COOPERAÇÃO ENTRE OFÍCIOS NO VER- O -PESO PARA A PRODUÇÃO DO TUCUPI

Autores

  • Karla da Conceição Ferreira Universidade Federal do Pará(UFPA) - Campus de Bragança.
  • Keila de Paula Fernandes de Quadros Universidade Federal do Pará(UFPA) - Campus de Bragança.
  • Daniel dos Santos Fernandes Universidade Federal do Pará(UFPA).

Resumo

O Ver-o-Peso é o mais conhecido mercado de Belém, importante ponto turístico e lugar de encontro com a cultura nortista. Este espaço diversificado é cenário de múltiplos personagens, práticas de trabalho e comércio de produtos locais. A mandioca (Manihot esculenta Crantz), planta originária da América do Sul, “é herança de nossos ancestrais indígenas”. (BRABO, 2017:1). Até hoje a comercialização do produto é importante para a culinária paraense, além de ser fonte de subsistência de muitas comunidades que vivem da agricultura familiar e agregam saberes e tradições ao cultivo e fabricação de seus derivados, em destaque o tucupi.

Conforme Brabo (2017), a cidade do Acará é a maior produtora de mandioca do Pará. Foi observado in loco que o processo de obtenção do líquido é fragmentado nas seguintes etapas: após chegar ao mercado, a raiz é descascada manualmente, colocada em um recipiente a fim de ser transportada até o local onde será lavada e em seguida passará pela trituração com o auxílio de um moedor elétrico. A massa é conduzida até a pessoa que realizará a ação de prensar na saca para extrair a manipueira (sumo repleto de substâncias tóxicas), que fermenta por 72 horas e decanta o amido. O caldo é cozido para que seja evaporada a toxidade, neste momento são acrescentados alguns condimentos como chicória, sal e cheiro verde. Espera-se esfriar, ato de coar, embalar e vender o tucupi já pronto para o consumo.

De acordo com informações fornecidas por um dos vendedores do local, a maior parte das pessoas que realiza os ofícios observados no ensaio são acaraenses que aprenderam a profissão com seus pais e avós, “na maioria desses processamentos podemos analisar aspectos muito caseiros e rudimentares, transpassados por gerações até os dias atuais” (CALXTO;DIAS;RODRIGUES, 2016:2). Heranças de alguns instrumentos que eram utilizados nos ambientes familiares ainda estão presentes na prática dos produtores de tucupi.

A esperança de melhorias no salário e condições de vida provocou a migração de algumas dessas pessoas para a cidade de Belém e fez nascer em seus ofícios exigências antes não perceptíveis, uma delas é a necessidade de rapidez na produção também ocasionada pela mudança da clientela. Há catorze anos, o moedor que tritura uma grande quantidade de matéria em um curto período de tempo começou a ser utilizado, promovendo uma aceleração no ato de ralar a mandioca, obedecendo aos critérios modernos de geração do capital e a relação ‘tempo é dinheiro’.

A produção de um dos mais famosos líquidos do Pará é marcada pela cooperação de diferentes personagens.  Embora o mercado seja um espaço macro, cada trabalhador ocupa um lugar micro em que as relações de venda e auxílio mútuo acontecem e caracterizam esse local como um laboratório sociocultural marcado pela diversidade de pessoas e ofícios.

O comércio de ingredientes da culinária e objetos da cultura local ganham visibilidade nacional e também global, já que uma grande quantidade de turistas visitam o Ver-o-Peso diariamente, levando para suas casas alguns litros do líquido amarelo dentro de garrafas, nas quais estão contidas relações de trabalho e cooperação entre os sujeitos participantes, seus anseios e suas práticas herdadas.

Biografia do Autor

Karla da Conceição Ferreira, Universidade Federal do Pará(UFPA) - Campus de Bragança.

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Linguagens e Saberes na Amazônia (PPLSA) pela Universidade Federal do Pará - Campus Bragança, membra do Grupo de Estudos de Literatura Comparada do Nordeste Paraense (GELCONPE).

Keila de Paula Fernandes de Quadros, Universidade Federal do Pará(UFPA) - Campus de Bragança.

Graduada em Letras Língua Portuguesa, Mestra em Linguagens e Saberes na Amazônia e membra do Grupo de Estudos de Literatura Comparada do Nordeste Paraense (GELCONPE).

Daniel dos Santos Fernandes, Universidade Federal do Pará(UFPA).

Doutor em Ciências Sociais/Antropologia. Professor do Programa de Pós Graduação em Linguagens e Saberes na Amazônia da Universidade Federal do Pará (UFPA)

Referências

BRABO, Raimundo. A mandioca de todos os dias. Belém, 2017. Disponível em: https://www.embrapa.br/embrapa-no-cirio/busca-de-noticias/-/noticia/21728046/artigo---a-mandioca-de-todos-os-dias. Acesso em: 15 abr. 2018 às 8h.

CALIXTO, M. S.; DIAS, V. L ; RODRIGUES, N. L. A fabricação do tucupi e seu uso na preparação de molhos de pimenta artesanais. Santa Catarina, 2016. Disponível em: http://www.eneq2016.ufsc.br/anais/resumos/R0733-1.pdf . Acesso em: 15 abr. 2018 às 9h.

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Publicado

19-11-2019

Edição

Seção

Ensaios Visuais