, p. 1-8, 2021.

KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 38.

MARCELIN, Louis Herns. A linguagem da casa entre os negros no Recôncavo Baiano. Mana, v. 5, n. 2, p. 31-60, 1999.

SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023.

Publicado

2026-02-27

Edição

Seção

Ensaios Fotográfico