ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO: CONCEPÇÃO E PRÁTICA DOCENTE NO ENSINO DA LÍNGUA ESCRITA

Isabela Gabriela do Nascimento Rodrigues, Sirlene Barbosa de Souza

Resumo


As práticas de leitura e de escrita fazem parte da vida social dos indivíduos que se encontram imersos em uma cultura onde o escrito configura-se como um dos importantes meios de interação entre esses sujeitos. Nesse contexto, são inúmeros os usos que os indivíduos fazem dessas habilidades, entre elas, ler um livro para distrair-se, para aprender ou saber fazer algo, para obter informações, para pegar o ônibus correto para ir ao trabalho e/ou voltar para casa, para escolher um prato presente no menu de um restaurante, para registrar ideias, fazer anotações de algo que não podem esquecer, etc.; tais atividades constituem-se como “formas de utilização social da língua escrita”, logo podem ser denominadas como práticas de letramento.    Por muito tempo, no Brasil, o trabalho com a língua materna na escola foi marcado pelo ensino da codificação e decodificação, nessa perspectiva, ser alfabetizado significava ter a capacidade de ler e de escrever palavras, frases e pequenos textos ortográficos e gramaticalmente corretos, ainda que esses fossem vazios de significados. No entanto, com as mudanças ocorridas no cenário político, econômico e social brasileiro, principalmente a partir de meados dos anos 1980, aliadas aos resultados de pesquisas advindos das áreas da Linguística, da Linguística Aplicada, da Psicolinguística, da Sociolinguística, da Análise do Discurso e das discussões propostas pela teoria construtivista, compreendeu-se que era necessário formar não somente leitores e escritores funcionais, mas sujeitos capazes de compreender e refletir criticamente sobre as informações que lhes eram chegadas através dos textos impressos que circulavam na sociedade. Nesse contexto, os estudos realizados por Emília Ferreiro e Ana Teberosky (1985) acerca da psicogênese da língua escrita, trouxeram implicações diretas para o processo de ensino e aprendizagem: deslocava-se agora o foco, o qual estava voltado para o “como ensinar”, para “como as crianças aprendem”, buscando, assim, uma compreensão mais clara sobre a forma como os indivíduos criam suas hipóteses acerca do funcionamento da língua escrita. Nessa mesma direção, também a partir dos anos 1980, apoiado principalmente nas ideias de Bakhtin (2000), passou-se a discutir mais fortemente a questão da língua enquanto “processo de interação” “exigindo”, mais uma vez, mudanças nas práticas de ensino da língua escrita na escola, as quais precisavam possibilitar aos alunos compreenderem a função social da escrita. É nesse momento que aparece no cenário educacional brasileiro o termo “letramento”, para designar as práticas sociais de uso da língua escrita em contextos não escolares. Nessa conjuntura, embora entendendo os ternos “alfabetizar e letramento” como termos distintos e que designam práticas diferentes, assim como bem colocou Soares (2004), são indissociáveis e requerem um trabalho articulado entre ambos, ou seja, o ensino da língua escrita na sala de aula deve permitir que os educandos se tornem, ao mesmo tempo, “alfabetizados e letrados”. Diante disso, esse trabalho teve como objetivo analisar as concepções e as práticas pedagógicas de uma professora que lecionava em uma turma do 2º ano do ciclo alfabetizador em uma escola da rede municipal da cidade do Recife/PE, no tocante ao ensino da língua escrita, em busca de verificar em que medida as suas práticas de ensino da língua escrita se aproximavam da perspectiva do alfabetizar letrando, oportunizando, assim, os alunos perceberem a sua funcionalidade e a finalidade em contextos escolares e não escolares. Numa abordagem qualitativa, foram realizadas 14 observações na sala de aula da mestra, sendo as suas ações pedagógicas registradas em um diário de campo e gravadas em áudio. Também foram realizadas entrevistas semiestruturadas durante e após as observações com o objetivo de estabelecermos relações mais próximas entre o que ela dizia e o que fazia efetivamente. Após concluirmos as nossas observações, verificamos que o ensino da língua escrita esteve presente todos os dias em que estivemos na classe da professora e que a mesma propôs atividades diversificadas para a sua turma, as quais envolveram desde o trabalho para a consolidação da aprendizagem do sistema de escrita alfabética, como, também, atividades de leitura/compreensão e de produção de textos. No tocante ao trabalho com a leitura, mais especificamente, a professora propôs atividades com objetivos diversificados: ora ela solicitava que os alunos realizassem a leitura para discutir e explorar a compreensão/interpretação de temáticas e conteúdos presentes nos textos abordados, ora para explorar os sons das palavras para ensinar o SEA e, ainda, para verificar a fluência dos mesmos, na leitura. Nessa perspectiva, ela abordou o ensino de gêneros textuais variados (carta, reportagem e receitas culinárias), e que ela o fez com o objetivo de explorar, principalmente, as suas funcionalidades e o seu uso social. As atividades de escrita, por sua vez, envolveram a exploração e a consolidação do SEA e a produção de textos. Essas últimas estiveram presentes na rotina da mestra coletas em 9 das 14 aulas por nós observadas e contaram com a escrita e reescrita de cartas, reportagens, notícias de jornal, receitas culinárias e cartazes informativos. Estabelecendo um link entre as atividades propostas pela professora com a maneira como ela as desenvolvia, podemos afirmar que a sua prática de ensino da língua escrita buscava uma aproximação com a perspectiva do letramento, ou seja, verificamos que a mesma, sempre que possível, buscava alfabetizar os seus alunos dentro do contexto das práticas sociais de leitura e de escrita e que a mesma compartilhava da ideia que aprender a “tecnologia da escrita” não garantia ao indivíduo ter a competência de usá-las para envolver-se em práticas sociais onde a escrita encontra-se presente. Assim, finalizando esse estudo, verificamos que a aprendizagem do SEA não se constituía como o principal objetivo a ser alcançado pela docente para a sua turma, antes, ela com o intuito de formar leitores e escritores críticos e atuantes na sociedade, explorou diversos gêneros textuais variados, os quais se encontram presentes no cotidiano das pessoas, abordando desde os seus aspectos estruturais, até as suas funcionalidade e finalidades, levando os discentes a perceberem que existia uma relação entre os saberes ensinados na escola e aqueles aprendidos fora dos seus muros. Observamos, também, que assim como apontaram os resultados das pesquisas realizadas por Albuquerque (2000), Coutinho-Monnier (2009), Ferreira (2004) e SOUZA 2010 e 2016, a professora não fazia uma transposição direta do que era discutido no meio acadêmico, ou ainda do que era transposto no/para os textos teóricos, antes, ela reinterpretava essas “orientações” e (re) construía as suas práticas pedagógicas, tomando por base, também, as práticas outras por ela já experimentadas e validadas no decorrer do exercício da sua profissão, vindo a confirmar, assim, a teoria defendida por Chartier (2007) de que os professores, no momento em que constroem as suas práticas de ensino, dão uma atenção maior às “receitas” que foram por eles validadas durante a sua atuação na sala de aula e pelos seus colegas de profissão.

