“O BRASIL AINDA É UM IMENSO HOSPITAL” : MOVIMENTOS HIGIENISTAS E ANTIVACINA NO BRASIL – DA INCIPIENTE REPÚBLICA À CONTEMPORANEIDADE

Maiquel Ângelo Dezordi Wermuth, Joice Graciele Nielsson, Gisele Cristina Tertuliano

Resumo


O artigo tematiza os movimentos antivacina em dois tempos da história brasileira: o início do século XX – a partir do episódio conhecido como Revolta da Vacina – e o início do século XXI, quando o país assiste à retomada dos discursos antivacina em face do cenário descortinado pela pandemia da Covid-19. A pergunta que orienta a pesquisa pode ser assim sintetizada: em que medida a desinformação e a condução autoritária de políticas públicas pode gerar, na população mais vulnerável, medos e receios diante das descobertas científicas voltadas à imunização em face de doenças? O texto divide-se em duas seções que correspondem, respectivamente, aos seus objetivos específicos: a primeira seção aborda o movimento antivacina ocorrido nos anos 1900, quando o país vivenciava a transição Império-República; a segunda parte do texto investiga os discursos antivacina no início deste século XXI, comparando-os àqueles adotados à época da incipiente República para averiguar em que medida se repristinam os mesmos temores sociais, diante de um cenário de profunda instabilidade e polarização política como o desencadeado pela pandemia da Covid-19. O método de abordagem empregado é o método fenomenológico.

Palavras-chave


Movimentos Antivacina; Programas de Imunização; Saúde Pública; Higienismo

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