A (re)produção das masculinidades hegemônicas: homens, famílias populares e violações dos direitos humanos

Christina Gladys de Mingareli Nogueira, Marcelo Henrique Gonçalves de Miranda

Resumo


 Este artigo teve como objetivo compreender o lugar do homem/esposo ocupa em famílias de camadas populares, especialmente em situações em que esse homem está desprovido de seu papel tradicional de provedor econômico e é sustentado por sua esposa. Assim, busca-se entender os aspectos relacionados às masculinidades, família e seus desdobramentos em relação aos direitos humanos. Tem-se como sujeitos de pesquisa homens/esposos não provedores em grupos populares, nas comunidades de São Rafael e Padre Hildon Bandeira, ambas localizadas na região metropolitana de João Pessoa/PB. A partir desse contexto, procuramos compreender a situação vivenciada por tais homens levando em consideração a perspectiva de que os homens estão desprovidos do seu poder simbólico de provedores. Assim, buscamos observar como é vivida a masculinidade por homens nos espaços da casa e da rua. Desse modo, a observação combinada com a realização de entrevistas abertas, emergiram como um procedimento metodológico privilegiado na pesquisa antropológica. O campo empírico estudado nos indicou, por um lado, que o modelo hegemônico de masculinidade ao qual cabe ao homem ser o provedor financeiro, exerce uma forte influência como referencial/ideal, levando nossos sujeitos da pesquisa, muitas vezes, a sofrerem e envergonharem-se, escondendo a situação vivida de não serem provedores e elaborando discursos que justificam e desculpam tal ausência de poder econômico. Por outro lado, esse modelo vem atualizado em valores ligados a uma moral de homem-protetor. Vale destacar que há uma violação da dignidade humana nas questões de condições de moradia, acesso a trabalho como atividade ontológica, acesso a uma educação em e para os direitos humanos que possa desestabilizar a hierarquização entre homens e mulheres e entre os homens (masculinidade hegemônica e masculinidade subalterna) além de não promoverem a equidade entre os gêneros e uma sociedade democrática de respeito e aprendizado com as diferenças. Família. Masculinidade. Direitos Humanos


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