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Dossiê - Educação de pessoas jovens, adultas e idosas em diversos contextos brasileiros e moçambicanos
A Região Amazônica e as zonas rurais de Moçambique - África, constituem locais marcados por suas vastas sociobiodiversidades e por uma complexa tessitura de relações socioculturais. Distinguem-se como territórios nos quais múltiplas racionalidades, epistemologias e práticas educativas coexistem. Os povos amazônicos e das zonas rurais de Moçambique, especialmente as pessoas jovens, adultas e idosas, constroem suas aprendizagens em diálogo permanente com o ambiente natural, com os modos de vida comunitários e com as tradições culturais que atravessam gerações.
A educação é um fenômeno plural, que se realiza em múltiplos espaços e práticas, o que dialoga profundamente com a realidade amazônica e certas regiões de Moçambique, onde a aprendizagem se dá de forma comunitária, territorializada e vinculada às práticas culturais1. Nesse contexto, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) assume função social importante para os dois povos que se encontram geograficamente distantes e culturalmente próximos, pois se destina justamente a sujeitos cujas trajetórias escolares foram interrompidas ou negadas por diversas razões. A modalidade, ao dialogar com a diversidade sociocultural da região, precisa considerar as especificidades dos educandos — suas jornadas de trabalho, seus deslocamentos por rios e estradas, suas responsabilidades familiares, seus saberes tradicionais e suas expectativas em relação à escolarização. Assim, as políticas públicas voltadas à EJA devem incorporar de forma efetiva as particularidades de cada território, reconhecendo que a oferta educacional não pode ser dissociada das condições socioambientais e culturais que estruturam a vida nessas regiões. Promover uma educação contextualizada e socialmente referenciada implica articular currículo, formação docente, gestão escolar eficiente e participação comunitária, de modo a fortalecer práticas pedagógicas coerentes com os desafios e potencialidades locais.
Entretanto, nas últimas décadas, a EJA no Brasil e particularmente na Amazônia e nas regiões rurais de Moçambique passou por transformações significativas, impulsionadas por mudanças nas políticas educacionais, nas dinâmicas demográficas e nas demandas sociais. Em âmbito brasileiro, houve avanços importantes, como a ampliação de programas de alfabetização, a integração entre educação básica e formação profissional e a consolidação de marcos legais que reafirmam a EJA como direito. Em Moçambique também houve profundas transformações que impactaram a operacionalidade pedagógica, administrativa e política da EJA. No entanto, tais avanços ocorreram de forma desigual entre as regiões do país, e a Amazônia, e bem como as regiões rurais de Moçambique apresentam especificidades em relação a EJA.
Na região amazônica, especialmente, as transformações recentes envolveram maior visibilidade das populações tradicionais e de suas necessidades educacionais, estimulando iniciativas voltadas à flexibilização curricular, à oferta em territórios de difícil acesso e à valorização de saberes locais, programas que articulam educação escolar e práticas comunitárias, bem como experiências de formação docente voltadas à interculturalidade, têm buscado responder às demandas regionais. Ainda assim, persistem desafios estruturais: a escassez de infraestrutura adequada, a dificuldade de fixação de professores, a descontinuidade de políticas governamentais e as barreiras geográficas que impactam o acesso e a permanência dos estudantes.
Diante das especificidades e diversidades da Amazônia e considerando as mudanças impostas à educação das/para as pessoas jovens, adultas e idosas na última década, com destaque para a aprovação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais, a adequação da EJA ao novo ensino médio, o cenário de progressivo fechamento de turmas e escolas e redução de matrículas, as expectativas postas no Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e a luta dos movimentos sociais por mudanças na formação de educadoras/educadores de EJA, este dossiê convida pesquisadoras, pesquisadores e demais protagonistas do campo intelectual e educativo a compartilharem experiências, reflexões críticas e achados científicos dos diferentes matizes epistemológicos que dialoguem com temáticas que contextualizem e problematizem as políticas, as práticas formativas, a gestão escolar, o currículo e formação de educadores/educadoras da EJA, nos mais diversos territórios.
Declaração de Direito Autoral
1. Proposta de Política para Periódicos de Acesso Livre
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