Metodologias feministas no ensino da comunicação: Um relato de experiência no curso de Publicidade e Propaganda.

Soraya BARRETO JANUÁRIO, Marisa DANTAS

Resumo


O presente artigo visa relatar a experiência do processo de aplicabilidade de metodologias feministas associadas ao conceito de mídia tática no curso de Publicidade e Propaganda da UFPE. Historicamente o ideal de aprendizagem dos cursos de Publicidade no Brasil seguem o raciocínio imposto para o mercado, no qual estudo e aplicação da criatividade se concentra do consumo e do capital (OLIVEIRA, 2016). À luz das teorias feministas e de gênero como Haraway (1995), Butler (2008), Rubin (1992), propusemos como metodologias feministas (ADRIÃO, 2014) o ensino da mídia tática (GARCIA; LOVINK, 1997) a partir de técnicas para trabalhos com grupos (ADRIÃO, 2014; BARÓ, 1992; FREIRE, 1987) e recursos da arteterapia na graduação de comunicação. Desenvolvidas no contexto da crítica à neutralidade e ao positivismo nas ciências, as metodologias feministas são, de forma mais ampla, estratégias ou instrumentos de mudança social baseadas no ideal de equidade social de gênero (NEVES; NOGUEIRA, 2015) e também de raça, classe social e outros marcadores. Transgredindo a lógica hegemônica da comunicação social e de seu ensino, objetivamos promover um diálogo entre o conhecimento acadêmico e empírico dos movimentos sociais, na construção de uma comunicação social implicada politicamente. Em sala, metodologias participativas e dialógicas ancoradas em propostas como as de Paulo Freire (1987) e Martin Baró (1992), associadas aos recursos da arteterapia que visam o estímulo à criatividade e à expressão de si. Sob a forma de oficinas, discutimos e produzimos mídias historicamente utilizadas por movimentos sociais, tais como: fanzine, estêncil, detournement e memes. Pretendemos a subversão e o uso tático dessas mídias como forma de ampliar a visão sobre a propaganda e a comunicação social das/dos futuras/os publicitárias/os, e de promover um redirecionamento da criatividade e das vozes das/dos sujeitas/os que a produzem. Como resultados, apresentaremos o uso da mídia tática enquanto metodologia feminista na produção e ensino da atividade publicitária.

Metodologias feministas. Mídia tática. Publicidade. Comunicação. Gênero.

Abstract

Feminist methodologies in the teaching of communication: An experience report in the course of publicity and advertising

This article aims to report the experience of the applicability process of feminist methodologies associated to the concept of tactical media in the graduation course of Advertising and Propaganda of UFPE. Historically the ideal of learning of graduations in Advertising in Brazil follow the reasoning for the market, in which study and application of creativity concentrate consumption and capital (OLIVEIRA, 2016). In the light of feminist and gender theories such as Haraway (1995), Butler (2008), Rubin (1992), we proposed the teaching of tactical media (GARCIA; LOVINK, 1997) as feminist methodologies (ADRIÃO, 2014) work with groups (ADRIÃO, 2014; BARÓ, 1992; FREIRE, 1987) and art therapy resources in the graduation of communication. Developed in the context of the critique of neutrality and positivism in the sciences, feminist methodologies are, more broadly, strategies or instruments of social change based on the ideal of gender social equality (NEVES; NOGUEIRA, 2015) and also of race, social class and other markers. Transgressing the hegemonic logic of social communication and its teaching, we aim to promote a dialogue between the academic and empirical knowledge of social movements, in the construction of a politically involved social communication. In the classroom, participatory and dialogical methodologies anchored in proposals such as Paulo Freire (1987) and Martin Baró (1992), associated with the resources of art therapy aimed at stimulating creativity and self expression. In the form of workshops, we discuss and produce media historically used by social movements, such as: fanzine, stencil, detournement and memes. We intend to subversion and the tactical use of these media as a way to expand the vision of propaganda and the media of the future, and to promote a redirect of creativity and the voices of the subjects that the produce. As a result, we will introduce the use of tactical media while feminist methodology in the production and teaching of advertising activity.

Feminist methodologies. Tactical media. Advertising. Communication. Gender.


 


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DOI: https://doi.org/10.33052/inter.v4i6.236737

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