 

 


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Referências


ALBUQUERQUE, Eliana Borges Correa de. Apropriações de propostas oficiais de ensino de leitura por professores: o caso do Recife. 2002. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2002.

BAKHTIN, Michael. Estética da criação verbal. Martins Fontes: São Paulo, 2000.

CHARTIER, Anne-Marie. A ação docente: entre saberes práticos e saberes teóricos. In:____. Práticas de leitura e escritas: história e atualidades. Belo Horizonte: Ceale/Autêntica, 2007.

COUTINHO-MONNIER, M. L. Práticas de alfabetização com uso de diferentes manuais didáticos: o que fazem professores no Brasil e na França? O que os alunos aprendem? 2009. Tese (Doutorado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal de Pernambuco, 2009.

FERREIRA, Andréa Tereza Brito. A fabricação do cotidiano de Michel de Certeau: Uma perspectiva de análise da cultura escolar. Recife, 2004 (mimeo).

FERREIRO. Emília, TEBEROSKY. Ana. A psicogênese da Língua Escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

SOARES, Magda. Letramento: Um tema em 3 gêneros. 2° Ed. 8 reimpressão. Belo Horizonte: Autêntica. 2004.

SOUZA, Sirlene Barbosa de. Entre o ensino da gramática e as práticas de análise linguística: o que pensam e fazem os professores do ensino fundamental? Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-graduação em Educação. Universidade Federal de Pernambuco, 2010.

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Revista Semana  Pedagógica ISSN 2595-1572 (on line)